Comer (23)


Pedro Correia,

Gosto de ter um restaurante favorito nas principais cidades portuguesas – hábito que iniciei há largos anos. Alguns já não existem, o que lamento. Fecharam o Rolo em Portalegre, Os Infantes em Beja, a Praça Velha em Castelo Branco. Há dois meses, quando me desloquei ao Porto, percebi com tristeza que também a minha Adega Vila Meã encerrou de vez.

Em Coimbra, frequento os clássicos da restauração caseira: Cantinho dos Reis, A Taberninha, Zé Manel dos Ossos. Mas gosto de variar. Há sete anos comi a melhor açorda de camarão da minha vida na outra margem do rio, servida n’ A Açorda. Ficou-me na memória. Regressei agora para confirmar que as impressões do passado nem sempre se recuperam.

Mantinham o prato na ementa, mas sem possibilidade de o servirem em dose individual: do anterior grupo de três ali só restava eu. Ainda brinquei: «Façam duas doses. Como hoje a primeira e venho comer o resto amanhã.» Não pareciam em maré de graças, recomendaram-me o prato do dia: peixe-galo no forno. Caí na asneira de dizer que sim.

Deixo o alerta geral: não cometam o mesmo erro. Este peixe jamais deve ser tratado desta forma: perde por completo a frescura, fica seco que nem bacalhau. Sem o sabor do dito. Não merece tal tratamento.

 

Restaurante Cordel Maneirista (Calçada de Santa Isabel, 1 – Coimbra)

Tiro ao lado, portanto. Procurei alternativa. E felizmente encontrei, no almoço seguinte. À mesa do Cordel Maneirista (Cordel, só para os íntimos), que a meus olhos redimiu Coimbra da sensaboria e dos lugares-comuns.

Gostei  de tudo, a começar na localização. Mesmo ao lado do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, bem perto do Portugal dos Pequenitos a que me ligam excelentes memórias – como filho e como pai.

Tem mercearia no rés-do-chão. O espaço para refeições – distribuído por duas salas e terraço anexo – fica no primeiro andar. Com cuidada decoração interior e desafogadas vistas para o exterior.

Terraço convidativo com vistas desafogadas

Chego cedo, como sempre faço: gosto que me atribuam prioridade na cozinha. Avançou sem demora um pratinho de perdiz fria de escabeche à moda de Coimbra. Temperatura certa, textura adequada, nem uma gota de vinagre em excesso. Na generosa companhia líquida de São Domingos, espumante bairradino.

Havia apetite para mais.

Compareceu então uma saborosa coxa de pato, devidamente acolitada: com arroz de frutos secos e salada de laranja. Veio já empratada, mas não em dose mínima – ao contrário do que sucede noutras casas, com mais fama do que proveito.

Perdiz fria de escabeche
Coxa de pato com arroz de frutos secos

Na ementa destacavam-se outros petiscos tentadores, que guardei para futura deslocação, em data próxima: arroz de carqueja beirão, arroz caldoso de robalo, arroz de polvo e camarão. Tendo como protagonista o macio bago de carolino do Baixo Mondego, um dos nossos emblemas gastronómicos.

Fiquei cliente. De tal maneira que acabo de eleger o Cordel como meu restaurante favorito na cidade dos doutores.

O Açude foi destronado. Só faço votos para que este não encerre também.

Passo a ter novo restaurante favorito em Coimbra

Comer (22)


Pedro Correia,
Restaurante Verde Maçã (Rua Direita, 113 – Angra do Heroísmo)

O responsável foi Miguel Monjardino. No excelente livro em forma de diário que recentemente publicou, lembrando o que foram os tempos da pandemia, deu nota de duas ou três incursões a este restaurante – então com poucos clientes, à semelhança de qualquer outro.

São tempos que nos parecem já recuados, embora ninguém responsável deva apostar que não poderão repetir-se.

Decoração cuidada: o verde do nome também no painel da parede

Entrei lá, portanto, confiante de que iria comer bem. E não saí decepcionado. De tal maneira que regressei: sinal inequívoco de que esta casa já clássica, de idade respeitável e decoração retocada, me conquistou como cliente.

Senti-me aconchegado logo de entrada, quando chegou à mesa uma promissora tábua de azeitonas e queijo fresco com molho de malagueta. Acepipe de inconfundível travo açoriano.

Azeitonas e queijo fresco com molho de malagueta

Travo acentuado na etapa seguinte, com a tradicional alcatra de vaca – elemento essencial da gastronomia terceirense. Geralmente preparada num alguidar de barro untado com banha de porco onde se vão depositando sucessivas camadas de carne intercaladas com cebola picada, toucinho fumado, louro, cravinho e pimenta – tudo amplamente regado com o vetusto vinho de cheiro da região.

Segue-se lenta cozedura, durante horas, em forno de lenha até que a carne esteja imaculadamente tenra. Pronta a ser degustada.

Recomendo-a sem hesitar, tal como o prato que ali comi na visita seguinte: atum selado com esmagada de batata aromatizada e misto de cebola em tempura.

Alcatra de vaca
Atum selado

Passei ao lado dos bifes flamejantes, que parecem ser o grande cartaz do Verde Maçã. Ao ponto de não faltarem clientes a fazer-se fotografar junto ao carrinho onde as labaredas se levantam.

Mas não dispensei um copo de branco terceirense para aumentar a minha cultura vinícola de âmbito geral. Serviram-me Materramenta, de Biscoitos – castas Verdelho e Arinto dos Açores. Agradável.

O preço é proporcional à localização, na mais emblemática rua da cidade, e no respeito da promessa de só utilizarem ingredientes biológicos de alta qualidade e honrarem as boas tradições da confecção caseira dos alimentos. Sob a experiente batuta do chefe Alberto Silva, digno de elogio.

Mesmo sem trincar maçã alguma, devo concluir que valeu a pena. E aqui me confesso publicamente agradecido a Miguel Monjardino pela dica que, sem ele fazer ideia, forneceu a este leitor d’A Grande Ruptura em jornada pela sua ilha de que passei a gostar ainda mais.

Comer (21)


Pedro Correia,
Restaurante Tasca das Tias (Rua de São João, 113 – Angra do Heroísmo)

Para o bem e para o mal, não há impressões gastronómicas como as primeiras. A minha estreia à mesa, em Angra do Heroísmo, não podia ter corrido melhor. A hora de almoço ia adiantada, o apetite era muito e a falta de paciência para andar em busca de restaurantes impunha esta regra básica: teria de confiar em exclusivo na minha intuição.

Assim foi. 

A Tasca das Tias fica em pleno centro histórico da bela capital da Terceira. Localização perfeita para o visitante que desembarca esfomeado. Ali abanquei em busca de retemperador repasto.

Fiz bem. Gostei logo do que vi: decoração, atmosfera, atendimento. A ementa escrita a giz num quadro, como nas tabernas antigas. Pratos verdadeiramente tentadores, a preços razoáveis. Ambiente descontraído, propício à conversa. Sem pressa: os prazeres da vida devem ser prolongados, não abreviados.

Ementa à moda antiga, escrita a giz num quadro. Como nas tabernas clássicas

Não tardei a decidir: atum braseado. De excelente qualidade e confeccionado como eu gosto, de forma muito simples. Mal passado, apenas com sal e ervas aromáticas. Chega à mesa acolitado com batata doce e salada de tomate – esta servida em recipiente autónomo, como mandam as boas regras.

Assim decorreu o meu baptismo gastronómico em Angra. Enquanto esperava, experimentei um croquete de alcatra – carne moída com queijo de São Jorge, em adequado conúbio. Com um copo de vinho branco dos Açores que passou no teste: Lira, produzido na freguesia de Biscoitos, zona de solos vulcânicos da Terceira. Aromático e encorpado. Boa surpresa.

Atum braseado com batata doce. Vinho branco açoriano: Lira, de Biscoitos

Ficou aprovado? Claro. A tal ponto que, dias depois, repeti a dose. Trocando apenas o croquete inicial por uma sopa de tomate igualmente digna de elogio.

Até gostei do nome do restaurante, inaugurado em 2014. Estive na Tasca sem vislumbrar as Tias, porventura pessoas tímidas. Nem por isso deixo de lhes dar os parabéns.

Comer (19)


Pedro Correia,
Restaurante Beira Mar (São Mateus, Terceira)

«Faz marcação», haviam-me avisado. Não segui o conselho, mas tive sorte: consegui mesa no restaurante que mais queria conhecer na ilha Terceira. O Beira Mar, na atraente vila piscatória de São Mateus, a uns cinco quilómetros de Angra do Heroísmo. Ouvi falar dele pela primeira vez no programa Mesa Nacional, de saudosa memória, muito bem confeccionado pelo jornalista Paulo Salvador na TVI.

Cheguei cedo, ouviam-se as badaladas do meio-dia. Valeu-me isso para ficar bem sentado, de frente para o oceano – enquanto saboreava o fruto das suas águas.

Sabendo que estamos mesmo no fim da estação das lapas, evitei este petisco, aqui muito consumido no auge do Verão. Também não cedi à tentação de encomendar a sopa de marisco no pão, prato emblemático do restaurante fundado há mais de 60 anos como humilde casa de pasto e hoje procurado por clientes das mais diversas paragens. A sua fama galgou fronteiras.

Decidi-me pela sopa de peixe. Confesso: é uma das minhas iguarias de eleição. Estava exactamente como gosto: sem excesso de condimentos nem escassez de matéria piscícola. Na dose certa para me estimular as papilas gustativas, mais exigentes e reivindicativas do que a Comissão Executiva da CGTP.

Nas mesas em redor via gente aparentemente saciada com peixe grelhado – outro dos emblemas da casa. Mas preferi dar um passo adiante, procurando algo mais original. Fiz bem: os filetes de abrótea com molho de camarão recomendam-se. Fugindo à banalidade, escapando ao previsível. Só falta servir a salada mista em recipiente autónomo para merecer cotação máxima.

Inútil, neste estabelecimento, pedir vinho açoriano: é do Douro aquele que nos vem apresentado como sendo «da casa». Pormenor de somenos quando consumimos parte do nosso tempo a beber a paisagem. Os olhos comem, como é sabido. Falta acrescentar isto ao truísmo: eles também bebem.

Sei do que falo: senti isso à mesa do Beira Mar. Sem surpresa, reconheço. Hei-de voltar. Para travar conhecimento com aquela sopa de marisco no pão que primeiro recusei e depois me ficou atravessada.

Os olhos também bebem – aqui mais ainda

Ao “Chiveve”


jpt,

Comer (16)


Pedro Correia,

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Janeiro: Natraj, Lisboa

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Fevereiro: Imanol, Lisboa

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Março: Imperial de Campo de Ourique, Lisboa

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Abril: Esplanada Furnas, Ericeira

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Maio: Clube Naval, Ericeira

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Junho: Rui dos Leitões, Torre de Vilela (Coimbra)

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Julho: Mesa do Bairro, Lisboa

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Agosto: Eligio, Vigo

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Setembro: Caçarola, Figueira da Foz

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Outubro: O Fragateiro, Trafaria

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Novembro: Clássico Beach Bar, São João da Caparica

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Dezembro: Taberna do Quinzena, Santarém

No “Gambrinus” Conversando Sobre Livros


jpt,

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O dia fora péssimo, acometera-me uma irritação gigantesca – desnecessária de injusta que tanto a senti -, nisso um gigantesco pico de tensão, tamanho que  me ocorrera, ainda que militante anti-hipocondríaco seja, um “será isto um enfarte?”. Mas bom amigo havia-me desafiado para ir petiscar jantar e não me neguei, num “navegar é preciso…”, urge viver a vida, parca que esta seja, e sempre na crença de que o bom convívio é bálsamo.  E assim acorri ao “Gambrinus”, o balcão lendário, no qual não aportava desde o covid, malvado.

Está o estabelecimento como sempre esteve, excelente! E nisso o que este – cada vez mais  frugal – cliente realça é a qualidade do serviço, a elegância sem mesuras, a atenção acolhedora, a boa educação para isso sumarizar. Cada vez mais rara na cidade, massificada e gentrificada, assim boçalizada. Fomos ambos parcimoniosos, ele bebendo cerveja de pressão mesclada, ali dita “mestiça” – “já não se pode dizer mulata, pá!“, esclareceu-me, sábio [Adenda: de imediato recebo nota de um amigo, verdadeiro veterano e sábio: e diz-me ele, “não era nem mulata nem mestiça, era um “gambrinus”!!” Obrigado, Nuno, temos de lá ir “antes que a gente morra“]. E eu fiquei-me na clássica “loura”, a qual também mudou de epíteto, é agora remediada como “branca”, derivas até paradoxais da actual higiene semântica. Entretanto, ocorreram-nos umas importantes torradinhas debruadas a fino presunto, que por si só justificariam a visita. E cada um de nós enfrentou um trio de croquetes, esses ex-líbris da casa, deliciosos como sempre o foram, satisfazendo o agora também ao convocarem laivos de memórias de incursões no antanho, naqueles apetites juniores ali mesmo recompensados. Este decorrer exagerou-nos a gula, e por isso coroámos o repasto com um prego per capita, “meio-termo” como o deve ser, cuja definição apropriada me exigiria o socorro de um qualquer dicionário de adjectivos, dada a extrema compostura do que me foi apresentado.

 

Neste entretanto foi diversificada a nossa conversa, flanámos as questões do mundo e da pátria. E depois disso nos apartámos, mergulhando em coisas de livros, lidos e feitos, conversa que se impunha, pois é ele já responsável por um punhado destes  – um dia até se deu ao trabalho, gentilíssimo, de peneirar uma Antologia do Delito de Opinião, blog onde ombreamos, e no qual ele vigora como coordenador -, e acabara de apresentar o seu último “Tudo é Tabu“,

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cujo tom freudiano é apenas fonético, uma boa e até urgente “denúncia” do denuncionismo vigente, essa mania dos gringos para cá já importada, e com vigor. Obra que lhe invejo, pois bem ufano ficaria eu se a tivesse feito (e ao trocadilho do título também…).

E nesse entretanto digo-lhe que estou a ler um livro de nosso confrade bloguista e camarada de bancada (mais dele do que de mim, que sigo demasiado relapso ao José de Alvalade), o “Terra Firme“, uma incursão pela produção alimentar no Alentejo, do qual muito estou a gostar, pela escrita, nada torneada à máquina sim bem moldada, e nisso macerada de devaneios. 

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Mas mais ainda, até nisso  surpreendido, dada a pertinência analítica e opinativa do José Navarro de Andrade – o qual arranca amiúde certeiros diagnósticos como este, logo à ombreira deste seu alentejanar: “Mas o que é tangencial para os idosos, para os novos é o epítome do inferno. Na desimpedida paisagem do norte alentejano, capaz de encantar os sentimentos telúricos dos forasteiros, os jovens defrontam uma wasteland sem trabalho para eles; e qualquer  esboço de ambição que acalentem de uma existência além de sofrível não cabe ali. Entre velhos e novos, todos os outros ficaram por lá ficar, nem sempre pelas más razões; uma vida ao arrepio de sobressaltos não é um bem negligenciável para quem tende a observar os sinais de progresso pelo óculo do atavismo. Vai-se a ver o  Portugal contemporâneo, no estado em que se pôs, e poder-se-á reflectir se afinal este cepticismo não terá sido avisado” (11). Ele ri-se quando partilho a minha surpresa face ao Navarro armado de escalpelo assim tão aguçado, e nisso obrigo-me a explicar, não fosse deixar medrar engulhos futuros, até melindres, desse que nunca se sabe…: o Navarro é companheiro e bem simpatizo com ele, mas deve ser o único sportinguista que detesta, e nisso é bem veemente, não só o Bruno Fernandes como também o Pedro Gonçalves, o que me deixou dúvidas sobre as suas análises para além-da-bola. Desfeitas agora…

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E continuando neste rumo de leituras amiguistas – mas para me encenar como leitor ávido, que o homem é mesmo voraz nisso -, referi ter acabado este curioso “A Sorte que Tivemos! Um Espectáculo Sobre Abril“, um quinteto de textos, um do bom do António Cabrita, ainda lá por Maputo, e que eu vira (com o Navarro, pois eles são amigos) há poucos dias, dois de Rui Cardoso Martins, o qual sempre lembro com um dos raros bons cronistas na “imprensa de referência”, nas belas peças nas quais nos trazia a vida dos tribunais, e nisto decerto o apouco, pois dizem-mo bom romancista, e outro de Jacinto Lucas Pires, de quem eu nada lia desde há já décadas.

O Pedro entretanto aflorara já alguns dos seus  projectos de escrita – pois o homem não abranda -, e convocou-me a que me explanasse eu sobre o tão íntimo assunto, inquirindo se estou a seguir os seus bons conselhos. Eu ri-me, pois desde há muito que me exige ele avançar eu numa colecção (re)escrevendo textos (de blog) em que articulo com o meu pai, o “Camarada Pimentel” – “para quê, não terei editora para isso“, sempre tartamudeio, “pouco importa isso, avança“, responde conduz, a distribuir alento. Mas agora ri-me, e por causa outra: pois neste “A Sorte Que Tivemos!” há um outro texto, “O Cavalheiro de Abril”, dedicado ao  tal camarada Pimentel. Uma verdadeira delícia – pelo menos para mim, filho do descrito homenageado -, a deixar-me – mas isso não disse ao Pedro, pois não são coisas confessáveis – choramingando, mesmo chorando, também decerto por estar aqui no escritório dele, diante da sua secretária, na sua poltrona, entre as suas estantes e tantos dos seus livros. Belíssima peça esta vinda da Patrícia Portela, neta amada do meu pai, assim minha sobrinha, e mais do que tudo filha da minha mana tão querida.

“Não seja por  isso“, sorriu o Pedro, “avante nisso, e agora ainda mais!“. “E também nessas outras tuas ideias“, que já me havia eu gabado de uma colecta de resmungos, já reescrita e de título armado, para além de uma espécie de catarpácio de antropologia, minha tapeçaria de Penélope.

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“Mas para quê?“, insisti eu – e nisto já estávamos, a meu pedido, num breve Famous Grouse, vitualha mais adequada a resmungos. Pois se um tipo pouco vende, assim quase nada será lido, de que vale tamanha azáfama? E repeti-lhe, o meu “Torna-Viagem“, que me deu uma enorme trabalheira, vendeu 160 exemplares. “Isso é muito bom!“, “e ainda por cima nesse sistema de venda por encomenda na internet“, disse-me, de novo ensaiando o alentar-me (um “coaching”, diz-se no português actual).

Eu gargalho – nada como o tal uísque na mão, não há dúvida – e conto-lhe que aquando das 150 vendas fiz uma informação geral para os meus amigos e conhecidos, anunciando o facto. Descurando aquilo que dissera há meses a um velho amigo – romancista, e bem credor de melhor do que o silêncio leitor que recolhe. O qual é desde sempre, da nossa adolescência, dono de uma consagrada rispidez mas que me acolheu certa vez com surpreendente benevolência, elogiosa até, tanta que temi aparentar eu estar com aspecto deveras moribundo. Mas depois percebi-nos, ele decerto me andaria a ler in-blogs, e tive de o avisar – nisso libertando-o, para que voltasse ao registo agreste que é o dele, é ele, e é assim que deve ser – “éh pá!, atenção pois a autoderisão sarcástica não é lamúria!“, ao que ele, lépido, ripostou “mas tens de meter um emoji, que agora já ninguém percebe as ironias“…

Mas, dizia eu, às 150 vendas fiz uma “circular” anunciando o facto. Era o número da minha anunciada utopia comercial! Mas a mensagem era também um sarcasmo, autofágico, e escrevo-o aqui como se fosse o tal emoji. E logo várias pessoas saudaram o sucesso, três académicos publicados dizendo-o com evidente sinceridade, dois outros autores também, sem pingos de ironia, sem odores de “coaching” – coisas que se detectam nas sintaxes, nos léxicos, nas entoações.. Ao que o Pedro, veterano da escrita publicada, resume: “mas são mesmo bons números, há muitos livros mas vendem pouco“, haverá leitores e leituras, mas debruçados sobre temas e tons muito diversificados.

E “o  que é necessário“, aconselha mesmo, “é que sejamos nós mesmos a fazer a divulgação“. Pois não serão as redes sociais – e até porque já desfeita a confraria do bloguismo -, e menos ainda a imprensa. “Já o fiz“, defendo-me. “Insiste“, diz, autocrata, “repete!“. “Impinjo?“, aflijo-me, escorropichando o uísque. “Pois!“, diz o mais-velho.

E assim saí, saímos, do belíssimo e tão recomendável “Gambrinus”. Eu com esta missão auto-atribuída. A de não ser blasé, o que me será fácil pois abomino o blaseísmo. E isto de não ser blasé convoca-me agora a impingir o meu “Torna-Viagem” (que só se compra nesta ligação aposta no título). Mas também, já agora, e não porque qualquer noblesse oblige, estes livros d’amigos.

É Verão, verão que se podem ler. Todos estes que aqui referi têm as ligações apostas nos títulos. Basta comprar, um, vários, todos. E procurar um bom balcão – do “Gambrinus” em dia de festa, um qualquer mais modesto para o dia-a-dia. E ler.

 

Sujar as mãos e lavar a alma


Pedro Correia,

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É o melhor programa sobre gastronomia que tenho visto em televisão desde há muitos anos. Passa na SIC, às sextas-feiras, integrado no Jornal da Noite – seguindo a lógica corrente de integrar programas dentro do principal bloco informativo do dia, que padece de gigantismo incontrolável. Disso não tem culpa o Ricardo Dias Felner, autor deste espaço de divulgação que contrasta com as habituais rubricas sobre comidas, bebidas e dormidas – autênticas “publi-reportagens” camufladas de jornalismo a exaltar o magnífico e fenomenal e caríssimo hotel X ou restaurante Y, a preços obscenos para a carteira do cidadão comum.

Conheci o Ricardo das lides jornalísticas. Era um talentoso repórter político, com pena acutilante e óbvia qualidade de escrita. Estou à vontade para elogiá-lo, pois trabalhávamos em jornais concorrentes. Um dia ele cansou-se do jornalismo político – ou talvez essa incómoda modalidade de jornalismo se tenha cansado dele – e decidiu especializar-se em gastronomia. Mas não toca de ouvido, como aqueles que peroram sobre culinária sem saber estrelar um ovo. 

É preciso conhecer bem aquilo de que se fala para fazer um programa exigente como este seu O Homem que Comia Tudo. Fala-nos de uma Lisboa ainda oculta aos olhos de quase todos nós. A Lisboa globalista que atrai gente de todas as parcelas do planeta e as integra numa amálgama caótica mas harmoniosa. A velha capital portuguesa enriquece com estes novos contributos. Também no paladar. E é isto que o Ricardo partilha, com a abertura de espírito inscrita no próprio título do programa. Sem dogmas culinários, sem tabus, sem preconceitos. 

Vale a pena ir com ele a estes restaurantes fora dos circuitos em voga. Podem ser simples tascos onde é garantido que se come bem – até sem necessidade de talheres. Comida diferente, sim, mas sempre recomendável. Do Brasil, de Cabo Verde, de Angola, de Moçambique, da China, do Japão, do Nepal, de Goa. Muitas vezes comida crioula, arraçada, com aquele toque de mestiçagem herdado dos descobrimentos portugueses, notáveis também por isto: levaram sabores daqui, a bordo de cascas de noz, e trouxeram sabores de lá. Sendo lá quase o mundo inteiro.

«Comida de festa, para sujar as mãos e lavar a alma.» Eis uma das definições do Ricardo, neste caso em louvor da comida mexicana – ela igualmente já com redutos gastronómicos em Lisboa que funcionam como genuínas legações diplomáticas. Porque nada aproxima tanto os povos como aquilo que comemos.

Também por isto, O Homem que Comia Tudo presta serviço público. Mesmo sem passar na RTP.

Comer (11)


Pedro Correia,

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Verão, para mim, é sinónimo de peixe em termos gastronómicos. Assado, cozido, estufado. Em escabeche, em caldeirada. Mas sobretudo grelhado: cherne, garoupa, robalo, dourada, sargo, solha, peixe espada – o que houver vindo da lota. Em zona balnear, de preferência. Com mar à vista.

Assim fiz, assim tenho feito, num dos meus poisos favoritos: o Clube Naval da Ericeira. Situa-se em zona adjacente ao porto de pesca da vila que tão generosamente me acolhe há um par de anos. 

Condição obrigatória: chegar cedo. Vai-se formando fila à porta, a partir do meio-dia e pouco. Ouvem-se conversas de circunstância dos frequentadores habituais, sábios conhecedores do que ali se petisca.

Impera a boa disposição. O tempo convida a relaxar.

Não é espaço para sofisticações. Nem para aquela comida da moda – com fusões, tofu, muita rúcula, muita espuma que parece ser da barba, fruta tropical misturada com leguminosas e tretas do género.

Tudo clássico, à moda antiga. Pratos do dia escritos a giz num quadro, as gaivotas rondando quase como animais domésticos.

Alargando o olhar, confirmo: aqui o mar é mais azul.

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Há choco à lagareiro, sardinha assada, carapaus. Nos pratos de carne, nem reparo.

Vou para o linguado grelhado: é o que me está a apetecer. Ali ao lado os pescadores reparam as redes, secam peixes em estendais, trocam dois dedos de conversa: a faina do dia está cumprida. 

A casa já encheu. 

Vem para a mesa um jarro de vinho branco – fresco, não gelado. Como mandam as boas regras. Em sequência lógica, surge um queijinho fresco com o magnífico pão local. Confirmo: estou numa das zonas do País onde há melhor pão.

Lição fundamental à mesa em férias: mastigar bem, saborear, aproveitar cada momento prolongando o prazer de partilhar refeições sem agenda profissional para cumprir. Há quem não saiba desligar-se do ritmo laboral, sem perceber como é indispensável fazer pausas para que o trabalho renda plenamente. 

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Chega então o linguado. Vem como gosto: grelhado no ponto certo.

Em Portugal, quase todos se gabam de saber grelhar peixe. Estão profundamente equivocados: abundam os locais, alguns até com fama, em que a grelha mal calibrada ou um cozinheiro negligente secam o peixe, retirando-lhe o suco natural.

Aqui há manifesta competência nesta função: excepto as espinhas, nada se desaproveita deste elegante bicho que há menos de 24 horas nadava no oceano. Até a pele. 

Casa muito bem com as batatinhas cozidas com casca, o feijão verde que serve de complemento e a salada fresca temperada com abundante azeite, um golpe de vinagre, umas gotas de limão.

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A praia, ali a dois passos, pode esperar. A tarde é longa, há sol até depois das oito. 

Nada de pressas, como se tivéssemos todo o tempo do mundo.

Faz parte da magia do Verão: é quando mais vezes somos invadidos pela doce ilusão da eternidade. 

Hei-de voltar ao Clube Naval. Tem lugar cativo no meu roteiro gastronómico. Ponto de romagem sempre que as saudades do bom peixe apertam.

Doses fartas. A preços imbatíveis.

Por mais vezes que regresse, a conclusão é sempre a mesma: daqui nunca saio desiludido.

 

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Chefe Evaristo, “in memoriam”


Pedro Correia,

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Morreu o chefe Evaristo Cardoso, que em 1974 fundou o Solar dos Presuntos – templo da gastronomia minhota no coração de Lisboa. Inesquecível, o seu cordeiro à moda de Monção. Sem esquecer o folhado de vitela, a paelha de porco preto com gambas e mexilhões e o cabrito no forno com batata assada e arroz de forno.  

Chefe em português, não em francês. Cozinheiro e empresário de restauração da mais genuína cepa nacional.

Este sim, merecia honras de Panteão.

Em Fão, no “Rita Fangueira”


jpt,

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(A Norte do Trancão [4])

Domingo já basto percorrido, eu feito andarilho desde a quase alvorada, entre passadiços, dunas e marés vivas, fui transportado até ao que me foi afiançado ser “referência” local, em plena Fão. A instituição em causa era o “Rita Fangueira”, há pouco transitado para novas instalações, sito agora face a uma pequena praceta ribeirinha, um recanto encantador mas o qual, por si só, não suspenderia o afã crítico de amador, até porque seguia eu já esfaimado.

Começámos bem, pois apesar da hora tardia a que aportámos para almoçar a recepção foi afável, numa gentileza sorridente, mas felizmente sem pinga daquelas irritantes popularuchas familiaridades nem quaisquer ademanes altaneiros, esses que até antecipara dado que acabara de cruzar a vizinha Ofir, a qual presumi ser ainda refúgio dos descendentes daquele “dinheiro novo” do Estado Novo portuense.

Não tendo eu, nem a minha cicerone, quaisquer prosápias de analistas gastronómicos e ainda menos tendências glutonas, não procedemos a demorada análise do cardápio. E assim, amáveis clientes, acolhemos os conselhos de quem ali trabalha. Para encetar aconcheguei-me com um copo de tinto da casa, um Douro de 2019 (Fronteira) de qualidade muito mais do que aceitável para este iletrado vinícola. Desconhecedor dos costumes locais, mas de sensibilidade etnógrafa, muito notei que a taça chegou à mesa acompanhada da garrafa por encetar e de um “sirva-se, por favor”, que bem entendi como um “vá-se o senhor servindo a seu gosto”, modo que veio a ter o inesperado efeito de, duas horas depois, o vasilhame estar prestes a ser escorropichado, dado o alento que entretanto viera eu, a solo para aquele propósito, a receber por via dos víveres apresentados. 

O referido vinho foi inicialmente acompanhado por uma muito civilizada cobertura, saudavelmente apartada das pantagruélicas “entradas” que constam da mitografia nortenha: um par de croquetes, esquecíveis, e um outro de pastéis de bacalhau que, ao invés, justificaram a atenção. Mas o relevante foi a concisa cesta de pão, decerto que proveniente de decente padaria: algumas fatias de regueifa, na textura e sabor adequados, outras de broa e ainda outras de broa de carne, ambas assinaláveis. E tudo potenciado pelo seu acompanhamento, a extraordinária manteiga de Marinhas, um produto local digno dos maiores encómios. Ou seja, a bem dizer-se estava eu já almoçado, e bem, e ainda não haviam chegado os pratos, ali e assim verdadeiramente presigos.

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A nossa recatada opção recaíra sobre o prato do dia, um porco assado com castanhas, e o fígado de bovino de cebolada (“iscas”, como dizemos nos Olivais e vizinhança). A minha atenção inicial incidiu sobre estas últimas – as quais estavam literalmente de “chorar por mais”, e de tal forma que quase monopolizaram as minhas disponibilidades. Alguns entendidos nestas matérias propagandeiam um ideário que consagra haver uma graduação na dificuldade da confecção de alimentos e na execução das respectivas receitas. Não sei se nessas visões escolásticas as “iscas” estarão no topo mas confesso a minha surpresa, esta de perceber como um prato tão corrente – e nisso dito pouco “nobre”, quiçá até “fácil” – pode ser apresentado de forma tão rara de excelsa.  Ao porco, e suas amásias castanhas, enfrentei-o já em dificuldades, até algo notórias, mas ainda assim pude constatar – e num “prato de dia” – que nos chegava exactamente como os mandamentos o ditam, sem inovações nem derrapagens. Ou seja, ambos os manjares ali estavam no estrito respeito pelos valores devidos, mas – e o que é ainda mais notável – sem quaisquer ribombos folcloristas.

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Após isto impôs-se um breve intervalo, à esplanada na fruição de um rolo de Amber Leaf, enquanto o eficiente “colaborador” recolhia o vasto remanescente das duas opíparas “meias doses” (?), destinado a recompensar o imaginário canídeo da clientela em questão. Regressei para enfrentar a recomendada sobremesa, uma parelha advinda da confeitaria local, um excelente folhado de ovos moles de Fão, que justifica sobressair no imenso rol de artigos aparentados que a tradição conventual legou à nossa “doce pátria”, e uma “Clarinha”, um esplêndido pastel de gila (ou chila) também típico daquela Fão assim dulcíssima.

E desta suculenta forma terminou o repasto, que senti e recebi como excepcional. O preço desta para sempre memória? Num restaurante que me dizem renomado junto à zona de veraneio das elites económico-culturais nortenhas? Mais barato do que uma qualquer patetice italiana ou fancaria indiana na capital… 17 euros por pessoa! Algo está mal na república. E não é, garanto, em Fão.

Ao Largo da Feira


jpt,

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Não sou muito de doces. Aliás, tenho a ideia – que me é dogma – que homem que é homem não segue dado à doçaria, a esta deixando, em risonho e justificado mansplaining, como monopólio da volúpia do belo sexo. A nós os óleos e banhas da crocante chamuça, do rústico rissol, da bacalhauzada, do entrecosto a roer. A elas – e, vá lá, aos do convento – os açúcares que amainam os espíritos. É certo, é-nos permitida, e até requerida, a mera colher de café do pudim esponsal, sinal da partilha infindável que é o amor, e mesmo a de chá na musse alheia, marca do furor lascivo do amantismo. Mas só isso…

 

Na alvorada de hoje visitei a pastelaria fina da vila. Já lá havia estado, meia dúzia de vezes, “ao pão” e café. Após uma noite insone, encetei-me, em busca de alento para o dia, com uma para mim antiquérrima dupla, a Coca-Cola e a bica. Mas tamanho era o défice próprio que lhe associei – com a impudicícia permitida pela solidão e total anonimato – um “jesuíta”, bolo que terei comido com agrado na juventude impúbere.

 

E fiquei absolutamente espantado. O tal “jesuíta” é ali uma verdadeira delícia, única. Um memorável momento… E enquanto o mastigava, surpreendido, lembrei-me de que já me haviam recomendado, com fartos encómios, a pastelaria desta “Largo da Feira”, em Palmela.

 

Garanto-vos, vinde ao vinho, vinde ao belo castelo panorâmico, vinde às magníficas tulipas e entremeadas do “Miradouro” virado ao (agora fustigado) Vale dos Barris. Mas passai – até para agrado das Senhoras da vossa vida – pela pastelaria “Largo da Feira” a abastecerem-se dos tais açúcares de fabrico próprio, que estes amainam mesmo os espíritos.

Coisas que as estatísticas não revelam


Paulo Sousa,

No domingo passado regressei a um restaurante que visito desde que a nova gerência tomou conta dele.

Na primeira visita, há pouco mais de um ano, confesso que foi com esforço que entrei naquele sitio inventado há quase uma década por alguém que do alto do seu generoso orçamento autárquico e após várias semanas a vasculhar nos recantos do seu serôdio e escasso espólio de neurónios, inventou um restaurante para “rentabilizar” as piscinas municipais, de que é anexo. Infelizmente aprender a distiguir investimento de despesa não é condição de acesso a cargos autárquicos.

Olhando apenas pelo espaço que é, e sem ninguém competente para o explorar, talvez tivesse sido viável na versão inicial do Simcity, que nos anos 80 corria em Comodore 64. Como a realidade não funciona a 8 bits, acabou por andar de mão em mão, sem nunca encontrar a fórmula certa.

Ora como não é um espaço vazio que cria um negócio, mas sim alguém que o queira e saiba preencher, foram necessários demasiados episódios até que finalmente, e depois de correr meio mundo sempre à volta dos tachos, o Chef Nuno Ribeiro chegou a Porto de Mós.

Num raio de poucos quilómetros a oferta de restauração é respeitável, mas mesmo assim e desde a primeira hora que, pela elaboração e qualidade da sua oferta, o Pescatore marcou a diferença e conquistou o seu público. Se a identidade se refere a peixe, o mote – Mar à Serra – garante oferta para todos os gostos. O estacionamento cheio foi sempre um indicador do sucesso noutras paragens e também aqui se repetiu até a filha da mãe da pandemia ter entrado em cena.

Frequentar o mais possível restaurantes honestos é uma forma nobre de contrariar os nefastos efeitos do Covid. Essa é uma luta para a qual podem contar comigo.

Foi com a fúria dessa batalha em mente que no passado domingo regressei ao Pescatore. Observar a carta exige sempre uma capacidade de escolha de impulso, pois só assim se pode abdicar de Chanfana de bocheca de porco com puré de castanhas ou de Cabrito à padeiro, por outra coisa qualquer. Abracei-me ao arroz de lingueirão, e acertei pois estava divinal.

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Triste foi saber que a nossa era a segunda mesa a ser servida naquele dia.

Tendo já lançado para trás das costas a primeira vaga da pandemia, ninguém sabe o que aí vem.

Desde que os números voltaram a subir que a afluência de clientes caiu significativamente, e as medidas anunciadas pelo governo não auguram nada de bom.

Por detrás das estatísticas despejadas pela boca dos políticos e comentadores escondem-se as dores dos casos particulares, de negócios assentes em pessoas com valor e com a coragem necessária para fazerem pela vida, sem a rede que o estado dá apenas a alguns.

Não conseguiram melhor que isto?


Pedro Correia,

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Há muito que me espanto com a absoluta falta de talento revelada pelos nossos compatriotas quando decidem atribuir nomes aos estabelecimentos comerciais. É como se a imaginação e o bom gosto entrassem subitamente em greve por tempo ilimitado. 

Eis um exemplo: o que levará alguém a dar um nome destes a um restaurante, situado numa das artérias mais movimentadas do centro de Lagos? Sou incapaz de vos dizer se é ou não poiso recomendável. Pelo mais óbvio dos motivos: passo à distância quando encontro um charco.

Psicodrama à mesa


Pedro Correia,

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“Os portugueses sabem comer bem e apreciam boa comida.” Oiço esta frase desde sempre e há muitos anos que a contesto.

Penso cada vez mais o contrário. E tenho a prova por estes dias. Janto num dos restaurantes que servem melhor peixe e marisco em Lagos. Fica junto à lota, os frutos do mar desembarcam praticamente do barco para a cozinha.

Aqui só como peixe, devo confessar. Apesar disso, nas mesas em redor escuto insistentes pedidos de gente a suplicar por “bitoque” e “picanha”. O que me deixa estarrecido.

 

Há dois dias, um miúdo malcriado pôs-se a fazer birra, dizendo que só comia piza. Com palavrinhas doces, os pais procuravam convencê-lo que ali não havia disso: o “melhor” que se arranjava era um hambúrger.

Ao fim de muito tempo, lá acabaram num consenso: o puto acedeu mas o pai da criancinha teve de implorar por um prato “cheio de batatas fritas” para calar o palerma do filho. Que daqui a uns anos andará obeso e a competir no campeonato nacional do colesterol.

 

Enquanto este psicodrama decorria, eu degustava um petisco bem algarvio: barriga de atum, acompanhada com batata cozida e salada mista, temperada a meu gosto. Pensando: a instrução gastronómica faz parte da educação integral. Os pais que começam por falhar aqui, acabam por falhar em quase tudo.

Depois são capazes de culpar tudo e todos: o Estado, o Governo, os partidos, os políticos, sei lá o quê.

Mas a culpa é só deles – e dos péssimos exemplos que dão aos filhos.

Associativismo tuga


José Meireles Graça,

Há muitos anos, geria uma fábrica que se dedicava ao fabrico de móveis frigoríficos, que exportava para uma dúzia de países.

Um dia, comecei a ouvir falar do buraco de ozono e dos grandes malefícios que os gases que então se usavam em refrigeração causavam àquele precioso gás, decompondo-o.

A pressão para a substituição do gás acentuou-se e complicados procedimentos para recuperar o gás antigo e não o deixar escapar para a atmosfera, o maldito, em aparelhos velhos, foram sendo postos em prática. Entretanto, apareceram no mercado novos gases que requeriam outros compressores, outros evaporadores e outros condensadores. Tudo era mais caro e implicava investimentos, mas os móveis passaram, com orgulho, a ostentar etiquetas verdes, muito parecidas com as que a concorrência chinesa usava para o mesmo efeito sobre equipamentos com as antigas características – povo empreendedor, não queria desperdiçar os stocks que tinha, que bem os compreendia.

O problema está hoje esquecido, o buraco diminuiu consideravelmente entretanto, não sendo talvez de excluir que o ozono, ou o nível de outra porra qualquer, suba ou baixe anormalmente quando as patentes dos novos gases estiverem perto de caducar, ou quando um laboratório prestigiado vislumbrar uma tragédia ao dobrar da esquina e encontre nas seitas ecológicas eco para estas cavalgarem uma causa fresquinha.

A empresa era sócia da associação do sector. Mas já então tinha sobre o associativismo a mesma opinião que tenho hoje e, podendo sem inconvenientes de maior pôr-me ao fresco para assistir a conferências, workshops, e comparecer a confraternizações e almoçaradas, e mesmo não tendo dúvidas da grande utilidade que semelhantes convívios podiam ter para o efeito de conhecer gente com interesse para lobbying (o nome fino da cunha e do tráfico de influências), não me sobrava a paciência para ouvir teóricos da gestão, bancários, políticos, especialistas disto e daquilo e treteiros sortidos.

De modo que raramente pus os pés fosse no que fosse. Ademais, estas iniciativas do maior interesse (segundo os promotores) tinham lugar invariavelmente em Lisboa. Ora, na altura ainda não havia GPS, absolutamente necessário no meu caso por me acontecer por razões misteriosas, quando me deslocava àquela cidade por outros motivos, ir parar a Queijas.

Sucedeu que no auge da pressão para os industriais do sector se modernizarem, a tal associação enviou uma circular significando a grande necessidade, que cientificamente demonstrava com abundância de explicações, de nos livrarmos do freon, concluindo pela urgência de mudarmos (nós, os empresários) de mentalidade.

À moça que assinava o papel respondi rebatendo ponto por ponto os seus argumentos “científicos” com outros do mesmo jaez mas de fontes diferentes e antagónicas; esclarecendo que já estava a fazer as alterações necessárias, por razões estritamente comerciais; e que me recusava formalmente a permitir que me alterassem a mentalidade com a qual, à época, já convivia pacificamente há mais de três décadas.

Quando chegou a altura de renovar a pertença, declinei; e só voltei a ser sócio de uma associação (outra) muitos anos depois, numa altura em que era conveniente para ter acesso a informação que doutro modo não teria.

A Associação da Hotelaria, Restauração e Similares apresentou ao Governo, diz a SicN, uma inacreditável proposta de regras (“já validada pela ASAE”) para os restaurantes que inclui delírios como a tomada da temperatura dos clientes, a desinfecção das mãos destes, a obrigatoriedade de marcação prévia e a escolha do menu pelo telemóvel ou em tablet do estabelecimento .

Fui ver ao site para descobrir quem era esta extraordinária gente, mas não se aprende muito: a apresentação é a vulgar declaração sobre os nobres propósitos da agremiação, em prosa da escolaridade obrigatória; e as personalidades que povoam os órgãos dirigentes são naturalmente desconhecidas, mas não aparentam ser gente de avental de serviço e com familiaridade com tachos e panelas.

Vossas Senhorias não percebem o vosso papel: para estabelecer regras de saúde pública que ofendem e humilham as pessoas, ou que dão trabalho escusado, ou que implicam despesas que não seriam necessárias, ou que acrescem à carga de trabalho dos empregados, ou que limitam a quantidade de refeições que se podem servir, não é precisa uma associação: basta um grupo de burocratas qualquer da DGS capaz de copiar normas importadas de outros países, escolhidos de entre os de língua inglesa (francês não entendem e inglês também não, geralmente, mas julgam que sim) que se distingam pela minúcia da regulamentação, somar tudo, acrescentar algumas rodilhices imaginativas, salpicar com multas e fiscalizações,  e servir no legalês prolixo que o político abelhudo de serviço assina de cruz.

Uma associação empresarial, se está do lado do Estado, não está do lado certo. O lado certo é contra o Estado, no vosso caso a defender ferozmente a viabilidade dos restaurantes – os que sobrarem depois do golpe que lhes deram o medo das pessoas, as paragens compulsivas, a insuficiência dos apoios e o descalabro do turismo.

Representais os restauradores, é, anedotas tristes? Valeis ainda menos do que o advogado oficioso que ofereça, em defesa do seu cliente, o merecimento dos autos. Porque este ainda pode contar com a imparcialidade do juiz, que não tem de engolir necessariamente as fabricações do ministério público; e vós, ao Governo que diz mata!, acrescentais esfola.

Dois países dentro do País


Pedro Correia,

Cheguei a Coimbra a hora já tardia para o almoço, cheio de apetite. Ia com vontade de matar saudades do Zé Manel dos Ossos, mas deparei com a porta fechada: está encerrado para férias.

Virei logo ali, à Rua da Sota. Eram quase 15 horas, entrei num restaurante ainda operacional que me pareceu com bom aspecto.

– O que há? – pergunto.

– Agora já só temos o menu do dia: sopa e frango.

– Venha isso.

E veio, sem demora. Comidinha caseira, como gosto. Sopa de legumes, frango na púcara (muito bem servido). Talhada de melão à sobremesa. Um jarrinho de vinho. Mais pão (que não comi) e café (que não bebi).

Tudo incluído: sete euros e meio.

Isto na baixa de Coimbra, onde por estes dias circulam muitos turistas estrangeiros. Comprovando que, a norte de Lisboa, os preços nos restaurantes caem – por vezes vertiginosamente. Enquanto a qualidade tantas vezes aumenta.

Dois países dentro do País.

O País do trabalho sem direitos


Pedro Correia,

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Férias no Algarve. São 18.30 quando chego a um dos meus restaurantes favoritos, sem marcação prévia. Em busca do peixe bem grelhado de que tanto gosto. 

Atende-me um empregado que bem conheço. Hoje [ontem] parece-me pouco satisfeito.

– Que se passa? – pergunto.

– Falta de folgas. Cansaço. Dias após dias sem folgar.

– Mas ontem [segunda-feira] estiveram fechados, aliás como é costume…

– Sim, mas foi o último dia. O patrão acaba de avisar-nos que durante os próximos dois meses não teremos folgas. Até 15 de Setembro estaremos sempre a funcionar.

– E vão ter alguma compensação financeira por isso?

– Nem mais um cêntimo. É pegar ou largar, disse ele.

– E ele nega-vos mesmo a folga semanal?

– Sim. Ainda tentámos que no desse meia folga, ao menos isso. Mas recusou.

 

Eis um quadro que se vai multiplicando por esse Algarve fora. Acumulam-se os clientes, acumula-se a receita, acumulam-se os lucros – e diminuem os direitos dos trabalhadores, a começar pelo mais básico: o direito ao descanso.

Até Deus, que é omnipotente, descansou ao sétimo dia. Estas entidades patronais, julgando-se num mundo em que são elas a ditar as leis, arrogam-se no direito de explorar até ao tutano quem lhes presta serviço. É o caso deste restaurante, que tem um número fixo de empregados: em vez de reforçar os quadros nos meses de maior afluência de público, adequando a oferta à procura com o recrutamento de trabalhadores temporários, estica ao máximo os recursos de que dispõe, insuficientes nesta quadra, negando-lhes contrapartidas remuneratórias ou as mais que justas folgas de compensação.

Às sete da tarde, as duas salas estão cheias e começa a formar-se fila à porta para jantar. Os empregados correm de mesa em mesa: já ao almoço ocorreu algo semelhante e terão pelo menos mais três horas seguidas neste ritmo frenético.

 

Não é difícil fazer uma estimativa perante tal afluência, multiplicando comensais diários por custo médio de refeição: a meio da semana, neste estabelecimento, já a despesa estará coberta. A partir daí, tudo é lucro. O problema é que estes patrões – que adoram intitular-se “empresários” – mostram pressa em matar a galinha dos ovos de ouro. São cada vez mais frequentes os casos de cozinheiros e empregados de mesa que, cansados de tanta exigência a tão baixo preço, procuram vias profissionais alternativas. 

Tenho um amigo, proprietário de três restaurantes em Lisboa sempre cheios, que se queixa disto mesmo:

– Eles deixam de aparecer, muitas vezes nem avisam. Temos de improvisar tudo, transferindo pessoal de um estabelecimento para outro às vezes em cima da hora de abertura.

– Porque é que vocês não lhes pagam mais? – indago.

– Eh pá, sabes, a vida está difícil para todos…

 

Segue-se o habitual rosário de queixumes da parte de quem prospera a olhos vistos mas só pretende dividir escassas migalhas desses dividendos. Em Lisboa como no Algarve.

Mesmo em férias, vou pensando: eis o País que não mora nas estatísticas nem na propaganda do “Portugal positivo”. O País do lucro máximo de alguns à custa dos direitos mínimos de muitos. O País onde é possível trabalhar dois meses sem sequer meio dia de folga diária, quase em regime de servidão feudal. O País do trabalho sem direitos a que partidos que tanto invocam a “classe trabalhadora”, como o BE e o PCP, fecham os olhos neste quarto ano contínuo de “geringonça”.

Foi para subsidiar patrões como estes que o Governo Costa/Centeno decretou logo no início uma das medidas mais demagógicas de que há memória em anos recentes: a redução da taxa do IVA na restauração. Os restaurantes não baixaram preços nem recrutaram gente: limitaram-se a ampliar as margens de lucro. Enquanto o Estado via diminuir quase 400 milhões de euros a receita fiscal neste sector, que logo tratou de compensar por outras vias, esmifrando os do costume – nós, os contribuintes – com a maior carga tributária de sempre: 35,4% do produto interno bruto.

 

Pela primeira vez, confesso, não apreciei o peixe grelhado que comi aqui.

Ainda os animais em restaurantes


Marta Spínola,
Disclaimer: não me levem demasiado a sério, estou apenas num exercício de reflexão que ainda não tinha feito sobre o tema.

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Bem sei que os projectos têm diferentes contornos, e não está em causa uma gata na mesa, um cão na cozinha. Mas é divertido pensar nos vários cenários ainda assim. 

Pergunto: quererão os mesmos lá estar? Esperar que a refeição acabe, quietos, ao lado da mesa, ou mesmo que participem recebendo bocadinhos da dita, preferirão isso a estar num espaço que lhes é familiar? E que dizer da companhia que não pediram e terão a cheirá-los, a inspeccioná-los em busca de uma amizade? Tenho muitas dúvidas que cães e gatos adorem a ideia, mas não tenho animais, não posso garantir. E não acho que tenha a ver com a educação dos mesmos, mas com a sua própria natureza. 

Além disso, conheço donos que dispensam que os seus cães estejam em sítios com outros cães, basta ver locais de férias que aceitam animais e promovem o convívio entre os mesmos: não raras vezes os donos preferem que os seus fiquem recatados no quarto. Foram de férias com eles, mas preferem mantê-los longe dos restantes animais. Num restaurante, ainda que haja uma área restrita, não será simples controlar esse convívio. 

Também penso em situações pontuais como gatos nos santos populares. Tem um lado divertido, se fosse um desenho animado, mas quantos de nós apreciarão partilhar uma sardinha com o gato do vizinho? Ou vários? Imagine-se o Castelo ou Alfama cheios de donos e gatos em noite de Santo António. Já estou cheia de pena e ainda nem começou (estou a brincar, relembro).

Na verdade, cães e gatos nem são a minha maior preocupação. Eu quero saber é se a lei abrange aquelas aves que há quem traga ao ombro, porque de papagaios e araras é que eu morro de medo. Nesses restaurantes não entro. E se tiver o azar de já lá estar, fujo.