Telemóvel Cabral, mando-te ao mercado


Pedro Correia,

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Não sei se com vocês acontece o mesmo: eu já não suporto o “corrector de palavras” do meu telemóvel. Está sempre a emendar o que não devia sofrer emenda alguma.

Escrevo Catar e muda de imediato para “Catarina”. Sagan deriva para “Satanás”. Macaco dá “marcações”. Putativo fica “punitivo”. Bruxa passou a “brutal”. Bombar tornou-se “Bombarral”. 

Mas não pára aqui. Escrevo gorjeio, emenda para “gorjeta”. Rejeita bursite, entende ser “burrice”. E vulgata, vá-se lá entender porquê, passou a “búlgara”. Nem imagino como é que russo virou “ruído”.

Estas emendas podem tornar-se embaraçosas se não forem detectadas em tempo útil. Égua virou “Eduarda”. Cuisine deu lugar a “coisinha”. Fanico passou a “fálico”. E orgia transmutou-se em “organização”: nada a ver uma coisa com outra.

Cheguei ao ponto de escrever certas palavras a ver no que dava. Merda, saiu-me “mercado” ou “mercadoria”. Já impaciente, teclei “cabrão”: passou a Cabral.

Há pouco escrevi baratinhas: saiu “barbatanas”.

Estou farto desta mercadoria. Considero-me alvo de punitiva censura tecnológica, sempre a Bombarral. Apetece-me apresentar queixa à Provedoria de Justiça e ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Ou emigrar para a Catarina. 

Volta a ser necessário escolher


Sérgio de Almeida Correia,

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(créditos: Forbes, DPA/PICTURE ALLIANCE VIA GETTY IMAGES)

O problema não é novo e não se me afigura de fácil resolução.

Não há muito tempo, um artigo do Vítor Rebelo, deu-nos conta de que a Escola Portuguesa de Macau realizou um inquérito junto dos encarregados de educação no sentido de apurar qual a posição destes sobre a eventual imposição de restrições ao uso de telemóveis no interior do estabelecimento de ensino e durante os períodos escolares, sem prejuízo da sua utilização “em situações de emergência, actividades pedagógicas por indicação do professor, ou para permitir o acesso a recursos educativos e ferramentas online facilitadoras da aprendizagem“. A ressalva é importante, mas não é tudo.

Depois disso, em Março, saíram notícias vindas da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude de Macau sobre a vontade de se impor um “conjunto de orientações sobre o uso de telemóveis para alunos de escolas do ensino não superior“. pareceu-me bem.

E quanto a este ponto, o presidente da Associação de Pais da Escola Portuguesa de Macau (EPM), Filipe Figueiredo, manifestou a concordância da associação a que preside quanto à introdução dessas restrições, salientando, com razão, as perturbações ao comportamento das crianças e jovens que a influência e a dependência daqueles equipamentos tem causado. 

Recorde-se que, em 2023, a UNESCO recomendara que fossem banidos os telemóveis (smartphones) das escolas por constituírem uma distracção à aprendizagem.

Concordar-se-á, facilmente, que há impactos positivos, mas também alguns muito perniciosos, ao uso frequente, desregrado, incontrolado de equipamentos electrónicos. E não apenas por parte dos mais novos. O mesmo se diga quanto às ferramentas de Inteligência Artificial (IA).

Ontem, o The Guardian deu-nos a notícia de que na Estónia, considerado uma dos países mais avançados do mundo em matéria de Educação e que obteve resultados muito bons na última ronda do PISA, em 2022, ocupando os seus estudantes o  primeiro lugar em Matemática, Ciências e Pensamento Criativo, e o segundo em Leitura, se lançou um programa nacional designado “AI Leap” destinado a dotar os seus alunos e professores de ferramentas e qualificações de nível mundial em matéria de IA, programa esse que começará em Setembro. Desse modo se investirá na preparação tecnológica dos professores, enfatizando-se um modelo de aprendizagem autónomo, suportado numa ética digital, de maneira a que se dê “prioridade à equidade educativa e à literacia em IA“. 

A ministra da Educação e Tecnologia da Estónia enalteceu o uso desses equipamentos, referindo que no seu país o direito de voto é exercido a partir dos 16 anos, que o exercício desse direito é estimulado para que ser feito online, recorrendo-se aos telemóveis, e acrescentando que isso contribui para a participação cívica e eleitoral, a obtenção de informação e a análise de plataformas políticas, não fazendo sentido a imposição de restrições, que transmitiriam uma ideia contraditória.

O sucesso do uso dos telemóveis, e dos resultados obtidos por aquele país, estará antes num conjunto de regras direccionadas a crianças com menos de 12 ou 13 anos, quanto ao modo como esses equipamentos deverão ser utilizados, cabendo depois às escolas a regulação do seu uso durante os intervalos e nas aulas, sempre que o professor considere que devem ser usados como auxiliares na realização de trabalhos escolares.

Segundo Kristina Kallas, o desafio está em saber se somos capazes de evoluir no sentido de nos tornamos criaturas de  pensamento mais rápido e de nível mais elevado, ou se vamos deixar que seja a tecnologia a apoderar-se da nossa consciência.

A solução não é fácil. Continua a haver todo um debate por fazer. 

A solução da proibição é a mais fácil, a mais imediata. Mas, pergunto eu, será que com a proibição se garante o sucesso?

Há que encontrar as soluções mais adequadas ao momento e procurar ir adaptando-as à medida que vamos conhecendo um pouco melhor os desafios que se nos colocam, as exigências e as consequências do uso, imoderado ou regrado, desses equipamentos e da IA.

Uma coisa é certa: não podemos permitir que seja a IA a decidir por nós. Nem ficar num grau tal de dependência que a nossa autonomia seja colocada em risco. No dia em que isso acontecer será o fim da nossa espécie enquanto seres pensantes, dotados de razão e independência.

No fundo, o que está aqui em causa é saber se seremos capazes de continuar a evoluir não perdendo razão nem autonomia. Isto é, se continuamos a ser livres ou se vamos perder essa liberdade em favor das máquinas e de quem as domina.

A escolha será decisiva e voltará a ser, não há que fugir, entre a liberdade e a tirania.

Possível parágrafo de uma continuação impossível


Ana Vidal,

 

Pi-pi. pi-pi. Alô, Claudine? Daqui é o Peix… digo, o Carlos da Maia. Quê?? Não, filha, esse gajo era um chato do caraças (ou será que devia dizer “um chato de galochas”?)… enfim, o que interessa é que eu sou muito mais cool! Olha, liguei só para confirmar o nosso encontro mais logo no Oceanário. Mas tem de ser uma rapidinha, ok? Já sabes como a Dudu é desconfiada e ciumenta. Nem parece minha irmã, caramba. Pensando bem, acho que esta noite vou arrancar-lhe um cabelinho para mandar fazer um teste de ADN… com essa é que ela não conta, olarilas. Vantagens de viver no século 21. Bom, mon petit choux, agora tenho de desligar que ela é capaz de tudo, tem espiões por todo o lado. Até logo. Junto ao lago das morsas, não te esqueças. E vê lá onde estacionas a calèche, que já estou farto de pagar as tuas multas.

Podia ser melhor?


Patrícia Reis,

Tenham paciência para o meu relato.

Na sexta feira, dia 15 de Março, no retail park de Coina, comprei um telemóvel Iphone 5.

Tudo bem. Como era uma oferta, no dia seguinte dirige-me à mesma loja, representante da Vodafone (GELSOM), onde me foi dito que não tinham de 32 gigs, eu tinha comprado de 16 estupidamente. A menina, muito diligente e simpática, fez várias coisas: ligou para a vendedora do dia anterior, ligou para a loja de Alfragide e, por fim, na loja do Jumbo de Setúbal disseram-lhe que tinham um de 32 gigas. A menina, à minha frente, pediu para reservarem em meu nome, dizendo que eu ia a caminho e que tinha adquirido um de 16 gigas e queria trocar pelo de 32. Quando cheguei a Setúbal, não sei quantos kms depois, a responsável da loja fez três coisas impensáveis, especialmente para uma pessoa como eu que tem uma empresa (todos têm nrs vodafone, todos deixarão de ter): disse que não trocavam aparelhos iphone e que eu já deveria saber disso – ninguém mo disse e, sendo uma oferta, se tivessem dito não teria comprado ali, teria ido a outro sítio -, que a menina do retail Park tinha ligado mas não mencionara que era uma troca (portanto, acabou de me chamar mentirosa, eu assisti ao telefonema e a menina do Retail Park, se é uma política da loja, estava largada na loja Vodafone, sozinha, sem saber a política da casa, tal como a vendedora do dia anterior), por fim a responsável da loja atirou com o livro de reclamações para o balcão e, da forma mais cobarde e arrogante de todos os tempos, recolheu ao interior da loja, tendo-me deixado com outra empregada que, coitada, foi pedindo desculpa e desculpa. Eu trouxe o telemóvel de volta, imaculado, sem estar aberto e encontrarei uma solução, no entanto há uma coisa que quero deixar bem claro: as inúmeras situações deste calibre com a Vodafone só me levam a tomar uma atitude: mudar de operador, eu e os meus empregados todos. Não acho normal que os representantes da Vodafone tenham este tipo de atitude e quem quer ter um emprego, mas não sabe estar atrás de um balcão, deverá ir procurar um outro tipo de trabalho. Tenho uma empresa há 16 anos, quase 17, nunca tratei um cliente como fui tratada ontem e lamento profundamente que tal tenha acontecido, mas não me surpreende, por já nada me surpreender. A Vodafone não me responde. A representante da marca em Coina, depois de ter lá ido um representante meu com um representante da GNR, apesar da lei obrigar à devolução do aparelho, se estiver imaculado – como está – recusou-se a tal. Compreende-se? Não.