
Tenho há muito um princípio que procuro aplicar enquanto viajante (turistas são os outros, como é sabido). Deixar sempre alguma coisa por visitar nos destinos que procuro. Para aguçar a vontade do regresso.
Apliquei o mesmo princípio nesta deslocação à ilha Terceira, que tão bem me soube.
Não vi tudo quanto gostaria nem fiz questão de “esgotar a agenda”. Não viajamos melhor se andarmos com a obsessão de açambarcar imagens. É um disparate por vários motivos – desde logo por se tratar de utopia, obviamente impraticável. Jamais alguém vê tudo. E perdemos o tal interesse acrescido em regressar, sabendo-se que nunca há duas viagens iguais.

Viajar sem programa rígido ou demasiado definido dá-nos a vantagem suplementar da descoberta. Foi o que fiz no meu último dia completo na Terceira: andar a pé o mais possível, sem me afastar da orla marítima.
Comecei no Forte de São Sebastião, edificado no século XVI, hoje sobranceiro ao Porto de Pipas. Aqui chamam-lhe o Castelinho.
Foi o primeiro baluarte defensivo da ilha, viria a complementar-se com o Forte de São João Baptista estabelecendo uma temível linha de fogo cruzado que fazia vacilar os invasores, incluindo piratas e corsários.

A sua missão militar esgotou-se na guerra civil 1828-1834 entre absolutistas e constitucionalistas. Hoje alberga uma unidade hoteleira integrada na rede de pousadas de Portugal.
Mas pode ser visitado à vontade por quem apenas pretenda contemplar as vistas. Para este efeito, garanto, é magnífico.
Quem sonhe aqui pernoitar deverá levar em conta que este alojamento não está acessível a qualquer bolsa. Como acontece, de resto, na generalidade das pousadas portuguesas.

Prossegui, a pé o mais possível. Até ao miradouro da Cruz do Canário, já na freguesia da Feteira. Caía a tarde, o panorama transbordava de beleza.
Ali adiante, os ilhéus das Cabras – os de maiores dimensões existentes no arquipélago dos Açores. Permanecem há séculos como propriedade privada: o desembarque está proibido excepto a certos cientistas credenciados. Integram a Rede Natura 2000, como santuário de espécies protegidas, incluindo o cagarro, o garajau, a andorinha-do-mar e a tartaruga-boba.
Podem ser observados a curta distância de barco, em passeios organizados a partir de Angra. As cabras só se conservam no nome: deixaram há muito de pastar por lá.

Prossigo o passeio a pé, admirando a limpeza e a tranquilidade destas freguesias rurais numa sucessão de quintais e jardins bem cuidados.
Cruzo-me com pessoas que me cumprimentam sem me conhecer, como sucedia na Beira da minha infância. É uma das belas recordações que levo desta ilha.

A jornada abre o apetite. Termina à mesa do Rocha, já em Porto Judeu.
O clima roça a perfeição: janta-se no exterior. Chega à mesa um suculento polvo na telha, tenríssimo, envolto em molho de manteiga e alho. Acompanhado de legumes salteados e a batata doce açoriana tão do meu agrado.

Enquanto o sol se põe e a minha viagem à Terceira está prestes a chegar ao fim. Com a convicção reforçada de que não tardarei a planear o regresso.
À segunda foi de vez – e não haverá duas sem três.














































