Não haverá duas sem três


Pedro Correia,
Porto de Pipas, em Angra, visto do Forte de São Sebastião

Tenho há muito um princípio que procuro aplicar enquanto viajante (turistas são os outros, como é sabido). Deixar sempre alguma coisa por visitar nos destinos que procuro. Para aguçar a vontade do regresso.

Apliquei o mesmo princípio nesta deslocação à ilha Terceira, que tão bem me soube.

Não vi tudo quanto gostaria nem fiz questão de “esgotar a agenda”. Não viajamos melhor se andarmos com a obsessão de açambarcar imagens. É um disparate por vários motivos – desde logo por se tratar de utopia, obviamente impraticável. Jamais alguém vê tudo. E perdemos o tal interesse acrescido em regressar, sabendo-se que nunca há duas viagens iguais.

 

A beleza dos Açores é indissociável do mar

Viajar sem programa rígido ou demasiado definido dá-nos a vantagem suplementar da descoberta. Foi o que fiz no meu último dia completo na Terceira: andar a pé o mais possível, sem me afastar da orla marítima.

Comecei no Forte de São Sebastião, edificado no século XVI, hoje sobranceiro ao Porto de Pipas. Aqui chamam-lhe o Castelinho.

Foi o primeiro baluarte defensivo da ilha, viria a complementar-se com o Forte de São João Baptista estabelecendo uma temível linha de fogo cruzado que fazia vacilar os invasores, incluindo piratas e corsários. 

Forte está hoje integrado na rede de pousadas nacionais

A sua missão militar esgotou-se na guerra civil 1828-1834 entre absolutistas e constitucionalistas. Hoje alberga uma unidade hoteleira integrada na rede de pousadas de Portugal.

Mas pode ser visitado à vontade por quem apenas pretenda contemplar as vistas. Para este efeito, garanto, é magnífico.

Quem sonhe aqui pernoitar deverá levar em conta que este alojamento não está acessível a qualquer bolsa. Como acontece, de resto, na generalidade das pousadas portuguesas.

 

Ilhéus das Cabras vistos do miradouro da Cruz do Canário

Prossegui, a pé o mais possível. Até ao miradouro da Cruz do Canário, já na freguesia da Feteira. Caía a tarde, o panorama transbordava de beleza.

Ali adiante, os ilhéus das Cabras – os de maiores dimensões existentes no arquipélago dos Açores. Permanecem há séculos como propriedade privada: o desembarque está proibido excepto a certos cientistas credenciados. Integram a Rede Natura 2000, como santuário de espécies protegidas, incluindo o cagarro, o garajau, a andorinha-do-mar e a tartaruga-boba.

Podem ser observados a curta distância de barco, em passeios organizados a partir de Angra. As cabras só se conservam no nome: deixaram há muito de pastar por lá.

Ilhéus são propriedade privada

Prossigo o passeio a pé, admirando a limpeza e a tranquilidade destas freguesias rurais numa sucessão de quintais e jardins bem cuidados.

Cruzo-me com pessoas que me cumprimentam sem me conhecer, como sucedia na Beira da minha infância. É uma das belas recordações que levo desta ilha.

Varanda do restaurante Rocha, em Porto Judeu

A jornada abre o apetite. Termina à mesa do Rocha, já em Porto Judeu.

O clima roça a perfeição: janta-se no exterior. Chega à mesa um suculento polvo na telha, tenríssimo, envolto em molho de manteiga e alho. Acompanhado de legumes salteados e a batata doce açoriana tão do meu agrado.

Polvo na telha

Enquanto o sol se põe e a minha viagem à Terceira está prestes a chegar ao fim. Com a convicção reforçada de que não tardarei a planear o regresso.

À segunda foi de vez – e não haverá duas sem três.

O assombroso poder da natureza


Pedro Correia,

Uma digressão à Terceira ficará sempre incompleta sem uma visita ao Algar do Carvão, situado na cratera de um vulcão adormecido na Serra do Murião, freguesia de Porto Judeu. Resultante de erupções iniciadas há mais de 400 mil anos.

Algar, palavra derivada do árabe para significar caverna, é uma gruta natural com abertura vertical, formando a boca de um abismo. Esta inicia-se com uma chaminé vertical subterrânea de 45 metros de altura. Terá sido observada pela primeira vez no final do século XIX, mas só em 1963 tiveram aqui início visitas organizadas que desde então atraem gente de todo o mundo.

Descemos quase 100 metros numa escada em pedra. À chaminé segue-se uma rampa com 18 metros de desnível. Depois, nova vertical. Aí já perdemos de vista a boca do algar: observamos formações únicas de estalactites de sílica que se devem às lavas basálticas ali depositadas durante milénios após várias fases eruptivas.

Está classificada, sem favor algum, como monumento nacional regional: é uma cavidade vulcânica com magníficos cenários naturais, documentados nestas fotografias que captei na minha descida ao Algar.

Culmina numa deslumbrante lagoa de águas límpidas que chega a atingir 400m² de superfície a partir de infiltrações pluviais, bem evidentes. Na parte mais profunda, em anos muito chuvosos, forma um poço de 15 metros.

Quando regressamos à superfície, sentimo-nos incapazes de articular palavras, em sinal de recolhimento e respeito. O Algar do Carvão é muito mais do que atracção turística: é uma lição viva de ciência natural. E um exemplo evidente da pequenez humana face ao assombroso poder da natureza. 

Comer (22)


Pedro Correia,
Restaurante Verde Maçã (Rua Direita, 113 – Angra do Heroísmo)

O responsável foi Miguel Monjardino. No excelente livro em forma de diário que recentemente publicou, lembrando o que foram os tempos da pandemia, deu nota de duas ou três incursões a este restaurante – então com poucos clientes, à semelhança de qualquer outro.

São tempos que nos parecem já recuados, embora ninguém responsável deva apostar que não poderão repetir-se.

Decoração cuidada: o verde do nome também no painel da parede

Entrei lá, portanto, confiante de que iria comer bem. E não saí decepcionado. De tal maneira que regressei: sinal inequívoco de que esta casa já clássica, de idade respeitável e decoração retocada, me conquistou como cliente.

Senti-me aconchegado logo de entrada, quando chegou à mesa uma promissora tábua de azeitonas e queijo fresco com molho de malagueta. Acepipe de inconfundível travo açoriano.

Azeitonas e queijo fresco com molho de malagueta

Travo acentuado na etapa seguinte, com a tradicional alcatra de vaca – elemento essencial da gastronomia terceirense. Geralmente preparada num alguidar de barro untado com banha de porco onde se vão depositando sucessivas camadas de carne intercaladas com cebola picada, toucinho fumado, louro, cravinho e pimenta – tudo amplamente regado com o vetusto vinho de cheiro da região.

Segue-se lenta cozedura, durante horas, em forno de lenha até que a carne esteja imaculadamente tenra. Pronta a ser degustada.

Recomendo-a sem hesitar, tal como o prato que ali comi na visita seguinte: atum selado com esmagada de batata aromatizada e misto de cebola em tempura.

Alcatra de vaca
Atum selado

Passei ao lado dos bifes flamejantes, que parecem ser o grande cartaz do Verde Maçã. Ao ponto de não faltarem clientes a fazer-se fotografar junto ao carrinho onde as labaredas se levantam.

Mas não dispensei um copo de branco terceirense para aumentar a minha cultura vinícola de âmbito geral. Serviram-me Materramenta, de Biscoitos – castas Verdelho e Arinto dos Açores. Agradável.

O preço é proporcional à localização, na mais emblemática rua da cidade, e no respeito da promessa de só utilizarem ingredientes biológicos de alta qualidade e honrarem as boas tradições da confecção caseira dos alimentos. Sob a experiente batuta do chefe Alberto Silva, digno de elogio.

Mesmo sem trincar maçã alguma, devo concluir que valeu a pena. E aqui me confesso publicamente agradecido a Miguel Monjardino pela dica que, sem ele fazer ideia, forneceu a este leitor d’A Grande Ruptura em jornada pela sua ilha de que passei a gostar ainda mais.

Comer (21)


Pedro Correia,
Restaurante Tasca das Tias (Rua de São João, 113 – Angra do Heroísmo)

Para o bem e para o mal, não há impressões gastronómicas como as primeiras. A minha estreia à mesa, em Angra do Heroísmo, não podia ter corrido melhor. A hora de almoço ia adiantada, o apetite era muito e a falta de paciência para andar em busca de restaurantes impunha esta regra básica: teria de confiar em exclusivo na minha intuição.

Assim foi. 

A Tasca das Tias fica em pleno centro histórico da bela capital da Terceira. Localização perfeita para o visitante que desembarca esfomeado. Ali abanquei em busca de retemperador repasto.

Fiz bem. Gostei logo do que vi: decoração, atmosfera, atendimento. A ementa escrita a giz num quadro, como nas tabernas antigas. Pratos verdadeiramente tentadores, a preços razoáveis. Ambiente descontraído, propício à conversa. Sem pressa: os prazeres da vida devem ser prolongados, não abreviados.

Ementa à moda antiga, escrita a giz num quadro. Como nas tabernas clássicas

Não tardei a decidir: atum braseado. De excelente qualidade e confeccionado como eu gosto, de forma muito simples. Mal passado, apenas com sal e ervas aromáticas. Chega à mesa acolitado com batata doce e salada de tomate – esta servida em recipiente autónomo, como mandam as boas regras.

Assim decorreu o meu baptismo gastronómico em Angra. Enquanto esperava, experimentei um croquete de alcatra – carne moída com queijo de São Jorge, em adequado conúbio. Com um copo de vinho branco dos Açores que passou no teste: Lira, produzido na freguesia de Biscoitos, zona de solos vulcânicos da Terceira. Aromático e encorpado. Boa surpresa.

Atum braseado com batata doce. Vinho branco açoriano: Lira, de Biscoitos

Ficou aprovado? Claro. A tal ponto que, dias depois, repeti a dose. Trocando apenas o croquete inicial por uma sopa de tomate igualmente digna de elogio.

Até gostei do nome do restaurante, inaugurado em 2014. Estive na Tasca sem vislumbrar as Tias, porventura pessoas tímidas. Nem por isso deixo de lhes dar os parabéns.

História ao vivo, com luzes e sombras


Pedro Correia,
Actual Regimento de Guarnição n.º 1, antigo Batalhão de Infantaria 17

Por cá, chamam-lhe Castelo. Não é bem isso: trata-se de uma fortaleza. Estamos no aquartelamento de tropas operacionais mais antigo situado em território português com presença ininterrupta há mais de quatro séculos. Refiro-me ao Regimento de Angra do Heroísmo – o núcleo militar mais ocidental da Europa.

É visita obrigatória para quem vem à capital da Terceira. Domina o panorama como elemento tutelar do Monte Brasil, neste extremo sul da ilha. Desde a ´´ultima década do século XVI, estava Portugal sob domínio espanhol. Esta foi a parcela de território nacional que o rei Filipe mais tardou a submeter. Daí ter conjecturado sobre uma grande estrutura defensiva destinada a travar não apenas insurreições lusitanas mas também o ataque de corsários à cidade, situada na rota da prata americana e das especiarias das Índias.

São mais de cinco quilómetros de muralhas: envolvem todo o istmo e insinuam-se monte adentro, em curvas sinuosas e caprichosas. Em Portugal, só as de Elvas são mais extensas.

Passou a chamar-se Fortaleza de São João Baptista após a Restauração, em homenagem não apenas ao santo, primo de Jesus, mas ao primeiro rei Bragança, João também ele – o quarto com este nome.

Ganhou fama de inexpugnável nesta ilha dotada de oitenta fortes. Alguns transformados em deploráveis ruínas, como o das Cinco Ribeiras.

Estas muralhas existem há mais de 400 anos

Quem aqui entra, em visita organizada pelo Museu de Angra, depara logo com um painel de propaganda do Exército onde se lê: «Segurança hoje, bem-estar amanhã.» Há uma crise assumida de efectivos, o fim do serviço militar obrigatório encerrou uma longa etapa deste aquartelamento como pólo de encontro de mancebos oriundos de todos os cantos dos Açores e de outras partes do País. Socialização com farda no antigo Regimento de Infantaria n.º 17, agora Regimento de Guarnição n.º 1. Chegou a acolher 1500 militares, hoje reduzidos a escassa centena.

Diz-se que há cerca de 400 peças de artilharia espalhadas por aí – relíquias de outros tempos, ainda mais conturbados do que os actuais. As mais vistosas são as baterias aéreas – ainda apontadas aos céus – mandadas instalar em 1943 por Oliveira Salazar, que nunca pôs os pés nos Açores mas temia a ocupação do arquipélago por forças estrangeiras, durante a II Guerra Mundial, apesar da não-beligerância portuguesa.

Praça de armas. Ao fundo, o Palácio do Governador. Ali esteve detido Afonso VI

Aqui respira-se história por vários motivos.

Entre 1669 e 1674, foi local de degredo do deposto Rei Afonso VI, que se manteve como monarca nominal enquanto a condução do reino era confiada a D. Pedro II, seu irmão mais novo. Esteve recolhido num edifício anexo ao Palácio do Governador, este ainda hoje habitado, na soberba praça de armas. Viria a morrer em 1683, ainda enclausurado, no Palácio da Vila de Sintra.

Fez-se História também a 22 de Junho de 1828, quando aqui foi solenemente hasteada, pela primeira vez, a bela bandeira azul e branca da monarquia constitucional – símbolo do combate ao jugo absolutista, pavilhão nacional até 1910.

Esta cidadela viria a ser presídio noutros ciclos políticos. Entre 1896 e 1906 viveu aqui exilado o célebre Gungunhana, régulo dos vátuas de Gaza, no sul de Moçambique, derrotado por Mouzinho de Albuquerque em Chaimite. Um dos três parentes que o acompanharam integrou-se na sociedade local, empregou-se como vigilante do parque e aqui constituiu família. Tem descendentes em Angra.

Gungunhana, detido em Chaimite (1895) viveu aqui dez anos

Após a implantação da ditadura militar e a instauração do regime salazarista, entre 1926 e 1943, o presídio filipino foi reaberto para receber opositores políticos, sobretudo anarquistas e comunistas, em condições degradantes, nomeadamente nas celas do isolamento, sem janelas nem acesso a luz solar.

Menos conhecida – mas igualmente vergonhosa – foi a transformação da cidadela em campo de concentração para mais de 700 cidadãos de ascendência germânica residentes em todas as parcelas de Portugal, entre 1916 e 1919, a pretexto de se tratar de gente “inimiga” no contexto da I Guerra Mundial. Este número abrangia cidadãos integrados na nossa sociedade, naturalizados portugueses e até com filhos a servir no exército, após juramento perante a bandeira verde-rubra.

“Depósito de concentrados”, assim lhe chamaram na I República. Típico eufemismo à portuguesa.

Baía de Angra vista da fortaleza. Em primeiro plano, o parque do Relvão

Águas passadas. Nos dias actuais, mantendo a função militar que lhe deu fama, a Fortaleza de São João Baptista integra o conjunto arquitectónico que levou a UNESCO a proclamar Angra património mundial da humanidade, em 1983. Três anos após o devastador sismo que arruinou cerca de três quartos dos edifícios da cidade.

É também paisagem protegida, integrada no conjunto do Monte Brasil – um dos mais deslumbrantes cenários naturais do País.

Motivo de orgulho para os angrenses, para os terceirenses, para todos nós.

Comer (20)


Pedro Correia,

A praga já chegou aos Açores, terra de sólidas tradições gastronómicas. Refiro-me à praga da comida industrial de importação. Somos invadidos por uma profusão de kebabs, ramens, sushis e pizas de péssimo gosto e sem raízes entre nós. Consequência: uma geração inteira começa a desconhecer a genuína cozinha portuguesa, com alicerces seculares e tão procurada por quem nos visita. Apesar do interesse externo, nestes últimos anos, parecemos ser os primeiros a renegar este património – que também é história, memória, sabedoria e afecto. E senha de identidade.

Num mundo “globalizado”, como agora se diz, renegamos o que é nosso e abraçamos com devoção o que é alheio. Utilizo o plural, mas demarco-me dele. Fossem todos como eu e esta Nélia – e as restantes, tenham o nome que tiverem – iriam à falência por falta de procura. Comer não é só mastigar e saciar o apetite: é também, e sobretudo, um acto de cultura.

Ora a multiplicação de kebabs, para mim, é delito de lesa-cultura. Outros farão como entenderem. Eu não como nem calo.

Comer (19)


Pedro Correia,
Restaurante Beira Mar (São Mateus, Terceira)

«Faz marcação», haviam-me avisado. Não segui o conselho, mas tive sorte: consegui mesa no restaurante que mais queria conhecer na ilha Terceira. O Beira Mar, na atraente vila piscatória de São Mateus, a uns cinco quilómetros de Angra do Heroísmo. Ouvi falar dele pela primeira vez no programa Mesa Nacional, de saudosa memória, muito bem confeccionado pelo jornalista Paulo Salvador na TVI.

Cheguei cedo, ouviam-se as badaladas do meio-dia. Valeu-me isso para ficar bem sentado, de frente para o oceano – enquanto saboreava o fruto das suas águas.

Sabendo que estamos mesmo no fim da estação das lapas, evitei este petisco, aqui muito consumido no auge do Verão. Também não cedi à tentação de encomendar a sopa de marisco no pão, prato emblemático do restaurante fundado há mais de 60 anos como humilde casa de pasto e hoje procurado por clientes das mais diversas paragens. A sua fama galgou fronteiras.

Decidi-me pela sopa de peixe. Confesso: é uma das minhas iguarias de eleição. Estava exactamente como gosto: sem excesso de condimentos nem escassez de matéria piscícola. Na dose certa para me estimular as papilas gustativas, mais exigentes e reivindicativas do que a Comissão Executiva da CGTP.

Nas mesas em redor via gente aparentemente saciada com peixe grelhado – outro dos emblemas da casa. Mas preferi dar um passo adiante, procurando algo mais original. Fiz bem: os filetes de abrótea com molho de camarão recomendam-se. Fugindo à banalidade, escapando ao previsível. Só falta servir a salada mista em recipiente autónomo para merecer cotação máxima.

Inútil, neste estabelecimento, pedir vinho açoriano: é do Douro aquele que nos vem apresentado como sendo «da casa». Pormenor de somenos quando consumimos parte do nosso tempo a beber a paisagem. Os olhos comem, como é sabido. Falta acrescentar isto ao truísmo: eles também bebem.

Sei do que falo: senti isso à mesa do Beira Mar. Sem surpresa, reconheço. Hei-de voltar. Para travar conhecimento com aquela sopa de marisco no pão que primeiro recusei e depois me ficou atravessada.

Os olhos também bebem – aqui mais ainda

Angra de todas as cores


Pedro Correia,
Igreja de Nossa Senhora da Conceição
Museu de Angra do Heroísmo e antigo convento de São Francisco
Solar de Nossa Senhora dos Remédios
Igreja de Nossa Senhora do Carmo
Palácio dos Capitães-Generais
Hotel Teatro
Igreja de São João Baptista
Teatro Angrense
Império da Rua Nova
Império do Largo de Santo Cristo
Casa dos Almeidas, na Rua da Sé
Alto da Memória

À segunda, na Terceira


Pedro Correia,
Baía de Angra do Heroísmo vista do Monte Brasil

Estou numa cidade portuguesa, mas não parece. Nem lixo despejado nas ruas, nem paredes grafitadas, nem carros estacionados nos passeios impedindo a circulação pedestre. Não é fatal que seja assim, como demonstra Angra do Heroísmo, que visito agora, vinte anos depois, pela segunda vez.

Mudou para melhor, mas o essencial já estava aqui: esta comunhão entre ser humano e natureza, menos exuberante do que noutras ilhas açorianas mas emoldurando cada quilómetro percorrido. Cidade duas vezes capital do reino, resistiu bravamente à invasão castelhana em 1580 e ao domínio absolutista em 1829. “Do Heroísmo”, assim a crismou a Rainha D. Maria II, sob proposta de Almeida Garrett, que aqui passou parte da infância.

Galgo o Monte Brasil, vejo a silhueta de São Jorge recortada com nitidez em fundo, contemplo o horizonte tingido de azul neste extremo sul da Terceira.

Pasto de bruma, dizem. Não agora. Por estes dias já de Outono mas ainda estivais, as brumas ocultaram-se, o sol desvenda-se envolto em humidade. Jornadas de amplitude térmica mínima.

Almoço filetes de abrótea com molho de camarão à mesa do Beira-Mar, relíquia gastronómica no porto de pesca de São Mateus.

O ritmo aqui é outro. Mais sábio, mais vagaroso, mais receptivo ao dom da vida.

 

São Mateus, porto piscatório

Subo e desço colinas nesta cidade colorida – nada baça, nada cinzenta, nada uniforme. Era sonho antigo demorar-me aqui, como visitante grato, driblando os pacotes turísticos que nos prometem “conhecer quatro ilhas” em cinco dias. Tolice. Cada uma tem personalidade própria, merece um olhar exclusivo. Saboreando cada manhã desde o nascer-do-sol.

Vim das Lajes de onde os americanos estiveram quase a sair antes das presentes convulsões geopolíticas: mudaram de ideias e agora parecem mais instalados que nunca, neste porta-aviões natural situado a 1500 quilómetros de Lisboa e a quatro mil de Boston (distância que diminui para 3000 km na ilha das Flores, a mais ocidental do arquipélago).

«Naquele tempo os americanos distribuíam caixinhas por todas as escolas da ilha. O dia das caixinhas em magia era igual ao de Natal.» Assim começa um excelente conto de Mário Cabral, prosador e poeta terceirense. Acabo de ler um livro dele, Meteorologia. 

Sento-me no magnífico jardim botânico Duque da Terceira (um dos mais belos parques públicos que conheço em Portugal) e deixo as horas rolar. Sem notícias, sem agenda, sem hor´ário nem calendário. Embalado pelo som alegre dos pássaros neste pequeno paraíso que lhes pertence por inteiro. Por uns dias, é como se fosse um pouco meu também.

Amante de ilhas, sinto que poderia viver nesta para sempre.

Jardim Duque da Terceira, um dos mais belos do País