De monotema em monotema


Pedro Correia,

 

Inacreditável. Horas e horas nisto. Cristiano Ronaldo abandonou o estágio da selecção portuguesa de futebol e durante um dia inteiro ninguém fala noutro assunto em Portugal. O mesmo país onde há duas semanas só se falava em Luís Neves, igualmente em exclusivo.

Esquizofrenia jornalística e comentarística. De monotema em monotema.

Nós somos bestiais, eles umas bestas


Pedro Correia,

 

Então é assim. Não sei se também já repararam.

 

Enquanto a chama da conquista de um título permanece acesa, narradores e comentadores de futebol, cá no torrão pátrio, adoptam uma linguagem moldada ao colectivo, sentindo-se parte integrante de uma gesta épica. De uma nação valente, com egrégios avós. De um nobre povo que deu novos mundos ao mundo.

 

Dizem frases como estas:

Jogámos muito bem.

Demos uma lição de futebol.

Mantemos as esperanças intactas.

A nossa selecção é candidata à vitória final.

Os nossos jogadores são cada vez mais respeitados e até temidos no mundo inteiro.

Cristiano Ronaldo personifica o reavivar dos sonhos lusitanos na equipa de todos nós.

 

Quando o sonho se desmorona, logo o sujeito da oração se altera: deixa de ser colectivo. E a forma verbal dominante também sofre drástica mutação, transitando da primeira do plural para a terceira do singular no mesmo espaço de narração e comentário. Acentuando distâncias, com nítido tom de desprezo e até um certo esgar de nojo.

 

Com frases como estas:

A equipa vacilou nos instantes decisivos.

Os avançados ficaram muito aquém daquilo que os adeptos lhes exigiam.

O seleccionador escolheu mal os titulares e mostrou-se incompetente na gestão do onze. 

A selecção regressa a Portugal sem nenhum título conquistado, em clima de apagada e vil tristeza.

Cristiano Ronaldo comprovou que já não tem idade nem pedalada para competições de alto nível.

 

Do oito para o oitenta, enquanto o diabo esfrega um olho, quem era bestial vira besta.

Somos assim. Ou antes: eles são. Nunca me enganaram, eu bem os topo.

O ódio ao sucesso alheio


Pedro Correia,


Os mesmos que diziam que ele estava paralítico e parecia uma estátua agora gritam até à rouquidão com os dois golos que acaba de marcar no Mundial, na goleada (5-0) frente aos usbeques em Houston.

Cristiano Ronaldo surge hoje nas manchetes da imprensa de todo o globo. Por excelentes motivos: é o primeiro futebolista a marcar em seis campeonatos do mundo, tornou-se o maior artilheiro português de sempre na única competição da modalidade à escala planetária. E é o segundo goleador mais velho a metê-la lá dentro em mundiais.

Enfim, nada de novo. O ódio ao sucesso alheio, sobretudo se for de um compatriota, é mais antigo do que o Condado Portucalense.

Tugal


Pedro Correia,

 

Mais de 60% dos portugueses, segundo o Expresso, exprimem apoio à greve que hoje promete paralisar transportes aéreos, ferroviários, rodoviários, marítimos e fluviais, além de escolas, creches, hospitais, centros de saúde, lares para idosos, centros de dia, tribunais, protecção civil, serviços de higiene e limpeza, universidades, museus, arquivos e bibliotecas. Tal apoio abrange até metade dos eleitores da AD. Isto num país onde só 7,2% dos trabalhadores estão sindicalizados, como revela o Público. Em 1977, a taxa de sindicalização subia aos 77%.

Apoio abstracto às centrais sindicais que decretaram a primeira greve geral conjunta em 12 anos, indiferença total quando chega o momento do apoio concreto – começando pelo pagamento de quotas, situado em metade da média dos países da OCDE. 

Mais palavras para quê? Tugal no seu melhor.

Nove anos depois do Europeu


Pedro Correia,

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A 10 de Julho de 2016 – há nove anos exactos – a selecção nacional de futebol sagrava-se campeã da Europa. Derrotando na final a equipa anfitriã, a de França.

Selecção formada por portugueses, treinada por um português, tendo por capitão um português cinco vezes eleito o melhor futebolista do mundo. Elogiada por numerosos estrangeiros. Mas depreciada em Portugal desde o primeiro dia. Depreciação que se prolongou mesmo após a conquista do cobiçado troféu, nunca antes ganho por uma equipa portuguesa. Que não houve mérito, que só foi possível por sorte, que melhores eram as outras, etc.

 

Faz parte do nosso inconsciente colectivo. Talvez seja até componente da nossa identidade nacional.

Uns edificam, constroem, distinguem-se, galgam fronteiras, alcançam proezas, superam obstáculos, dobram cabos das tormentas. Outros permanecem no sofá doméstico a ruminar críticas ao sucesso alheio.

 

Faz parte de uma “certa maneira de ser português”.

E não é de agora. É de sempre.

Polémica tuga sobre o luto pelo Papa


Pedro Correia,

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Medra uma acesa polémica nas redes digitais em torno dos três dias de luto nacional concedidos pelo Governo para assinalar o falecimento do Papa Francisco, esta manhã sepultado em Roma.

Porquê? Porque Portugal “é um Estado laico”. 

Uma daquelas polémicas tipo bolhas de sabão, tão férteis no caldeirão das redes, como a dos jacarandás de uma avenida lisboeta que há um par de semanas sobressaltava outras almas – ou talvez as mesmas. 

 

Acontece que o luto nacional por um líder religioso em nada fere a laicidade do Estado. Muito débil andaria a dita laicidade se assim fosse. Muito menos de uma confissão religiosa claramente maioritária no País (80,2% dos portugueses declaram-se católicos) e que aliás precede a própria fundação da nacionalidade. Ou seja, antes de haver Estado neste território que hoje chamamos Portugal, já existia religião cristã. 

Acresce que a declaração de três dias de luto nacional é prática reiterada, não nasceu agora. Aconteceu há 20 anos, quando faleceu o Papa João Paulo II e o Chefe do Estado português era Jorge Sampaio, que aliás compareceu às exéquias solenes do Pontífice no Vaticano. À data, José Sócrates chefiava o Governo.

Falta sublinhar que, à luz do direito internacional, Francisco era também chefe de um Estado – a Santa Sé. Figura política, não apenas religiosa. 

 

Três dias de luto nacional decretados pelo Estado português mereceram antes, por exemplo, o presidente egípcio Anwar Sadat (1981), Samora Machel (1986), o imperador japonês Hirohito (1989), Nelson Mandela (2013) e a Rainha Isabel II (2022), aliás também chefe da Igreja Anglicana. 

Já o Estado brasileiro, igualmente laico, não fez a coisa por menos: Lula da Silva decretou sete dias de luto nacional pela morte do Papa. E dirigiu-se aos cidadãos do seu país enaltecendo a figura de Francisco em palavras comovidas, além de ter comparecido não apenas no funeral mas no próprio velório do Santo Padre, que contou com a presença de 60 chefes de Estado – 51 presidentes e nove monarcas – e 18 primeiros-ministros. 

O que talvez cale alguns dos críticos cá na terra, muitos deles admiradores incondicionais do socialista Lula. Ou, se calhar, não. As redes equivalem às fornalhas: precisam de ser alimentadas com incessante combustível. Quando não há polémica, qualquer pretexto serve para parir mais uma.

Da idolatria


Pedro Correia,

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Os comentadores da direita extremista – como se verifica nas caixas de comentários do DELITO – expressam um ódio à Europa liberal em tudo idêntico ao da esquerda mais extremista.

Ódio que tem hoje farol e guia: Donald Trump, cem por cento descendente de europeus, filho de imigrantes de segunda geração e neto de quatro avós que não tiveram o inglês como língua materna. *

 

Este ódio visceral está expresso numa frase debitada anteontem pelo novo-velho inquilino da Casa Branca, com a elegância que o caracteriza e a arrepiante ignorância histórica de que dá mostras quotidianas: «A UE foi criada para lixar os EUA.»

Mas este assumido anti-europeu e “pacifista” belicoso que acaba de declarar guerra comercial à União Europeia impondo taxas draconianas à importação de produtos aqui produzidos (prejudicando também Portugal), num ataque despudorado aos princípios liberais, vive no lado de lá do oceano.

Pode dar-se ao luxo de tratar inimigos como aliados e aliados como inimigos. É, aliás, o que tem feito desde o primeiro dia do seu novo mandato.

 

Os fanáticos apoiantes dele cá do burgo beneficiam da democracia liberal europeia (o sistema político mais invejado do mundo), mas escrevem como se odiassem Portugal. E como se desejassem viver na terra do Tio Sam.

Azar deles: o falso pacifista, filho e neto de imigrantes, declarou guerra também à imigração. Nenhum destes membros tugas do seu clube de fãs seria hoje admitido como residente nos EUA. Para não contaminarem a “Terra Prometida”.

Terão de aplaudir o Bonaparte de Mar-a-Lago à distância.

Coitados, deve ser penoso. Idolatram quem os rejeita – a eles, ao país onde nasceram, ao continente onde residem.

 

* Trump assinou hoje um decreto impondo o inglês como idioma oficial dos EUA, facto inédito na história do país, independente há quase 250 anos. Freud talvez explique.

Da doentia exibição da inveja


Pedro Correia,

Poucas coisas me chocam tanto como a exibição – tão tristemente portuguesa – da inveja e do despeito perante todos aqueles que se distinguem, se valorizam, se superam a si próprios, conseguindo ultrapassar a estreiteza de horizontes a que poderiam estar condenados, contrariando todas as sinas e todos os fados para singrar na vida.

Se esse sucesso ocorrer num palco internacional, suscitando aplausos além-fronteiras, a inveja aumenta em proporção geométrica. E atinge delírios irracionais.

De todos os sintomas de menoridade que nos caracterizam, este é um dos mais notórios. E um dos mais entranhados. Como se fizesse parte do nosso inconsciente colectivo. E talvez faça mesmo, o que explica muito do que se lê e escuta por aí.

Mali, Senegal ou Congo: é só escolher


Pedro Correia,

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Reparo no logótipo eleitoral 2024, que vi aqui pela primeira vez.

Passámos mesmo então a ter oficialmente três cores listadas: verde, amarelo e vermelho. Como o Mali, o Senegal, a Etiópia, a Guiné, o Congo, Benim, Gana ou os Camarões. Por vontade do Executivo com maioria absoluta de menor duração da nossa história democrática.

Enfim, um governo absolutamente incapaz de fazer reformas ao fim de oito anos de mandato ininterrupto encontrou aqui um desígnio reformista: transformar a bicolor bandeira portuguesa em tri – talvez como símbolo da “interseccionalidade”, ou lá como chamam a essa treta.

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Mas se o amarelo da esfera armilar tem pujança suficiente para ser promovido a faixa cromática autónoma, emparceirando com o verde e o vermelho, por que raio discriminar o azul e o branco, que também pigmentam o escudo nacional?

Eis outra sugestão “reformista”, agora já só possível de aplicar na próxima legislatura. Uma bandeira pentacolor. À atenção de quem se prepara para congeminar o programa eleitoral do P(Nuno)S.

Entretanto, deixo aqui três cromos. Com as bandeiras de alguns dos países africanos a que estes génios da desgovernação nos querem equiparar. Façam o favor de escolher qual é a da vossa preferência.

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Bandeira do Mali

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Bandeira do Senegal

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Bandeira do Congo

O país das quatro mil taxas


Pedro Correia,

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É um número impressionante: há mais de quatro mil taxas em Portugal. Serão cerca de 4300, em números redondos – cerca de 2900 cobradas pela Administração Central.

Tantas, ao ponto de ninguém conseguir uma lista exaustiva, rigorosa e actualizada de tudo isto. Que serve para confirmar como é demencial o esbulho tributário neste país, o sétimo pior em distribuição de riqueza per capita na União Europeia.

Alguns, geralmente da esquerda mais radical, dizem que «ainda falta fazer a revolução». Dou desde já o meu contributo: acabar com estas taxas. Revolução digna de aplauso. Mãos à obra, camaradas.

Um país esquizofrénico


Pedro Correia,

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A primeira página do Expresso da semana passada propicia-nos a imagem de um país esquizofrénico. Este, o nosso. Em que o «preço das casas tira 76 mil pessoas de Lisboa e Porto», em que «só 7% das empresas sobem salários ao nível da inflação», em que o «cabaz de alimentos nunca esteve tão caro» e em que até o presidente do grupo Jerónimo Martins reconhece que «muitos já não têm com que comprar» nesta doce nação agora no oitavo ano consecutivo sob a batuta de António Costa.

Isto por um lado. Por outro, com títulos colados a estes, celebra-se o «turismo em alta no Natal e no Ano Novo» e divulgam-se «126 ideias de sugestões e prendas». Uma dessas sugestões do Expresso pode adquirir-se pela módica quantia de 1420 euros – muito acima do salário médio de um português. É um elegante “cadeirão Harold”, com «estofo aveludado em verde, com pés em nogueira e acabamento em mate». A perfeita prenda natalícia.

País esquizofrénico. Imprensa esquizofrénica também.

Sede interminável


Pedro Correia,

– E para beber, o que deseja?

– Uma cola.

– Não temos. Só Pepsi. Pode ser?

– Pode. Pepsi também é cola.

– Como disse?

– Nada…

– E deseja a Pepsi fresca?

– Claro.

– Gelo e limão?

– Limão, não. Só gelo.

– Não deseja limão?

– Não. Só gelo.

– E quantas pedras?

– Duas ou três.

– Uma palhinha?

– Não é preciso. Detesto palhinhas.

– Como disse?

– Nada…

Inquéritos à portuguesa


Pedro Correia,

Três semanas depois do “rigoroso inquérito” mandado instaurar pelo ministro da Administração Interna aos distúrbios ocorridos no dia em que o Sporting se sagrou campeão nacional de futebol, alguém faz a mais remota ideia acerca disto? Qual o ponto da situação? Ainda não apuraram nada? Estão à espera que passe mais quanto tempo?

E o ministro, o que tem a dizer a isto? Terá mesmo alguma coisa a dizer?