
Então é assim. Não sei se também já repararam.
Enquanto a chama da conquista de um título permanece acesa, narradores e comentadores de futebol, cá no torrão pátrio, adoptam uma linguagem moldada ao colectivo, sentindo-se parte integrante de uma gesta épica. De uma nação valente, com egrégios avós. De um nobre povo que deu novos mundos ao mundo.
Dizem frases como estas:
Jogámos muito bem.
Demos uma lição de futebol.
Mantemos as esperanças intactas.
A nossa selecção é candidata à vitória final.
Os nossos jogadores são cada vez mais respeitados e até temidos no mundo inteiro.
Cristiano Ronaldo personifica o reavivar dos sonhos lusitanos na equipa de todos nós.
Quando o sonho se desmorona, logo o sujeito da oração se altera: deixa de ser colectivo. E a forma verbal dominante também sofre drástica mutação, transitando da primeira do plural para a terceira do singular no mesmo espaço de narração e comentário. Acentuando distâncias, com nítido tom de desprezo e até um certo esgar de nojo.
Com frases como estas:
A equipa vacilou nos instantes decisivos.
Os avançados ficaram muito aquém daquilo que os adeptos lhes exigiam.
O seleccionador escolheu mal os titulares e mostrou-se incompetente na gestão do onze.
A selecção regressa a Portugal sem nenhum título conquistado, em clima de apagada e vil tristeza.
Cristiano Ronaldo comprovou que já não tem idade nem pedalada para competições de alto nível.
Do oito para o oitenta, enquanto o diabo esfrega um olho, quem era bestial vira besta.
Somos assim. Ou antes: eles são. Nunca me enganaram, eu bem os topo.