Obsceno


Pedro Correia,

Quase cinco anos após o início da selvática agressão russa à Ucrânia, desencadeando o maior conflito bélico em continente europeu desde a II Guerra Mundial, Lula da Silva mostra a sua pior face no plano externo, colando-se sem pudor a Putin. Precisamente no momento em que a Federação Russa redobra as acções de morticínio na nação vizinha, sem poupar população civil.

Em longa conversa telefónica com o inquilino do Kremlin, Lula acentuou a necessidade de estreitar (ainda mais) as relações Brasília-Moscovo. A «paz» que apregoa significaria a rendição da Ucrânia, algo que jamais acontecerá. E ele não desconhece isto. Tal como não ignora que o Conselho de Segurança das Nações Unidas está paralisado, incapaz de solucionar este conflito, precisamente pelo veto russo. Daí que seja hipócrita o seu lamento pela «incapacidade do Conselho de Segurança em encaminhar uma solução» para o morticínio ucraniano. Chora lágrimas de crocodilo.

Surpreendente? Nem por isso.

Este é o Lula que logo em Maio de 2022 – mês e meio após a invasão – acusou Zelenski de «mentir ao seu povo» e ser «tão responsável» como Putin pela guerra. E que em Setembro de 2024, em intervenção na Assembleia-Geral das Nações Unidas, denunciou a «falta de esperteza» do líder ucraniano.

Este é o Lula que em 2019, cinco anos após a Rússia ter abocanhado a Crimeia, vomitou esta ignomínia: «Estou orgulhoso do papel do Putin na história mundial actual.» O mesmo Lula que chamava «amigo e irmão» a Kadafi e «companheiro» a Ortega. O mesmo que entoou hossanas a Mubarak, concedeu a maior condecoração do Brasil a Assad e declarou sem rodeios que «o mundo tem de aprender com a China a ter estado e partido fortes.»

Simplesmente obsceno. Não encontro outro palavra mais adequada.

O barqueiro do Volga


Pedro Correia,

A invasão em larga escala da Ucrânia pela tropa armada da Federação Russa iria durar escassos dias, antecipavam em Fevereiro de 2022 os putinistas tugas, fiéis serventuários do amo do Kremlin.

Enganaram-se redondamente. A guerra já dura há quatro anos e cinco meses. Há exactamente 1598 dias. Mais tempo do que durou toda a I Guerra Mundial (1568 dias) e do que a participação soviética na II Guerra Mundial (1418 dias).

Nada disto parece refrear o entusiasmo do major-general Agostinho Costa. Qual barqueiro do Volga, lá continua ele a remar incansavelmente entre hossanas ao tirano moscovita no canal de televisão que lhe dá guarida.

 

Ontem mostrou-se ainda mais fervoroso nas suas odes em louvor de Putin e nos seus recitais de ódio a Zelenski.

Aqui ficam alguns dos fragmentos mais viscosos:

«O esforço da Ucrânia é em recrutar mercenários.»

«Quando uma guerra é conduzida por mercenários e não por nacionais, o futuro não é brilhante.»

«A nível táctico as coisas estão a correr bem aos russos.»

«Dizem que a Rússia é uma ditadura. Não é bem assim.»

«Não podemos esquecer que o senhor Putin, além de jogador de xadrez, é cinturão negro de judo.»

 

Aquilo soava tanto a propaganda ao agressor que a competente jornalista da CNN Portugal foi incapaz de esconder um ar de enfado – pareceu-me até de repulsa. E não tardou a pôr termo à ladainha, o que justifica aplauso.

Bem sei que o dislate é livre – e propicia audiências. Mas há um decoro mínimo a preservar, em respeito pelas vítimas do “cinturão negro” na Ucrânia e do bom nome profissional de quem trabalha na televisão.

E também por elementar higiene cívica.

Indignidade moral (na CNN portuguesa)


Pedro Correia,

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Há mais de quatro anos que o major-general Agostinho Costa insulta não apenas o Presidente Zelenski, mas todo o povo ucraniano – alvo de atrocidades por parte da Federação Russa, ininterruptamente, desde Fevereiro de 2022.

Mais do que isto: insulta também a inteligência dos espectadores da CNN Portugal, onde tem lugar cativo. 

Insulta ao entoar hossanas ao ditador russo, ecoando no canal português a mais sabuja propaganda do Kremlin. Desde o primeiro dia da invasão, com declarações infames sobre Zelenski, totalmente divorciadas da realidade. Anunciando “conquistas” que nunca se concretizaram. E procurando lançar lama sobre os resistentes à agressão russa, determinados a não se vergar ao invasor em confrontos que já se prolongam há mais tempo do que os 1569 dias de duração da I Guerra Mundial, entre 1914 e 1918.

Péssimo estratego, Putin enganou-se redondamente ao supor que conseguiria ocupar Kiev, derrubar o legítimo Governo da Ucrânia e assassinar Zelenski em duas semanas.

 

Em cega obediência ao déspota moscovita, Costa prossegue fiel à cartilha que tristemente o celebrizou. A 28 de Fevereiro de 2022 – escassos quatro dias após a invasão russa, quando ainda lhe davam palco na SIC Notícias, atreveu-se a bolçar esta infâmia, jamais confirmada: «Estou convencido que o senhor Zelenski já não está lá [em Kiev]. Senão a gente via-o na rua. Já não está lá. Está certamente em Lviv.»

Em Setembro de 2024, já no canal televisivo que depois o acolheu a tempo inteiro (e que, com ele em antena, mais parece réplica tuga da RT), imaginava «cogumelos nucleares» em cidades norte-americanas. E proclamava, com indisfarçável ódio aos ucranianos que ousaram sair em defesa da soberania e da integridade territorial do seu país: «No Donbass a situação é catastrófica para as forças ucranianas. Neste momento a Ucrânia está numa situação de emergência. O risco neste momento não é se a Ucrânia vai perder – é quando a Ucrânia vai perder, como vai perder e onde é que param os russos.»

 

Dois anos depois, como é óbvio, nada disto se confirmou. O que deve ter acentuado a raiva do comentador, que anteontem bateu um recorde pessoal de indignidade ao comparar Zelenski a Hitler. Anotei as palavras dele: «O Führer, quando estava no búnquer, também dizia que estava a ganhar a guerra. Zelenski há-de dizer que ganha a guerra até ao último dos seus dias como presidente.»

Linguagem totalmente inaceitável. Pela infâmia. E pela gritante distorção dos factos: quem invadiu um país vizinho e vive num búnquer é Putin.

O limite da decência foi de tal modo ultrapassado que a jornalista responsável pela condução daquele espaço informativo, com elegância mas firmeza, pôs de imediato fim ao tempo de antena do major-general.

O ódio até pode aumentar audiências, mas há um limite moral para tudo.

«A parada dos vencidos»


Paulo Sousa,

«A Rússia que prometeu tomar Kyev em três dias mobilizou-se para impedir que drones ucranianos estragassem a liturgia sagrada da Praça Vermelha. O país que, segundo a propaganda do Kremlin, nem sequer existe, tornou-se suficientemente real para condicionar a festa maior do regime. Há ironias que dispensam comentário, embora o Kremlin continue a fornecê-lo em excesso. (…)

A tragédia estratégica de Putin é quase perfeita na sua simetria. Quis impedir a Ucrânia de se tornar uma nação ocidental e transformou-a numa das sociedades militares mais inovadoras do mundo. Quis dividir a Europa e conseguiu acordá-la do seu pacifismo sonolento. Quis afastar a NATO das fronteiras russas e ofereceu-lhe novos membros, nova razão de ser e nova urgência. Quis restaurar o império e acabou por entregar a Rússia, com desconto e recibo, à China. É uma lista de sucessos que faria corar de vergonha um sabotador mediano. (…)

E depois há a dependência chinesa, talvez a mais humilhante das derrotas de Putin. O homem que prometeu devolver à Rússia a grandeza histórica está a colocá-la numa posição de kowtow perante Pequim. Vende energia mais barata, compra produtos mais caros, aceita condições piores e chama a isso parceria estratégica. A China não precisa de conquistar a Rússia. Basta esperar. Moscovo encarrega-se de entregar, contrato a contrato, factura a factura, aquilo que já não consegue sustentar sozinha.(…)

A parada da vitória devia mostrar uma Rússia invencível. Mostrou uma Rússia encolhida. Devia celebrar poder. Celebrou medo. Devia projectar império. Projectou isolamento. No fim, Putin ficou na Praça Vermelha rodeado de bandeiras, soldados norte-coreanos, câmaras e mentiras, cada vez mais só perante a única força que nunca conseguiu bombardear: a realidade.

E a realidade, ao contrário dos generais russos, não desfila. Avança. Não pede licença, não presta continência, não aparece em uniforme de gala. Chega sem música, sem coreografia e sem autorização do Kremlin. Este ano, chegou ao ponto de obrigar o czar, que tantas vezes caminhou a pé para depositar flores no monumento ao soldado desconhecido, a recolher-se atrás da blindagem de um carro. Há imagens que valem por epitáfios políticos. Esta é uma delas.»

Excertos do artigo de opinião do Coronel José do Carmo, no Observador

Profetas da nossa terra (79)


Pedro Correia,

 

«Não parece, à primeira vista, que a Rússia tenha qualquer interesse, neste momento, em invadir a Ucrânia.»

João Melo, director da revista África 21, 15 de Fevereiro de 2022

 

«A Rússia, vendo-se sem saída, reagiu como era expectável. Arguir agora que se tratou de uma surpresa é, literalmente, conversa para boi dormir. »

João Melo, director da revista África 21, 1 de Março de 2022

Penso rápido (117)


Pedro Correia,


Em Abril de 2022 a Rússia ocupava 19,6% de território ucraniano.

Agora, mais de um milhão de baixas russas depois, ocupa 19,2%.

Bastam estes números para se perceber a imensa estupidez de Putin e da sua alucinada “operação militar especial”. Um dia há-de ser estudada nas academias como exemplo supremo de incompetência militar.

Podem ameaçar incendiar este mundo e o outro se Kiev não ceder.

Inúteis ameaças. Está confirmado: os heróicos ucranianos não se renderão.

Profetas da nossa terra (78)


Pedro Correia,

 

«Sendo claro que, passadas quase duas semanas do início da invasão, ela só vai terminar com a derrota e ocupação da Ucrânia e que, quanto mais durar a guerra, mais destruído ficará o país, não será altura de a União Europeia, sem prejuízo da condenação da invasão e da solidariedade com Kiev, reponderar a sua atitude passional e de alinhamento acrítico com Washington?»

Vital Moreira no blogue Causa Nossa, 7 de Março de 2022

Slava Ukraini! Diakuiu!


jpt,

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Passam hoje exactamente 4 anos que a Rússia encetou a sua “Operação Militar Especial na Ucrânia”. Ao presidente Zelensky foi oferecida a pronta evacuação e ele deu a resposta que o colocou na História: “A luta é aqui, não preciso de uma boleia mas sim de munições”.

 

O ditador fascista Putin julgou que tudo se resumiria a um célere Anschluss russófono. Dois ou três dias depois do ataque – com os célebres tanques russos cavalgando rumo a Kiev – discursou televisamente às massas ucranianas, convidando-as a aderirem às (fraternais) tropas russas e a saudarem a união. Entretanto a sua máquina propagandística internacional resumia o poder de Kiev a um conglomerado de “palhaços” (Zelensky fora um actor cómico), “drogados”, “corruptos”, “judeus” e “neonazis”. E era evidente que presumiria um “efeito dominó” nas anteriores áreas do império russo-soviético.

 

 

A Ucrânia decidiu resistir! 4 anos brutais, com custos enormes. A Rússia decidiu insistir, num conflito que já lhe é mais longo do que que o teve durante a II Guerra Mundial – recorrendo a “carne para canhão” oriunda das zonas limítrofes do seu império (sem que os “decoloniais” ocidentais sobre isso elaborem, já agora…), a mercenários, a prisioneiros, depois a tropas norte-coreanas, agora a africanas. E, tal como a Ucrânia, tem tido enormes perdas humanas, que virão a ter – aventam especialistas – impressionantes repercussões demográficas futuras. E custos económicos cuja totalidade é ainda imperscrutável. Para além dos geoestratégicos: crispou-se por décadas com a Europa, esta antes dela preguiçosamente dependente em matérias energéticas, e a essa fez mais congregar. Provocou o alargamento da NATO junto das suas fronteiras, acentuou a sua dependência para com a China – e as fricções sino-russas serão o futuro.

 

Esta guerra não poderá eternizar-se, por razões humanitárias e também por se presumir estar exaurido o povo ucraniano. O carácter sinuoso e errático actual governo norte-americano mais indicia que com relativa brevidade haverá um acordo de paz, com perdas territoriais da Ucrânia – que desde o início seriam de esperar. Mas mesmo assim a Rússia de Putin terá uma enorme derrota, “comprará” caríssimo o que julgou que seria “grátis”. Pois inexistiu a eufórica “re-união”, o tal Anschluss em êxtase russófilo – e de que maneira. E o ambicionado “efeito dominó” transitou de sonho para pesadelo.

 

Neste processo se poderá retirar que as democracias liberais europeias, mesmo se enredadas numa tibubeante concatenação de Estados independentes e poluídas por orbanites, se conseguiram reunir e defender. É certo que quando o tal tratado de paz for concluído, logo virão rejubilar os sobreviventes comunistas – cuja demência senil ainda entrevê em Moscovo o aliado anti-“capitalista” preferencial. E também rejubilarão os fósseis fascistas – esses rústicos paladinos da “Europa das Nações” que se desfazem em simpatias por uma Rússia que se deseja império… transnacional. Então convirá recordar que essas gentes política e eleitoralmente valem nada mais do que um pêlo púbico. E intelectualmente apenas um pêlo púbico sujo.

 

Tudo isto muito influenciou a nossa economia e a nossa (geo)política. A UE e concomitante “Europa” muito mudou. Esperemos que o crime putinesco venha a ser uma serendipidade histórica. Influenciando a Europa democrática, fazendo-a perceber duradouramente da necessidade de aumentar as interacções, reforçar a defesa conjunta, variar as fontes energéticas, independer de aliados preferenciais. E nunca esquecer o “it’s the economy, stupid”, desburocratizar e inovar na “reindustrialização” (não dickensiana, como é óbvio).

 

Enfim, agora tanto como antes, Slava Ukraini! Independentemente de defeitos e erros que os seus políticos tenham ou possam ter.

 

Aliás, mais, Slava Ukraini! com todos os defeitos que ali existam. Obrigado! Diakuiu!

 

*****

 

Por cá, para além da carestia de vida, e da angústia humanitária, o processo também influenciou politicamente. No mês anterior ao início da guerra tinha havido eleições. O PCP obtivera 4,3% dos votos, elegendo 6 deputados. A sua antidemocrática essência conduziu-o a refutar a condenação de Putin, num falsário “relativismo” “pacificista”. Com um pacóvio afã suicidário, a sua direcção sempre se recusou a aceitar a realidade de uma “invasão”, optando despudoradamente pela utilização do jargão putinesco, sempre falando de “operação militar especial”. Depois, em 2025, após 3 longos anos de guerra e 3 curtos anos legislativos, foi de novo a votos: captou 3% de votos e elegeu 3 deputados, perdendo metade da representação parlamentar. Outras causas terão contribuído para isso. Mas a sua recusa numa vigorosa refutação do fascismo imperialista decerto que teve efeitos.

 

O sempre ufano BE também se espalhou. 3 dias antes da invasão, quando tantos a diziam iminente, vi em directo na televisão a deputada Mariana Mortágua – que ali era ilegalmente comentadora remunerada – explicitar que a Rússia (sob a tal ditadura capitalista fascista de Putin) tinha todo o direito de defender o seu “espaço vital”. Saltei na poltrona diante daquilo. Pois via uma deputada da República e professora pro bono do ISCTE (onde estudei) a invocar o argumento legitimador do imperialismo nazi. E nesses iniciais dias de guerra o BE titubeou, incapaz de se apartar do primado à crítica dos EUA e da UE.

 

Assisti in loco a uma ilustração dessa hesitação do BE, um aglomerado sempre propenso a demonstrações públicas (“arruadas” diz-se agora) de “indignismo”. Umas semanas depois do início da guerra houve uma manifestação lisboeta, diante da embaixada da Rússia. Participei, lá cheguei uma meia hora atrasado, e consegui esgueirar-me para o centro das apinhadas artérias junto a amigos que ali encontrei. Um bom bocado depois, para aí uma hora, decidimos ir embora… Lá para trás da mole, no final da conglomeração estava a chegar um pequeno punhado de gente do BE – essa que sempre se apresta a estar nas primeiras horas e filas de quaisquer “acções de rua” -, agitando meia dúzia das suas bandeiras, com ar algo constrangido, num evidente “tem de ser…”. Os do nosso grupo entreolhámo-nos, rimos. Com desprezo.

 

3 anos depois, os tais longos de guerra e curtos de legislatura, o BE, que antes tivera 4,4% da votaçao elegendo 5 deputados (já de si um desastre eleitora), obteve 2% e elegeu… 1 deputado. De novo, outras razões existem para tamanho descalabro. Mas isto, este primado do anti-americanismo e do desprezo pelas democracias, também contou. Mesmo entre quem fora sensível aos arrazoados BE.

 

Entretanto o CHEGA, partido por tantos dito “fascista” e “nacionalista” (termo que aqui tem conteúdo pejorativo), mandou para Bruxelas o infausto ex-cônsul em Goa (uma personagem tétrica…), único dos seus importantes que papagueara putinices… Ventura, O Única-Voz do partido, assumiu-se europeu, pró-democrático, antifascista. Uma espécie de Meloni luso. Não será necessário aqui colocar os seus números eleitorais, pois não? Os quais lhe advêm de várias causas, claro. Mas, repito, também por isso.

 

(Postal também no meu “O Pimentel“)

Não verga, não cede, não capitula


Pedro Correia,

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Vladimir Putin anda desesperadamente, desde 24 de Fevereiro de 2022, a tentar ocupar a Ucrânia manu militari, transformá-la num estado vassalo e liquidar Zelenski, uma das grandes figuras da política mundial do século XXI.

Não conseguiu concretizar nenhum destes objectivos, mesmo à custa de pesadíssimas baixas. Volvidos quatro anos, o senhor feudal do Kremlin só conseguir anexar cerca de 0,75% de território adicional da nação vizinha, que teima em ser livre e soberana. A resistência do povo agredido é tenaz: cada metro quadrado de “conquista” custa a vida a cerca de 55 soldados russos.

Ao contrário do que alguns colaboracionistas portugueses de Moscovo profetizavam, logo nos dias iniciais da agressão, a Ucrânia não se verga, não capitula, não cede a sua soberania ao déspota neo-imperial. 

Comportamento notável, a todos os títulos. Basta reparar nisto: a Federação Russa está há mais tempo em guerra com a Ucrânia do que os dias em que, enquanto URSS, travou combates contra a Alemanha durante a II Guerra Mundial. Este é o conflito bélico há mais tempo travado em solo europeu desde 1945.

Todos os meses o genocida de Moscovo envia 40 mil homens para a vasta linha de frente: mais de 60% acabam mortos ou feridos em combate. O Kremlin perde mais soldados do que aqueles que consegue recrutar. 

A besta selvagem, embalada pelo tropel do Apocalipse, exige mais sangue, cada vez mais sangue. Acabará afogada nele.

 

ADENDA: Balanço destes quatro anos de agressão russa à Ucrânia aqui.

Um resquício do antigamente


Paulo Sousa,

Há uns meses atrás, disse em privado que a Rússia estava cada vez mais encurralada e não via forma de conseguir sair do buraco onde se metera. A resposta, de alguém informado, era que eu estava redondamente errado, que as democracias europeias tinham nascido em tempos de paz, concórdia e compromissos e não eram capazes de decidir com a agilidade dos estados autoritários. Além de que a Rússia não se incomoda em sacrificar o seu próprio povo para salvar a cara do Czar e que ainda por cima tinha o apoio da China. Argumentei dizendo que a derrota da Federação Russa pode levar à sua desagregação e isso seria uma oportunidade para a China, até no que diz respeito a voltar ter um acesso ao Pacífico. Que não, que a Rússia só fica de joelhos quando está a atacar os sapatos, que tem direito a ter a sua esfera de influência e que se as democracias são fracas, a União Europeia é muito mais. Um bando de incapazes e três safanões, rima sempre com recuos, apelos a negociações e a fraldas sujas. Ninguém nos pode acudir. Lembrei que há cem anos também não faltava quem desprezasse as democracias e garantisse que o futuro era das ditaduras, mas no fim da Segunda Guerra Mundial foi o que se viu. Mas nessa altura não existiam redes sociais, respondeu-me, e hoje estamos sempre a ser bombardeados por bots do Kremlin que contagiam os eleitores com insegurança e sublinham a força da Rússia. Se algum líder europeu desafiar Putin, será incinerado nas redes sociais. Churchill e Roosevelt não tiveram de lidar com essa quinta coluna.

Algumas semanas passaram e a balança continua a desequilibrar-se em desfavor da Rússia. As democracias, e a UE, continuam envolvidas no caos dos seus parlamentos, na sua impotência e sem saber o que fazer com a sua relativa prosperidade, com os imigrantes ou com as expectativas dos seus cidadãos.

A democracia, por ser um modelo político desejável do ponto de vista do cidadão, fez parte dos factores que mobilizam o heróico povo ucraniano a suportar as flagelações russas. Claro que lutam pela sua identidade e sobrevivência, mas lutam também para que as suas gerações futuras possam viver na Europa da democracia, dos parlamentos caóticos, dos orçamentos aprovados à última hora, dos governos derrubados pela oposição, dos escândalos revelados pela imprensa, dos humoristas a apoucarem os governantes, mas também da harmonia do compromisso, da cooperação e da solidariedade europeia, da economia de mercado e do estado de direito. Lutam para não terem de viver sob o jugo de Moscovo, das suas elites corruptas e obscuras, que os atacaram, aliás, para tentarem impedir que o seu próprio povo entenda que, mesmo sem infinitas reservas de recursos naturais, é possível ter uma vida próspera e digna. As elites russas não querem abrir mão dos seus privilégios e sabem bem que num sistema competitivo como o da democracia tudo se pode perder muito facilmente. Funcionam como se vivessem num Antigo Regime fora de tempo, onde a vida de cada um depende do berço onde nasceu e o elevador social funciona apenas para os mais corruptos e menos escrupulosos no recurso à violência. Essa é a essência desta guerra que duraria apenas três dias. Esta é uma guerra onde um resquício do antigamente tenta contrariar a força da aparente fragilidade da democracia e da força da dignidade dos cidadãos. Um dia, inevitavelmente, a modernidade chegará também a Moscovo.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Enquanto as condições de força da Ucrânia não pioram, têm vindo sempre a melhorar – e as da Europa também, que acordou tarde mas ainda muito a tempo, sobretudo devido à extraordinária resistência ucraniana.

A Ucrânia é a linha da frente europeia, a que tem aguentado heroicamente (durante muito tempo praticamente sozinha!) os grandes embates, enquanto a Europa recupera em ritmo acelerado a capacidade defensiva que descurou – por ter conseguido construir uma situação estável de paz e progresso comum numa geografia que parecia historicamente fadada à guerra.

Provou que, tanto os homens de boa-vontade o queiram, não existem fatalismos, mesmo históricos que sejam. Mas há sempre bárbaros à espreita para a invasão…

(…)

Já se contam em anos os actos falhados da “operação especial passeio de três dias”; e bem assim a sua propaganda putinista falida, tornada repetitiva por falta de mais o que dizer, condenada a abanar sempre os mesmo espantalhos – por mais evidente que seja que não resulta, que os povos europeus não vão na conversa do papão, que não se deixam manipular, é isso ou ficarem calados.

Que para dizer coisas como “Estupidamente, a Ucrânia e a Europa continuam a preferir a guerra” o melhor seria realmente ficar calado, de tal maneira torna evidente a “preferência inteligente” do Czar Careca pela paz… dos cemitérios.

Também ele devia ter ficado calado em vez de cantar vitória antes de tempo e desatar a ameaçar-nos. Até parece que a Rússia nunca perdeu guerras, e até bem ingloriamente. Podem preferir não ter memória, mas a Europa tem.»

 

Da nossa leitora Zebra. A propósito deste meu texto.

Reflexão do dia


Pedro Correia,

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«Putin tem de convencer-se de que qualquer nova agressão desencadeará uma resposta esmagadora. Em última análise, Trump deverá apoiar com determinação a “coligação de vontades” europeia – e fazer o que for necessário para reagir a qualquer futura violação da soberania ucraniana pela Rússia. (…)

Alguns argumentarão que a Ucrânia terá simplesmente de aceitar as condições de Putin em nome da paz. Mas, tendo eu negociado com ditadores de Moscovo a Pyongyang, sei que o apaziguamento só lhes aguça o apetite: parafraseando Churchill, um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo na esperança de ser devorado só no fim.

Se a América liderar negociações que tenham como resultado uma vitória de Putin, não terminaremos esta guerra – abriremos caminho para a próxima.»

 

Mike Pompeo, antigo secretário de Estado dos EUA (2018-2021), em artigo publicado na edição de fim-de-semana do Financial Times

A Constituição é «um artifício jurídico»


Pedro Correia,

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Alguém devia oferecer um exemplar da Constituição da República Portuguesa (CRP) ao professor Tiago André Lopes, presença habitual nos púlpitos de comentariado da CNN Portugal. 

Dizia ele ontem, em defesa acérrima da capitulação da Ucrânia perante as exigências demenciais do ditador russo em violação sistemática do direito internacional: «Zelenski vai ter de conseguir aceitar a questão territorial [cedência à Federação Russa de cerca de 20% de território ucraniano]. O argumento constitucional, obviamente, não colhe. A Constituição é um texto vivo, alterável, transformável. Não é um bloqueio. A paz não pode ser travada por um artifício jurídico.»

Aquele docente de Organizações Políticas e Internacionais na Universidade Lusíada do Porto aborda com chocante ligeireza algo tão relevante como a legitimidade constitucional. A lei fundamental da Ucrânia é categórica: proíbe a alienação de qualquer parcela territorial do país e quem violar esta norma imperativa incorre no crime de traição à pátria. Norma que surge logo no artigo 2.º: «A soberania da Ucrânia abrange todo o seu território. A Ucrânia e um Estado unitário. O território da Ucrânia, nas suas fronteiras actuais, é indivisível e inviolável.»

Nada original, convenhamos. 

Lembremos o que diz a nossa lei magna, sobre o mesmo tema: «O Estado não aliena qualquer parte do território português ou dos direitos de soberania que sobre ele exerce, sem prejuízo da rectificação de fronteiras.» Vem no artigo 5.º, n.º 3, da CRP, o tal documento-base que o professor Tiago Lopes parece ignorar. 

Relativizar normas constitucionais é usual em sistemas totalitários – não em regimes assentes no primado da lei e do equilíbrio dos poderes. Imaginemos o primeiro-ministro português, há dias confrontado com o chumbo de um diploma no Tribunal Constitucional, adoptar esta lógica. Imaginemos como reagiria o próprio Tiago Lopes se Luís Montenegro usasse as palavras do docente da Lusíada portuense: «O argumento constitucional, obviamente, não colhe, a Constituição é um texto transformável» e a lei fundamental de qualquer país é mero «artifício jurídico».

Resta-me uma dúvida, perante tão óbvio absurdo: diria o comentador da CNN-P o mesmo se estivesse em causa a integridade territorial da Federação Russa? 

Agostinho Costa e o jornalismo informativo


jpt,

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Ontem mais uma vez o Pedro Correia se insurgiu diante das atoardas substantivas e das atitudes abrasivas do comentador televisivo Agostinho Costa. Ecoar diferentes opiniões, oriundos de diversos pontos de (tomada de) vista, é um valor fundamental na imprensa. E a questão da guerra na Ucrânia – crucial na nossa sociedade – não deve ser excepção. Mas o desconforto face a este indivíduo ultrapassa a sua aparente bizarria. Ou seja, levanta várias questões:

1. Lateralmente: sobre a questão ucraniana noto um paradoxo – de facto é um falso paradoxo, mero episódio das artimanhas da retóricas avessas à democracia liberal. Pois quando estalou essa guerra houve decisões europeias para obstar à disseminação da propaganda russa, promovida pela divulgação da sua imprensa e de inúmeros “sítios” digitais, sitos na Rússia ou alhures. O que colocou problemas quanto aos princípios relativos à liberdade de expressão e de acesso à informação.

Lembrando-nos o que é pouco dito: se os “princípios” são (devem ser) sacrossantos, são-no na medida em que são também “maleáveis”. Pois a sua centralidade depende, exactamente, dessa relativa maleabilidade e de como esta é controlada de forma institucionalizada / legitimada. Ilustro de modo superficial: a aparente oposição entre o “não matarás” e a defesa da “guerra justa”, ou entre a inadmissibilidade de “justiça por mãos próprias” e o direito à “legítima defesa”. Ou, vá lá, entre o “não cobiçarás a mulher do próximo” e o direito ao divórcio. Matérias que filósofos, juristas e teólogos esmiuçaram…

Ora realço que muitos, sitos nos diferentes nichos de extracção comunista – cujo viés antidemocrático se consubstanciou numa russofilia até anacrónica -, contestaram essa “censura” (por exemplo aqui, num abaixo-assinado que congregou dezenas de intelectuais portugueses) aos dizeres russos e russófilos. Mas é desses mesmos sectores ideológicos que entretanto surgem apelos para um controlo das plataformas de divulgação – as “redes sociais” – evitando opiniões (e “versões”) de “extrema-direita”.

É notório que estas opiniões são opções por cardápio  (a la carte). E demonstram que os núcleos avessos às democracias liberais e às suas instâncias multilaterais querem esconder o evidente. Do Atlântico aos Urais nenhuma “extrema-direita” é mais poderosa do que a instalada no poder de Moscovo: nacionalismo agressivo e dotado de fortíssimo argumento militar, discriminação desvalorizadora de “minorias” nacionais/linguísticas (“étnicas”, diz-se popularmente), substrato clerical, repressão política, censura de imprensa, limitação ao direito de associação, execução alargada e aprisionamento de opositores políticos, oligarquia cleptocrática, conúbio com as piores ditaduras internacionais (veja-se a aliança factual com a monarquia norte-coreana), apoio constante a núcleos políticos congéneres no estrangeiro. E, relevante pois sonante na actual agenda política da “esquerda identitarista”, repressão dos homossexuais – note-se que se na Hungria o governo de Orban, tão dito de extrema-direita, pode ser agora afrontado por uma enorme manifestação defensora dos direitos dos homossexuais, isso é impensável sob o regime russo.

Enfim, mais de três anos depois do início da guerra na Ucrânia, a adesão à ideologia fascista, sob embrulho russófilo, continua a ser aceite. E propagandeada. Em Portugal é-o fundamentalmente através da televisão. Pois não se trata de “redes sociais” mas sim de estações televisivas que emitem sob alvará estatal e pagam para que seja feita propaganda de extrema-direita.

2. Pede-se à imprensa que sobre a guerra na Ucrânia – na produção e importação de reportagens e na análise (comentário) – seja … analítica. É normal que o estupor e alarme inicial tenha promovido um até alarido, mesmo propagandístico, convocando a opinião pública a um esforço (político, orçamental, de acolhimento) em prol dos invadidos. Mas foi evidente que esse enviesamento pró-ucraniano – democrático, independentemente dos defeitos próprios do regime de Kiev – se deixou alongar: exemplo disso, mesmo pungente, foram as intervenções diárias no horário nobre de canal generalista do exaltado José Milhazes. Esse é caso extremo, até pitoresco. Mas a normal tendência pró-ucraniana – por ser o país invadido, associável ao nosso âmbito multilateral, e pela evidência do expansionismo russo -, cristalizou-se num discurso repetitivo, muitas vezes – mas não sempre – falho de capacidades analíticas. Esquecendo o fundamental: a Ucrânia defende-se no campo de batalha e nos contextos diplomáticos. Não no audiovisual e nos jornais portugueses.

(Pior ainda, o seguidismo às teses e práticas do governo israelita. Mas será importante integrar o cada vez mais esquecido factor: a actual guerra em Gaza e sua transferência para Líbano e Irão, é uma refractada sequela do conflito na Ucrânia).

3. O caso de Costa não é único, mas é o mais vibrante.  General e influente maçónico, evidencia ser adepto do regime fascista russo. E, neste contexto internacional, de todos os regimes antidemocráticos – em particular o iraniano – que sejam adversários dos nossos aliados e das nossas instâncias multilaterais. E segue remunerado para realizar essa propaganda – muito provavelmente devido às teias de influência que construiu a partir das suas inserções nos grupos de pressão castrenses e civis. Pois, até pela sua consabida truculência insultuosa, não haverá outra explicação para a continuidade desse seu labor televisivo. E é nisso apoiado pela estação televisiva – não só pelas constantes aparições. Pois há pouco tempo, num zapping meu, apanhei-o numa entrevista pessoal, julgo que vespertina – lamentavelmente não registei o programa, não recordo o título. Mas percebi o intuito “humanizador”: o entrevistador fez questão  de um “vamo-nos tratar por tu“, e construíu o diálogo de modo a que os espectadores assistissem à apresentação de um aprazível cidadão sénior, felizmente ainda activo, pois saudável e viçoso. Ou seja, sedimentando a simpatia pelo propagandista Costa. E pelas suas opiniões.

4. Aos jornalistas e/ou analistas (agora ditos “comentadores”) não pode ser exigida a “neutralidade”. Nem mesmo se pode pedir uma “equidistância”, ponto de tomada de vista que é mitológico. Pode-se pedir objectividade, esta sempre construída na subjectividade pessoal. E, até mais do que tudo, alguma decência.

Ainda assim há destrinças a fazer. Ilustro: tivesse eu sido convidado para comentar – de modo gratuito – a recente final da Taça de Portugal entre o meu Sporting e o  Benfica, em estúdio teria sido vibrante adepto. E ali ao vivo, diante dos “caros telespectadores”, teria festejado a ansiada “dobradinha” – como aqui o fiz. Mas se ali estivesse na qualidade de “comentador residente” – ou seja, remunerado (e bem que me daria jeito) – a abordagem intelectual seria diferente. Sim, rejubilaria. Sim, festejaria (repito, como aqui o fiz). Mas – por estar a ser remunerado, ou seja, por estar a trabalhar – teria de reconhecer que Mateus Reis deveria ter sido expulso, que houve um erro crasso da arbitragem, o qual a não acontecer teria mudado as dinâmicas do jogo e, talvez, impedido a tal ansiada “dobradinha” sportinguista. Enfim, que o título obtido foi um bocado coxo (o Sporting poderia ter ganho na mesma mas ficará sempre a dúvida…).

Que quero eu dizer? Que é louvável a disponibilidade para acorrer à imprensa de modo voluntário (gratuito, no sentido de não remunerado…) em atitude de cidadania, militância, “activismo” (como se diz agora) ou de mero adeptismo. Mas quando se vai opinar de modo laboral (remunerado) a restrição à militância, ao propagandear, é uma vilania. Costa não é, nem de perto nem de longe, o único – exemplo crasso é o da comentadora residente Ana Gomes, na sua patética classificação da competência televisiva dos cabecilhas partidários: disso diria a minha mãe, que tinha uma linguagem menos abrupta do que a minha, “isso não é um comportamento digno de uma Senhora“. Pois esta gente é paga para exercer um trabalho e vai exercê-lo ao serviço de outros interesses. Mas Costa é mais fascista deles todos. E o mais malcriado.

Qual a razão para que continue a ser contratado para propagandear o fascismo? Repito-me: talvez devido à sua influência no meio castrense – e é problemático percebermos que há alguns generais tão avessos aos regimes democráticos e à multilateral de Defesa em que estamos inseridos. E/ou pela inscrição maçónica, sempre de influência esconsa, algo imperscrutável. Mas, para além dessas dúvidas quanto ao actual trampolim fascista em Portugal, há algumas certezas. Entenda-se, os nomes dos responsáveis directos.

Aqui escrevi em 4 de Março de 2025

Desde logo eu (e tantos outros) me espantei e enojei com a desbragada putinofilia – até vituperando o patriotismo ucraniano – de alguns generais comentadores televisivos – um até exultava com a “libertação de Mariupol“, tanto lhe agrada Putin. Ditos “especialistas em assuntos militares” (caramba, são generais, seriam especialistas de quê?). Para quem ache que são “especialistas”, comentadores avisados e assim neutrais, deixo um exemplo, o do general Costa – um avençado por instruções dos (ex?-)jornalistas Nuno Santos e Santos Guerreiro. Enquanto trata todos os interlocutores por títulos académicos (o sacrossanto “Chô Doutor/a”) gozou a cena da Sala Oval, referindo “Vance”, “Trump” e “o Zelensky”, assim denotando o desprezo pelo “mimado” ucraniano, como o disse. Tal como referiu o “Senhor Macron” – em evidente glosa do célebre e justificadamente sarcástico “Senhor Hitler” de Fernando Pessa. Terminando, o escroque fascista, a tratar os líderes eleitos da democrática União Europeia por “cavalheiros” e – imagine-se – “madames”, como se estas fossem epígonas da Maria Machadão de Jorge Amado. Há 3 anos que Nuno Santos e Santos Guerreiro agridem o país com este lixo moral. Pois são isto.”

(Também no  meu “O Pimentel“)

 

Pensamento da semana


Pedro Correia,

A situação do mundo está explosiva como nunca no último meio século. Há causas diversas, mas a principal tem uma data: 24 de Fevereiro de 2022. O dia que mudou a geopolítica, fazendo regressar a guerra à Europa. A força da razão foi pulverizada enquanto prevalecia a inaceitável razão da força. Putin abriu a caixa de Pandora. Estilhaçou o direito internacional, tentou refazer fronteiras à bomba, tudo fez para reduzir a pó o quadro global nascido em 1945. O resto veio em sequência, segundo a lógica do dominó. Impossível criticar de boa fé e com elementar sentido de justiça as fases subsequentes sem condenar aquela, a primeira de todas.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

Indignidade moral


Pedro Correia,

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Ontem à noite, no canal do costume, ouvi o famigerado major-general Agostinho Costa com as habituais diatribes anti-NATO e anti-União Europeia enquanto despejava propaganda moscovita, num misto de Lavrov e Medvedev. Desta vez excedeu-se a si próprio, cruzando uma linha absolutamente inaceitável. A propósito da aparatosa destruição de duas dezenas de bombardeiros estratégicos russos por drones de Kiev dotados de inteligência artificial num ataque a quatro bases aéreas, uma das quais situada a 1900 quilómetros da fronteira ucraniana. 

Talvez transtornado por esta péssima notícia na óptica do Kremlin, o referido comentador disparou isto em antena aberta: «Lembremos os side effects da aventura americana no Afeganistão, na forma como combateram os soviéticos, criando a Al-Qaida que depois lhes caiu em cima.»

Uma indignidade moral, esta equiparação da inquebrantável resistência ucraniana ao invasor russo – no quarto ano de feroz conflito bélico em solo europeu – à organização terrorista islâmica. Equiparação que mancha quem a profere. E que só desqualifica quem lhe dá palco.

Slava Ukraini!


Pedro Correia,

Excelente intervenção de Sebastião Bugalho, em nome do PPE, na conferência ontem organizada pelo Parlamento Europeu para assinalar o 80.º aniversário do fim da II Guerra Mundial no nosso continente.

Assinalo alguns trechos:

«A Segunda Grande Guerra confrontou a humanidade com o desumano, o patriotismo com o fascismo, a verdade com a raiva.»

«Aqueles que resistiram à invasão estão aqui, aliados àqueles que jamais invadirão novamente. Aqueles que disseram “Nunca nos renderemos” estão aqui, lado a lado com aqueles que dizem “Lembraremos sempre”.»

«Devemos dizer [ao povo ucraniano] que a sua luta já foi a nossa, que a sua vitória será a nossa paz. Eles podem não ser nossos pais ou nossos filhos, mas são nossos irmãos. Nossos irmãos de armas e de direitos. Nossos irmãos na sua esperança e na sua resistência.»

«Hoje é a sobrevivência da liberdade e da democracia que está em jogo no nosso continente. (…) Que o fogo da memória acenda esta causa comum. Que as palavras “Dia da Vitória” também signifiquem – mais cedo do que tarde – “Slava Ukraini!”»

Indignidade moral


Pedro Correia,

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Manhã de Domingo de Ramos: Vladimir Putin ordena aos seus esbirros para bombardearem Sumy, na Ucrânia. Com total desprezo pela vida humana. 

Dois mísseis foram lançados para o centro da cidade enquanto centenas de pessoas iam à missa. Morreram 34 civis e 119 ficaram feridos, alguns em estado muito grave. Sete dos mortos eram menores.

Ao contrário do que apregoavam os propagandistas da Casa Branca, nem a guerra na Ucrânia terminou em 24 horas nem há qualquer sinal de que tenha fim à vista. Continuam a ser ali cometidas as maiores atrocidades – pelo quarto ano consecutivo. 

Confrontado com este mais recente crime de guerra, Donald Trump voltou a poupar Putin: nem um esboço de crítica ao carrasco da Ucrânia. Começou por uma declaração tipo Miss Mundo, geral e abstracta, dizendo que «as guerras são horríveis». Depois limitou-se a chamar «erro» à nova acção criminosa do psicopata russo. E desviou logo a rota, lançando culpas sobre o seu antecessor na Casa Branca. Parece convencido de que a campanha presidencial norte-americana ainda não terminou, daí nunca abandonar a rasteira linguagem de comício. Dando a entender que o responsável dos massacres na Ucrânia é Joe Biden, não Putin.

Em contraste absoluto com a reacção imediata de Keith Kellogg, para quem o bárbaro ataque a Suny «ultrapassa qualquer linha de decência». Palavras dignas que o colocarão ainda mais à margem do processo negocial: Donald Trump, que detesta Zelenski e admira Putin, parece já não contar com o general para contactos com Kiev.

Em Washington, apesar de tudo, acende-se uma ténue luz de esperança. Congressistas republicanos começam a pressionar Trump para se mostrar sensível ao sofrimento ucraniano. É muito provável que este esforço esteja condenado ao insucesso. Mas se não falarem agora arriscam-se a ficar tão contaminados pela indignidade moral como ele.