De Barco pelo Tejo


Maria Dulce Fernandes,

Teve início no ano passado, sensivelmente por esta data, o programa ” Conhecer Lisboa e arredores em transportes públicos “, no qual tentámos transmitir aos netos os encantos e a cultura da nossa cidade. Por motivos familiares, foi necessário adiar o passeio de barco para data incerta, mas não ficou esquecido.

Madrugámos na quinta-feira dia 6 e após uma viagem de autocarro, uma outra viagem de metropolitano e uma pequena caminhada, chegámos por fim ao Terreiro do Paço e à estação Sul-Sueste, onde embarcámos na aventura do Tejo.

A navegação teve a duração de uma hora e 30 minutos. O passeio foi fantástico. As vistas, mudaram quase nada, mas têm a mesma magia da minha meninice e esclarecer as crianças, que nesse dia ao pequeno almoço seguramente devoraram línguas de perguntador, foi fantástico e divertido.

A próxima etapa, já acordada entre todos os participantes,  serão os elevadores da cidade e o Cristo Rei.

Uma história portuguesa*


José Meireles Graça,

A respeito de Sócrates aventam que se terá apropriado, de uma forma ou de outra, de dois milhões de Euros; ou de vinte milhões, ou ainda de algum valor intermédio – é consoante quem opina.

São valores dignos e não fora o facto de alguns expedientes serem por demais evidentes, e aquela contrariedade de o país ter falido, e talvez não tivesse perdido as eleições. Gozou durante muito tempo de simpatia de muitos magistrados da opinião económica, tinha determinação, agressividade, jogo de rins, e chegou a contar, ao princípio, com alguma solidariedade presidencial.

Fez uma admirável rede de autoestradas e eu, ignoto cidadão, quando vou a Trás-os-Montes nunca me esqueço de tecer umas loas de circunstância ao senhor engenheiro, logo que passe Ribeira de Pena, para indignação das minhas habituais companhias.

Quando era funcionário da Câmara da Covilhã fez, diz-se, alguns projectos de moradias pavorosas para um concelho vizinho, dado que não os poderia fazer naquele em que trabalhava. A ser verdade, era um arranjo hábil, e pessoa cínica como eu até acha que há nisto algum merecimento: sempre é melhor do que trabalhar nalgum gabinete de arquitectura local que misteriosamente faça aprovar projectos com mais celeridade do que os oriundos de gabinetes alienígenas.

Em suma, deixou alguma obra, nisso se distinguindo da lambisgoia Guterres e da serpente Costa, exemplos esses mais óbvios de uma verdade axiomática: socialistas a governarem para progresso assinalável do país é como meter uma pedra dentro de uma gaiola e ter a esperança de que ela comece a cantar.

Com o caso Neves apenas podemos suspeitar (ou constatar) de uns expeditos cortares de cantos, umas chicuelinas à legalidade, uma arroganciazinha dispensável (contraída no mandato como director da PJ, lugar isento de escrutínio), mais umas histórias obscuras que metem aventais, direitos ou privilégios ofendidos de antigos subordinados ou rivais, discriminação positiva de um fornecedor, e denúncias sopradas à comunicação social, que as vai debitando a conta-gotas com deleite – dela e nosso, que acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos, todos os dias, não com as tradicionais pipocas à mão, que está demasiado calor, mas tremoços.

As facturas talvez pagas em espécie que excede o valor legalmente permitido, o cotejo delas com os trabalhos efectivamente realizados, a grotesca novela do tanque que evoluiu para piscina (onde estão as máquinas, já agora, que piscina sem maquinetas ou é daquelas ecológicas ou um lago de jardim?) e que agora quer regressar à sua função inicial, uma parede pintada de um incongruente verde que casa mal com tudo o mais, que aliás não se recomenda como exemplo de monte alentejano, nem casa de férias, tudo compõe um quadro ao qual falta aquela dimensão admirável que Sócrates com galhardia preencheu.

Há mais, claro, como a falta de licenciamento da piscina, uma falha para colocar, tal como o ridículo limite dos pagamentos a dinheiro, na secção dos abusos do Estado: as Câmaras têm de aprovar piscinas a construir no terreno dos proprietários, além de, neste caso, uma Rede Não Sei Quê tem qualquer coisa a dizer?! E a AT tem de meter o nariz inquisitório e voraz nos pagamentos em dinheiro que excedam 2.999,99€?

Esta pequena história tem um mérito, que porventura não será apercebido pela maioria das pessoas, que é o de se constatar que somos todos, ou quase, iguais num particular: pessoas comuns, ao tropeçarem, nas esquinas da vida, com o Estado hiper-regulamentar, desenrascam-se como podem.

Resta a história do reboque carregado de bidões de amoníaco que a Marinha não queria guardar, a PJ não podia guardar nem arrendar para esse efeito (porque não tinha a despesa “cabimentada”), e que o empreiteiro Carvalho guardou grátis em Barcelos. Trata-se de um gajo porreiro, este Carvalho, e chega a ser tocante o gesto de amizade e desinteresse. Já o custo do arrendamento, assim poupado, ui que hoje em dia estes preços andam pela hora da morte.

Não cheira propriamente a amoníaco, cheira a esturro. O MP vai investigar (incluindo, supõe-se, se os tratos de polé que o reboque levou comprometem a prova num outro processo) e, por esse lado, pode o ministro ficar sossegado: antes da conclusão o Governo acaba o mandato, com ou sem eleições antecipadas, haverá mais um ror de escandaleiras para entreter o cidadão, e de todo o modo, se não houver mais nada para destilar, a coisa desaparece do espaço público muito antes de acabar a época estival.

Que fica, então?

Fica que o que o cidadão vulgar pode à sorrelfa fazer não deveria ser habilidade disponível para quem detenha poderes públicos: Não se admite num chefe de polícia como não se admite num magistrado. Nem, por maioria de razão, num ministro, mesmo que, como aqui, não se trate de irregularidades cometidas no exercício das novas funções.

E fica (ou deveria ficar) que não é o cidadão habilidoso que tem de deixar de o ser na condução da sua vidinha, é o Estado que se tem de retirar da quantidade prodigiosa de esquinas onde aparece com a sua cabeça metediça e intimidatória. O colega Matias que ponha os olhos nisto. Não o fará, claro, que está ocupado a contemplar o céu onde paira o balão da inteligência artificial.

Vinhetas (37)


José Meireles Graça,

No passeio pela praia até à ria de Alvor (aí uns 3 km) ia trocando comigo interessantes impressões.

E constatando que se generalizou a moda deplorável de a parte de baixo dos bikinis ficar entalada no rabo porque tem aí a largura de um atilho, perguntei a mim mesmo qual a razão de semelhante dislate. Ocorreu-me que talvez a quantidade inusitada de gays no mundo da moda ajude a explicar o fenómeno: sabem eles lá o que faz atraente uma mulher.

Pareceu-me uma descoberta a um tempo percuciente e inspirada. E dela decidi não fazer segredo para ir ao encontro da perplexidade de não poucos cavalheiros.

Doenças e vacinas


Cristina Torrão,
Embora preferisse não as tomar, não sou contra vacinas. Basta pensar que erradicaram umas doenças e tornaram outras raras, todas elas verdadeiros flagelos, noutros tempos. Por isso, as tomo.
Agora, porém, estou a viver uma má experiência por causa de uma vacina.
Há três semanas, fiz o exame rotineiro de saúde. O médico fartou-se de me elogiar. As análises e os testes deram resultados normalmente atribuídos a pessoas mais novas do que eu. “Não ligue à sua data de nascimento”, disse-me o médico, “o seu organismo é mais novo”.
E aconteceu isto na semana em que completei os 61 anos. Melhor prenda não podia ter.
Talvez me devesse ter guiado pelo meu organismo. Se é uns anos mais novo, não preciso de seguir as recomendações para pessoas a partir dos 60… Ou será melhor?
Na Alemanha, recomenda-se a vacina da zona a partir dos 60 anos. A zona é uma doença provocada pelo vírus varicela-zoster. Quem teve a varicela em criança, não se livra do vírus, ele fica adormecido, na medula, pronto a atacar o corpo, quando o sistema imunitário, por qualquer motivo, fica mais fraco. A zona pode causar dores fortes e complicações de saúde.
Quem teve varicela em criança, já tem o vírus dentro de si. Quem não teve, pode contagiar-se. Nesse caso, a pessoa não contrai a zona, mas sim a varicela, o que é pior, pois costuma decorrer grave na idade adulta. Acresce, porém, dizer que o contágio é raro. Só se dá tendo contacto com o líquido existente nas bolhas que surgem na pele da pessoa doente.
Que eu saiba, não tive varicela. Nunca ouvi contar histórias de varicela, de mim ou do meu irmão, como ouvi do sarampo, ou de infecções da garganta (estive quase a ser operada). Ou seja, não sou, em princípio, portadora do vírus. Ou melhor: não era!
Apanhei a zona cerca de dez dias depois de ter sido vacinada. Estou a tomar um antiviral e alojarei o vírus para sempre. Mesmo que, desta vez, supere bem, posso tornar a adoecer.
O médico diz que foi um acaso infeliz, ou seja, mesmo que não tivesse tomado a vacina, eu adoeceria. Isto porque a zona surgiu onze dias depois da injecção e, segundo ele, o vírus tem um tempo de incubação de duas a três semanas. Conclui, por isso, que já estava a incubar, antes de eu tomar a vacina.
Por outro lado, eu soube que já têm acontecido casos semelhantes. Normalmente, admite-se que se trata de acasos infelizes. Na verdade, porém, ninguém sabe ao certo. Para os próprios especialistas responsáveis pela vacina, esses casos permanecem um mistério e são, normalmente, objecto de estudo.
Para já, está tudo a correr bem. Mas há aquele pensamento a incomodar-me: provavelmente, não tive varicela. E, se não a tive, a doença teve de ser provocada pela vacina.

IUC


José Meireles Graça,

Em 2026 vigoram as atuais regras de pagamento do IUC, no aniversário da matrícula do carro, diz a notícia, e milhares de condutores suspiraram de alívio com a mudança prevista para 2027, quando o pagamento, para todos, será em Outubro, excepto se o valor for igual ou inferior a xis, caso em que é em Julho e Outubro, com excepção de que não seja nos dois meses, hipótese em que será apenas no primeiro, contrariando o regime geral.

A norma transitória prevê ainda a possibilidade de o proprietário “requerer a anulação da liquidação do IUC referente ao ano de 2027 nas situações em que ocorra o cancelamento da matrícula de veículo das categorias A, B, C, D ou E durante esse ano e antes da data de aniversário da matrícula”.

Já em 20208 é mesmo para valer – tudo em Outubro, excepto naqueles casos em que não seja, por se pagar em duas ou três prestações, casos em que o contribuinte tem primeiro de se informar sobre quanto tem a pagar, a seguir ir ver, porque entretanto se esqueceu, se pode começar logo em Abril, a seguir em Julho e finalmente em Outubro. Se no processo se esquecer de alguma coisa logo virá a AT, com característica insolência, notificar das multas e alcavalas, sob pena de penhora e não sei quê.

Quase todos a pagar em Outubro quer dizer serviços entupidos, computadores em baixo. E já se vê daqui um director qualquer (não muito importante, e aliás provavelmente sem nome, que os cidadãos não precisam de saber ao certo quem mereceria ser seviciado) a dizer: Vêm todos no mesmo dia!, o jornalista concordando que realmente o contribuinte não tem emenda, ou deixa tudo para o fim ou vem a correr ao princípio.

Uma baralhada. Baralhada nada, coisa muito simples, dirá um qualquer inspector de Finanças que calhe ler estas regras, o ignoto autor é que não sabe o que diz, interpretou tudo torto e aliás ignorou os grandes benefícios desta importante reforma.

Benefícios? Abaixo transcrevo os parágrafos pertinentes da notícia sobre os motivos e o escopo da reforma, em itálico, e faço a necessária tradução para português, a cheio:

“… o cumprimento voluntário das obrigações tributárias, agilizando procedimentos e reforçando a confiança e a transparência na relação tributária” e “prevenindo situações suscetíveis de penalizar o contribuinte”.

Tornamos complicado um sistema simples e enraizado (foi criado em 2007) porque pretendemos dar a impressão de estarmos a trabalhar e para isso nada melhor do que gesticular. Quando a intenção seja, ademais e como aqui evidentemente é, criar condições para aumentar a receita fiscal através de multas, é uma excelente iniciativa de marketing político invocar um superior, e louvável, propósito. Esta prática tem dado óptimos resultados com, por exemplo, as multas de trânsito: ao agravá-las e multiplicando as proibições aumenta-se a receita em nome da segurança rodoviária, por inadequadas e abusivas que sejam as proibições, e os réprobos infractores ainda se expõem à ira dos virtuosos cumpridores.

“Com estas alterações legislativas, reforçam-se, assim, a previsibilidade, a transparência e a eficiência do sistema tributário, promovendo uma relação mais equilibrada entre a administração fiscal e os contribuintes”.

A previsibilidade não sai reforçada (o que é que tinha de imprevisível o mesmo carro pagar o imposto sempre no mesmo mês?), transparente é apenas a intenção de aumentar a receita, e da “relação equilibrada” nem é bom falar senão para dizer que é a mesma que existia entre a Santa Inquisição e os incréus.

“Assegura-se, igualmente, a neutralidade fiscal da medida, garantindo-se, designadamente através da disposição transitória, que as novas regras não acarretarão qualquer esforço financeiro acrescido para o contribuinte”.

Fantástico: Mudam-se desnecessariamente as regras, lançando as dúvidas e perplexidades no espírito das pessoas, mas vem-se   garantir que não há qualquer “esforço financeiro acrescido”. Acredita-se:  O esforço acrescido é apenas o da paciência para aturar estas coisas.

Enfim, o trambolho legislativo está aí, a pesporrência também, e a anestesia do eleitorado idem.

Quais as soluções para chegar a um mundo ideal em que o Governo se ocupasse de coisas sérias, o Parlamento não fosse uma repartição para pôr carimbos de aprovação em quanto lixo um ministério qualquer quer pôr à porta e não houvesse Estados dentro do Estado, como há muito a AT é, governada tradicionalmente por um político menor qualquer que julga que a sua missão não é coarctar abusos mas sim aumentar a receita (prática que no doublespeak  politiquês é descrita como “combate à evasão fiscal)?

Tenho várias: Cortejo pelas ruas de Lisboa dos senhores deputados, de sambenito e orelhas de burro, desde S. Bento até à Avenida da Liberdade; aposentação compulsiva (ou despedimento, no caso de não estarem reunidas as condições para aposentação) do funcionário que propôs as medidas; demissão do SEAF e inibição do exercício de direitos políticos por espaço não inferior a 10 anos; e juramento dos senhores membros do Governo diante do Senhor Patriarca de Lisboa, na Igreja de Santa Maria Maior, prometendo abdicar de práticas aldrabonas.

O senhor ministro das Finanças teria ainda de se confessar. Eu, se fosse Patriarca, não lhe dava a absolvição.

 

 

Vinhetas (36)


José Meireles Graça,

O Vitorinha ia jogar ao Jamor a final da Taça e na cabeça do dono do melhor restaurante da região (e um dos melhores do país) nasceu a ideia de uma excursão, de camioneta, àquele estádio, sito em terras em devido tempo incorporadas no país.

Só clientes habituais, alguns deles, como este que se assina, amigos, o preço não sendo exactamente uma pechincha.

À hora aprazada lá nos encontramos e, com o olhar prazenteiro, as piadas de gosto duvidoso pululando, a antecipação da jornada, abalamos.

Ainda antes de chegar ao Porto já um empregado, à laia de desenjoo, ia passeando uma garrafa de legítimo champanhe, que teve de ser reforçada prestes, tal o sucesso da iniciativa. E pareceu uma delicada atenção que, apesar do sacolejo da camioneta, a bebida fosse servida em flutes genuínas, decerto para firmar nos espíritos a ideia de não sermos excursionistas com acne e mochilas.

Houve um desvio no Porto para recolher um outro peregrino e a viagem ia decorrendo sem sobressaltos. Algures a meio circularam pratinhos com salmão fumado, pimentos padrón, presunto pata negra, outros mimos, tudo regado pela mesma bebida, dado que se tratava de viajantes conservadores.

Chegados ao destino à hora do almoço, abriram-se as arcas do tesouro, guardado na caverna geralmente destinada, naqueles veículos, às bagagens, e os dois lestos empregados procederam com desembaraço à instalação de várias mesas topo a topo num recanto do pinhal, formando uma grande, dado que éramos aí uns vinte autênticos ou fingidos amantes de futebol.

Assisti com algum espanto ao forrarem com toalhas alvíssimas aquelas mesas de campanha; e as alfaias na mesa não diferiam em nada das da casa-mãe. O meu querido amigo Pedro não fazia as coisas pela metade por entender, cheio de razão, que os requintes da civilização de modo nenhum são incompatíveis com um ambiente bucólico.

Havia entradas variadas e a resistência era cabrito assado, tudo coroado por bom sortido de sobremesas. Quem quisesse tinha também vinhos à disposição, ainda que muitos, como eu, continuassem no champanhe, com certeza por serem avessos a misturas.

A instalação ficava ao lado do caminho de acesso a uma entrada no recinto. E várias pessoas se detinham contemplando a cena inusitada, raros fazendo perguntas mas muitos comentando em alta voz. Que diziam? Que tava-se mesmo a ver que aquilo era gente do Vale do Ave, um bando de fássistas, que era preciso lata para vir para um sítio daquele com estes preparos, e coisas ainda menos simpáticas.

Serviu de picante, ainda que não fosse preciso: o tempero era, como de costume, aprimorado.

E então, o jogo? Ganhámos.

Dois passos à frente e um para trás*


José Meireles Graça,

Andreas Mindt, chefe do departamento de design do grupo Volkswagen desde Março passado, declarou recentemente que

“We will never, ever make this mistake any more… No guessing any more. There’s feedback, it’s real, and people love this. Honestly, it’s a car. It’s not a phone: it’s a car.”

Boa, Andreas, já tardava. E para começo de conversa nos próximos modelos o volume de som, o aquecimento, a velocidade da ventoinha, as luzes de perigo e o ar condicionado regressa tudo a botões.

Ainda é pouco. Que na realidade a ideia de passar os dedos por um écran ensebado, seguindo um percurso obscuro de menus, para uma coisa tão simples como pôr a ventilação a soprar para os pés em vez de para a fachada, foi sempre coisa de chanfrados da modernidade. E é melhor nem falar do volante cheio de botões, como se carregar num deles à toa não pudesse interferir com aquele mínimo de atenção que o volante propriamente dito requer. Há tempos, numa viagem de Guimarães para Lisboa, num automóvel que não era o meu, ouvi de repente uma voz feminina que me interrogava sobre o que queria fazer. Ao mesmo tempo, no televisor de salão que ocupava parte do tablier apareceu uma imagem qualquer que tinha num canto um xis, que pressionei precipitadamente a ver se a intrometida se calava. Fechou a matraca, graças a Deus, mas uns quilómetros volvidos voltou à carga. Desta vez respondi de forma relativamente acerba, cuidado que não tive das vezes seguintes, em que a insultei nos termos mais soezes.

Que as autoridades de homologação dos veículos achem um progresso transformar o habitáculo num departamento de informática, e que nisso não vejam os óbvios riscos para a segurança, não surpreende: as burocracias acabam sempre por asneirar. Já os utilizadores, enfim, nem se percebe por que carga de água não reclamam para os televisores de suas casas comandos directamente no écran, para efeito de verem filmes através de uma película de suor empoeirado.

Ó, isto não é um hino ao passado. Que Nosso Senhor, na sua infinita bondade, abençoe o GPS, os telemóveis, a internet, as redes sociais e j’en passe (a IA não sei ainda se merece bênçãos, apura-se mais à frente). Mas, como se vê nos automóveis, às vezes vai-se longe de mais.

É aqui que entra a reforma do mecanismo dos exames e o ministro Fernando Alexandre. Digamo-lo francamente: a instalação precipitada de novos sistemas em veículos de novos modelos é causa muitas vezes de chamada de milhares de veículos às oficinas, com gravíssimos prejuízos para os fabricantes.

Porque o fazem, então? Porque a pressão para melhorar é imensa e a inovação é um caminho não isento de perigos.

Fernando Alexandre lançou um novo modelo. O homem é professor numa faculdade onde se ensina gestão (também economia, mas não desejo envergonhá-lo com esta revelação) e gerir, hoje mais do que alguma vez, é mudar.

A sério que tentei perceber exactamente o que correu mal, quem arrastou os pés quando não devia, quem deixou para o dia seguinte o que só podia ser feito a desoras, quem projectou uma imagem de grande competência que não resistiu à prova, quem calou o que realmente pensava porque os ministros passam e os misters Humphrey ficam. As dúvidas – estas e outras – que tinha ao princípio são as mesmas que tenho no fim. E não ajudam nada opiniões de partes interessadas (como a FENPROF, cuja reacçáo negativa, se alguma coisa é, é uma recomendação), professores (dos quais só chegam à opinião pública as vozes dos que apoiam, e criticam, entusiasticamente), e de jornalistas, que glosam embaraçadamente, se forem apoiantes do Governo, ou com gozo, se forem esquerdosos, os episódios que se vão desenrolando. E não posso avaliar se Fernando Alexandre foi imprudente mais do que o bom senso admitiria.

Isso não sei. Mas não contem comigo para a crucificação de um homem que não se resigna. Carreiristas que não correm riscos é gado que sempre abundou nos currais da política, e nestes um touro que investe, e um cavalo que escouceia, sempre são animais de vitalidade.

A comparação das inovações nos automóveis e no ensino faz uma analogia improvável. Que completo dizendo duas coisas:

Uma que, corrigidos todos os defeitos mas não ficando por aqui, é provável que se entre no domínio do asneirol se em algum momento futuro se rejeitar a redacção manuscrita a benefício do teclado, se se generalizarem os questionários de resposta múltipla, pelo menos nas humanidades, e se (como parece que já sucede) cada professor classificar não uma prova inteira mas apenas parte dela, supostamente para limitar as diferenças de grau de exigência de professor para professor mas esquecendo que a prova toda, com os seus erros muitas vezes apenas parciais, dá uma visão global do examinando que a classificação às postas não dá;

Outra que os automóveis que recolheram à oficina por defeito de origem representaram um custo para o fabricante. É mais do que justo que alunos que foram prejudicados não apenas não paguem nada (ouço dizer que governantes com alma de guarda-livros entendem que segundas-chamadas, ou lá o que é, implicam pagamento) mas se torçam os prazos que for necessário torcer para lhes minorar a aflição.

E então, Fernando Alexandre fica ou não fica? Mesmo que tivesse filhos em idade escolar, e ainda que tivessem sofrido transtornos e angústias, diria que sim porque nos melhores panos caem nódoas. Como não tenho… já usted vê.

Cinismo vs. pessimismo


João Sousa,

Muitas pessoas equivalem o cinismo ao pessimismo. Nada mais errado. É certo que um pessimista, com o tempo, se pode tornar um cínico. Mas há pelo menos uma diferença fundamental entre os dois: enquanto o cínico gosta de ter razão, o pessimista receia ter razão. Ao contrário do cínico, o pessimista quer é não ter razão. No fundo, o pessimista é um optimista derrotado pelos seus dados empíricos.

Testemunho do passado recente e do Mundial que, enfim, acaba.


João Pedro Pimenta,

Depois de umas semanas de ausência, estreio-me enfim na nova casa do Delito, já inaugurada no dia de S. João. Como compreenderão, para um portuense é difícil arranjar tempo logo a seguir à grande festa da cidade (e não me lembro de ver tantos balões como este ano, numa noite cálida que acabou com névoa), ao festival Babbel, em que tive a oportunidade de ver o Best of musical do Porto (GNR, Abrunhosa e Veloso) e de avistar os srs. Julian Barnes e Lazlo Krasznahorkai, e outras coisas mais.

O mundial também me entreteve, em parte. Teve jogos memoráveis, com o, mesmo a acabar, insano França-Inglaterra, algumas boas surpresas vindas de África, com Cabo Verde à cabeça, e jogadores com um númerod e golos marcados como há muito não se via. E também desilusões. Portugal inclui-se nelas, mas piores ficaram alguns dos maiores detentores da prova, como o Brasil, Alemanha, Uruguai (quando nem se deu por ele) e a Itália nem conseguiu lá chegar. Em conjunto, perfazem quize vitórias em Mundiais. O estatuto, felizmente, não chega para ganhar.

Não esperava a vitória de Espanha, é certo, iludido com a entrada em falso. Alguns avisaram sabiamente que também em 2010 tinham entrado a perder com a Suíça. A verdade é que só nos dois jogos finais é que mostraram toda a sua qualidade. Nalguns jogos tiveram bastante sorte, por conta de lesões de adversários importantes: aconteceu com Portugal, com a lesão de Nuno Mendes, o melhor jogador das Quinas, ou Courtois, da Bélgica. Mas contra a França dominaram completamente aquela que era a grande favorita à vitória final e o seu diabólico tridente ofensivo. E ontem, contra uma Argentina brigona e provocatória (estou a ser simpático), não se deixaram cair na esparrela e não deixaram Messi e Cia pôr pé em ramo verde. Só a Espanha jogou e procurou a vitória, excepto nos minutos finais do prolongamento. Mereceram o título por estes dois jogos, E atenção que daqui a 4 anos o Mundial é aqui. Aqui na Península e um pouco para lá das Colunas de Hércules, pelo que à partida temos favorito.

Um aspecto importante da vitória de Espanha é ter sido uma equipa europeia a ganhar. Este Mundial teve alguns jogos trepidantes, mas as “americanices”, trazendo conceitos mais próprios da superbowl e do basebol, foram mais que muitas, e viu-se na final com uma espécie de stewards ridículos ao microfone, um intervalo com música que por pouco não durava meia hora e claro, as famigeradas “pausas para hidratação”, um truque publicitário que parece que veio para ficar (também em jogos sem transmissão televisiva?).
E depois as condicionantes políticas, que impediram um árbitro somali de entrar em território americano e exercer a sua tarefa (e perante a indignação africana a UEFA, sagazmente, convidou-o para arbitrar a Supertaça), a selecção iraniana de pernoitar sequer nos EUA, obrigando-a a ir a correr para o México depois de cada jogo, os milhares de adeptos que não puderam entrar – Capdevilla, campeão em 2010, por pouco era impedido de ir à final apenas por ter estado no Irão há dez anos – e até aquela revoltante retirada do cartão vermelho a Balogun, felizmente sem consequências desportivas. Os jogos olímpicos da Antiguidade eram uma trégua sagrada entre as cidades que neles entravam, muitas vezes inimigas. Se um país tem problemas com outro e condiciona os seus nacionais, então que não organize eventos desta envergadura. Até porque estas condicionantes acabam por ter efeitos nas equipas, inquinando os resultados e a classificação. Claro que nada disto afecta o lambe-botas Infantino, que, curvando-se perante Trump, disse que este Mundial tinha sido “o maior evento humano, social e cultural que a Humanidade já testemunhou”. Pobre humanidade.

E uma curiosidade histórica: ao mesmo tempo que La Roja triunfava nos relvados do MetLife Stadium, passavam noventa anos do “Alzamiento” e do início da terrível Guerra Civil. O contraste não podia ser maior: em 19 de Julho de 1936, a guerra, a divisão, o Pais Basco e a Catalunha, entre outros, contra a outra metade. Em 2026, é o contrário: a selecção, com grande número de bascos e catalães, uniu o país.

PS: e já que Espanha está eufórica, podíamos aproveitar enquanto estão tão bem dispostos para lhes pedirmos Olivença de novo. Qualquer coisa como “vá lá, vocês ganharam o Mundial, são os maiores. Dêm-nos só de volta aquele pequeno município da Extremadura. E pode ser para a semana, para eles também festejarem enquanto ainda pertencem a Espanha”.
Não custa tentar. Paulo Rangel que prepare o choradinho

AGORA É A SUA VEZ, MESSI! 😂🇪🇸 A Espanha é campeã do Mundo e a gente já lembra da icônica foto do Messi dando banho no Yamal… *Contém texto alternativo #CopaNaGlobo #ViveNaGente #

A Casa (12)


José Meireles Graça,

A partir de Janeiro do ano passado andei contando, em 11 episódios, a saga da herança e venda de uma casa. Uma corrida de obstáculos, em todos ou quase aparecendo a cabeça abominável do Estado, deitado de través na pista, a boca entreaberta onde se viam os caninos escorrendo sangue de impostagem, os olhos remelentos de burocracia.

Caiu o pano, julgava eu, quando em 9 de Setembro foi celebrada a escritura de compra e venda com um simpático casal de emigrantes, eu intervindo em meu nome e como procurador de 11 co-herdeiros, mais o procurador de um primo, mais 3 parentes, um representando o irmão… os nomes quase podiam ser os da posse de um Governo, se em vez de partilharmos ascendentes comuns partilhássemos um partido político e a cabeça cheia de caraminholas.

Creio que não disse então, mas digo agora, que o valor da transacção foram 270.000 Euros. E destes a minha parte (além do reembolso de despesas que suportara sozinho) foram 9.740,87€.

A senhora notária, simpaticíssima e cujo cartório era num lugar adequadamente chamado do Bom Sucesso, informara incidentalmente que na sua opinião não eram devidas mais-valias.

Ai que riso, sempre que legalmente não é devido um imposto a AT entende que é e como essa sinistra entidade só existe como alma-mater de uns esbirros da Inquisição, e estes acham que a sua missão neste canto da Ibéria é esmifrarem o mais que puderem para salvação das almas dos contribuintes, vale a interpretação dos serviços e, dentro destes, do frade a quem cair o processo.

O qual pode ser teoricamente desautorizado pelo tribunal mas este leva tanto tempo a decidir que no intervalo ou morre o contribuinte recalcitrante ou o funcionário. O SEAF não será com certeza o mesmo, claro, mas isso não interessa nada porque são todos iguais – o trabalho deles consiste, qualquer que seja o partido, em se felicitarem por terem cobrado mais enquanto inexistiam na supervisão dos abusos.

Um gabinete de contabilidade fez-me este ano a declaração para IRS. Não é que fosse complicada, é que se um paisano se meter a fazê-la ele próprio corre o risco de ficar atolado no pântano do Portal das Finanças, que é por onde se entra no quinto dos infernos.

Fiquei à espera de notícias e elas vieram, numa papeleta com uma demonstração ininteligível – tinha de pagar xis.

Costumava receber qualquer coisa, desta vez não. Parece que o Governo tinha alterado as tabelas de pilhagem adiantada, para dar a impressão que o esbulho tinha diminuído, e que portanto no acerto de contas quem costumava receber via o reembolso por um canudo.

Paguei. E como na declaração constava a modestíssima pitança da venda da casa fiquei curioso sobre se a promessa da notária a era para valer.

Hoje pedi esclarecimentos à contabilista e esta foi ao meu cadastro. Fácil: entra porque tem a minha chave, recebo um número no meu telemóvel, telefono à senhora, ela põe o número e zás – vê o que de qualquer modo veria sem eu ser obrigado a estas patacoadas recentemente inventadas, dantes não havia esta parte gaga da segurança de quem não a pediu nem deseja.

Fez uma simulação do que eu teria pago se não tivesse havido aquele recebimento; e confrontou com a real, a diferença sendo o imposto de mais-valias.

Terei pago a esse título 1.233,67€. Sei lá se está certo, nem isso me interessa.

O que interessa é que tudo isto é uma floresta de abusos, descasos e arbitrariedade. E enquanto se entender que vale tudo para aumentar a receita do Estado, que os funcionários são irresponsáveis e inimputáveis, que o SEAF é um membro decorativo do Governo que está lá apenas para fingir que existe, e que os tribunais administrativos e fiscais são organismos etéreos que vivem no reino das tartarugas, nada mudará.

De modo que as tias que legam amorosamente as casas em que viveram aos sobrinhos continuarão a deixar, mais do que um imóvel, um molho de brócolos. E elas, as casas, em vez de entrarem rapidamente no mercado da habitação ficam a degradar-se à espera de tino legislativo. Quem espera desespera, é sabido.

 

 

Leitura de RSS com Newsify


João Sousa,

Quando o Delito de Opinião mudou de instalações, a leitora AL queixou-se de o seu programa de RSS (Newsify) não conseguir ver o feed do blogue. Apraz-me anunciar que o autor da aplicação já corrigiu a falha. Os utilizadores do Newsify podem, a partir de agora, dar-lhe o endereço do blogue (delitodeopiniao.pt) e escolher depois a opção Custom URL:

o triunfo da justiça*


José Meireles Graça,

Ponto prévio (minha opinião já antiga): Sócrates é culpado e já havia indícios de que o fosse quando ainda era PM. É por causa da pregressa existência desses indícios que nem toda a gente o abomina da mesma maneira: Os que sempre viram ali um demagogo troca-tintas olham para ele com alguma equanimidade – é passado; os outros que o elegeram e reelegeram carregam uma culpa interior, que sublimam detestando-o a dobrar porque por indesculpável cegueira não viram o que era patente, logo teria de ser por o homem ser um monstro, que evidentemente não é.

Há também a sua entourage próxima, cujo deliberado descaso dos factos que não podiam desconhecer traduz uma maneira amoral de estar na política. Ainda andam muitos por aí, o mais saliente deles Costa, mestre de cerimónias do Conselho Europeu.

O animal feroz, como a si mesmo se descreveu, uma expressão que a comunicação social acolheu com júbilo no tempo em que o carregava num andor, tem provado ao longo do processo que sim, tem uma ferocidade combativa, contestando tudo e de tudo recorrendo, não se deixando abater nem sequer quando o detiveram com espalhafato nem quando o trancafiaram meses a fio para o investigarem com o remanso policial que se dá como natural.

Esta combatividade é apresentada como uma das razões do absurdo arrastar do processo e, por causa dela, gente de grande ponderação diz gravemente que, para evitar o escândalo e a denegação de justiça, o melhor é diminuir os direitos dos arguidos (ou acusados, ou lá o que é).

Não há todavia nenhuma diligência, nenhum recurso, nenhuma oposição, nenhuma contestação, nenhum requerimento (uf, que estou aqui a ver se cubro as hipóteses todas) que não tenha sido decidido por alguém; e por que motivo o alguém tinha necessariamente de arrastar os pés e decidir em meses o que devia ser decidido em dias, ou em dias o que requeria horas, passa com tranquilidade pelo crivo da opinião do especialista: é assim porque tem de ser assim.

Não tem. E quem ler qualquer decisão judicial (maxime sentenças) fica pasmado porque aquilo é invariavelmente prolixo, redundante, doutrinário, às vezes com pretensões literárias, reforçando a cultura da solenidade com medo de que a opinião pública deixe de ter pelos paramentos dos agentes da Justiça a mesma devoção que dedica aos santos, e os advogados dos processos e as instâncias superiores o respeito devido a peças decisórias solenes.

Sucede que em matéria de respeito da opinião pública ele está num caco; e as soluções que magistrados (os autênticos, isto é, juízes, e os que para não dependerem do poder político não dependem de coisa alguma), advogados, funcionários e especialistas da matéria que se espargem em artigos, comentários e entrevistas, servem para pouco: É desse aquário que têm saído todos os reformadores e continuam a sair, de modo que podemos esperar que o resultado não seja muito melhor do que o que tem sido. Pode ser pior, aliás, como se depreende da pulsão para limitar os direitos de acusados. Estes, os direitos, são uma conquista civilizacional mas vamos fazer um recuozinho que não temos imaginação, nem lucidez, nem competência, para fazer outra coisa.

Resumindo: Não é atitude de grande discernimento tomar como necessário que a reforma do sistema de Justiça seja exclusivamente operada por quem nele está mergulhado até às orelhas, posição que impede a visão de mais do que dossiers empilhados.

Não estou de momento com vagar para a reformar, pôr no pouco lisonjeiro lugar que lhes compete todas as categorias de pessoas que a agenciam e em torno dela gravitam, e apontar os caminhos que ela, a reforma, deveria trilhar. Mas estou para fazer uma reflexão sobre uma sentença judicial em particular por nela estarem implícitas as razões pelas quais a independência e irresponsabilidade dos juízes são a maior e melhor garantia de que o cidadão não é condenado nem pelo poder político, nem pela opinião publicada, nem pela opinião pública, nem pelas polícias, nem pela magistratura de acusação.

A juíza Daniela Braga de Oliveira outorgou a Sócrates uma indemnização de 15.000 Euros porque “o Estado não preservou o segredo de justiça como lhe competia e ‘atentou contra o princípio constitucional da presunção de inocência do arguido e do direito a beneficiar de um processo justo e equitativo’, além de ‘ofender’ o seu ‘bom nome, reputação e privacidade”.

Aspei por ser uma transcrição de parte de um artigo deste jornal, não directamente da sentença porque nem com a ajuda da IA a encontrei. As sentenças não ficam imediatamente disponíveis porque ninguém se lembra de que os juízes administram a Justiça em nome do povo e este não deveria necessitar exclusivamente da mediação de jornalistas, dos quais aliás a maior parte não é capaz de interpretar correctamente texto algum, para não falar dos enviesamentos que os afligem.

A sentença tem (na minha opinião, que naturalmente respeito) várias insuficiências, ainda que empalideçam perante a exemplaridade da conclusão e resultem de um entorno de condicionamento das sentenças que não era razoável esperar o tribunal verberasse.

Desde logo, o valor modestíssimo da indemnização. Porém, o conceito de indemnização punitiva do ofensor está ausente do nosso ordenamento, pelo que se trata sempre e apenas de medir os danos. Os quais (aliás de prova muito difícil) são tradicionalmente calculados por valores somíticos.

Não só isto:

“É unânime na jurisprudência, os prazos do inquérito são meramente indicativos, e não vinculativos”.

Que a juíza não se afaste da jurisprudência compreende-se, a segurança jurídica é um valor respeitável. O que não se compreende é que a jurisprudência abunde no disparate, senão no abuso, porque um prazo legal que pode ser ignorado (por magistrados, mas não, por exemplo, por advogados) é como se não existisse. Isto significa o seguinte: O legislador não sabe o que diz, coitado, de modo que a gente faz de conta que ele não disse nada.

Mas disse. E o legislador tem o direito (do qual, aliás, abusa) de dizer asneiras, mas não deveria haver quem, sob pretexto de independência, se permita ignorá-las. De modo que o atropelo de um prazo deveria dar automaticamente direito a indemnização e, no caso do Ministério Público, a obrigação de procedimento disciplinar. Defenderia a mesma coisa em relação a juízes se isso fosse possível sem lhes ferir a independência e a irresponsabilidade. Mas como não é, deve prevalecer o valor mais alto.

“José Sócrates estava a dar ‘mero emprego’ aos ‘vários meios processuais que a lei lhe permite para a defesa dos seus interesses’, não tendo vislumbrado que Sócrates ‘tenha feito um uso abusivo ou predeterminado de molde a provocar delongas processuais”.

Chapeau, senhora Juíza, é exactamente isso: Defendeu-se com recurso a expedientes legais e fez muito bem. A maneira de lidar com o uso extensivo de tais expedientes é resolvê-los prestes, não prejudicar eventuais inocentes por os impedir de se oporem ao que estimam abusos.

“… são muitas as violações do segredo de justiça que o tribunal deu como provadas”… “tal ‘circunstancialismo fáctico’ coincidiu (…) com a fase de inquérito criminal, que se encontrava sob segredo de justiça, constatando-se que o mesmo não foi observado pelos serviços do Tribunal de Instrução Criminal, da Autoridade Tributária e do Ministério Público”.

Não foi observado e continuará a não ser enquanto não houver investigações sérias conduzidas por elementos estranhos aos serviços de onde presumivelmente nasceram as fugas. Com nomes, informação e acompanhamento, que o nevoeiro não se dissipa sem que o ambiente aqueça. Isto ou pura e simples eliminação do segredo de justiça, o que não se afigura como razoável por poder prejudicar as investigações.

Foram precisos quase 40 séculos, desde Hammurabi, para construir o edifício do Direito como ele é hoje nas sociedades onde os direitos dos cidadãos se podem afirmar em pé da igualdade que a lei garante contra os mais fortes, os mais ricos, os poderes que exorbitam das suas competências, a opinião pública e o próprio Estado.

Quem cai nas malhas da Justiça Criminal é, por definição, o mais fraco; a presunção de inocência abrange, antes da prova e condenação, o mais evidente dos culpados porque se não for assim abre-se a porta a erros judiciários; e para garantir que o Juiz decide segundo a Lei temos de aceitar que, de quando em vez, ele ignore o vozear à porta do Palácio de Justiça e as imprecações naturais em tascos mas que deixam de o ser se proferidas por quem não deva ter comportamento de frequentador.

A sentença da juíza Daniela Braga de Oliveira honra a magistratura; e o recurso do Ministério Público, mesmo que venha a merecer acolhimento, não é mais de que uma perrice de orgulhozinho ferido.

Portuguêsmente comendo


Maria Dulce Fernandes,

Conforme planeado, hoje foi dia de sardinhada. Não sei se é do calor, se da idade, mas nesta incursão gastronómica, acabei por ficar aquém daquele recorde que bati há dois anos, o tal das 16 sardinhas. Desta vez, comi apenas 14 peixitos. A falta de preparação física associada ao calor e à vetustez deglutiva, fizeram-me mostrar o cartão vermelho à travessa de prata fumegante que se avizinhava. E, com grande pesar, saí de jogo.