Blogue da semana


Pedro Correia,

Tempo de férias para muitos. Tempo propício a deslocações: os dias longos desafiam-nos a isso.

Daí a recomendação que hoje faço. De um blogue escrito a dois. Por uma geógrafa e um físico, Carla Mota e Rui Pinto. Ambos devotos de passeios e excursões e deambulações por países e continentes – quanto mais longe do sofá, melhor.

Antes da guerra mais recente passaram por Ormuz, visitando o Forte de Nossa Senhora da Conceição mandado erguer por Afonso de Albuquerque no século XVI e lá descobriram inscrições portuguesas que têm resistido à erosão do tempo. Sentiram orgulho: «Estas ruínas com 400 anos demonstram que os portugueses tiveram a visão e coragem de criar um mundo novo, e souberam-no fazer contra a vontade de impérios maiores e mais poderosos.» Bem os compreendo.

«No final da visita queremos pagar e [o guia] diz-nos que não. É oferta, o forte, afinal, era vosso!» Orgulho redobrado.

Eis Viajar Entre Viagens, nosso blogue da semana.

Saudades de São Francisco


Pedro Correia,

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Há uma atmosfera cintilante, tão parecida com a de Lisboa. E a luz coada. E a neblina, que cai quando menos se espera. E os carros eléctricos sulcando as curvas de Lombard Street. E os leões marinhos expostos aos raios do sol e ao olhar indiscreto dos turistas no Fisherman’s Wharf. E as frondosas alamedas verdes do parque Golden Gate, o maior pulmão verde da cidade. E a ponte. E os labirintos do bairro chinês. E a memória cinéfila ao espreitar de qualquer esquina, devolvendo-nos cenas míticas de alguns dos filmes das nossas vidas – Dark Passage, Vertigo, Bullitt, Dirty Harry, Basic Instinct. E os barcos que cruzam a baía, rumo a Sausalito. E o rochedo de Alcatraz, lá mais ao longe. E a eterna cantiga de Scott Mackenzie tocada algures em Union Square. E Haight-Ashbury, local mítico da geração das flores.

«Vimos estendida diante de nós a fabulosa cidade branca de São Francisco sobre as suas onze colinas míticas com o Pacífico azul e, ao largo, a sua muralha de nevoeiro marítimo a avançar, e fumo e a luz áurea do fim de tarde do tempo», escreveu Jack Kerouac nas páginas de On the Road. Com um deslumbramento que qualquer forasteiro sente ao visitar Frisco.

À despedida, só apetecer trautear a canção de Tony Bennett: «I left my heart in San Francisco / High on a hill, it calls to me.»

Pela Europa


Cristina Torrão,

Faço hoje uma pausa nas Rapidinhas de História, voltarão no próximo ano. E aproveito para pôr aqui outro vídeo: “Da Alemanha até Portugal, em três minutos”. Uma viagem pela Europa sem fronteiras. Para quem gosta de liberdade.

Trump e Putin são psicopatas invejosos. O seu discurso anti-Europa é apenas mais um, entre os disparates que debitam, todos os dias. Esperam desmoralizar-nos. E não podemos deixar que isso aconteça.

Faço viagens entre a Alemanha e Portugal, maioritariamente de carro, há trinta e três anos. Sinto-me bem-vinda em qualquer local, sou uma europeísta convicta. Não sei de outro lugar do mundo, onde se viva melhor, com mais liberdade.

Mensagem de resistência para 2026:

VIVA A EUROPA!

 

Dez conceitos para uma viagem ao Japão no Outono – parte 2


Ana CB,

Escolhi o Outono para visitar o Japão. Atrevo-me a dizer que será a melhor altura para viajar no país. Por um lado, o kōyō dá colorido a uma arquitectura tradicional que, se excluirmos os templos e santuários, tem a sobriedade e discrição como base. Por outro, a atmosfera da própria estação do ano convida à pausa, à demora, à reflexão. É o quadro perfeito para interiorizar mais alguns dos conceitos que são importantes na cultura japonesa.

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Wabi-Sabi (侘寂)

A beleza do que envelhece

Rodeada pela beleza dos Alpes japoneses, Takayama é uma cidade surpreendente, onde o moderno e o antigo coabitam sem choques. No extenso bairro de Sanmachi, as casas mantêm as suas fachadas de madeira escura, marcadas pelos anos. Nada parece restaurado em excesso. As superfícies mostram desgaste, irregularidade, uso contínuo. Apesar das concessões ao turismo, muitas lojas dedicam-se à venda de artesanato de qualidade e de produtos locais tradicionais, como chá ou saquê. Há um sentido de beleza contida que se prolonga nos interiores de restaurantes e cafés tradicionais, onde vigas de madeira, iluminação baixa e objectos vintage criam ambientes que nos transportam para outras épocas.

O wabi-sabi valoriza esta estética: o simples, o imperfeito, o incompleto. O Outono reforça a sensação, acrescentando pontos de cor, textura e ainda mais sombra à atmosfera. Aqui, a beleza não está no novo, mas no que foi cuidado ao longo do tempo.

O templo mais antigo da cidade é o Hida Kokubun-ji, que remonta a meados do século VIII. Bem cuidado e conservado, a madeira escura dos edifícios e do seu pagode de três andares e a gingko centenária, tronco robusto e folhas-leque douradas pelo kōyō, ilustram simultaneamente uma espiritualidade discreta e a recusa em ocultar a passagem dos anos.

Takayama celebra a Primavera e o Outono em dois eventos anuais que se realizam desde há cerca de 400 anos. Os Takayama Matsuri são considerados dos mais belos festivais do Japão, e a sua longevidade reflecte bem a lógica japonesa de continuidade: rituais que se repetem, que se ajustam ao tempo, mas preservam o essencial. Um conceito que dialoga directamente com o wabi-sabi e com a noção de tempo cíclico tão presente na cultura do país. Os carros alegóricos (yatai) que desfilam durante o festival são um prodígio. Doze no total, todos diferentes e preciosamente decorados, têm um significado religioso, simbólico e comunitário profundo. Cada carro foi construído como oferta religiosa e pertence a uma comunidade específica, reflectindo a fé e o esforço colectivo dos bairros (machi) da cidade, e reforçando os laços sociais e a continuidade das tradições ao longo de gerações. Os yatai são expostos rotativamente (apenas quatro de cada vez) no Takayama Matsuri Yatai Kaikan, um salão do edifício onde estão guardados, e de onde apenas saem nos dias dos festivais.

À beira-rio, em cada manhã, o mercado de Miyagawa revela uma rotina simples: barraquinhas modestas, produtos sazonais, comida de rua e artesanato. Realiza-se desde o período Edo, quando agricultores e artesãos das aldeias em redor de Takayama começaram a reunir-se junto ao rio Miyagawa para vender excedentes agrícolas, flores e produtos artesanais directamente à população da cidade. Hoje em dia, mais do que um mercado turístico, mantém ainda a função original de proximidade, reflectindo um modo de vida assente na relação directa entre quem produz e quem consome – um exemplo muito claro de wabi-sabi aplicado ao quotidiano.

O que fica: aceitar a imperfeição como sinal de autenticidade.

 

Ma ()

O espaço necessário

O Museu ao Ar Livre de Gora dispõe esculturas em diálogo com o espaço aberto, onde o vazio entre cada obra faz tanto parte da experiência quanto as obras artísticas exibidas. Para chegar a Gora, a viagem faz-se em camadas: o comboio da linha Hakone Tozan serpenteia pela montanha, invertendo várias vezes o sentido da sua marcha para conseguir vencer o desnível, num ritmo imposto pelo perfil orográfico. De Gora para Hakone, o percurso continua por etapas – primeiro de funicular, subindo lentamente pela encosta; depois de teleférico entre Sōunzan e Ōwakudani, de onde a vista abrange todo o espaço de montanha que as nuvens baixas deixam alcançar; e a seguir descendo pela vertente oposta, novamente de teleférico, com o olhar suspenso sobre vales profundos e florestas densas e prenhes de cor. O itinerário não encurta a distância; prolonga-a, criando tempo para observar.

Em Hakone, ma revela-se na relação entre movimento e pausa, entre paisagem e deslocação. No Lago Ashi, protegido pelas montanhas que o cercam, a água cria um espaço de imobilidade, de acolhimento silencioso, mas também de separação – entre o que está oculto abaixo da superfície e o que se descobre acima dela. O Torii da Paz, ancorado no lago, marca a transição simbólica entre o profano e o sagrado. Ao Kuzuryū-jinja (Santuário do Dragão com Nove Cabeças), recolhido na floresta, só chegamos depois de ascender muitos degraus. Em Hakone, ma é o tempo e espaço entre um lugar e outro, a terra de ninguém que permite a existência plena de algo depois dela. E que, ao mesmo tempo, transforma a deslocação em experiência.

O Outono reforça esta percepção: os espaços enchem-se de cor, mas mantêm-se abertos.

O que fica: reconhecer o valor do espaço – seja físico, mental ou emocional.

 

Wa ()

A harmonia

Wa é um valor central da sociedade japonesa: harmonia entre pessoas, natureza, espaço e tempo.

Nas aldeias gasshō de Ainokura e Shirakawa-go, o conceito de wa manifesta-se na integração natural entre clima, paisagem e arquitectura comunitária. As casas gasshō-zukuri têm telhados íngremes, concebidos para suportarem a copiosa neve do inverno japonês; fazem lembrar mãos em oração, e é esse o motivo do seu nome (gasshō significa “oração”). São construídas em madeira e palha, e não levam pregos.

Em Shirakawa-go, a maior e mais conhecida destas aldeias alpinas, os telhados inclinados de palha formam um padrão uniforme e imponente, que contrasta com as encostas da montanha, pintadas com as cores de Outono. Descoberta pelo turismo, algumas das suas casas funcionam como loja ou museu, mas muitas ainda são habitadas pelos proprietários.

Em contraste, Ainokura, menor e mais intimista, preserva um estilo de vida rural único no Japão, um ritmo de vida mais silencioso e discreto, onde cada construção mantém proximidade com o terreno e com os vizinhos. Ambas as aldeias demonstram como wa se traduz em equilíbrio: os habitantes cuidam das casas uns dos outros, respeitam os ciclos naturais e adaptam os espaços às exigências do local e do clima.

Percorrer estas aldeias fez-me compreender que a harmonia japonesa não é apenas estética, mas prática, social e ambiental – um modo de existir em comunhão com tudo o que nos rodeia.

O que fica: procurar harmonia em vez de excesso.

 

Kokoro ()

A unidade entre mente e coração

Em Tóquio, o conceito de kokoro manifesta-se nos espaços de tranquilidade que emergem no meio da cidade movimentada.

Nos jardins tradicionais, cada detalhe é pensado com vista a atingir o equilíbrio, e a mantê-lo. A atenção concentra-se no essencial. Pedras colocadas com propósito, areia cuidadosamente trabalhada, musgo que cresce sem interferência. Pouco acontece, e ainda assim tudo está presente.

Kokoro reúne coração, mente e espírito numa única ideia. Não separa a razão da emoção. Os jardins convidam à observação silenciosa, à errância reflexiva. Não pretendem impressionar; e, ainda assim, conseguem-no sobremaneira. Seja no Rikugien, ao percorrer os seus trilhos que contornam lagos com pequenas pontes, colinas artificiais e árvores centenárias, no Koishikawa Korakuen, onde a variedade de plantas e espelhos de água se vão revelando gradualmente, ou no Ninomaru, dentro do complexo do Castelo de Tóquio, observando as lindíssimas carpas koi com barbatanas longas, o Outono empresta ainda mais emoção às paisagens desenhadas destes jardins. É a época ideal para o kokoro – para integrar percepção e sentimento.

O que fica: alinhar pensamento, emoção e acção num mesmo ritmo.

 

Zanshin (残心)

A atenção que permanece após o gesto

Nos santuários e templos de Nikkō, o zanshin surge como a consciência que se mantém mesmo depois de atravessarmos um espaço ou completarmos um gesto. Os recintos budistas e xintoístas, dispersos pela floresta, convidam à observação e reflexão, à atenção que não se esgota no instante, mas se prolonga na memória. Não é possível absorver tudo de uma só vez. Há que registar e deixar assentar. Esta necessidade torna-se quase imperiosa no santuário de Tōshō-gū, onde a abundância decorativa raia o exagero e exige foco. Antes da entrada, o pagode Gojū-no-tō, com os seus cinco exuberantes níveis sobrepostos, evoca os elementos da natureza e uma ideia de estabilidade silenciosa. O portão Yōmei-mon, coberto por centenas de esculturas minuciosas, o uso de madeira ricamente lacada e de folha de ouro nos diversos edifícios e portões, e a profusão de elementos, compõem um conjunto visual denso, onde cada detalhe tem uma intenção simbólica. As figuras muito populares dos Três Macacos Sábios e do Gato Adormecido remetem para vigilância, autocontrolo e protecção – ideias que reforçam a necessidade de presença continuada.

Em contraste, o santuário interior (Okusha), onde repousa o túmulo de Tokugawa Ieyasu (fundador do shogunato de Tokugawa, que governou o Japão durante 250 anos, até 1868), é um espaço austero, silencioso, afastado da ornamentação exterior. Chegar lá exige esforço: é necessário subir uma escadaria de 207 robustos degraus de pedra, construída em vários níveis por entre os cedros que revestem a encosta. Um percurso exigente, que requer firmeza e reforça o sentido de transição e de intenção.

Em Nikkō, o zanshin não está ligado a um ponto específico, mas sim à forma como a atenção se mantém activa ao longo dos percursos, persistindo mesmo depois de termos partido, mantendo a conexão com o espaço e o momento. Uma espécie de presença prolongada.

O que fica: manter consciência para além do resultado imediato.

 

***

Wabi-sabi, ma, wa, kokoro e zanshin são concepções que falam de equilíbrio, convivência e observação. Não são ideias abstractas, são práticas discretas que se revelam nos espaços, na interacção com as pessoas e na apreciação da cultura.

Na impossibilidade de explicar todo o Japão através de conceitos, eles são, ainda assim, pistas para compreender um pouco melhor a essência do espírito japonês.

Viajar pelo Japão no Outono é aceitar que a experiência não é constante nem previsível. As folhas mudam, caem, desaparecem. Algumas paisagens surgem no momento certo; outras não. Talvez seja isso que o momijigari ensina: não simplesmente a procurar o que quer que seja, mas a aceitar que tudo tem o seu tempo. E, nesse processo, aprender a olhar – com mais atenção, menos ruído e maior respeito pelos outros e por aquilo que nos rodeia.

Dez conceitos para uma viagem ao Japão no Outono – parte 1


Ana CB,

No Japão, a mudança das folhas chama-se kōyō (紅葉): o momento em que os verdes cedem lugar aos vermelhos e dourados. Ir ao encontro dessa transformação é praticar momijigari (紅葉狩り) – observar, procurar, acompanhar o Outono no seu percurso natural.

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Pela sua própria natureza, esta estação do ano é propícia a um ritmo de viagem mais lento, mais contido, mais atento. Uma viagem que não serve só para coleccionar paisagens ou cumprir listas, mas para sentir, olhar com atenção, reparar nos pormenores, observar os costumes locais, mergulhar na cultura – tanto quanto possível quando temos o tempo contado. O momijigari não exige deslocações rápidas nem ângulos perfeitos; pede vagar, presença e disponibilidade para aceitar que nem todos os dias oferecem o mesmo espectáculo, nem todos serão radiosos ou irão espantar-nos.

A cultura japonesa está construída sobre a atenção aos detalhes, o respeito pelo colectivo e a aceitação tranquila da impermanência. Existe um equilíbrio (embora nem sempre perfeito) entre tradição, disciplina e sensibilidade. Alguns conceitos japoneses ajudam a compreender esta forma de estar. Não como conceitos abstractos, mas como práticas discretas que atravessam o quotidiano – e que, num contexto de viagem, ganham uma clareza particular.

A partir de dez destes conceitos especiais da cultura japonesa, esta é uma crónica quase minimalista da minha viagem ao Japão, com o kōyō e o momijigari como pano de fundo.

 

Mono no Aware (物の哀れ)

A consciência da impermanência

O Outono em Quioto torna visível a fragilidade de tudo o que existe. Esta percepção de transitoriedade está intimamente ligada à religiosidade japonesa, onde o xintoísmo e o budismo coexistem e se complementam, moldando a forma como se observa a natureza e se vive o dia-a-dia. Nos santuários xintoístas, como o Fushimi Inari Taisha (Santuário Principal de Inari), a sequência infinita de torii (portais de entrada para o mundo sagrado) simboliza não apenas devoção, mas também a passagem contínua do tempo e a presença do divino em cada instante. Nos templos budistas, como o Kiyomizu-dera (Templo da Água Pura), o Kōdai-ji ou o Entoku-in, a arquitectura, os jardins e a disposição das pedras são projectados para cultivar a contemplação, a atenção plena e a aceitação da transitoriedade, valores centrais do budismo.

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No Outono, a mudança de cor das folhas das árvores torna-se metáfora visual desta consciência, e lembra-nos de que mesmo o que parece eterno está em constante transformação. Mono no aware é essa compreensão serena da impermanência: a beleza do kōyō existe também porque não dura, e é precisamente essa condição que lhe dá profundidade.

O que fica:aceitar a transitoriedade como parte integrante da experiência.

 

Komorebi (木漏れ日)

A luz entre as folhas

Em Arashiyama, o Outono intensifica o contraste entre luz e sombra, e o sol perpassa pelos bambus altos e pelas árvores em ângulos inesperados. Komorebi nomeia precisamente este fenómeno: a luz filtrada pelas copas.

No recinto dos templos Jōjakkō-ji, o sol peneirado ilustra este efeito profundamente sensorial. A luz não ilumina tudo; escolhe fragmentos – um tronco, um caminho, um detalhe em pedra. Infiltra-se entre as folhas das árvores, iluminando discretamente o musgo, as folhas caídas e os telhados do recinto. Nada dura muito tempo. O instante seguinte já é diferente. As florestas de bambu são labirintos verdes com alturas de tsunami, onde os caules altos filtram o sol em linhas verticais de sombra e claridade, criando uma sensação de movimento constante.

No Tenryū-ji (Templo do Dragão Celestial), o jardim paisagístico abre-se em planos amplos, e a luz sobre o lago faz reflectir as cores das encostas arborizadas, fundindo a paisagem construída e a natural numa mesma paleta. E ao longo das margens do rio Katsura, as cores do Outono multiplicam-se na água, expandindo os jogos de luz fragmentada. Komorebi é o instante em que a paisagem nos revela mais um pormenor, reclamando a nossa atenção plena.

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O que fica: aprender a reparar nos detalhes mais breves e delicados, na beleza efémera das coisas.

 

Yūgen (幽玄)

A profundidade que não se explica

O conceito de yūgen manifesta-se naquilo que não se mostra por completo. Em Nara, o Outono transforma a Floresta Primordial de Kasugayama num cenário de mistério. Os cervos, que desde há centenas de anos são considerados mensageiros dos deuses, circulam livremente pelos parques e caminhos – assim como que guardiões do espaço sagrado, reforçando a comunhão entre homem, natureza e espiritualidade. Pelos caminhos, alinham-se centenas de lanternas de pedra, gastas pelo tempo e cobertas de musgo, que dão ao cenário um toque ainda mais irreal.

No Santuário de Kasuga-taisha (Santuário da Primavera), logo após a entrada, ergue-se o Shato-no-Ohsugi (cedro gigante), uma magnífica árvore com 800 a 1000 anos, imponente e silenciosa, que simboliza longevidade e a conexão entre a natureza e o decreto divino de Kasuga-taisha de cuidar das plantas. O santuário é alvo de uma veneração extraordinária, como o provam os milhares de lanternas de bronze, muitas folheadas a ouro, oferecidas em prece por fiéis ao longo dos séculos. Todas estas lanternas são acesas durante os festivais Mantoro Matsuri – acredita-se que a luz ajuda a superar a escuridão da ignorância, oferecendo momentos para reflexão, gratidão e oração por boa sorte.

No recinto do Tōdai-ji (Grande Templo do Leste), o edifício maior abriga a monumental estátua de Buda Vairocana, rodeada por outras grandes esculturas de entidades sagradas. A escala imponente das estátuas e a obscuridade do interior reforçam a sensação de profundidade, intimismo e contemplação.

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A atmosfera de Nara no Outono é perfeita para sentir o yūgen – aquilo que se intui mais do que se vê, a beleza que é subtil, feita de sombras e do que está sugerido, não declarado, e que só se descobre quando percebemos que apenas somos parte do cenário.

O que fica: nem tudo precisa de ser totalmente visível para ser significativo.

 

Ikigai (生き甲斐)

Razão de viver

Ikigai refere-se àquilo que dá sentido à vida. Não precisa de ser algo grandioso; pode estar nas pequenas constâncias do dia-a-dia.

Afastada das rotas turísticas mais concorridas, Matsumoto é uma cidade onde a vida decorre de forma tranquila. O ikigai revela-se na convivência equilibrada entre criação, quotidiano e paisagem.

O Castelo de Matsumoto é sólido, funcional e sem ostentações. Tal como a cidade, que é descomplicada e amigável. O Outono aqui mostra-se discreto, integrado na vida local, não encenado para os visitantes. Só se destaca quando subimos ao Castelo e olhamos através das suas janelas gradeadas. No lago que envolve a muralha reflectem-se as árvores tingidas de vermelho, castanho e amarelo, revelando o esplendor do kōyō.

Matsumoto é a cidade-natal de Yayoi Kusama, a quase centenária artista plástica e escritora que é actualmente um dos maiores expoentes da arte contemporânea. Para lá da exposição permanente dedicada aos seus trabalhos, também o exterior do Museu de Arte de Matsumoto é uma homenagem à artista, integrando a sua estética singular no contexto citadino – a arte como parte do ritmo de vida local.

Em Matsumoto, o ikigai percebe-se como algo simples e persistente, que se encontra nos gestos diários, no cuidado com o espaço, na relação tranquila entre passado e presente, entre o que é inovador e o que é antigo e merece ser preservado.

O que fica: encontrar propósito na continuidade, não apenas nos momentos excepcionais.

 

Shinrin-Yoku (森林浴)

O banho de floresta

Do antigo percurso da Nakasendō – uma das cinco estradas imperiais do Período Edo (1601 ou 1603-1868) no Japão, que ligava Edo (Tóquio) a Quioto através do interior montanhoso – permanecem hoje alguns trechos, o mais famoso dos quais liga as aldeias de Magome e Tsumago. O trilho estende-se por oito quilómetros de piso irregular, alternando calçadas de pedra originais, caminhos de terra atapetados de folhas e cruzados por raízes de árvores, degraus sustentados por toros de madeira, subidas, descidas e planos a direito, por vezes acompanhado pelo som da água de ribeiros. Tudo isto envolto num cenário de floresta que no Outono se veste de cores extravagantes, do rosa-choque ao vermelho mais berrante, do castanho-arroxeado ao dourado refulgente.

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O caminho não exige esforço técnico; exige disponibilidade. Shinrin-yoku traduz-se literalmente como “banho de floresta”, mas não implica actividade física estruturada. Trata-se simplesmente de caminhar, permitindo que o ambiente influencie o corpo e a mente. No Japão, esta prática é reconhecida como forma de bem-estar. Neste excerto do Nakasendō, surge de forma natural: o trilho antigo, o ritmo tranquilo, a ausência de estímulos excessivos.

Neste contexto, o Outono não é espectáculo, mas atmosfera. A floresta não se impõe; envolve.

O que fica: a ideia de que estar na natureza não é escapar, mas regressar a um estado mais essencial.

 

Mais do que palavras, estes conceitos são modos de estar que permanecem em mim depois da viagem. Mono no aware, komorebi, yūgen, ikigai e shinrin-yoku convidam a desacelerar, a prestar atenção, a aceitar a impermanência como parte das minhas experiências – em viagem e na vida.

Uma história com GPS


Paulo Sousa,

Acho que a primeira vez que ouvi falar em GPS foi no Moto Jornal, que lia religiosamente de fio a pavio durante as duas semanas do Paris-Dakar. Este novo instrumento de navegação revolucionou a mais dura competição automóvel que, para além de cavalos no motor, dependia da orientação no Saara. Isto era ainda no tempo em que esta prova acabava na capital do Senegal. O que tinha começado por ser uma ferramenta de uso exclusivamente militar, começava a ser usado para fins civis. Nesses tempos o sistema não tinha a precisão actual, uma vez que o sinal ainda estava sujeito a um erro deliberado para assim manter a vantagem das tropas dos EUA, que o criaram e desenvolveram. A vantagem do uso dos satélites relativamente aos azimutes tirados por experientes navegadores náuticos era demolidora.

Só uns bons anos mais tarde, já quase ao virar do milénio, é que interagi pela primeira vez com um desses equipamentos. Um amigo meu comprou um para uma viagem que fizemos a Marrocos num grupo de jipes. Sendo o único aparelho da caravana, tínhamos o monopólio da localização e por isso fomos sempre o carro da frente. Saber onde se está, sendo que cada lugar é traduzido num longo conjunto de algarismos, pode valer de muito pouco se não o soubermos interpretar. Conhecer a nossa velocidade e rumo, ignorando a distância e a direcção ao ponto a que nos dirigimos, tem muito pouca serventia. Sem uma base de dados de pontos, o GPS é quase inútil.

Através de um amigo que conhecia alguém, conseguimos uma cópia de uma folha de papel escrita a lápis com coordenadas de algumas cidades marroquinas. A partir daí, e já em cima de um normal mapa de estradas, estimamos por onde passavam os graus certos dos paralelos e meridianos, que riscámos com uma esferográfica preta. Com essa grelha, para saber as coordenadas de um qualquer local do mapa bastava recorrer a uma régua de plástico e a uma calculadora. Media-se a distância do ponto que nos interessava às linhas do grau mais próximo, e depois era só fazer um proporção. Algo trabalhoso, mas mesmo quando se lidava com um erro de um quilómetro, sabíamos que não estávamos perdidos. Tecnologia maravilhosa. Mais tarde já no terreno, quando havia um erro de navegação, leia-se uma saída de cruzamento mal escolhida que obrigasse a uma inversão de marcha, nenhum membro da caravana queria saber da inexperiência dos navegadores e, a plenos pulmões, reclamava entupindo as normais comunicações via CB. A composição do grupo era propícia a um certo nível de caos. Onze conterrâneos distribuídos por cinco carros, sem que houvesse um líder que conseguisse decidir o que quer que fosse sem longos debates e considerandos. Muito se discutiu, muito se ralhou, muito se gritou e mesmo assim lá fomos avançando.

Lembro-me de um episódio ocorrido na travessia de Zagora para Foum-Zguid. Já íamos com quase uma semana em cima, muitas horas de condução, longos e bem regados serões, seguidos de noites curtas e dormidas em chão torto. Nesse dia, já tínhamos feito algumas centenas de quilómetros fora do alcatrão. Um bardanal de vento, a que os locais chamavam em espanhol la tormenta não nos deu tréguas. Ignorando a esfoliação de pele gratuita e da pintura dos carros, a imagem mais próxima de uma tempestade de areia é a de um dia ventoso com nevoeiro, sendo que os tons são mais para o ocre e menos cinzentos do que um dia de Verão nas praias do Oeste.

A etapa diurna foi toda assim. Muito pó, muita inexperiência, alguns atolanços evitáveis e um furo após o atropelamento do esqueleto de um camelo. A esmagadora maioria do grupo estava pela primeira vez no país e nunca ninguém ali chegara tão a sul. As dúvidas eram mais que muitas e a emoção de pisarmos os troços do Dakar injectava-nos uma energia de encher o peito.

GPS em Marrocos 1999.png

A tempestade amainou e escureceu. Sabíamos que tínhamos progredido pouco para o que nos tínhamos proposto. A dúvida foi sempre o décimo segundo elemento da viagem. Pára-se para jantar, ou come-se em andamento, montam-se as tendas e fica-se onde calhar ou continuamos? O fuso horário dos estômagos não quer saber de explicações muito elaboradas. A escuridão só não era total devido aos nossos faróis e às inúmeras estrelas no firmamento. “Mas a Ovelha Negra (nome de código do carro da frente) tem GPS e nunca sabe onde é que andamos?”. A gritaria não parava. A única reacção natural era responder aos palavrões com mais palavrões, o que sabemos que, não resolvendo nada, aliviava. A tensão e o cansaço sentia-se.

A partir deste episódio reparei em como tanta gente reage à incerteza e ao stress. Mais tarde, e noutras situações, vi confirmado o que ali tinha observado. Perante dúvidas sobre o que se vai passar a seguir ou o desconforto sobre um ambiente desconhecido, mais incerto do que nas normais rotinas, há muito quem desate a ralhar, aos berros e vire essa sensação de insegurança contra quem está à sua volta. E resolve alguma coisa? Nada, apenas complica. Quem tiver a iniciativa de estar a tentar ultrapassar essas dificuldades, além do assunto em si, tem de conseguir encaixar os excessos de quem se aproxima mais rapidamente da histeria.

E foi assim, com o cansaço de vários dias fisicamente desconfortáveis, a ter de decidir sobre a direcção a tomar por uma caravana de carros numa zona semi-desértica, já depois de anoitecer, onde nunca tinha estado, com um GPS em que ainda estava a aprender a mexer, a ouvir umas quantas prima donnas aos berros pelo rádio, que este vosso escriba achou que urgia dar o passo seguinte. Com um frontal na testa e aos solavancos no lugar do pendura, pega no mapa, copia a extensa sequência de algarismos do receptor de GPS para um bloco de notas, começa a converter graus, minutos e segundos em decimais (sim eu agora também sei que isso se pode simplificar mexendo na configuração da máquina), saca da régua escolar, recorre à calculadora e estima a posição da caravana. O resultado das contas correspondia a um ponto no mapa que coincidia com a pista pretendida. Estando as contas bem feitas, a pouca distância dali passava um oued, um rio temporário que na prática é apenas uma depressão mais empoeirada que o habitual, com umas dezenas de metros de largura. Olhando para o seguimento do tracejado no mapa, após aquele oued a direcção da pista mudava de sudoeste para oeste. Além de todo o desconforto, era a demora do jantar que estava a deixar aquelas princesas para cima de nervosas. O motim aproximava-se. Vocês não fazem ideia onde é que estamos! A esta hora já chegamos à Argélia!

Consciente do momento crítico e do risco de incinerar o resto da já pouca credibilidade da Ovelha Negra, peguei no micro e pressionei o PTT. Após os normais impropérios, que funcionavam como senha e contra-senha de comunicação, informei a caravana que íamos atravessar uma vala e que depois mudaríamos muito drasticamente de direcção, para a nossa direita. Em menos de duas horas estaríamos no destino previsto. As respostas pelo rádio atropelaram-se num caos que, felizmente, não conseguimos entender no detalhe. O teor geral era claro, descrédito e desconsideração pelas nossas capacidades. Querem reclamar, contactem a agência de viagens, pá! O mais parecido que tínhamos tido com tal capricho, tinha sido naquele serão em que levei o mapa e o abri na mesa de café. Não exijam mais a quem se mete nisto com um planeamento em cima do joelho. Sabem bem que, já a contar com esta, é a primeira vez que por aqui andamos, respondemos. Contra-atacamos ainda com o facto de, num dos carros de trás, todos os tripulantes levantavam o mindinho quando emborcavam uma cerveja. Quem levanta o mindinho não tem direito a fazer reclamações, vão à gaita! O ruído daquela turbe ressacada só diminuiu quando finalmente uma vala apareceu à nossa frente e, incrível, menos de cem metros depois, a pista inflectiu à direita.

Os quatro carros da oposição lá se acalmaram e meteram a viola no saco. Dentro da Ovelha Negra festejava-se como se já tivéssemos chegado a Marraquexe. Abriram-se três minis quentes e empoeiradas, chocaram-se as garrafas a toque de brinde, e assim foram saboreadas com a dignidade de quem bebe champanhe, mas com o mindinho recolhido.

Diário de viagem: Capítulo 10


Maria Dulce Fernandes,

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Chegámos ao Cairo no final do dia, cansados mas encantados também. Tinham sido quase duas semanas maravilhosas, esgotantes, mal dormidas, mas a aventura esteve presente em cada passo, em cada esquina, em cada hieróglifo, em cada sombra, em todos os cartuxos e nos sorrisos lindos de gente que tinha tudo para ser  triste, mas sorria sempre à vida.

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O hotel foi um bálsamo. De pouca dura, mas sim, recuperámos as energias e iniciámos os preparativos para o regresso.

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Com todos os pormenores sob controle, deixámos os aparelhos a carregar e fomos dar uma volta pelas imediações do hotel, a título de despedida. A noite do Cairo continuava transbordante de magia.

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Na manhã seguinte, acordaram-nos às 6:30h, o que foi um luxo, e lá seguimos nós com armas e bagagens rumo à “cereja no topo do bolo”, para depois regressarmos ao ponto de partida da Grande Aventura Egípcia”: a nossa casa.

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Chegámos ao Grande Museu Egípcio cerca das 8:30h.

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O Grande Museu Egípcio, também conhecido como o Grande Museu Egípcio de Gizé, ou GEM, é um dos maiores e mais impressionantes museus dedicados à história e cultura do Egipto Antigo. Localizado próximo às pirâmides de Gizé, o museu abriga uma vasta colecção de artefactos, que incluirão (em Julho deste ano) toda a colecção de tesouros de Tut Ankh Amon, estátuas, múmias e muitos outros elementos que oferecem uma visão única sobre a civilização egípcia. Com a sua arquitectura moderna e exposições interactivas, o museu visa não apenas preservar a rica herança do Egipto, mas também educar e inspirar visitantes de todo o mundo.

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O Museu está parcialmente aberto e exibe 12 fantásticas salas. Vai ser totalmente inaugurado em Julho, altura em que será considerado o maior museu do mundo com exibição permanente.

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O Grande Museu Egípcio é todo ele uma imensa pirâmide dentro de um jogo infinito de formas piramidais e é espectacular.

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Saídos do Museu, que não é apenas a nossa cereja no topo do bolo, é também um diamante reluzente, uma GEMa preciosa no tempo e no espaço, que espero poder vir a visitar quando estiver a funcionar em pleno.

Depois de um bom almoço no restaurante do GEM, rumámos ao aeroporto já um tanto nostálgicos, e regressámos à nossa querida Lisboa.

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Não será seguramente a última viagem, mas tenho a certeza que nenhuma outra conseguirá superar a nossa Grande Aventura pelas terras dos Faraós. 

Até à próxima! Obrigada pela companhia.

Diário de viagem: Capítulo 9


Maria Dulce Fernandes,

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Como se tornou habitual, o telefone tocou para nos acordar, desta feita às 3 horas. Com as bagagens prontas para a saída às 4h, dirigimo-nos ao autocarro que nos aguardava. Foi carregar tudo e sair antes das 5 horas em direcção a Abu Simbel. O melhor a fazer seria tentar dormir no autocarro, pois a viagem seria de 3 horas de ida e outras 3 horas de regresso. A paisagem não ajudou em nada. O caminho foi quase todo uma grande travessia de deserto.

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E valeu a pena? Nem é preciso perguntar, caramba, valeu todas as penas que as minhas mazelas residentes conseguiram aguentar.

Abu Simbel é um complexo arqueológico majestoso composto por dois impressionantes templos construídos durante o reinado do faraó Ramsés II. Os templos são famosos pelas suas estátuas monumentais e relevos elaborados que retratam cenas religiosas e representações do faraó e da sua estrondosa vitória  sobre os hititas na batalha de Kadesh.

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O maior dos dois templos, dedicado ao deus Amon, tem na fachada quatro enormes estátuas de Ramsés II, cada uma com cerca de 20 metros de altura. O templo mais pequeno é o templo de Nefertari, esposa favorita do faraó, é dedicado à deusa Hathor e apresenta estátuas de Ramsés II juntamente com estátuas da sua esposa dilecta.

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Um dos aspectos mais cativantes desses templos é o chamado “fenómeno da luz solar”. Este acontecimento tem lugar duas vezes por ano, em 22 de Fevereiro e em 22 de Outubro, datas do aniversário do faraó e da sua ascensão ao trono. Nesses dias, a luz do sol ilumina apenas a estátua de Ramsés II no interior do templo principal, enquanto as outras estátuas permanecem na sombra. O alinhamento solar foi projectado intencionalmente pelos antigos egípcios e é um testemunho da habilidade arquitectónica e do conhecimento astronómico da época.

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Os templos foram parcialmente transferidos na década de 1960 devido à construção da Barragem de Aswan e ao aumento associado do nível das águas do Nilo para os proteger das inundações. Esta impressionante operação de resgate foi apoiada pela UNESCO e é considerada um dos maiores projectos arqueológicos do século XX.

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É lenda local que um rapaz que  pastoreava cabras encontrou uma das cabeças gigantes, fugiu apavorado e só muito a custo conseguiu revelar à família o que tinha visto. O nome do pequeno era Abu Simbel.

Os templos são grandiosos, eloquentes, belos, esmagadores. As cenas de batalha parecem acabadas de gravar, tanto na parede, como na nossa imaginação, como uma imensa banda desenhada a encantar os corações jovens que nunca deixámos de ter, nem de sentir a pular dentro do peito.

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Não perderia esta viagem por nada. Nada mesmo.

Horas depois voltámos a Aswan para, do aeroporto, iniciarmos o regresso ao Cairo. Lá chegados teremos de ultimar os preparativos para o regresso, não antes do último presente, a cereja no topo do bolo.

Até lá.

Príncipe, a outra ilha


Ana CB,

Chamar caminhos de cabras aos trilhos que dão acesso às melhores praias da ilha do Príncipe é ser simpática. Até a sport wagon com pneus tamanho XL conduzida pelo Vado, um dos guias mais experientes da ilha, tem dificuldade em percorrer os poucos quilómetros de piso meio lamacento, cheio de buracos e com pedras gigantes a despontarem do solo que leva à praia Boi. Curto em distância mas longo em minutos, o percurso mói os ossos e os músculos, chocalhados sem piedade e ininterruptamente até ao final, e só o facto de ser feito dentro de uma floresta magnífica mitiga um pouco o incómodo: os olhos vão entretidos a admirar árvores desconhecidas, tão altas que apenas deixam passar uns ténues raios de sol. Isso e a praia no final do caminho. Areia fina e clara debruada a palmeiras, deserta; mar tranquilo em dégradé de azuis; sol brilhante, água morna. Perfeita!

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Tal como para as suas praias, o mote para a ilha do Príncipe podia ser este: não é fácil lá chegar, mas vale muito a pena. É preciso estar no Aeroporto de São Tomé tão cedo como se fôssemos para uma viagem internacional, não é possível levar mais do que 15 kg de bagagem de porão, e a viagem total de 40 minutos (dos quais apenas 25 em voo) é feita numa avioneta que só leva 19 passageiros, com pouco espaço, pouco insonorizada e pouco fresca. Ainda assim, a procura é tanta que actualmente estão a ser feitos três voos diários, operados pela companhia portuguesa Sevenair, e vão sempre cheios.

À chegada, meras dezenas de metros nos separam do pequeno edifício do aeródromo, pintado de amarelo-vivo. Depois aguardamos a chegada das malas numa saleta com porta aberta para o exterior, a fazer lembrar as salas de espera de antigamente das estações de comboio. Contrariando o frenesim da cidade de São Tomé que deixámos pouco antes, há uma atmosfera geral de tranquilidade, e até os ruídos do exterior soam abafados. Estranha-se esta calma, que contudo não é surpreendente se pensarmos que a ilha tem pouco mais de 9 mil habitantes (em contraste com os 80 mil da capital do país).

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Lá fora, uma mão cheia de guias aguarda a nossa saída, cada um com o nome do seu cliente escrito numa folha branca. Os turistas que chegam desta vez são poucos, a maioria dos passageiros são gente da terra. Sorridente, o Vado dá-nos as boas vindas e leva-nos ao carro. A estrada até Santo António, capital do Príncipe, é asfaltada e está em bom estado, e em coisa de 10 minutos estamos no restaurante da Residencial Mira Rio para matar a fome em frente a uma omelete – um lanche reforçado para substituir o almoço que estava em falta por causa da viagem de avião. Fazendo jus ao nome, o restaurante tem varanda e vista sobre o rio Papagaio, que nasce no pico homónimo, um dos mais altos da ilha.

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A cidade

 

Santo António é cidade com dimensão de vila e ambiente de aldeia. Fundada em inícios do século XVI, chegou a ser capital da colónia portuguesa de São Tomé e Príncipe, entre 1753 e 1852, antes de a cana-de-açúcar como produção principal ter sido substituída pela de cacau e café. Com ruas arejadas e rectilíneas na área junto à baía, onde ainda se mantêm de pé vários edifícios da época colonial, em diversos estados de conservação, o casario vai-se tornando mais miúdo e irregular à medida que seguimos para sul. Nas casas baixas de cores pastel, a alvenaria alterna com a madeira e a chapa ondulada, e quando deixamos o centro da cidade os passeios são aos poucos substituídos por meras bermas, que a vegetação tenta engolir. Há palmeiras gigantescas e muitas outras árvores e arbustos, a darem uma impressão visual de frescura mesmo quando o mercúrio sobe nos termómetros. Não há qualquer sintoma de aridez nesta ilha e a água nunca falta. Além disso, garante o Vado, toda a água da cidade é tratada e potável, pode por isso ser bebida directamente da torneira. Ainda assim, cingimo-nos à água engarrafada – vale mais prevenir, que o nosso sistema digestivo europeu já se sente sobrecarregado quanto baste pelos temperos generosos da comida local.

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Se a água não falta, o mesmo não se pode dizer do combustível. Além de ter subido a níveis estratosféricos nas últimas semanas (aqui também se sentem as consequências da guerra na Ucrânia), todo o combustível vem de São Tomé por barco, em fornecimentos irregulares que por vezes deixam a ilha do Príncipe à míngua de gasolina, gasóleo e petróleo. As gasolineiras estão vazias, e para honrar o seu compromisso connosco o Vado terá de pedir combustível a um amigo – pagando-o acima do preço habitualmente cobrado nas bombas de gasolina. No Príncipe como em São Tomé, todas as oportunidades são boas para fazer negócio.

 

Não se pode dizer que Santo António tenha uma arquitectura extraordinária. Nota-se, isso sim, alguma preocupação em manter a cidade limpa (até há caixotes destinados à separação de lixos para reciclagem) e cuidada. Olhando para algumas casas, com varandas em ferro forjado, cornijas sobre as janelas e beirais nos telhados, podemos até pensar que estamos em Portugal. No centro da cidade há meia dúzia de edifícios que se destacam, seja pelo aspecto recente, como o edifício do BISTP (o principal Banco do país); pela cor, como a casa colonial que abriga a capitania, pintada de azul céu e com um friso de bóias e âncoras, ou o edifício que ostenta o emblema do Sporting Clube de Portugal, sem vidros nem finalidade aparente, mas primorosamente pintado de verde e branco; ou pela beleza dos seus elementos decorativos, como a casa oficial da presidência, e que é sem dúvida o edifício mais bonito de todos: exterior em ripas de madeira pintadas de cinza-claro, um alpendre em toda a volta, friso de metal trabalhado a rematar o telhado, e com uma magnífica palmeira-do-viajante plantada num dos vértices, a fazer as vezes de sentinela.

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Há uma igreja católica, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, simples e com uma única torre. Parece muito antiga, talvez por estar em obras, mas data apenas de 1943. Tal como em todo o país, a religião é pedra basilar para as gentes do Príncipe e o catolicismo é predominante (mais de 70% da população de São Tomé e Príncipe), embora se note alguma proliferação de outras confissões ditas evangélicas, com locais de culto numa das ruas principais. Surpreendente para mim foi descobrir que no Príncipe se festejam os Santos Populares, a sério e “à antiga”. Na noite de São João, uma das que passei na ilha, uma marcha popular alegre e muito participada, com marchantes vestidos a rigor, percorreu as ruas de Santo António durante quase duas horas, mostrando as coreografias ensaiadas ao som de canções tradicionais. Uma animação, para a qual grande parte do resto da população da cidade também contribuiu, seguindo o cortejo sem nunca esmorecer. No final, saltou-se a fogueira na praceta em frente à igreja – algo a que eu já não assistia há sei lá quantos anos, e que me trouxe memórias da infância.

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No Príncipe as tradições são acarinhadas e respeitadas. Ao pôr-do-sol do primeiro dia, passámos por acaso pelo jardim da Praça Marcelo da Veiga, onde fica o Palácio do Governo. A bandeira do país estava a ser arreada à frente do Palácio, com cerimonial militar ao som do cornetim. De imediato, o nosso guia estacou e colocou a mão no coração. Não arredou pé enquanto não terminou a cerimónia, e deu uma descompostura a um adolescente que passava apressado, obrigando-o a parar também. E não, o Vado não é um conservador bacoco já entradote. Na verdade, tem apenas 32 anos – a mesma que o actual Presidente do Governo Regional do Príncipe, Filipe Nascimento. Num país em que cerca de 40% da população tem menos de 15 anos (e apenas 7% tem mais de 55), são cada vez mais os jovens que tentam (e têm de) fazer avançar São Tomé e Príncipe. E se para muitos o maior anseio é virem para Portugal, sobretudo para estudarem, há outros que sonham com um país mais desenvolvido e menos pobre, e querem contribuir para isso.

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As praias

 

Que o maior trunfo da ilha do Príncipe é a sua beleza natural e consequente capacidade de atrair turismo, isso está à vista. Dos 142 km2 da sua área, a maior parte está coberta de floresta tropical húmida, sobretudo a região sul, que é bastante acidentada e por isso difícil de visitar. É aqui que se encontra o Pico do Príncipe, cujos 948 metros fazem dele o cume mais alto da ilha, e é aqui também que despontam da floresta grandes torres de fonólito, uma rocha vulcânica algo rara, que dão à paisagem um certo ar de mundo jurássico. Inversamente proporcional ao seu tamanho, a idade geológica do Príncipe está estimada em 31 milhões de anos, tempo suficiente para nela se desenvolverem imensas espécies vegetais e animais, tanto no solo como no mar – e esta é uma das razões pelas quais a ilha do Príncipe foi categorizada pela UNESCO em 2012 como Reserva da Biosfera.

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Das cerca de duas dúzias de praias que a ilha tem, nem todas são acessíveis, e raras são as que é fácil visitar. O percurso é quase sempre por caminhos em mau estado, que implicam a deslocação num todo-o-terreno, e a constante ameaça de se ficar atolado na lama ou estragar alguma parte essencial do carro. Uma excepção é a praia Bom Bom, no norte, cujo acesso em estrada de terra batida apresenta menos dificuldades do que o normal, talvez por não ser em declive, e certamente por servir o conhecido resort que tem o mesmo nome, apesar de agora estar fechado. Também aqui se fizeram sentir com força os efeitos da pandemia.

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A praia Bom Bom é na verdade uma praia dupla, com uma grande extensão de areia de cada um dos lados do istmo que liga ao ilhéu. A icónica e longa ponte de madeira que possibilitaria visitar a ilhota está agora interditada (por falta de manutenção, dizem-nos) mas continua a ser uma atracção na paisagem. Virada a noroeste, a meia-lua de areia alaranjada que fica do seu lado esquerdo é local de excepção para passar um final de tarde, aproveitando os raios menos inclementes do sol-pôr – sendo que nestas latitudes, quase em cima da linha do Equador (que passa no ilhéu das Rolas, cerca de 200 quilómetros a su-sudoeste), a escuridão chega invariavelmente menos de seis horas depois do meio-dia.Há quem diga que a praia Boi é a melhor da ilha do Príncipe, e certamente merecerá o título. Como não é fácil chegar lá, o mais provável é tê-la toda por nossa conta, e isso decerto que contribui para a sua fama. Mas há outras igualmente bonitas e recomendáveis, como a praia Macaco ou a mais célebre praia Banana, onde em 1991 foi filmado o anúncio de um rum famoso. Vê-la do miradouro que fica na Roça Belo Monte é a primeira abordagem que aconselho. Dali vê-se bem o formato da praia, e percebe-se o porquê do nome; em jeito de brinde, desfrutamos de uma magnífica paisagem em tons de verde e azul. Lá em baixo, a vista é mais rasa mas igualmente paradisíaca. Sol aberto, mar chão, algumas rochas escuras, um ilhéu mais ao fundo. O ar está a uns simpáticos 28°C, e a água imita-o. Há uma brisa ligeira, o conforto da sombra das palmeiras, e um sossego quase total. O cliché da praia paradisíaca, que por coincidência é o meu conceito de praia ideal. A vontade de sair dali é zero.

 

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Para uma experiência menos “postal ilustrado”, há que ir até à praia Abade. O entorno é igualmente idílico, uma praia límpida e sem ondulação numa baía quase fechada e debruada a verde. À volta alonga-se uma aldeia piscatória, pequena, com casas toscas feitas com tábuas de madeira e telhado de chapa ondulada, algumas pintadas de cores vivas. Na areia não há toalhas de praia nem banhistas, mas sim miúdos que brincam e canoas que descansam, umas feitas de tronco de árvore, outras mais modernas, com motor reluzente. E na água haverá talvez apenas um pescador, impelindo o seu barco à força de braços e de uma pagaia.

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As roças

 

A ilha do Príncipe foi descoberta por Pêro Escobar a 17 de Janeiro de 1471, apenas 27 dias depois da sua irmã São Tomé. O seu primeiro nome foi Santo Antão, e o primeiro produto ali explorado a cana-de-açúcar. Os impostos sobre a produção de açúcar na ilha eram pagos ao Príncipe de Portugal, Afonso, filho e herdeiro de D. João II, razão pela qual o nome da ilha acabou por ser mudado em 1502. Os engenhos de açúcar foram introduzidos em fins do século XV por Álvaro de Caminha, a quem a coroa portuguesa concedeu a terra. A partir do início do século XIX, o açúcar foi sendo gradualmente substituído pelo café e sobretudo pelo cacau, cultivados nas roças que constituíram desde sempre a base da vida económica e social da ilha.

Após a independência de São Tomé e Príncipe em 12 de Julho de 1975, poucas foram as roças que mantiveram as suas produções. Algumas transformaram-se em aldeias, outras são hoje apenas ruínas, outras ainda foram convertidas, em tempos mais recentes, em empreendimentos turísticos de luxo. Apenas duas são actualmente exploradas para a produção de café e cacau: A Roça Paciência, que pertence ao grupo HBD, e a Roça Terreiro Velho, que abastece a fábrica Claudio Corallo.

 

Situada a poucos quilómetros de Santo António, a Roça Porto Real (que em tempos teve o nome de Roça Esperança) é um dos exemplos mais flagrantes do abandono a que a maior parte destas grandes estruturas produtivas foram votadas. Foi uma das maiores roças do Príncipe e chegou a ter outras oito, mais pequenas, na sua dependência. Roça-terreiro típica, com um espaço central amplo, quadrado ou rectangular, rodeado por diversas áreas edificadas – oficinas, armazéns e edifícios fabris e administrativos, sanzalas (onde viviam os trabalhadores), capela, hospital, escola e cozinhas, e a casa principal – encontra-se hoje em ruínas, com a maior parte dos edifícios engolidos pela vegetação. Da grandeza anterior destes fantasmas do passado só nos apercebemos pela enorme escadaria que ainda é visível, e que nos leva a paredes de pedra esverdeada por musgos, com aberturas por onde irrompem fetos e ramagens folhosas, troncos e raízes de árvores que se enrolam em volta dos muros como tentáculos de polvo. Mais à frente, ao longo da estrada, os edifícios da antiga sanzala continuam a ser habitados, à mistura com casinhotos de madeira que foram entretanto construídos.

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Diferente é a história da Roça Sundy. Adquirida há cerca de uma dezena de anos pelo grupo HBD, cujo líder é o sul-africano Mark Shuttleworth (sendo que HBD neste caso são as iniciais de Here Be Dragons, expressão usada em tempos idos para designar territórios inexplorados do nosso planeta), a roça tem vindo a ser reconstruída e transformada numa unidade de alojamento turístico de gama alta, apesar de alguns edifícios limítrofes ainda estarem por recuperar. A renovação exterior sóbria disfarça o interior mais luxuoso. Há uma loja, onde são vendidos os produtos orgânicos feitos com o cacau e outros frutos e plantas cultivados na Roça Paciência. Aberto a visitas está também o Espaço Ciência Sundy, um pequeno museu que expõe maquinaria antigamente usada na roça e celebra o facto de ter sido aqui que, em 1919, um grupo de astrónomos ingleses liderados por Sir Arthur Eddington levou a cabo a experiência que deu como provada, pela primeira vez, a Teoria da Relatividade Geral de Einstein. A HBD Príncipe também explora o Sundy Praia e o Bom Bom (com reabertura prevista para 2023), e os objectivos que apregoam são o desenvolvimento sustentável da ilha e a conservação da Reserva da Biosfera.

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Outra história feliz é a da Roça Belo Monte. Antiga plantação de cacau e café e objecto de recuperação primorosa, agora funciona apenas como hotel (também de luxo). Apesar disso, as instalações podem ser visitadas por qualquer pessoa, e é um lugar de excelência para ir tomar um chá ou uma bebida fresca, por exemplo. Visitável é igualmente o seu museu, que ilustra a história e a cultura da ilha, e o miradouro sobre a Praia Banana é de acesso livre. A entrada para a área principal do complexo é feita por um portão icónico, com torreões e um sino, guardado por dois canhões cuja ferrugem atesta a sua antiguidade. Nos jardins, muito bem cuidados, nem sequer falta um tabuleiro de xadrez gigante, com as respectivas peças bicolores, e um banco-baloiço circular pendurado nos ramos de uma árvore, compridos como braços de um colosso. Quanto ao interior, é o epítome do requinte discreto, clássico sem ser pesado, ligeiros toques rústicos misturados com outros mais modernos. O Monte Belo faz parte da Africa’s Eden, uma organização que contribui para a preservação da natureza e desenvolve actividades turísticas sob o mote “O turismo paga a conservação”.

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***

 

Menos popular e de mais difícil acesso do que São Tomé, a ilha do Príncipe é frequentemente ignorada por quem visita o país – sobretudo, não tenho qualquer dúvida, devido ao preço exorbitante (para uma viagem tão curta) das passagens aéreas entre as ilhas, e também ao facto de o custo de vida ser mais elevado do que na ilha principal. Há também a ideia de que no Príncipe é tudo mais rudimentar e básico, e portanto menos “confortável” ou “civilizado”. Se a presunção no que toca à parte financeira é correcta, em relação ao resto posso afirmar que vim de lá com uma percepção completamente oposta. Apesar de todas as limitações existentes e da sua extrema dependência de São Tomé, a ilha do Príncipe está a trilhar um caminho rumo ao futuro bem coerente e esclarecido, e a qualidade dos serviços que oferece é superior à impressão que é habitualmente difundida sobre a ilha. Há já bastante oferta de alojamento a preços razoáveis, os restaurantes são mais que muitos, alguns já modernizados, e o atendimento é impecável, mesmo que por vezes um pouco demorado (porque é tudo feito na hora). Sem a sofisticação plasticizada de tantos destinos turísticos apregoados de paradisíacos, o Príncipe é um verdadeiro oásis de simplicidade, onde é possível uma genuína comunhão com a natureza pouco delapidada pela mão humana, e com a essência de um povo que tem orgulho na sua cultura e respeito pelas maravilhas do lugar onde vive.

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***

 

Onde fiquei:

Príncipe Residencial – Rua Estádio 13 de Junho, Santo António – Email: principeresidencial@hotmail.com

Fica um pouco afastado do centro, mas é confortável qb e limpo. Os quartos são simples, espaçosos e têm ar condicionado. O pessoal é muito atencioso, tem bom wifi em todo o lado e um pequeno-almoço razoável.

 

Onde comi:

Mira Rio – Amplo, aberto para o exterior, serve a qualquer hora do dia; o sítio ideal para uma refeição leve fora de horas.

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Armazém Roça Porto Real – Moderno, com uma enorme esplanada e um ambiente europeizado; o menu é mais variado do que o habitual e a frequência é maioritariamente jovem.

Beira-Mar (Juditinha) – Um dos restaurantes mais famosos de Santo António, ideal para conhecer os pratos típicos da ilha. Servem rapidamente, e a Juditinha e as outras senhoras são uma simpatia.

Romar – Tranquilo, sobretudo ao jantar, ambiente modernizado; a comida é boa e têm sobremesas, algo que é raro em muitos restaurantes de São Tomé e Príncipe.

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(Já publicado no blogue Viajar Porque Sim)

 

Diário de viagem: Capítulo 8


Maria Dulce Fernandes,

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Depois de um par de horas para refeição e refrescar a mente e o corpo com um mergulho na piscina, voltámos ao programa e embarcámos numa felucca, pequeno barco à vela típico do rio Nilo. Elegantes e leves dada a sua construção em madeira, as feluccas deslizam pelo rio ao sabor do vento e da maré. As pequenas viagens são fantásticas e ajudam a relaxar, embaladas também pelo canto doce dos barqueiros e dos “surfistas cantores”, que ziguezagueiam pelo meio dos barquinhos, sem temer o rio ou a sua fauna.

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Próxima paragem: a “Nuba”. Mas porque a viagem não se pode fazer em felucca por o rio ser, naquela zona, forte em redemoinhos e pequenos rápidos, foi necessário mudar da embarcação  à vela para outra com motor. Não foi pera doce. Os barcos tinham de ficar lado a lado no meio do rio, “ligados” por uma estreita prancha de madeira e nós tivemos literalmente de “andar pela prancha” para fazer o transbordo. Não foi uma experiência mesmo nada agradável na altura, mas depois de acalmar o nervoso miudinho, admito que foi excitante e muito engraçado. Pena que ninguém filmou, preocupados que estávamos a tentar manter o equilíbrio.

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Em navegação ronceira, passámos pelo Old Cataract Hotel, pela Ilha Elefantina e o Mausoléu de Aga Kahn, sempre rodeados pela deliciosa e envolvente paisagem em ambas as margens.

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Alcançámos finalmente a “Nuba” de Gharb Soheil. Após 15 minutos de triciclo motorizado, chegámos ao “pé” do Sahara, onde o verde acaba e a imensidão do deserto começa, e onde as paisagens deslumbram pela marcante transição.

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A cultura núbia na aldeia, apesar da modernização, conseguiu preservar uma identidade única e as tradições ancestrais. O povo núbio é conhecido pela sua hospitalidade calorosa e pelo amor pela arte e pela música. Criam os próprios artigos de artesanato ao mesmo tempo que criam crocodilos e nos presenteiam com bebidas de tamarindo extraordinariamente refrescantes.

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Com o dia a fugir e a dar lugar àquela  hora mágica do entardecer, regressámos ao navio com os sorrisos mais satisfeitos de toda a viagem até então.

Esperava-nos mais um amanhã cheio de actividade e também longas viagens de autocarro, pelo que o recolher foi a opção em detrimento de mais uma louca “Noite Árabe”, a bailar pela noite fora.

Diário de viagem: Capítulo 7


Maria Dulce Fernandes,

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Em Aswan, de manhã bem cedinho, antes mesmo de os Martinetes praticarem a sua famosa “imobilidade” de aves de presa, deixámos o navio para a nossa primeira visita do dia, a “pedreira” do obelisco. O Obelisco Inacabado, trabalhado em granito rosa, é o maior exemplar esculpido que existe, e que apesar de nunca ter sido concluído, traz alguma luz sobre as técnicas de construção e estatuária no Antigo Egipto, um conjunto bem montado de cunhas, declives, canais e barcaças. Foi encomendado no reinado da faraó Hatshepsut e teria cerca de 45 metros de altura se tivesse sido terminado.

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Da pedreira seguimos para a Barragem Alta e o Lago Nasser, um dos maiores lagos artificiais do mundo, que se estende por cerca de 500km. Rico em biodiversidade, alberga também cerca de 65000 crocodilos do Nilo, espécie que já esteve em vias de extinção e é essencial ao bom equilíbrio do ecossistema.

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A Grande Barragem de Aswan, uma das maiores do mundo, desempenha um papel fundamental no desenvolvimento do país. Inaugurada em 1970, a barragem, além de controlar as inundações do Nilo, gerar energia hidroelétrica e fornecer água para irrigações agrícolas, teve também impactos socio-ambientais significativos, incluindo a relocação de comunidades e mudanças nos ecossistemas locais.

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De volta à cidade, dirigimo-nos ao embarcadouro dos pequenos barcos a motor, que transportam passageiros, principalmente turistas, de Aswan até à Ilha Angilika, local para onde foi transladado o templo originalmente erigido na ilha de Philae e que ficou submerso após a construção da Grande Barragem.

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O Templo de Philae é uma preciosidade. É hoje Património Mundial da UNESCO e foi dedicado à Deusa Ísis. É famoso pela sua fantástica arquitectura e por ter sido um importante centro de culto durante os períodos helenístico e romano, rodeado pelo misticismo dos rituais lá praticados.

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Voltámos a Aswan e aos 40⁰ C à sombra daquele Março que antecipava um Verão escaldante para uma incursão ao reino das essências perfumistas que estão na base de todos os perfumes de todas as marcas até hoje fabricadas. De regresso ao navio e com algumas horas livres para almoçar e tentar amenizar todas as emoções numa “fresquinha”, preguiçámos na sombra quente do convés superior. 

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A manhã foi muito bem aproveitada e os passeios nos barquinhos anteciparam a vontade para a próxima saída pelo rio, desta vez em felucca, marcada para essa tarde.

Até já.

Diário de viagem: Capítulo 6


Maria Dulce Fernandes,

Diz-se que embarcar num cruzeiro é para apreciar a viagem e descansar. Não sei quem inventou tal coisa, mas provavelmente fui eu, mal habituada ao descanso e ao sono tranquilo da noite anterior. Tínhamos aportado em Edfu e havia visitas para fazer durante a manhã, antes de voltarmos à navegação para Kom Ombo.

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O Templo de Edfu, dedicado ao deus Hórus, é conhecido por sua arquitectura bem preservada e por ser um dos maiores templos do Egipto.

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O templo é famoso pelas suas inscrições que descrevem a mitologia de Hórus e sua luta contra Seth, o deus do caos. Essas histórias eram centrais para a religião egípcia e eram celebradas em rituais realizados no templo.

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Depois de Edfu regressámos ao barco e continuámos em navegação até Kom Ombo, para visitar o famoso templo.

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O Templo de Kom Ombo é único, na margen do rio Nilo, construído durante o período ptolomaico. Dedicado a dois deuses: Sobek, o deus crocodilo, associado à fertilidade e à criação, e a Hórus, o deus falcão, que simboliza a realeza e a protecção. Uma das características mais notáveis deste templo é a sua simetria. Divide-se em duas partes, cada uma dedicada a um dos deuses, com santuários, colunas e salas. Possui relevos e inscrições que retratam várias cenas, incluindo os rituais religiosos, a medicina e a agricultura, além de representações de crocodilos, que eram sagrados para Sobek.

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Um dos relevos mais notáveis representa instrumentos médicos. Isto sugere que o templo também tinha a função importante de ser local de tratamentos e outras práticas medicinais. 

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À saída, podemos visitar o Museu do Crocodilo, que apresenta diversos exemplares mumificados, encontrados em túmulos de nobres e sacerdotes.

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Regressámos ao barco e preparámo-nos para apreciar a passagem pela eclusa de Esna, mas o sono acabou por vencer. Acordámos mais tarde com uma série de fortes estrondos metálicos, que passado o susto inicial, verificámos serem “toques” de quando o barco encostava ao passar pelos portões, para bem se posicionar dentro da eclusa. Aí, já nada havia para ver. Voltámos ao quarto para despertar de novo bem cedinho, mas já em Aswan.

Diário de viagem: Capítulo 5


Maria Dulce Fernandes,

Adeus Luxor

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Pelo Nilo

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O Rio Nilo é conhecido por ser o mais longo do planeta, com cerca de 6.650 quilômetros de extensão. Flui através de vários países da África, incluindo o Uganda, o Sudão e o Egipto, antes de desaguar no Mar Mediterrâneo.

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O Nilo é tradicionalmente dividido em Nilo Branco e Nilo Azul. O Nilo Branco, a principal nascente, está localizada no Lago Vitória iniciando o seu percurso através do Sudão do Sul, onde se junta ao Nilo Azul em Cartum, capital do Sudão. O Nilo Azul nasce na região mais montanhosa da Etiópia, no Lago Tana, e é responsável por grande parte do caudal do Nilo, especialmente durante a estação das chuvas.

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Os navios que sobem e descem o Nilo são verdadeiros hotéis flutuantes que nos proporcionam todo o conforto com vistas de paisagens encantadoras durante todo o seu percurso, em ambas as margens e em qualquer direcção em que pousem os nossos olhos.

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As nascentes do Nilo são de grande importância não apenas para a geografia, mas também para a história e a cultura das civilizações que se desenvolveram ao longo das suas margens.

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São cerca de trezentos os navios que cruzam ininterruptamente o rio de Luxor a Aswan, de Aswan a Luxor, de ambos os destinos até Abu Simbel, até ao Cairo e também para outras paragens mais a sul, até onde o Nilo é navegável.

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O rio tem sido uma fonte vital de água, transporte e fertilidade para milhões de pessoas ao longo dos séculos.

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A viagem de Luxor a Aswan, com paragem em Edfu e Kom Ombo, é espectacular, calma e agradável. Deixou muitas saudades.

Desde o remanso da vida nas margens, passando durante a noite pela eclusa de Esna, até às “boleias” de barcos a remos, que vendem de tudo aos turistas e se tornaram por si só uma atracção durante os cruzeiros fluviais.

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Desde um mergulho na piscina a uma garrafinha de água fresca a acompanhar um livro preguiçoso. Desde relaxar no fresco da cabine, com a varanda aberta para o rio, a ver-se em palpos de aranha na balbúrdia da noite árabe, nas noites temáticas em todos os percursos. Foi fantástico.

Adorámos cada minuto.

Se pudesse, regressava ao rio já amanhã.

Diário de viagem: Capítulo 4


Maria Dulce Fernandes,

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Com a experiência das cidades anteriormente visitadas bem viva na nossa ideia, chegar a Luxor foi uma fantástica surpresa. Maravilhosa, limpa, colorida e com gente bonita e menos ataviada de roupagens. Talvez o calor de Ra, por se fazer sentir com mais intensidade, dê aos habitante uma perspectiva de vida mais brilhante e mais sã.

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Mal chegámos, fomos conduzidos ao barco que seria a nossa morada fluvial nos próximos quatro dias e onde pensámos poder preguiçar e relaxar das andanças dos primeiros dias. Mas não foi assim. Segundo o Yousif, no Egipto só se descansa  depois de morrer.

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Fomos separados do grupo inicial por termos programas diferentes, e juntámo-nos a um simpático casal nortenho, que tinha como único defeito o de sofrer de lampeonite aguda. Passámos a ser um grupo de cinco, contando com o omnipresente Dino, possuidor de  um conhecimento enciclopédico, nosso guia e companheiro até Aswan.

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No mesmo dia da chegada a seguir ao almoço, tinhamos visita marcada aos templos de Karnak e Luxor. Karnak, em particular, é um fabuloso complexo de templos que homenagiava Amon e outros deuses, famoso pelo seu Grande Salão Hipostilo. O Templo de Luxor também foi dedicado à adoração a Amon, além de ter sido um local de muitos rituais. Presentemente acolhe diversos festivais lúdicos e culturais. 

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Caiu a noite e saímos para um passeio de charrete pela cidade que vibrava de alegria. As pessoas que ficavam em casa e encerravam os seus pequenos negócios durante o dia para melhor poderem fazer o jejum, trabalhavam à noite e contribuíam para o colorido do Ramadão. Por todo o lado se ouvia “Ramadan Kareem” acompanhado de beijos e abraços.

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No regresso recebemos instruções para o dia seguinte. A manhã acorda cedo e nós também, com partida para o Vale dos Reis, Templo de Hatshepsut,  Colossos de Memnon e visita a uma fábrica artesanal de peças em alabastro. Saída às 7 horas.

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Pelas sete, frescos que nem uma alface pelo mimo de seis horas de bom dormir, seguimos para o Vale dos Reis, que por muito incrível que possa parecer, já fervilhava de turistas. Alguns faziam ouvir bem alto  o seu descontentamento por a tumba de Tut Ankh Amon se encontrar encerrada. Uma idosa alemã chorava copiosamente, manifestando o seu desalento. Foi um revés? Foi. Mas há por ali muito mais  para visitar. Entrámos em três tumbas muito bonitas de três Faraós de nome Ramsés, o III, o IV e o IX. Bem preservadas e com pouquíssimas zonas restauradas, foi um autêntico deleite imergir na história que era contada nas paredes e tectos dos túneis e câmaras e antecâmaras  funerárias.

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Partimos para o Templo de Hatshepsut, mulher, Rainha, Faraó e dirigente extraordinária durante mais de 20 anos, com um reinado grandioso em paz e grande prosperidade. Hatshepsut, uma das poucas mulheres a governar como faraó, focou-se em projectos de construção, comércio e desenvolvimento económico, o que contribuiu para a estabilidade do país. Esse período é frequentemente visto como um dos mais prósperos da história do Egipto antigo. O Templo localizado em Deir el-Bahari é completamente escavado na rocha, é belo ao longe e ainda mais belo à chegada.

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Dali, seguimos para Memnon, para ver os colossos, duas enormes estátuas de pedra que representam o faraó Amenhotep III. Seguimos para o artesanato em pedra e de lá para o navio que iria zarpar pelas 14 horas, rumo a Edfu e Kom Ombo.

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Tivemos uma tarde em cheio.

Diário de viagem: Capítulo 3


Maria Dulce Fernandes,

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Por aquelas paragens, madrugar esteve na ordem do dia… todos os dias. Se o que se quer é uma visita com qualidade, chegar cedo é fundamental. Isto implica acordar às 6:30h, tomar pequeno-almoço e estar no lobby pronto para o autocarro entre as 7:30h e as 8 horas. Éramos quase sempre os primeiros e assim tínhamos tempo para conversar com o guia sobre as visitas. Se existe coisa de que não nos poderemos nunca queixar, é da organização e da pontualidade dos muitos representantes da agência egípcia que nos transportaram e guiaram aos mais variados destinos, alguns num português-do-Brasil quase perfeito, outros num excelente espanhol. Foram todos, sem excepção, óptimos profissionais.

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Com o grupo completo, rumámos à mesquita de Muhammad Ali, também conhecida como Mesquita de Alabastro, um importante local de culto e também um símbolo da era de modernização do Egipto sob o governo de Muhammad Ali Pasha. Visitámos também a mesquita mameluca de na-Nasr Mohammed, que é um exemplo impressionante da arquitectura mameluca, com grandes cúpulas, minaretes altos e belos detalhes decorativos. Ambas as mesquitas estão situadas dentro da Cidadela de Saladino, o famoso Salah ad-Din Yusuf ibn Ayyub, fundador da dinastia aiúbida. A cidadela foi projectada para proteger a cidade de invasões, especialmente durante as Cruzadas.

Foi a primeira vez que entrámos em mesquitas calçados (era opção por 10EGP) e apenas com protectores de sapatos.

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Dos muros da Cidadela, a vista panorâmica sobre a cidade é de tirar o fôlego, de tão fantástica quanto deprimente. Pelo caminho avistámos a Cidade dos Mortos, que não conseguimos visitar por estar a decorrer um funeral. 

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Depois do almoço em restaurante típico, visitámos o bairro copta. Este bairro é o centro da comunidade cristã copta do país, uma das mais antigas tradições cristãs do mundo. O pequeno tesouro que é a Igreja de S. Sérgio e S. Baco, erigida sobre a casa na qual a Virgem Maria, o Menino Jesus e S. José viveram quando da sua fuga para o Egipto, merece destaque. Visitámos também a antiga igreja de Santa Bárbara convertida em sinagoga. Paredes meias com uma mesquita construída sem minaretes nem altifalantes para não perturbar as orações na sinagoga, funcionam cada uma no seu culto e ambas em perfeita e pacífica coabitação. Visitámos também o grande bazar de Khan el Khalili e o Museu Egípcio. 

Como dois lugares distintos, um pardacento e sombrio, o outro arrumado e alegre, Cairo-a-Capital e o Cairo Turístico, vivem lado a lado, dissonantes, como duas metades em que as disparidades são por demais flagrantes debaixo da mesma luz, duas faces da mesma moeda cuja cara que cai voltada para o sol é a renda que alimenta o país.

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O Museu Egípcio, apesar de desfalcado de grande parte do seu acervo, é ainda muito interessante. Apresenta  a exposição por categorias e sem ordem cronológica, mas está muito bem organizado.

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A sua maior atracção é (e será até Julho) parte do tesouro de Tut Ankh Amon. Está exposta a máscara funerária, o sarcófago de ouro e um sem número de gargantilhas, coroas e outros objectos pessoais confeccionados nesse metal precioso, imprescindíveis ao percurso da alma após o  Tribunal de Osíris e todos os processos de vida, morte e regresso da alma ao corpo. Por ser sagrado ou profano, não percebi bem o porquê, não é permitido fazer fotografias ou vídeos da sala deste faraó… mas se se pagar com antecedência pela sessão fotográfica depois do horário de encerramento podemos fotografar, algo que à data desconhecia completamente.

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Hatshepsut

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Já entardecia quando regressámos ao hotel para preparar tudo para a aventura seguinte. Nas ruas recomeçava a azáfama para mais um iftar, e a letargia do jejum dava lugar à antecipação do banquete que, onde quer que fosse, era sempre farto e bastante variado e cujos aromas esvoaçavam por toda a cidade, carregados pelos ventos de final de tarde. Pelas estradas, voluntários ofereciam água e tâmaras àqueles que demoravam no regresso a casa, para que pudessem quebrar o jejum depois das 6 da tarde, hora em que o sol, apesar de ainda iluminar, deixava de se ver no horizonte e em que, do alto dos minaretes de todas as mesquitas, por todo o país, os muezim cantam o adhan para as primeiras orações da noite.

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Também nós tínhamos algumas tarefas a ultimar. Acordar às 2 horas da madrugada, sair às 3 horas, chegar ao aeroporto às 4 horas, passar pelas diversas revistas de segurança e às 6 horas voar rumo a Luxor.

Assim foi e mal o avião descolou já começava a preparar a aterragem.

Diário de viagem: Capítulo 2


Maria Dulce Fernandes,

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O programa de viagem tinha como destino a visita à cidade mediterrânea de Alexandria no dia seguinte. Madrugámos com grande expectativa e encetámos alegremente os cerca de 220km que separam esta cidade da capital.

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Nada nos faria pensar que Alexandria seria também uma ruína, mas efectivamente assim é. Andrajosa, suja e superpovoada, a cidade mais cosmopolita de todas as cidades egípcias é um caco e um perfeito caos.

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Salvou-se a visita a Kom el Shoqafa, um complexo funerário subterrâneo greco-romano-egípcio, a biblioteca que é uma pérola rara no meio de tantos escombros de construções habitadas e do lixo que é uma constante por todo o lado, a Fortaleza de Quaitbay, o Pilar de Pompeu, o demasiado ventoso Parque Montazah e a Corniche que se estende por quilómetros e que apesar do vento e do frio (11⁰C) consegue ser bonita.

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Quando Alexandre fundou a cidade e lhe deu o seu nome não lhe passou pela cabeça que se tornaria num Nó Górdio, sem lâmina que o consiga desatar.

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O passeio em si foi conseguido e o truque é não ser optimista. Se nunca se esperar demasiado, nunca ficaremos desapontados.

Voltámos à estrada, para mais 220 quilómetros rumo à cor, à música e aos inebriantes aromas do iftar que conferem ao pardacento Cairo a alegria que debaixo do sol é difícil de encontrar.

 

Diário de viagem: Capítulo 1


Maria Dulce Fernandes,

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Quando somos pequenos, todas as histórias de países distantes e misteriosos, cujos usos e costumes são tão diferentes dos nossos que avivam a imaginação e se tornam mágicos, aguçam o bichinho da aventura que,  dormente durante anos, ressurge desperto e renovado  e pede que o sonho se realize.

Pensada e repensada, a decisão foi tomada e partimos para o Cairo, numa fria tarde de Março, para fugir às altas temperaturas de um Verão prematuro. As seis horas de viagem passaram lentas mas correram bem. Depois de todas as peripécias de vistorias de segurança, chegámos ao hotel quase ao nascer do sol para nos refrescarmos, pois a primeira visita tinha saída às 8:30h. Havia pequeno-almoço  apesar de ser tempo de Ramadão e o autocarro apresentou-se à hora marcada para o tour a Memphis e Saqqara, e depois do almoço as famosas pirâmides e a esfinge.

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Atravessar o Cairo é um susto, mesmo da perspectiva do alto de um autocarro de turismo. Primeiro, porque toda a cidade é já ela um susto, suja na cor e no lixo que enche as ruas por todo o lado em que se passe. Os edifícios pareciam saídos de um filme de guerra prestes a desmoronar-se, não se avistavam semáforos, passadeiras para peões ou rotundas, nem sei se existe código da estrada, pelo que era um “Insha’Allah” e tudo ao molho. É uma questão de cultura, tenta explicar o guia, mas é tirada que não convence. Ter uma cidade com cerca de 20 milhões de almas e a aumentar de dia para dia, sem condições para nela se viver, as casas meio destruídas, com pessoas a dormirem debaixo dos viadutos e arcadas de prédios e na interminável Cidade dos Mortos, um enorme cemitério onde mortos e vivos coabitam, no meio de casas térreas clandestinas e de túmulos, onde há arte, comércio e vida e morte, numa existência tão plácida como tétrica.

 

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O Cairo é triste e assustador, mas as pessoas são alegres e bem dispostas e à noite as luzes artificiais das fanous, as lanternas do Ramadão, a música e o colorido, com grandes mesas ruas afora onde todos se juntam para o Iftar,  mascaram a premente necessidade com festa e luz, onde os mais ricos alimentam os pobres e todos os que vierem por bem. A noite, essa sim, é mágica.

Uma jovem de vinte anos, uma égua e uma viagem da Alemanha até Portugal (8)


Cristina Torrão,

A 23 de Dezembro, três semanas e meia depois da sua chegada a casa, Jette fez um balanço da sua viagem. Ao organizar um livro de fotografias, recordou, passo a passo, as suas vivências e apercebeu-se, mais do que nunca, da singularidade da sua experiência.

Atravessou o rio Reno de ferry; amarrou a Pinou à porta de um supermercado; dormiu num estábulo; o pai levou-a através da França, para que ela pudesse retomar a viagem em Burgos; cavalgou ao longo do Atlântico; dormiu em casa de pessoas desconhecidas, incluindo homens acabados de conhecer, apenas porque eles a abordaram de maneira simpática e perguntaram: “queres dormir aqui?”. Porém, diz Jette, nunca sentiu receio ou insegurança. Todas as pessoas se revelaram prontas a ajudá-la, com a melhor das intenções.

Jette notou igualmente a diferença que a viagem operou na Pinou. A égua dormiu em alguns sítios sozinha e/ou ao ar livre, assim como num estábulo com cavalos que lhe eram estranhos. As duas atravessaram florestas solitárias, Pinou chegou até a caminhar solta, à sua frente. A égua emagreceu um pouco, mas seria praticamente impossível evitá-lo, numa jornada tão longa. Mantendo-se em contacto com a dona, Jette sabe, entretanto, que a Pinou recuperou o seu peso normal e se encontra calma e feliz. A relação de completa confiança estabelecida entre ela e o animal, as pessoas incríveis que conheceu e as lindas paisagens foram, segundo a moça, as melhores vivências.

Ao folhear o livro de fotografias, Jette apercebe-se de como foi incrível elas não terem desistido. E conseguir regressar à Alemanha, sem levar a Pinou consigo. O facto de logo ter sido solicitada para tratar, montar e educar novos cavalos ajudou-a a diminuir as saudades da Pinou.

A moça agradece ainda o apoio dos pais, do namorado, de família, amigos e da dona da Pinou. Acompanharam o seu diário de viagem, comentaram, deram-lhe ânimo. As novas tecnologias têm muitos aspectos positivos, basta dar-lhes o uso adequado.

Jette diz que nunca se sentiu sozinha, durante a viagem, pois tinha a Pinou a seu lado. E eu penso ter sido precisamente isso a dar-lhe uma permanente sensação de segurança. Ela não fez a viagem de bicicleta, tinha um animal consigo, um ser vivo. Embora a Pinou pertença a uma raça relativamente pequena, um cavalo impõe sempre respeito. É o suficiente para afugentar quem nada entende de animais, ou cobardes. E sabemos: homens que molestam mulheres são cobardes. A não ser que estejam munidos de uma arma para, neste caso, dar cabo do animal. Mas isso, na nossa Europa, é felizmente raríssimo.

Neste postal, a comentadora Susana V. não deixou de referir ser imprudente “uma jovem de 20 anos com a responsabilidade enorme de tratar de uma égua, a viajar por terras despovoadas”, embora diga também que “as boas aventuras são muitas vezes comportamentos inconscientes que correram bem”.

Admiram-se sempre as aventuras dos rapazes, enumerando, com entusiasmo, os perigos por que passaram. Em relação a raparigas, somos mais críticos. Há mais perigos à sua espreita. E duvida-se mais facilmente das suas capacidades (neste caso, em tratar de uma égua). Mas a Jette provou que não tem de ser assim.

E não, não pretendo igualar os sexos, mas o respeito e a consideração que se lhes devota. Trata-se de não ver, num ser humano, uma presa à mercê de alguém, apenas por ser mulher. Por mais que muita gente insista em que a sociedade evolui por si própria, num processo natural, sem necessidade de exageros e sobressaltos, estes são essenciais. Tem de haver solavancos e rupturas. São necessárias pessoas que se atrevam a dar passos no desconhecido, quebrando tabus. A Jette não foi a primeira mulher a viajar sozinha. Mas mulheres dessas ainda representam uma excepção.

E não esqueçamos igualmente a mentalidade europeia. Foi na velha e bela Europa que isto aconteceu. Não poderia ter acontecido em muitas outras partes do mundo.

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Outras formas de turismo: repensar o acto de viajar


Ana CB,

Em 2008, planeei pela primeira vez uma viagem totalmente com recurso à Internet. É certo que nos anos imediatamente anteriores me socorria de uma agência de viagens online (que não era portuguesa). Mas só quando quis ir fazer uma viagem pela Costa Rica e não encontrei nenhum programa de operador turístico que me levasse aonde eu queria e durante o tempo que eu queria é que me decidi a organizar tudo por minha conta e risco. E, com uma pequena excepção, não voltei a viajar de outro modo.

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Olhando para trás, no que toca a viagens, tenho feito um percurso inverso ao que seria mais provável hoje em dia. Quando comecei a viajar com regularidade para fora de Portugal, nos já idos anos 90, não era concebível reservar uma viagem de avião sem ser através de uma agência de viagens. É certo que de carro ou comboio podíamos partir à aventura sem nada marcado, mapa na mão e procurando alojamento nos sítios em que decidíamos parar. Foram várias as viagens que fiz em Espanha e França com pouco mais do que uma vaga ideia de querer ir ver isto ou aquilo. E corriam geralmente bem – uma avaria ocasional que nos atrasava os planos, ter de passar uma noite no carro ou num alojamento menos confortável por não encontrar outro melhor. Nada que me estragasse o prazer de viajar.

Mas se queríamos ir para destinos mais longínquos, e a não ser que tivéssemos todo o tempo do mundo para partir à descoberta e nenhumas responsabilidades a prenderem-nos para voltar, então tínhamos mesmo de recorrer às agências de viagem e conformar-nos com o que elas nos ofereciam. Hoje, numa altura da vida em que já seria compreensível (e talvez expectável) querer sopas e descanso e embarcar em cruzeiros, ou ir para resorts, ou que me fizessem a papinha toda e apresentassem viagens prontas a consumir, estou quase completamente no espectro oposto. Não virei mochileira (embora ande muitas vezes de mochila às costas), mas só vou aonde quero e da forma que quero, fugindo das viagens estereotipadas e, dentro do possível, das épocas mais pressionadas pelo turismo. Não é que não vá, ou não queira ir, àqueles lugares de que toda a gente gosta. Mas não aprecio confusões, e portanto tento evitá-las. Se há tanto para conhecer por esse mundo fora, porque é que havemos de ir todos para o mesmo sítio ao mesmo tempo?

Nos últimos 60 anos, as viagens “democratizaram-se”. O que antes só era acessível para quem ou fosse muito endinheirado, ou tivesse uma alma hippie, hoje em dia é mais ou menos alcançável para uma boa fatia da população mundial. Por um lado, as plataformas online tornaram possível a muita gente, como eu, viajar com mais facilidade; por outro, a maior oferta de alojamentos de vários tipos e de transporte (sobretudo na aviação) fez reduzir os custos das viagens, de um modo geral. As redes sociais encarregaram-se de alimentar e acelerar as vontades (por vezes apenas latentes) de ir mais longe, mais alto, mais fundo – ou simplesmente de ir passar férias num sítio que não o do costume, de preferência num daqueles em que é possível tirar belas fotos sem grande esforço nem sapiência.

Fonte (por vezes principal) de rendimento, emprego e desenvolvimento em muitos países, esta revolução no turismo trouxe também problemas evidentes: os destinos cheios de resorts uniformizados, a proliferação de pacotes de “tudo incluído” e a febre dos locais “instagramáveis” dominam o sector. Para muitos, viajar deixou de ser uma forma de descoberta cultural e pessoal para se tornar num acto performativo, mais voltado para acumular carimbos no passaporte ou quantidades de países visitados do que para viver experiências autênticas.

O turismo de massas tem vindo a exacerbar, a nível mundial, várias questões ambientais e sociais. Do ponto de vista do ambiente, não podemos ignorar a poluição causada pelo transporte aéreo e marítimo, a sobrecarga de ecossistemas frágeis, o desperdício de recursos naturais como água e energia, ou o aumento da produção de resíduos. Socialmente, contribui para a sobrecarga de infra-estruturas em cidades icónicas, a gentrificação de bairros históricos, o aumento do custo de vida para as populações locais, a exploração laboral no sector do turismo e a degradação da autenticidade cultural devido à excessiva comercialização. Além disso, ao comprometer a qualidade de vida em destinos muito procurados, a afluência descontrolada de turistas pode gerar (e tem gerado) tensões com as comunidades locais.

E eu encontro-me agora, com este meu grande apetite por viajar, num dilema: uma vez que faço parte do problema, como posso também fazer parte da solução? Como posso conciliar a minha paixão por conhecer o mundo (enfim, parte dele, pelo menos) com o meu desejo de contribuir o mínimo possível para piorar situações que são já por si insustentáveis? Sei que não sou a única a preocupar-me com estas questões, e não tenho qualquer pejo em defender que está na altura de repensar o que queremos quando viajamos, e qual a melhor maneira de o fazer. Há vida para lá dos formatos padronizados de viagem, e outras formas de turismo que podem ser igualmente (ou ainda mais) recompensadoras.

 

Turismo sustentável: uma responsabilidade colectiva

O turismo sustentável é uma abordagem que visa equilibrar a satisfação dos viajantes com a protecção do meio ambiente e o bem-estar das comunidades locais. O conceito surgiu como resposta primeira e directa aos efeitos negativos do turismo de massas. Através de práticas conscientes, é possível minimizar a pegada ecológica e maximizar o impacto positivo nos destinos visitados.

Por exemplo, optar por transportes menos poluentes, como os comboios, é uma forma de reduzir as emissões de carbono associadas às viagens de avião. A escolha de alojamentos amigos do ambiente, que recorrem a energias renováveis e têm programas de reciclagem, é outra medida concreta. Para além disso, a consciência ambiental deve estender-se ao consumo local: privilegiar mercados, restaurantes e lojas geridos por comunidades locais fortalece as economias locais sem explorar os recursos naturais de forma excessiva. Já falei mais em detalhe sobre esta questão aqui.

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Muitos destinos também estão já a adaptar-se a estes cânones. Exemplos como as Galápagos ou o Butão, que limitam o número de turistas anuais, demonstram que é possível preservar ecossistemas sensíveis ao mesmo tempo que se oferece uma experiência única e com qualidade. Esta limitação e qualidade envolvem custos – o que, por sua vez, dá origem a outro tipo de questões: num mundo que deveria ser cada vez mais democrático e acessível, é justo vedar certos destinos a quem tem menos posses, mesmo que com base em motivos nobres? Nesta como noutras áreas, não é fácil encontrar um equilíbrio.

 

 

Turismo de proximidade: redescobrir o que está perto

A pandemia que obrigou ao fecho de muitas fronteiras em 2020-21 fez-nos reapreciar o turismo de proximidade. Trata-se de valorizar o que está ao nosso alcance, explorando regiões menos conhecidas e redescobrindo a cultura e a natureza locais. Além de reduzir as deslocações de longa distância, que têm um elevado custo ambiental, o turismo de proximidade ajuda a descongestionar os destinos demasiado populares.

Portugal tem aproveitado esta onda para tentar dar vida a zonas do país que estavam a ficar desertificadas. É um alento algo artificial e que nem sempre aproveita os recursos e modos de vida tradicionais, mas se feito de forma consistente e pensada, pode trazer mais benefícios do que desvantagens. Visitar lugares que nos estão mais próximos permite não apenas conhecer melhor o património local, mas também reduzir custos e apoiar pequenas economias regionais.

Para além disso, e mais do que só por uma questão de conveniência, o turismo de proximidade também convida a uma reflexão: será que precisamos de atravessar o mundo para encontrar beleza e significado?

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Turismo comunitário: viajar com impacto social

O turismo comunitário coloca as populações locais no centro da experiência turística. Em vez de grandes cadeias hoteleiras ou operadores multinacionais, esta proposta apoia-se em iniciativas lideradas por comunidades que partilham a sua cultura, história e recursos de forma autêntica.

Por exemplo, no Brasil, certas comunidades (na Amazónia e no Maranhão, só para citar duas regiões) oferecem programas de turismo que combinam aprendizagem cultural e preservação ambiental. Em África, algumas aldeias promovem safaris comunitários, onde os lucros são reinvestidos na educação e na saúde. Estes modelos não só geram receitas, como também reforçam a autonomia das populações locais.

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Pela nossa parte, neste tipo de viagens adquirimos uma percepção mais imersiva do destino e temos a oportunidade de contribuir para um impacto positivo. É uma forma de turismo que reforça valores de inclusão, diversidade e respeito, essenciais num mundo cada vez mais globalizado.

 

Turismo lento: a arte de viajar devagar

A pressa para visitar o maior número de lugares no menor tempo possível leva à superficialidade das experiências. O turismo lento (“slow travel”) propõe um ritmo diferente: permanecer mais tempo num destino, conhecer melhor a cultura local e estabelecer ligações autênticas.

Podemos, por exemplo, optar por alojar-nos em casas de famílias locais, aprender a cozinhar pratos típicos ou participar em festividades tradicionais. Viajar devagar também beneficia o meio ambiente, ao reduzir as deslocações frequentes e o consumo excessivo de recursos. Além disso, promove uma maior empatia cultural e dá-nos a possibilidade de regressarmos à nossa rotina com memórias mais significativas.

 

Turismo regenerativo: deixar os lugares melhores do que os encontramos

O turismo regenerativo é um passo à frente no que toca à sustentabilidade. Em vez de apenas minimizar impactos negativos, procura transformar os destinos, regenerando ecossistemas e comunidades. É um conceito que nos desafia a não sermos apenas consumidores, mas também agentes de mudança positiva.

Como exemplo, os projectos de reflorestação em áreas desmatadas ou as iniciativas de conservação marinha que permitem que nós, turistas, contribuamos activamente para a protecção ambiental. No âmbito social, existem muitos programas que incluem voluntariado em escolas, ou workshops que ensinam e ajudam a preservar tradições culturais.

Esta abordagem exige um compromisso mais profundo, mas as recompensas são igualmente elevadas: a satisfação de saber que a nossa presença não apenas preservou, mas também enriqueceu o lugar visitado.

 

Viagens conscientes e financeiramente razoáveis

Viajar não precisa de ser sinónimo de grandes despesas. Um dos pilares do turismo consciente é a gestão responsável dos recursos financeiros, tanto dos nossos, que viajamos, quanto dos daquelas comunidades que nos recebem.

Optar por acomodações geridas por locais, usar transportes públicos ou partilhados e procurar experiências gratuitas ou de baixo custo são alguns exemplos de escolhas inteligentes. São gestos que, além de evitarem despesas desnecessárias, ajudam a redistribuir os benefícios económicos de forma mais justa.

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Neste aspecto, é essencial termos algum cuidado no planeamento da viagem: evitar épocas de alta procura pode significar preços mais acessíveis e uma experiência mais tranquila, com a possibilidade de interacções mais genuínas. Viagens conscientes também desafiam a ideia de que os destinos famosos são necessariamente os melhores. Muitos lugares menos conhecidos oferecem vivências igualmente recompensadoras e até mais interessantes, a um custo menor.

 

Turismo cultural e educacional: enriquecer o espírito

Uma viagem não é apenas uma deslocação física e geográfica; é sobretudo (pelo menos para mim) um convite à transformação pessoal. O turismo cultural e educacional procura oferecer experiências que ampliem horizontes, seja através da aprendizagem de uma nova língua, da participação em oficinas de artesanato ou da visita a museus e monumentos históricos – isto só para citar algumas possibilidades atractivas.

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Estes momentos não só nos tornam mais ricos, como também reforçam a importância de preservarmos o património cultural para gerações futuras. E, mais ainda, reforçam em nós o respeito pela diversidade cultural e podem ajudar-nos a desconstruir preconceitos.

Uma experiência educativa pode ser algo tão simples quanto participar numa vindima ou assistir a uma tradição religiosa. Estas vivências são muitas vezes mais autênticas e memoráveis do que uma fotografia tirada num ponto turístico cliché.

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Combater o excesso de turismo: procurar alternativas

O excesso de turismo (“overtourism”) é um dos grandes desafios da actualidade, e para combater este problema – ou pelo menos tentar não contribuir para ele – é essencial repensarmos os nossos comportamentos enquanto viajantes.

Escolher destinos alternativos é uma solução simples e eficaz. Procurar cidades menos famosas, lugares menos congestionados, ir àquele sítio que foi aconselhado por alguém que vive lá perto, em vez de saltar de spot “instagramável” para monumento hiper conhecido sem qualquer paragem pelo caminho.

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De cada vez que leio uma notícia sobre habitantes de uma cidade revoltados contra o excesso de turismo, ou vejo uma foto de um lugar onde as pessoas se acotovelam para tirar uma selfie, ou dou de caras com a foto de um sítio em que já estive e mal o reconheço, tal a quantidade de efeitos e filtros aplicados para ser mais apelativo às visualizações, não consigo deixar de reflectir em como o consumismo também já se instalou no acto de viajar. Será que precisamos mesmo de visitar todos os pontos turísticos de uma determinada cidade ou região, só porque são famosos? Será que é mesmo necessário ir aonde toda a gente vai? Se é para ser trendy, então porque não substituir o FOMO (“fear of missing out”) pela JOMO (“joy of missing out”)? (Os puristas da língua portuguesa que me desculpem tanta expressão inglesa, mas o português não é célere a adaptar-se à profusão de novidades linguísticas…)

 

Um novo paradigma para viajar

Viajar é mais do que visitar lugares: é um privilégio, uma forma de vermos por nós próprios, sem interposta pessoa, o que se passa para lá dos muros do nosso quintal, e uma oportunidade para crescermos como seres humanos e como cidadãos – ou, como tantas vezes digo, uma maneira de afastar as palas dos olhos. No entanto, este privilégio vem com responsabilidades. Ao adoptarmos formas de viajar que fogem da corrente dominante, que são mais pensadas, não estamos apenas em busca de viagens mais satisfatórias para nós. Estamos a cuidar do planeta e a construir um futuro mais justo e inclusivo para todos. Viajar menos ou de outra maneira, mas melhor, pode ser a resposta para um turismo mais consciente e justificável. A escolha está nas nossas mãos.

 

Leitura aconselhada:

 

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Uma jovem de vinte anos, uma égua e uma viagem da Alemanha até Portugal (3)


Cristina Torrão,

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Chegada a Krefeld, depois de vinte e um dias de viagem e quase 570 km percorridos, Jette deixou a Pinou bem entregue e descansou três dias, alojada em casa de um tio. O namorado foi ter com ela. Na bagagem, trazia uma ração especial para a Pinou, própria para cavalos sujeitos a maiores esforços.

Jette e Pinou bem precisaram de todos os confortos proporcionados por esta estadia. Ao retomarem a viagem, a 1 de Outubro, tinham a Eifel pela frente, uma cordilheira montanhosa, na Renânia-Palatinado, que se estende por 5300 km², entrando na Bélgica e no Luxemburgo e atingindo, no seu ponto mais alto, à volta de 750 m.

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Não eram apenas os montes a tornarem custosas as etapas. Os dias eram já curtos e o tempo mudou, tornando-se frio e chuvoso. Por vezes, chovia um dia inteiro. Nas pausas, para comer a merenda, Jette abrigava-se debaixo de uma árvore. E nem sempre encontrava quem lhe cedesse um quarto para dormir.

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Pernoitando na tenda, com temperaturas entre os 0ºC e os 4ºC, Jette tinha frio, apesar de se deitar vestida com calças de ski e de cobrir o saco-cama com uma manta da Pinou, feita de pêlo de ovelha. Por vezes, tinha de montar a tenda em relvados totalmente alagados. Deste modo se apresentavam igualmente muitos caminhos, obrigando-as a fazer grandes desvios.

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Havia dias em que só avançavam 18 ou 20 km. Cheia de andar à chuva, Jette começava a procurar alojamento pelas duas e meia da tarde. E, caso só lhe restasse dormir na tenda, a preparação da viagem, no dia seguinte, era penosa, debaixo da chuva. Jette sentia pouca motivação para continuar e demorava uma eternidade até ter tudo pronto, só arrancando pelas 11 horas.

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A jovem começou a duvidar se devia prosseguir. Sempre soube que ia deparar com dificuldades, mas seriam estes desafios extremos boas lições de vida, ou contribuíam apenas para a deprimir? Sentia muita falta do namorado, da família e de uma rotina caseira. Não saber, dia após dia, onde e como ia passar a noite, era psicologicamente exaustivo. E parecia-lhe que as mudanças constantes esgotavam também a Pinou. A todo o momento, poderia solicitar ao pai que a fosse buscar de carro, trazendo um atrelado para a égua. Acabaria por o fazer?

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Depois de dez dias de canseiras e extremo desconforto, encontrou uma pequena quinta com gente muito simpática. A Pinou teve direito a um estábulo coberto e, apesar de a família não ter um quarto disponível para a Jette, ela pôde dormir numa divisão aquecida, deitada no seu colchão de ar.

No dia seguinte, talvez notando que ela estava realmente esgotada, sugeriram-lhe que ficasse mais uma noite. Num primeiro momento, ela recusou, queria avançar. Mas mudou de ideias. Era Domingo e, se ela e a Pinou estavam tão bem instaladas, porque não aproveitar aquele dia para descansar?

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A primeira coisa que fez, depois do pequeno-almoço, foi tornar-se a deitar. Aquela possibilidade de poder descansar, a qualquer momento, sem preocupações, fez-lhe sentir a familiaridade típica de um Domingo. Convidaram-na para almoçar e, em seguida, como não chovia, resolveu ir dar um passeio com a Pinou. Poder cavalgar, sem sujeitar a égua ao peso da bagagem, trouxe-lhe uma sensação de verdadeira felicidade.

Na segunda-feira, fizeram-se novamente à estrada. Os montes continuaram a cansá-las, mas o tempo melhorara e Jette notava que a Pinou, entretanto treinada, vencia melhor as subidas. Passado uns dias, numa outra aldeia, a jovem teve de escolher entre a tenda, ou levar o saco-cama para um antigo curral de vitelos, o abrigo da Pinou, guarnecido com feno fresco.

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Escolheu ficar com a égua, o que se revelou a melhor solução. Durante a noite, Pinou deitou-se duas vezes ao lado dela, algo que, naquela situação, lhe deu conforto e felicidade imensos. Estabelecia-se uma verdadeira cumplicidade entre as duas, baseada, como sempre acontece numa relação entre um humano e um animal, numa total confiança mútua.

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O saco-cama de Jette, no curral onde ela dormiu ao lado da Pinou

A jornada prosseguiu, novamente com alguma chuva. Por vezes, tinham sorte e encontravam um lugar agradável para dormir, com gente que a convidava para jantar. Outras vezes, tinham de se contentar com mais um terreno alagado, onde a moça montava a tenda, enquanto a noite se aproximava fria.

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Jette ia resistindo, deixando a Eifel e as suas montanhas para trás, à medida que se aproximava do Saarland, onde o pai surgiria, a fim de as transportar até Espanha. Isso dava-lhe naturalmente motivação extra.

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O pai e ela encontraram-se a 20 de Outubro, perto da fronteira francesa. A moça e a égua tinham percorrido quase 1000 km, em quarenta dias.

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Nota: Todas as fotografias e informações aqui divulgadas foram retiradas do diário de viagem de Jette:

https://www.instagram.com/jette.horse.journey/

@jette.horse.journey