Escolhi o Outono para visitar o Japão. Atrevo-me a dizer que será a melhor altura para viajar no país. Por um lado, o kōyō dá colorido a uma arquitectura tradicional que, se excluirmos os templos e santuários, tem a sobriedade e discrição como base. Por outro, a atmosfera da própria estação do ano convida à pausa, à demora, à reflexão. É o quadro perfeito para interiorizar mais alguns dos conceitos que são importantes na cultura japonesa.

Wabi-Sabi (侘寂)
A beleza do que envelhece
Rodeada pela beleza dos Alpes japoneses, Takayama é uma cidade surpreendente, onde o moderno e o antigo coabitam sem choques. No extenso bairro de Sanmachi, as casas mantêm as suas fachadas de madeira escura, marcadas pelos anos. Nada parece restaurado em excesso. As superfícies mostram desgaste, irregularidade, uso contínuo. Apesar das concessões ao turismo, muitas lojas dedicam-se à venda de artesanato de qualidade e de produtos locais tradicionais, como chá ou saquê. Há um sentido de beleza contida que se prolonga nos interiores de restaurantes e cafés tradicionais, onde vigas de madeira, iluminação baixa e objectos vintage criam ambientes que nos transportam para outras épocas.
O wabi-sabi valoriza esta estética: o simples, o imperfeito, o incompleto. O Outono reforça a sensação, acrescentando pontos de cor, textura e ainda mais sombra à atmosfera. Aqui, a beleza não está no novo, mas no que foi cuidado ao longo do tempo.
O templo mais antigo da cidade é o Hida Kokubun-ji, que remonta a meados do século VIII. Bem cuidado e conservado, a madeira escura dos edifícios e do seu pagode de três andares e a gingko centenária, tronco robusto e folhas-leque douradas pelo kōyō, ilustram simultaneamente uma espiritualidade discreta e a recusa em ocultar a passagem dos anos.




Takayama celebra a Primavera e o Outono em dois eventos anuais que se realizam desde há cerca de 400 anos. Os Takayama Matsuri são considerados dos mais belos festivais do Japão, e a sua longevidade reflecte bem a lógica japonesa de continuidade: rituais que se repetem, que se ajustam ao tempo, mas preservam o essencial. Um conceito que dialoga directamente com o wabi-sabi e com a noção de tempo cíclico tão presente na cultura do país. Os carros alegóricos (yatai) que desfilam durante o festival são um prodígio. Doze no total, todos diferentes e preciosamente decorados, têm um significado religioso, simbólico e comunitário profundo. Cada carro foi construído como oferta religiosa e pertence a uma comunidade específica, reflectindo a fé e o esforço colectivo dos bairros (machi) da cidade, e reforçando os laços sociais e a continuidade das tradições ao longo de gerações. Os yatai são expostos rotativamente (apenas quatro de cada vez) no Takayama Matsuri Yatai Kaikan, um salão do edifício onde estão guardados, e de onde apenas saem nos dias dos festivais.




À beira-rio, em cada manhã, o mercado de Miyagawa revela uma rotina simples: barraquinhas modestas, produtos sazonais, comida de rua e artesanato. Realiza-se desde o período Edo, quando agricultores e artesãos das aldeias em redor de Takayama começaram a reunir-se junto ao rio Miyagawa para vender excedentes agrícolas, flores e produtos artesanais directamente à população da cidade. Hoje em dia, mais do que um mercado turístico, mantém ainda a função original de proximidade, reflectindo um modo de vida assente na relação directa entre quem produz e quem consome – um exemplo muito claro de wabi-sabi aplicado ao quotidiano.
O que fica: aceitar a imperfeição como sinal de autenticidade.
Ma (間)
O espaço necessário
O Museu ao Ar Livre de Gora dispõe esculturas em diálogo com o espaço aberto, onde o vazio entre cada obra faz tanto parte da experiência quanto as obras artísticas exibidas. Para chegar a Gora, a viagem faz-se em camadas: o comboio da linha Hakone Tozan serpenteia pela montanha, invertendo várias vezes o sentido da sua marcha para conseguir vencer o desnível, num ritmo imposto pelo perfil orográfico. De Gora para Hakone, o percurso continua por etapas – primeiro de funicular, subindo lentamente pela encosta; depois de teleférico entre Sōunzan e Ōwakudani, de onde a vista abrange todo o espaço de montanha que as nuvens baixas deixam alcançar; e a seguir descendo pela vertente oposta, novamente de teleférico, com o olhar suspenso sobre vales profundos e florestas densas e prenhes de cor. O itinerário não encurta a distância; prolonga-a, criando tempo para observar.
Em Hakone, ma revela-se na relação entre movimento e pausa, entre paisagem e deslocação. No Lago Ashi, protegido pelas montanhas que o cercam, a água cria um espaço de imobilidade, de acolhimento silencioso, mas também de separação – entre o que está oculto abaixo da superfície e o que se descobre acima dela. O Torii da Paz, ancorado no lago, marca a transição simbólica entre o profano e o sagrado. Ao Kuzuryū-jinja (Santuário do Dragão com Nove Cabeças), recolhido na floresta, só chegamos depois de ascender muitos degraus. Em Hakone, ma é o tempo e espaço entre um lugar e outro, a terra de ninguém que permite a existência plena de algo depois dela. E que, ao mesmo tempo, transforma a deslocação em experiência.
O Outono reforça esta percepção: os espaços enchem-se de cor, mas mantêm-se abertos.
O que fica: reconhecer o valor do espaço – seja físico, mental ou emocional.
Wa (和)
A harmonia
Wa é um valor central da sociedade japonesa: harmonia entre pessoas, natureza, espaço e tempo.
Nas aldeias gasshō de Ainokura e Shirakawa-go, o conceito de wa manifesta-se na integração natural entre clima, paisagem e arquitectura comunitária. As casas gasshō-zukuri têm telhados íngremes, concebidos para suportarem a copiosa neve do inverno japonês; fazem lembrar mãos em oração, e é esse o motivo do seu nome (gasshō significa “oração”). São construídas em madeira e palha, e não levam pregos.
Em Shirakawa-go, a maior e mais conhecida destas aldeias alpinas, os telhados inclinados de palha formam um padrão uniforme e imponente, que contrasta com as encostas da montanha, pintadas com as cores de Outono. Descoberta pelo turismo, algumas das suas casas funcionam como loja ou museu, mas muitas ainda são habitadas pelos proprietários.
Em contraste, Ainokura, menor e mais intimista, preserva um estilo de vida rural único no Japão, um ritmo de vida mais silencioso e discreto, onde cada construção mantém proximidade com o terreno e com os vizinhos. Ambas as aldeias demonstram como wa se traduz em equilíbrio: os habitantes cuidam das casas uns dos outros, respeitam os ciclos naturais e adaptam os espaços às exigências do local e do clima.
Percorrer estas aldeias fez-me compreender que a harmonia japonesa não é apenas estética, mas prática, social e ambiental – um modo de existir em comunhão com tudo o que nos rodeia.
O que fica: procurar harmonia em vez de excesso.
Kokoro (心)
A unidade entre mente e coração
Em Tóquio, o conceito de kokoro manifesta-se nos espaços de tranquilidade que emergem no meio da cidade movimentada.
Nos jardins tradicionais, cada detalhe é pensado com vista a atingir o equilíbrio, e a mantê-lo. A atenção concentra-se no essencial. Pedras colocadas com propósito, areia cuidadosamente trabalhada, musgo que cresce sem interferência. Pouco acontece, e ainda assim tudo está presente.
Kokoro reúne coração, mente e espírito numa única ideia. Não separa a razão da emoção. Os jardins convidam à observação silenciosa, à errância reflexiva. Não pretendem impressionar; e, ainda assim, conseguem-no sobremaneira. Seja no Rikugien, ao percorrer os seus trilhos que contornam lagos com pequenas pontes, colinas artificiais e árvores centenárias, no Koishikawa Korakuen, onde a variedade de plantas e espelhos de água se vão revelando gradualmente, ou no Ninomaru, dentro do complexo do Castelo de Tóquio, observando as lindíssimas carpas koi com barbatanas longas, o Outono empresta ainda mais emoção às paisagens desenhadas destes jardins. É a época ideal para o kokoro – para integrar percepção e sentimento.
O que fica: alinhar pensamento, emoção e acção num mesmo ritmo.
Zanshin (残心)
A atenção que permanece após o gesto
Nos santuários e templos de Nikkō, o zanshin surge como a consciência que se mantém mesmo depois de atravessarmos um espaço ou completarmos um gesto. Os recintos budistas e xintoístas, dispersos pela floresta, convidam à observação e reflexão, à atenção que não se esgota no instante, mas se prolonga na memória. Não é possível absorver tudo de uma só vez. Há que registar e deixar assentar. Esta necessidade torna-se quase imperiosa no santuário de Tōshō-gū, onde a abundância decorativa raia o exagero e exige foco. Antes da entrada, o pagode Gojū-no-tō, com os seus cinco exuberantes níveis sobrepostos, evoca os elementos da natureza e uma ideia de estabilidade silenciosa. O portão Yōmei-mon, coberto por centenas de esculturas minuciosas, o uso de madeira ricamente lacada e de folha de ouro nos diversos edifícios e portões, e a profusão de elementos, compõem um conjunto visual denso, onde cada detalhe tem uma intenção simbólica. As figuras muito populares dos Três Macacos Sábios e do Gato Adormecido remetem para vigilância, autocontrolo e protecção – ideias que reforçam a necessidade de presença continuada.






Em contraste, o santuário interior (Okusha), onde repousa o túmulo de Tokugawa Ieyasu (fundador do shogunato de Tokugawa, que governou o Japão durante 250 anos, até 1868), é um espaço austero, silencioso, afastado da ornamentação exterior. Chegar lá exige esforço: é necessário subir uma escadaria de 207 robustos degraus de pedra, construída em vários níveis por entre os cedros que revestem a encosta. Um percurso exigente, que requer firmeza e reforça o sentido de transição e de intenção.
Em Nikkō, o zanshin não está ligado a um ponto específico, mas sim à forma como a atenção se mantém activa ao longo dos percursos, persistindo mesmo depois de termos partido, mantendo a conexão com o espaço e o momento. Uma espécie de presença prolongada.
O que fica: manter consciência para além do resultado imediato.
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Wabi-sabi, ma, wa, kokoro e zanshin são concepções que falam de equilíbrio, convivência e observação. Não são ideias abstractas, são práticas discretas que se revelam nos espaços, na interacção com as pessoas e na apreciação da cultura.
Na impossibilidade de explicar todo o Japão através de conceitos, eles são, ainda assim, pistas para compreender um pouco melhor a essência do espírito japonês.
Viajar pelo Japão no Outono é aceitar que a experiência não é constante nem previsível. As folhas mudam, caem, desaparecem. Algumas paisagens surgem no momento certo; outras não. Talvez seja isso que o momijigari ensina: não simplesmente a procurar o que quer que seja, mas a aceitar que tudo tem o seu tempo. E, nesse processo, aprender a olhar – com mais atenção, menos ruído e maior respeito pelos outros e por aquilo que nos rodeia.