A crónica perfeita


Pedro Correia,

Ando sempre à procura da crónica perfeita. Por vezes encontro-a: só acontece em ocasiões raras. Aí celebro, com júbilo de leitor veterano e exigente.

Ontem encontrei uma dessas preciosidades. Num histórico jornal espanhol, o ABC. Assinada pelo poeta e romancista Ángel Antonio Herrera, sob o título “Perderlo todo”.

Gostei tanto que faço questão de a reproduzir aqui, com a devida vénia, partilhando-a convosco. Tendo arriscado eu próprio traduzi-la nos parágrafos que vão seguir-se.

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Perder tudo é uma experiência extrema que imaginamos impossível até ao dia em que toca ao vizinho. Aconteceu, nestes dias sombrios. De repente há quem perca a casa onde nasceu, o relógio do pai, a cadeira de baloiço da mãe, o álbum onde ainda se vislumbrava um menino de calções no recreio com o coração cheio de esperança inocente — um menino cujo nome poderia ser o nosso.

Há objectos que só valem dez euros e outros que não têm preço, pois contêm uma vida inteira. O fogo é democrático na sua ferocidade: não faz distinções. Para as labaredas, uma tela de Velázquez e uma fotografia de Primeira Comunhão valem exactamente o mesmo.

Existe algo obsceno na contemplação de uma casa em chamas. Ardem uns móveis, mas sobretudo queima-se o próprio tempo. Isso não aparece nos telediários: há sempre uma história dentro da história que não contamos pois o que é destruído inclui segundas-feiras, aniversários, vésperas de Natal, reconciliações, sestas de Agosto, luas românticas e aquela marca de um lápis na porta onde um pai costumava medir o tamanho dos filhos.

A arquitectura invisível de uma família é consumida pelas chamas: nenhuma apólice de seguro pode remendar ou atenuar isto.

A dimensão de um incêndio não se mede por metros, mas em memórias. Em rigor, a vida vai-nos incinerando com lentidão. Primeiro perdemos os pais, depois a casa da infância, a seguir dois amigos que sabiam quem um dia fomos. Surge então um pirómano para completar o serviço. Tarde ou cedo damos por nós a viver entre ruínas invisíveis, com a inabalável obstinação de quem vai deixando flores numa janela, mesmo sabendo que nada é tão precário como uma janela.

Talvez viver consista nisto: aceitarmos que somos uma fogueira invertida. Vamos perdendo tudo aos poucos — juventude, pais, amigos, certezas, o corpo que tivemos. Apesar disso, mantemos o hábito de acender uma lâmpada em cada noite.

O fogo não destrói paisagens ou lares, mas biografias. Cada homem com um incêndio na sua existência é um exilado de si próprio.

Já sabemos que o negro é também a cor do Verão. Todos somos ricos até ao dia em que a chama da desventura trata de nos acertar as contas.

Matéria Escura


Maria Dulce Fernandes,

Em termos civilizacionais, existe o ser humano e o não ser humano.

Nos últimos tempos, o segundo tem-se exibido ao mundo com exponencial frequência.

Parafraseando uma conhecida “celebridade”, estar vivo é o contrário de estar morto. Supostamente é assim, mas estou em crer que a diferença se tem vindo a esbater,  desmesuradamente diluída em execráveis sistemas de governação. 

Três vezes cem: a festa da vida


Pedro Correia,

Três centenários em destaque nos últimos dias. Lúcidos, activos, com louvável vitalidade. Celebro a vida ao felicitá-los.

 

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Começo por uma senhora: Raquel Soeiro de Brito. Foi a primeira doutorada portuguesa em Geografia e a 12.ª mulher a concluir um doutoramento em Portugal. Aconteceu em 1955. Discípula do mestre Orlando Ribeiro, atravessou o país inteiro e percorreu todas as parcelas ultramarinas – de Cabo Verde a Timor, sem esquecer Goa, Damão e Diu. Distinguiu-se pelas obras pioneiras publicadas sobre todos estes territórios e as gentes que os habitavam. Em 1957, quando eclodiu a erupção dos Capelinhos, voou para os Açores numa avioneta e chegou a entrar na cratera do vulcão, documentando o que podia em fotografia e filme. 

Conheci-a na adolescência: era visita assídua da casa dos meus pais. Lembro-a com perfil nórdico: alta, loura, elegante. Revi-a há dias nas páginas do Público a propósito do centenário do seu nascimento, festejado a 12 de Dezembro.

Continua a viajar, mesmo já tendo estado em quase toda a parte. «Ver o mundo», confessa ela à jornalista Teresa Firmino, quando esta lhe pergunta o que mais aprecia na vida. E sublinha: «A pessoa envelhece quando deixa de gostar da vida. Isso é muito mau, porque uma pessoa pode ser velha aos 100 anos, como pode ser velha aos 20.»

Uma das melhores entrevistas que li em 2025.

 

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Prossigo com um notável pensador francês, grande filósofo cujo pensamento inspira os seus contemporâneos desde a II Guerra Mundial: Edgar Morin. A 21 de Junho completou 104 anos. Mas não lhe peçam para descansar: os assuntos do mundo continuam a interessá-lo, hoje como em 1973, ano em que publicou O Paradigma Perdido, obra muito influente na minha geração. 

A vida dele dava um filme. Judeu sefardita, participou na resistência ao invasor nazi, foi adido militar de França na Alemanha ocupada do pós-guerra. Rompeu com o Partido Comunista, em que chegou a militar, e distinguiu-se desde então no combate aos totalitarismos, demarcando-se da visão marxista da sociedade e mobilizando-se em múltiplas acções cívicas. Em 2021 publicou um livro de memórias, intitulado Leçons d’un Siècle de Vie. Muito apreciado por leitores de diversas idades.

Há poucas semanas voltei a ver o nome dele. Como signatário de uma petição exigindo a libertação do escritor Boualem Sansal, detido pela ditadura argelina: objectivo concretizado. Lição de cidadania para qualquer de nós.

 

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Finalizo com imensa alegria, saudando o centenário de um actor que protagonizou o primeiro filme que vi: Dick Van Dyke, o inesquecível limpa-chaminés de Mary Poppins. Produzida por Walt Disney, esta película data de 1964: ele canta e dança com vibração contagiante, sozinho ou na companhia de Julie Andrews, que também se mantém por cá. Apagou cem velas do bolo de aniversário no dia 13 – faz hoje uma semana.

Acaba de publicar um livro sobre a receita para atingir tão provecta idade, intitulado 100 Rules for Living to 100: an Optimistic Guide to a Happy Life. Eis uma das regras: manter intacto o espírito juvenil. «Às vezes sinto que tenho novamente 15 anos», confessa. Pratica ioga, faz flexões diárias. Ri-se o mais possível – por vezes de si próprio. E conserva o hábito, iniciado há um quarto de século, de cantar com um grupo de amigos.

Está em excelente forma, ao que rezam as crónicas. «Um século não basta», gracejou. Também ele poderia dizer, fazendo coro com Raquel Soeiro de Brito, que a pessoa só envelhece quando deixa de gostar da vida.

Brindo a isso, com votos de muita saúde ao homem que me fez desejar ser limpa-chaminés quando fosse grande. E que ainda hoje me leva a cantarolar com frequência aquele estribilho que ouvi pela primeira vez aos seis anos, no balcão do saudoso cinema Monumental: «Chim chiminey, chim chiminey, chim chim cher-ee! / A sweep is as lucky as lucky can be.»

Sete meses a Balões


Maria Dulce Fernandes,

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Este Verão, foi o Verão do nosso descontentamento. Difícil, dorido, aflitivo, mas energizado na medida do possível, tentando que a diversidade escondesse a adversidade, porque cair ou deixar cair nunca foi opção.

A partir do final de Julho, a rotina criada em Maio teve de ser repensada e recriada para suprir a falta das actividades das escolas e centros de ATL.

As crianças estavam de férias!

Com tanto o que fazer, foi imperativo fazer tempo para eles.

Pedir o passe da Carris Metropolitana para os miúdos foi uma ideia de truz. Os meus netos, à semelhança de milhares de outras crianças, nunca tinham viajado nos transportes públicos! Coordenando horários com os dias programados no calendário dos pais, começámos por andar de autocarro, seguiu-se o metropolitano, o eléctrico, o comboio e o barco. E repetimos linhas diferentes em dias diferentes. Caminhámos por grande parte de Lisboa. Visitámos o Quake, a exposição de Lego na Cordoaria Nacional, a exposição 3D, o Planetário, o Museu de Marinha, o Pavilhão do Conhecimento onde a exposição da Pixar sobre técnicas de animação fez as delícias da minha neta, fomos a Algés ao Aquário Vasco da Gama e, entre outras passeatas, descemos o Parque Eduardo VII até ao Marquês de Pombal, o que deixou o meu neto Superleão tão feliz, que nem tenho palavras; veio aquele petiz de seis anos, durante todo o caminho de regresso, a cantar que o seu amor é verde e branco…

Como estou um tanto dada a títulos, pensei muitas vezes que seria fabuloso adormecer, e acordar quando Setembro chegasse ao fim. Setembro foi também complicado, sem dias nem horas certas e também sem quaisquer certezas.

Finalmente entrou Outubro e trouxe consigo alguma normalidade. As escolas estavam a funcionar com professores e também greves à vista, a actividade hídrica sénior recomeçou a operar nas piscinas do costume e as respostas vieram finalmente, e eram boas as respostas. Eram muito boas. Podíamos todos finalmente respirar fundo. Podíamos encetar com confiança a nova normalidade que, sendo diferente, trataríamos de a tornar mas o mais igual possível.

Aprendi muito, nestes sete meses. Fiz muita pesquisa, muitos cozinhados com produtos essenciais à imunologia, usei tudo o que tinha vitaminas, proteínas e calorias qb, deixei de lado o açúcar branco refinado, usei e abusei das especiarias que reforçam o sistema imunitário…

Iscas à portuguesa às quintas-feiras… nem me incomodou se não gostavam, passaram a gostar…

O meu marido e eu fomos avós, pais, enfermeiros, cozinheiros, cuidadores, pau para toda a obra… pela parte que me toca, fui principalmente palhaço, agarrando com unhas e dentes essa arte tão nobre que faz arrancar risos e sorrisos quando por dentro a tristeza ameaça inundar os olhos a qualquer momento.

Sinto-me bastante gasta mas muito grata, e ainda há muita estrada para andar. Como tal, já fizemos alguns planos para um divertido jantar de Halloween e uns outros para muitas mais viagens em transportes públicos nas férias do Natal, que estão quase aí à porta, neste ano da nossa Fórmula1, em que era prioridade atravessar a meta com boa classificação e manter sempre a pole position.

Ver a saúde de regresso e a trazer com ela cor e força e contemplar as crianças felizes e interessadas é seguramente a minha poção mágica. 

Assim possa ser.

Pintores sem prazo de validade


Pedro Correia,

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Os Mosaicos de Cluny, serigrafia de Manuel Cargaleiro (1992) 

 

«Leva muito tempo tornarmo-nos jovens.»

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Judith Lauand (que morreu aos 100 anos), Cruzeiro Seixas (99 anos), Georgia O’Keeffe (98 anos), Albert Bertelsen (98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Leon Kossoff (92 anos), Júlio Pomar (92 anos), Ticiano (91 anos), Kees van Dongen (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Fernando Botero (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Querubim Lapa (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Robert Indiana (89 anos), Nikias Skapinakis (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Tarsila do Amaral (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Júlio Reis Pereira (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).

Ou, entre os vivos, João Abel Manta (96 anos), Arnulf Rainer (94 anos), Jasper Johns (94 anos) e Frank Auerbach (93 anos).

 

Lembrei-me disto ao saber que Manuel Cargaleiro morreu a 30 de Junho, em total serenidade, «como se tivesse adormecido» para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

Sempre igual, sempre por achar


Pedro Correia,

Ouço repetir que não se deve regressar a um sítio onde se foi feliz. Nada mais errado. Pelo contrário, devemos voltar aos locais onde vivemos instantes de felicidade. Necessitamos como de pão para a boca deste ritual – as mesmas caras, as mesmas vozes, os mesmos odores, as mesmas paisagens. Um banho lustral que nos devolve à essência da vida, feita de contínuos recomeços.

Devemos voltar sempre, reeditando o exemplo de Ulisses no ansiado regresso a Ítaca: sempre igual, sempre por achar.

Lição de vida


Pedro Correia,

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No Monólogo do Vaqueiro, primeira peça exibida na RTP (1957)

 

«A morte é certa, não vale a pena estar a pensar nela. Vivam a vida, vivam, vivam, vivam, vivam e saibam o que fazer com a liberdade. A liberdade é uma coisa muito bonita — e a democracia também.»

Ruy de Carvalho, anteontem, no dia em que festejou 97 anos. Em palco, como ele mais gosta. Parabéns!

Trocar o real pelo digital


Pedro Correia,

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A relação cada vez mais desumanizada das pessoas com o espaço onde moram, sobretudo nas grandes cidades, acentua-se à medida que nelas proliferam os estafetas para todo-o-serviço. Gente que vem de fora, muitas vezes oriunda das periferias mais precárias de Bombaim, Calcutá, Daca, Catmandu ou Carachi, assegura a relação entre o comércio e os domicílios burgueses que por cá vão restando. A pandemia afugentou muitos de nós das ruas – alguns, mais velhos ou mais propensos à solidão, encerram-se quase como reclusos nos domicílios. Enquanto o pequeno comércio de bairro, tantas vezes pedra angular das relações de proximidade, encerra a um ritmo galopante neste país em que todos os dias há 14 restaurantes a fechar de vez

Dominam as “grandes plataformas” impessoais, sem rosto nem nome, manobradas do estrangeiro. Instauram um mandamento dos novos tempos: tudo deve processar-se por via digital. O que era outrora cenário distópico torna-se realidade. E muitos de nós somos coniventes, talvez convictos de que embarcamos na última carruagem de um admirável mundo novo. O mundo em que um paquistanês sem identidade, igual a qualquer outro, acaba por ser um dos nossos raros pontos de contacto com a rua.

 

Não vejo “progresso” algum nisto: só vislumbro retrocesso. Proletarização da sociedade, precarização dos laços humanos, troca do real que agrega pelo digital que segrega.

Daí aplaudir quem rema contra a corrente. Pessoas como o Henrique Raposo, que escreve estas admiráveis linhas na mais recente edição do Expresso:

«O declínio do comércio local não é apenas um problema do Excel da economia e do Estado, é um problema social no sentido mais profundo da palavra “social”: o que está em causa é a própria ideia de sociedade que é feita no dia-a-dia na rua. Se compram tudo online, as pessoas estão a matar-se enquanto “vizinhos” da rua, estão a definir-se apenas como “consumidores” do mercado e como “contribuintes” do Estado. Eu não vivo nem do mercado nem no Estado, dois meros instrumentos; eu vivo na minha rua. Quando valorizam apenas o comércio online ou as grandes superfícies comerciais, essas naves espaciais que sugam a energia das cidades, a cultura e a política do nosso tempo estão mesmo a matar o velho conceito de bairro. E sem o bairro tocquevilliano não há democracia nem na América nem na Europa. Ou seja, a desmaterialização do comércio também é a desmaterialização da democracia. Ruas sem lojas e cafés de pequenos proprietários são ruas inseguras, para começar, e tristes, para acabar. Ou não se pode falar com os vizinhos porque há medo ou porque há uma enorme aridez e solidão.»

Assino por baixo.

Seis amigos bastam


Pedro Correia,

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Faz hoje oito dias, jantei com dois amigos. Um deles, não o via há anos. Enquanto partilhávamos petiscos nepaleses e um bom tinto do Douro desfiando risonhas reminiscências do século passado, aquele que agora reencontrei ia narrando episódios rocambolescos da sua vida fragmentada em quatro continentes. Cada qual daria um filme, cada qual rematado por uma frase sábia. Anoto aqui uma delas: «Cada homem só precisa de ter seis amigos a sério na vida, é quanto basta para saber que haverá quem lhe transporte o caixão.»

Metáfora, claro. Mas que toca num ponto essencial. Contrariando o que se proclama agora por aí, em patéticos concursos de popularidade nas redes, medição de pilinhas a pretexto de contabilizar amizades que logo se “desamigam” como quem troca de camisa. Tudo espuma ilusória, falso brilho de pechisbeque social.

Não precisamos de muitos amigos. Ninguém tem mil amigos. Nem cem. Muitos indivíduos nem dez amigos genuínos vão reunindo na vida. Enquanto há cada vez mais gente rodeada de “amizades” virtuais que servem apenas para a partilha de frases ocas. Inúteis para aliviar o peso opressivo da solidão, cancro do mundo contemporâneo.

Seis amigos bastam. Dos verdadeiros, dos que não falham, dos que marcam presença no momento próprio – com uma palavra, um gesto, um conselho, uma memória partilhada. Se os tivermos, é sinal de que a vida já valeu a pena.

A vida real, não a existência postiça que nasce e morre num teclado.

Como se quiséssemos o sol só para nós


Pedro Correia,

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Queremos mudar o mundo, queremos mudar o sistema, queremos mudar a sociedade. Tudo seria mais fácil se começássemos por mudar a nossa relação com os outros. Se adquiríssemos o talento de unir o que vemos fragmentado, de congregar o que está disperso. Se soubéssemos ir ao encontro de quem nos rodeia.

Às vezes basta um gesto apaziguador, uma palavra amável, um sorriso que se rasga na face sempre sisuda. «Na superfície das coisas vê-se a essência das coisas», escreveu Saul Bellow em Ravelstein.

A sociedade, o sistema, o mundo não mudam se não começarmos por mudar também algo de essencial na nossa relação com os outros. Nos actos mais singelos do quotidiano.

Escrevo estas linhas enquanto o sol vem espreitar-me da janela: é quanto basta para sentir-me grato por este dia. Penso nos que sofrem sob o mesmo sol que me aquece e me inspira e me ilumina. E questiono-me o que poderei fazer para atenuar a angústia ou aliviar a dor de alguém. Não da Humanidade em abstracto, como me sugerem os demagogos de plantão, mas de uma pessoa em concreto.

Uma palavra, um sorriso, um gesto, um abraço, um olhar. Às vezes só isto é necessário. E somos incapazes de dar esse passo. Como se quiséssemos o sol todo só para nós.

Realidade virtualizada.


Maria Dulce Fernandes,

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Segundo reza a ciência,  a realidade virtual permite ver o cérebro de ratinhos a tomar decisões.

 

 I wonder…

 

Será que também funciona com bichos preguiça, ornitorrincos, avestruzes, em suma, com outros animais que não ratos? Funcionará com o animal humano ?

 

Numa altura em que tudo e todos servem para uma peça documental em qualquer TV, rádio,  jornal ou revista, em que qualquer anónimo bicho careto é assunto de entrevista ou especulação, sempre em grandes parangonas, exploradas ad nauseam, com base nas quais se fazem reportagens enredadas e rebuscadas, seria no mínimo curioso e esclarecedor ver como funciona o cérebro,  quando quem decide toma decisões.

 

Será que o hemisfério esquerdo se ilumina com as acções da direita?

 

Temos a percepção que o Lobo Temporal e o Lobo  Occipital, que coordenam a audição e a visão, devem estar com  algumas limitações. Durante bastante tempo quem decide tem estado cego e surdo às consequências das suas decisões. Talvez a terapia de choque de movimentos de massas populares possa  ajudadar e haja alguma recuperação? Aguardemos.

 

Constatamos que o Lobo Frontal, que regula a locomoção também não está em pleno funcionamento, porque quem decide, ou não se move per se, ou move-se pouco e de forma entediante e circunspecta; o mesmo pode dizer-se do Lobo Parietal e do seu papel somato-sensorial: quem não tem sentimentos nem se sente (nem sequer sei se é ou não  filho de boa gente…), pouco ou nenhum uso lhe poderá dar.

 

Se a área de Wernicke está operacional dentro do razoável e quem decide até entende o que se lhe diz, o mesmo não acontece com a área de Broca (o que, por associação de ideias com o jargão, me leva a crer que andam um bocado under  the influence), porque a produção do discurso falado é no mínimo babélica e enfadonha.

 

Uma coisa é garantida: O Lobo Pré-frontal está seriamente danificado. Senão vejamos:

 

“O lobo pré-frontal tem como funções decidir que sequências de movimento activar e em que ordem, e avaliar o seu resultado. As suas funções parecem ainda incluir o pensamento abstracto e criativo, a fluência do pensamento e da linguagem, respostas afectivas e capacidade para ligações emocionais, julgamento social, vontade e determinação para acção e atenção selectiva” in Funcionamento global do cérebro 

E está tudo dito.

 

Em dia de conhecer novas decisões, se vivêssemos numa realidade virtual e pudéssemos ver o cérebro de quem decide a tomar decisões, veríamos seguramente grande luminosidade nos lobos temporais: 

 

“Os lobos temporais são ainda determinantes para a aprendizagem e para a memória. De resto, as sensações de estarmos a passar por algo que já vivemos – o chamado déjà-vu – podem ser provocadas através de estímulos eléctricos aplicados aos lobos temporaisin Funcionamento global do cérebro.

 

Não acredito que  aqui a realidade se afigure virtual. 

Penso que seja o que for que iluminou o cérebro de quem decidiu, vai ser real e doloroso e vai criar mais descontentamento e instabilidade.

 

 

Até que ponto, não sei, temos mais uma vez de ir esperando para ver, porque o povo é sereno, mas está a ficar impaciente porque na vida todos os segundos contam e isto é um país real e não um anúncio da NOS.

 

 

(Imagem Google)

Escadas


Maria Dulce Fernandes,

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O meu pai costumava dizer que a vida era como uma escadaria que tínhamos de subir, degrau a degrau. Quantos revezes não nos fizeram descer um lance por cada degrau que subimos… A verdadeira sabedoria, aquela que só se adquire com o tempo e alguns trambolhões, ensina-nos duas coisas importantíssimas: para cair, basta estar de pé e cabe a cada um de nós o saber reerguer-se. Já subi e desci incontáveis escadarias, escadas e degraus. As primeiras de que tenho recordação são as da casa da minha Avó em Belém, escuras, de madeira e que rangiam debaixo dos pés de quem me transportava ao colo na subida. Depois havia as escadas que levavam ao sótão, onde a luz do sol que entrava por entre as telhas brincava alegremente nos degraus, tornando aquele lugar um reino encantado cheio de brilhos e cor. A “casa velha” da minha mãe tinha uma escadinha de pedra que desembocava num quintal ridiculamente pequeno, mas sempre florido, onde existia um tanque de pedra. Aí já subia pelo meu pé, amparada pela mão de alguém. A “casa nova” da mãe, na mesma rua, novinha a estrear, era um 3.º andar com a vista para o Tejo mais bonita que eu já vi em toda Belém. Nessas escadas, de ascensão desgastante, na subida já estava entregue a mim própria.

Os meus castelos tinham obviamente escadas, mas felizmente não tive o prazer de travar grande conhecimento com elas, tampouco fazer amizade porque ao melhor estilo “beam me up, Scotty”, subimos sem mexer os pés, naquela maravilhosa invenção da tecnologia chamada elevador, versão urbana/familiar e melhorada do fantástico Elevador de Santa Justa, obra de Mesnier de Ponsard, que nos ascende para uma vista espectacular da Baixa de Lisboa. Outras escadas houve que marcaram a minha vida, como a maravilha de “Stairway to Heaven”, dos Led Zeppelin (paixoneta habitual pelo Robert Plant), que ouvia, e ouvia, e ouvia… gratas as despreocupações de uma adolescência feliz, ou todas as escadas que povoam o expectante e inquietante imaginário dos filmes de Hitchcock. As Escadas da Bica, as Escadinhas de Alfama, o Bom Jesus, a Penha, Montmartre, a escada em caracol com quase duzentos degraus do Arco do Triunfo, e a outra espiral no Vaticano, os quase quatrocentos degraus de Notre Dame, a Piazza di Spagna…. Foi sempre a subir, degrau a degrau, e tantas vezes à beira de desistir a meio.

Subo a escada no trabalho todos os dias, tanto em termos de hierarquia, como para chegar ao andar de cima (como na anedota da galinha) – o que eu costumo dizer que vale por uma ida diária ao ginásio, por tantas serem as vezes que me obrigo degraus arriba. Subo o pequeno escadote que tenho na cozinha, para poder alcançar os apetrechos que não utilizo todos os dias, tabuleiros, formas para bolos e pudins.

Espero que, quando chegar a minha vez de enfrentar a última grande escadaria, me seja concedido o direito de a poder subir, e eu, que nessa altura não devo estar mesmo com pressa nenhuma, vou pé ante pé, devagarinho, degrau a degrau.

Festa da vida


Maria Dulce Fernandes,

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Não me chamem Ishmael, tampouco obcecado ou pessimista. 
Porque sempre que me ausento por breve ou prolongado período de tempo, trato de providenciar para que o meu parco património fique seguro de abutres fiscais e outros predadores que tais, em caso de acontecer um não retorno.

Porque trato de explicar os meus desejos finais, a minha última vontade sobre aquilo a que me votou o ânimo desertor. Sou eu quem determina. Sou eu quem quer assim. 
Será muito pedir respeito?
Isto não é maluquice, paranóia ou pessimismo, mas sim puro pragmatismo.
E afinal, quem manda em mim ainda sou eu, mesmo depois de deixar de o ser.

Não quero vigílias claustrofóbicas em espaços deprimentes com aquele aroma anojoso a círios e flores sem alma; não quero flores. Que desperdício de beleza sacrificar uma rosa a quem já se finou.

Não quero choros. Carpir aleivosias tornou-me intolerante a mágoas lacónicas de circunstância. O pesar, que seguramente o terá quem muito me quis, não o lavará ali com lágrimas ou escorraçará com gritos, porque é marcado na alma a ferro e fogo. Pode o tempo esbatê-lo sim, mas a memória nunca o apagará.

 

Não quero cetins ou pérolas numa caixa fechada. Não quero um buraco negro, num triste canteiro com um número sem significado, nem uma pedra de epitáfio com palavras abrigadas num acordo que não acordei, dizeres que eu não disse e que de mim só dizem aquilo que se convencionou dizer.

 

Não quero ser grande na memória dos homens; não quero ter uma estrela na terra e tornar ao pó numa colina de torrões tristes e desesperados, sem mérito nem obra.

 

 

Deixem-me voar nas asas da fénix que me levou a alma e que me espalhará junto ao braço de água que me viu nascer, o mesmo de onde partiram as naus da cruz de Cristo.

 

Cumpri.

Nasci, cresci, flori, frutifiquei. Os meus frutos deram frutos lindos e eu fui feliz. Sou feliz.

Vivi intensamente. Vivo ainda.
Jubilei com as alegrias, solucei as tristezas, sorri sempre e continuo a sorrir, grata que estou, porque estou e porque sou.

 

Não quero angústias, nem amarguras. Quero alegria, quero festa. Quero que a memória que deixo, a indelével pegada da minha breve passagem, seja a festa da vida que eu vivi. 

Três-Cinco-Cinco-Zulu-Tango-Foxtrot


Maria Dulce Fernandes,

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Três-Cinco-Cinco-Zulu-Tango-Foxtrot, repito, Três-Cinco-Cinco-Zulu-Tango-Foxtrot, … zzzzzzt zzzzzt… nada, só estática, white noise, nada se propaga pelo éter nas frequências que tentei. E ainda tentei algumas com as quais me lembro  ter conseguido excelentes DX nos meus tempos áureos da Banda do Cidadão.

 

Nunca ninguém deu muito crédito às previsões apocalípticas que se vêm tornando cada vez mais frequentes à medida que o tempo passa, mas acredito que a NASA, a ESA e os chineses sabiam que a tempestade solar geomagnética iria dar cabo dos satélites, anulando todo e qualquer tipo de comunicação sem fios e atirando-nos de novo para a pré-história da globalização. Era previsível que acontecesse mais tarde ou mais cedo e os altos dignitários da informação espacial optaram por não informar do “bloqueio temporário” para não criar o caos e levar ao pânico das massas e a tragédias de proporções inimagináveis.

 

Já passaram sete meses e não acredito como não enlouqueci.

 

Felizmente há luz eléctrica à noite, mas tive de comprar um pequeno fogão a gás para cozinhar uma refeição quente diária. Só uma por dia, porque o gás está a ser racionado e eu quero que dure enquanto durar o “bloqueio temporário”. Olho com tristeza para o meu tablet, companheiro de tantas horas de chats em todas as redes sociais onde estava registada… eram tantas, tantos amigos, tantos LOLs, tantos likes, tantas apps que ligavam os gadgets entre si para me manter sempre actualizada, sempre online.

Carrego-os todos à noite quando chega a luz e a primeira coisa que faço quando chego a casa é verificar se já funcionam para que eu também possa voltar a funcionar.

 

Escrevinho e guardo os meus escritos sempre na esperança que possa fazer um post ou dois no dia seguinte, ou ligar-me à rede por breves minutos, até segundos… preciso, preciso tanto de falar pelos dedos,  só eu e o meu teclado virtual e toda a world wide web onde passei metade da minha vida de adulta.

 

Pego num livro todas as noites e leio meia dúzia de páginas… ajuda à privação mas não é o bastante. Diz que o tempo também remedeia, mas não me parece para aí virado. Passa lenta e penosamente. As horas transformam-se em dias, os dias em meses e continuo à espera que acabe a provação, porque quero sentir-me viva de novo, preciso respirar a normalidade da vida que interrompi abruptamente há sete meses.

 

Sinto-me regredir, embruteci. Estou mais magra mas com algum tónus musculada e agradável de tanto subir e descer escadas com um elevador parado no rés do chão. Todos os dias trago a fruta, os legumes e a proteína que consegui arranjar na fila para a comida fresca e dou graças pela minha psicose – assim diziam – de ter uma dispensa farta. Faço dois ou três pães à noite para não estar mais outra hora na fila; leite, guardo-o em pó. Olho tristemente os meus pacotes de café em grão; são uma relíquia e tenho quatro. Tinha seis, quando começou o “bloqueio temporário”. Noite sim, noite não tomo um, acabado de moer, escuro, aromático, sem açúcar. Sabe-me pela vida… 

 

Não consigo impedir as lágrimas de correr. Ainda ninguém recuperou do choque, mas a vida continua e temos de nos habituar. Temo que a situação seja para durar e que dias mais difíceis virão. O desalento deu lugar àquela força instintiva que nos impele à sobrevivência. As notícias que nos chegam com a luz à noite, são sempre animadoras… como quase sempre o foram nos últimos 15 anos, mas pelo menos ainda estamos vivos e o céu que nos cobre é a fantasia de qualquer poeta e sonho de qualquer pintor.

 

Três-Cinco-Cinco-Zulu- Tango- Foxtrot, repito, Três-Cinco-Cinco-Zulu- Tango- Foxtrot, … zzzzzzt zzzzzt…

 

(Imagem Google)

… Difícil é saber viver


Maria Dulce Fernandes,

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Convido-vos a celebrar a vida, a dádiva da vida e de estar vivo, a centelha que tocou uma nano partícula de matéria, ínfima massa gasosa e criou esta base de oxigénio e carbono que somos nós, os respirantes.

 

Convido-vos a viver a vida em pleno, apesar das suas tristezas, das suas agruras, preconceitos e diferenças. A vida deve ser vivida intensamente, de cabeça erguida e sem medo, porque o medo não é apanágio dos fracos. Quem não tem medo é mofino ou pobre de espírito. É preciso saber o que é o medo, reconhecê-lho, afrontá-lo e vencê-lo. Quem diz que não tem medo de nada, não tem a noção do que diz, fala só por falar, porque não se conhece quem não tema o big grey yonder, as duas moedas que todos temos de pagar.

E se a vida não tem preço, não há nada mais precioso do que tentar vivê-la bem. Diz o povo que “não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe” e quantas vezes depende só de ti e da intensidade do fogo que arde na fogueira dos teus humores escrever definitivamente as três letras que terminam contendas e sofrimentos.

 

Convido-vos a aceitar a vida sem contudo nos vergarmos a ela e ao seu peso. A vida é selvagem, terá de ser enfrentada, ensinada, domada, domesticada. Tu e a tua vida têm uma relação simbiótica de dependência e entendimento.

Agarra-te a ela, monta-a em pelo, segura-a pelas crinas, deixa-a escoicear e pular e tentar arrancar-te dela. Sê forte e paciente, porque chegará uma altura em que a vida entenderá que é tua e que sem ti é só um enorme vazio.

O Superpoder


Maria Dulce Fernandes,

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Será ingenuidade acreditar em magia? Como seria acordar numa manhã cinzenta e fria, igual a tantas outras e descobrir que se tem superpoderes? Olhar a minha mão, a mesma que me acompanhou a vida inteira, e descobrir que com um simples  mover do pulso  conseguiria  corrupiar objectos, fazer música no ar com o sopro que atravessa a fresta da janela, que, semicerrada me sorriria, como se nos víssemos pela primeira vez em vinte anos?

Como seria sentir aquela excitação pueril e travessa de rodopiar pela sala sem tocar no chão, com uma leveza tão imprópria do peso que me sustenta e sentar-me num sofá que voaria veloz e travaria  bruscamente como se me quisesse dizer que o acordar seria sublime?

Mas eu estaria tão desperta, tão ágil como nunca estivera até então. Os sentidos enredar-se-iam em teias de sons, aromas e toques de veludo gasoso e sensual. Ouviria o som azul, aspiraria a cor verde, tocaria em carmesim e docemente nas partículas vácuas do espaço vazio tão cheio de mim.

Faria o caminho que há décadas ensinei aos meus pés num suave deslizar de relva sinfónica, líquida e imparável, passando por tantas caras estranhas que me olhavam mas não me viam .

Olhem para mim, que faço esta sublime magia! Vejam! Diria. Mas do vazio apenas teria mais vazio como retorno.

No fundo saberia. Teria que saber. Viver é um superpoder. Não há outra magia, magia maior do que viver e deixar viver.

Como seria segurar a vida nas mãos e ensiná-la a viver? 

Como seria acordar numa manhã cinzenta e fria, igual a tantas outras e descobrir que se morreu sem sequer se ter vivido?

Um dia mortos


Pedro Correia,

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Um dia mortos, gastos voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do Mar (1947)

Ponteiros trocados


Pedro Correia,

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Mudou a hora. Passamos a reger-nos pela chamada “hora de Inverno”. Mas Inverno porquê se ainda estamos em pleno Outono? E mudar a hora porquê se agora começa a anoitecer às 17.30, o que contribui para acentuar um clima depressivo que a própria época do ano já propicia?

Segundo os especialistas que estiveram na origem desta directiva da Comissão Europeia – que Portugal vem seguindo após um período de incerteza – a medida permite às famílias poupar cerca de 5% em energia eléctrica, havendo um benefício para as empresas em cerca de 3%. São as habituais contas dos teóricos que se regem apenas pelos princípios gerais da contabilidade sem saber aplicá-la a situações concretas: o que eventualmente se poupa em consumo energético logo se gasta em consumo de ansiolíticos e antidepressivos, consultas psiquiátricas e absentismo laboral.

Um estudo realizado em Espanha – país que alinha o seu “horário de Inverno” pelo da Alemanha, como se não houvesse quase dois mil quilómetros de distância entre Madrid e Berlim – permite concluir que 56% dos trabalhadores sofre «algum transtorno» com este atraso dos ponteiros do relógio. Uns queixam-se de insónias, outros de falta de concentração. Uma clara maioria acusa sintomas de acrescido cansaço, com bruscas alterações de humor.

Há aqui um problema de fundo: a progressiva falta de correspondência entre o período de trabalho regular e a hora solar. Cada vez se trabalha mais tempo em horário nocturno real. Entretanto, nada mais absurdo do que esta permanente obsessão dos burocratas europeus em gerir ínfimas parcelas do nosso quotidiano com directizes traçadas a régua e esquadro no sossego dos seus gabinetes alcatifados, indiferentes ao pulsar da rua. O mesmo é dizer: indiferentes ao pulsar da vida.

O futuro já não é o que era


Pedro Correia,

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O futuro já não é o que era. Houve tempos em que vender ilusões sobre o dia de amanhã era receita garantida de sucesso e a futurologia quase chegou a atingir o patamar reservado às mais respeitáveis ciências. Houve tempos em que se acreditava que o futuro só podia ser melhor. E não é preciso recuar muito no calendário. Em 1970, Alvin Toffler – ex-editor da revista Fortune – alcançou fama planetária com um best seller intitulado O Choque do Futuro em que antevia dias radiosos, marcados por uma intensa mobilidade social e laboral, produção de bens em larga escala e muitas horas de lazer, centradas nas delícias da sociedade de consumo.

Esses dias parecem-nos hoje estranhamente remotos e estas profecias optimistas parecem-nos hoje totalmente deslocadas. A fé inabalável no progresso humano que caracterizou as décadas imediatas do pós-guerra justificaram milhares de textos recheados de optimismo que agora só nos parecem péssima literatura.

 

Em 1950, havia a crença generalizada de que por volta do ano 2000 os robots substituiriam o homem na maior parte das tarefas mecanizadas. Em 1960, o físico norte-americano Gerald Feinberg, da Universidade de Columbia, previu que na passagem do milénio nasceria o primeiro bebé num planeta artificial.

A crença cega em ilimitados recursos financeiros ao serviço da inovação tecnológica levou várias mentes brilhantes a acertar totalmente ao lado. Na década de 60, Wernher von Braun, um dos pioneiros do espaço, admitiu que por volta de 1984 se fundaria a primeira colónia na Lua, provavelmente por iniciativa da União Soviética, e o biólogo marinho Alister Hardy, professor em Oxford, antevia na mesma época que antes do final do século haveria tractores a lavrar o fundo dos oceanos.

“Ninguém conhece a história da próxima aurora”, ensina um milenar provérbio africano. Mas o optimismo histórico da civilização ocidental levou-nos a acreditar durante demasiado tempo que era possível antever os alicerces do futuro, com a certeza antecipada de que ele seria risonho.

World Future Society [Sociedade Mundial do Futuro] chegou a congregar 60 mil membros. Em 1973 teve como orador convidado o vice-presidente Gerald Ford. Treze anos depois, uma delegação era recebida na Casa Branca pelo presidente Ronald Reagan, que lhe emprestou dignidade institucional.
Era o tempo em que o futuro estava na moda. Figuras respeitáveis anteviam um novo século com veículos “inteligentes” de transporte sem necessidade de condução, a proliferação de hotéis nas profundezas submarinas e migrações em massa de terráqueos para satélites artificiais da Terra.

 

Esse tempo terminou.

A World Future Society está hoje reduzida a 25 mil membros. Quase ninguém quer saber o que nos reservará o futuro. Pelo simples motivo de que só pode ser mau. A crença mudou de campo.