Ceci n’est pas un post (20)


Ana Vidal,

 

Mais alto

 

Construímos o nosso castelo sobre a mais alta escarpa do sonho, no cume da utopia. Pedra a pedra o moldámos, exigentes. Era a perfeição que nos guiava os gestos, escancarando aos nossos olhos incrédulos a sua eterna insatisfação.  Era a perfeição ou nada. Quisemos que a nossa morada fosse única, inimitável, irrepetível. Ninguém teria um castelo igual ao nosso, mágico baluarte de um segredo que só nós conhecíamos. Nenhum mortal tocaria as estrelas como nós, nenhum ser vivo saberia jamais como deixá-las escorregar por entre os dedos dos deuses que éramos. Inebriava-nos o ar puro que só nós respirávamos, a voz do vento que cantava só para nós. Gravámos uma divisa sobre a porta: Mais Alto. E subimos sempre mais alto, mais alto, mais alto. Tão alto, que a queda nos foi fatal.

 

(Imagem: René Magritte – O Castelo nos Pirinéus)

19 comentários em “Ceci n’est pas un post (20)”

    1. Neste caso foi o quadro que inspirou a escrita, Custódia. Tem razão, raramente aprendemos com a queda. E ainda bem, digo eu, ou nunca mais nos atreveríamos a subir mais do que um mísero degrau…

  1. Lindo, nalgum quadro. Foi de facto assim. E até houve queda. Mas eu cá, Ana, não desisto. Mesmo dito por si, desta vez não assino por baixo. Mas, sim, continue a lembrar-nos tudo isso. Ajuda a ver a costa e a manter o rumo. Um beijo

    1. Eu também não desisto, Fernando. Tenho é de aproveitar os momentos em que vejo a costa para escrever estas coisas…
      Outro para ti (Delito law, remember?)

  2. O Castelo nos Pirinéus (Le Château des Pyrénées) é, segundo recentes teorias da Psicologia, uma metáfora escópica do “Rochedo da Castração” freudiano.

    Muito sinceramente, acho que a sua interpretação é muitíssimo melhor. 🙂

    Nota: Na minha modesta opinião, Magritte foi fortemente influenciado nesta pintura pela imagem (e, quiçá também pelo significado?) do Château de Quéribus, nos Pirinéus, o último reduto dos Cátaros. Mas, quem pode saber o que vai na alma e na mente de um artista quando cria? Às vezes, nem o próprio artista…

  3. Cerca das 13:00 horas de hoje deixei aqui um comentário. (Que, por acaso, até era simpático, mas isso nem sequer deveria ser importante.)
    São quase 18:00 horas e, por curiosidade, vim espreitar se havia merecido alguma resposta. O que vi foi um comentário feito por alguém às 17:00 já publicado e do meu, das 13:0 horas, nem sinal.
    Acho mal, pois acho! Até porque as pessoas de nome Ana costumam ser muito correctas. Será esta Ana a excepção que confirma a regra?

    1. Respondo aqui aos seus dois comentários, Zé de Portugal.

      Ao primeiro, agradecendo-lhe o elogio e dizendo-lhe que confio bem mais na inspiração de momento de um artista do que em todas as teorias da psicanálise, por mais fascinantes que sejam. Mesmo tratando-se de Freud. E também que desconhecia essa associação do quadro ao Château de Quéribus, mas não me espanta: os cátaros sempre foram uma inesgotável fonte de inspiração.

      Ao segundo, dizendo-lhe apenas que, se me conhecesse um bocadinho melhor, saberia que publico sempre todos os comentários. Mesmo os pouco simpáticos, o que até nem era o caso do seu. Acontece que trabalho, sabe? Nem sempre posso passar por aqui e publicar os comentários mal eles aparecem, e é bem possível que um ou outro me escape à primeira. Aqui no Delito cada um é responsável por publicar (ou não) os comentários aos seus posts.
      Se um atraso ou falha deste grau de gravidade é suficiente para que reveja o alto conceito que tem da correcção dde alguém, então tenho pena das minhas homónimas que conhece na vida real. E espero que aplique a si próprio igual exigência…

      Volte sempre. Aqui será sempre bem recebido, mas sem hora marcada.

      1. Não tenha (pena). Fique sabendo que trato as suas homónimas tão bem quanto trato todas as pessoas: com simpatia e respeito, com uma ponta de ironia sempre penso que são inteligentes o suficiente para a perceberem, com a condescendência necessária quando percebo que me enganei na anterior apreciação. 🙂
        Agora apenas os factos, libertos de apreciações pessoais. Depois de ler com atenção a sua resposta, há duas coisas que lá não encontro:
        1. Uma explicação da razão pela qual o comentário escrito às 17:00 foi publicado primeiro que o meu, redigido às 13:00;
        2. Um pedido de desculpas por esse sucedido.

        Independentemente disso, continuo a apreciar a sua escrita (neste texto) e voltarei a lê-la sempre que escrever com esta qualidade. Provavelmente, de forma mais discreta. 🙂

        PS: Sinceramente, não consigo perceber porque razão deveria eu conhecê-la melhor. Se quiser esclarecer-me este ponto…

        1. Outra vez??? Já expliquei, e não vejo que seja caso para um pedido de desculpas. Além disso, eu não disse que “deveria conhecer-me melhor”, disse só que… olhe, esqueça. Eternamente grata pela “condescendência”, fico sempre comovida com os magnânimos.

  4. “E ainda bem, digo eu, ou nunca mais nos atreveríamos a subir mais do que um mísero degrau…”
    Desta vez atrevo-me a fazer minhas as tuas palavras, e a propósito disso, ainda me ri ao lembrar-me de um trocadilho do Herman sobre essa coisa do tiraste-me as palavrinhas da boca LOLLL

  5. “Era a perfeição ou nada.” – onde já terei ouvido isto? Caiu, levantou-se e voltou a arriscar subir… ainda lá nada, nas nuvens a pairar sobre o mar! 🙂 Tomara que não caia mais!

    beijo GIGANTE
    gostei, como quase sempre

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