Cinismo vs. pessimismo


João Sousa,

Muitas pessoas equivalem o cinismo ao pessimismo. Nada mais errado. É certo que um pessimista, com o tempo, se pode tornar um cínico. Mas há pelo menos uma diferença fundamental entre os dois: enquanto o cínico gosta de ter razão, o pessimista receia ter razão. Ao contrário do cínico, o pessimista quer é não ter razão. No fundo, o pessimista é um optimista derrotado pelos seus dados empíricos.

12 comentários em “Cinismo vs. pessimismo”

  1. Segundo outras opiniões, um pessimista é um optimista bem informado.
    No Médio Oriente, os optimistas são os que acreditam que as coisas já não podem piorar.

    1. Olha que não sei. Há uns quantos que pensam que o Médio Oriente se resolveria apagando Israel do mapa. Isso não é uma demonstração de optimismo?

      1. Será; mas não tanto quanto aquele optimismo que considera que o Médio Oriente se resolve deixando Israel cantar na Eurovisão.

        Isso é que é optimismo, e do flamejante. Ou cínico, também há quem diga.

  2. O Casamento

    O Noivo tem a gravata atada na testa, o casaco desabotoado, um copo de whisky numa mão e um camarão meio comido na outra. O Padrinho fuma o terceiro cigarro, impecável no seu fato cruzado, a observar a desgraça alheia com uma paz de espírito invejável.

    Noivo: (Voz embargada, a cuspir migalhas) Zé… Isto vai dar merda, não vai? Metade divorcia-se ao fim de cinco anos. Diz-me que eu sou burro. Diz-me que eu sou um calhau com olhos e que estou a ver tudo negro. Por favor, Zé, mente-me.

    Padrinho: (Atira a cinza do cigarro para cima de uma margarida) És um burro, Luís. E estás a ver tudo negro. Mas não é por seres um calhau com olhos, é porque tens a gravata a tapar-te o olho esquerdo.

    Noivo: (A choramingar, dá um trago) Eu não quero ter razão, merda! Eu quero amar a Sónia para toda a vida! Mas se calhar não vou durar tanto tempo. Como é que se constrói o amor em cima disto? Diz-me que eu sou só um optimista derrotado. Diz-me que o nosso amor vai vencer a biologia e as estatísticas!

    Padrinho: (Sorriso de canto de boca, gélido) Tu não estás a extrapolar, Luís, estás a antecipar. Eu adoro ter tido razão desde o dia em que me disseste “Zé, vou pedir a Sónia em casamento”. Lembras-te do que eu te disse?

    Noivo: “Mais vale ires às putas, sai-te mais barato e não perdes o comando da televisão”. Porra, Zé, não sejas o cabrão de sempre. Eu vi o olhar dela quando eu disse o “sim” no altar. Havia ali qualquer coisa. Havia ali luz. Eu vi!

    Padrinho: A luz que tu viste no olhar dela foi a pupila a dilatar enquanto calculava o valor da herança caso tenhas um “acidente vascular” na lua-de-mel no México. Mas repara, eu não te julgo. Eu precisava muito que tu casasses, Luís.

    Noivo: (Confuso e quase a chorar) Precisavas? Por seres meu amigo e quereres ver-me feliz?

    Padrinho: Não, porque apostei 500 paus com o padrinho dela em como vocês não chegam ao Natal de 2028. Ele apostou no Natal de 2027. Mas eu conheço-te, sei que aguentas a negação pelo menos até às próximas eleições legislativas. Já estou a contar com esse dinheiro para ir a Marrocos. Vê lá se te aguentas.

    Noivo: (Soluça) És um monstro… Não acreditas em nada, Zé. Só queres é ter razão para te sentires superior! Preferes ver a desgraça do teu melhor amigo só para poderes dizer “eu avisei”. És um cínico de merda, a tua vida é vazia!

    Padrinho: (Acende outro cigarro na beata do anterior) Exatamente, Luís. E a beleza do cinismo é que, no fim, eu tenho mesmo razão. Já tu… tu tens pânico de também a teres. Estás cheio de medo que os teus “dados empíricos” estejam certos. E estão. Agora anda, que começou a dar o Apita o Comboio e tu és o maquinista desta tragédia.

  3. O casamento não é um desporto de esperança, é uma doença degenerativa do património.

    A Primeira Vez: É ignorância pura. A pessoa é nova, tem as hormonas aos saltos e acha que o amor é lindo. Não sabe que o casamento é, na prática, um contrato vinculativo para passar os próximos 40 anos a discutir sobre quem é a vez de esvaziar a máquina da loiça e a aturar sogras ao domingo. É um acidente de percurso perdoável.

    A Segunda Vez: Aqui já entramos na falha cognitiva grave. O indivíduo sobreviveu ao inferno, sangrou dinheiro para os advogados, deixou a casa, o carro e o cão… e de repente pensa: “Sabem o que era giro agora? Fazer esta merda toda outra vez, mas com menos cabelo, mais rugas e pior metabolismo!”

    A Terceira Vez em diante: À terceira, o conservador do Registo Civil já nem devia perguntar se aceita a noiva. Devia perguntar directamente se aceita abdicar do resto da dignidade antes de ir viver para um quarto alugado num vão de escada no Cacém. Já não é amor, é só um fetiche bizarro por sustentar sociedades de advogados e tribunais de família.

    Por isso, não me lixem. O único e verdadeiro optimista, é o gajo do catering, que ainda tem a ilusão de que lhe vão pagar a totalidade do serviço antes da primeira grande peixeirada na lua-de-mel. O noivo é só o gajo que vai a caminho de acabar os dias a comer salsichas de lata para conseguir pagar três pensões de alimentos.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *