Mais uma tragédia numa passagem de nível sem guarda. No fim do mundo? Não: na Linha do Douro, entre o Porto e a Régua, perto de Baião. Quatro mortos, três feridos graves.
Longe de mim saber que ainda existem passagens de nível sem guarda em Portugal. Menos ainda que isso fosse possível em regiões populosas e movimentadas. Tenho a certeza de que, após uma tragédia idêntica há tempos, as autoridades garantiram que todos os casos iam ser resolvidos e nunca mais haveria acidentes do género. Tenho a certeza absoluta disso.
Afinal, só naquela região, a Refer tem «um plano que foi acordado com a autarquia há um ano para supressão de cinco passagens de nível sem guarda», bem como (já cá faltava mais um naco de prosa contra a clareza) «garantia de condições de segurança em mais seis». Ou seja: se bem entendo, só por aquelas bandas ainda há onze ou doze passagens de nível sem guarda. Além de uma outra encerrada há apenas seis meses.
O que revolta, nestes casos, é ouvir das entidades que (lá vem mais um naco de prosa contra a clareza) «a passagem de nível do acidente estava a ser objecto de um projecto de execução». O que é que isto quer exactamente dizer, não se adivinha. Porém, uma coisa é certa: em Portugal, quando há desastre, já estava para ser feito, já há um projecto, já ia ser executado, já está em vias de ser planeado, já tinha sido pensado, já foi lançado. Nem sempre com a prosa simples que aqui estou a usar, mas sempre neste sentido da coincidência.
Infelizmente, tornou-se comum a tragédia andar adiantada. Porque as autoridades, essas, têm sempre tudo previsto. Portugal é um país onde as coincidências não há meio de aprenderem a respeitar o calendário de quem manda.
ADENDA – A responsabilidade destes casos é da Refer. Por isso é que me lembrei de, há poucos anos, quando a Refer nasceu, a sua administração ter descurado o trabalho durante não-sei-quanto tempo e ter andado ocupada a atribuir-se vencimentos e carrões, com tal pressa e ligeireza que até o fizeram em situação altamente irregular, segundo então foi noticiado. Alguém sabe como é que isso ficou?

João, é uma pena que a agenda das oposições e da sociedade civil seja tão volúvel e não insista com violência na determinação global dos desmandos da administração da Refer, na avidez altamente irregular dos carrões e vencimentos.
É uma pena!
É que começa a ser cansativo e impossível, Joshua. Ninguém tem cabeça para se lembrar de todas as escandalosas irregularidades que vão proliferando e que depois se esfumam sem mais.
Aumenta para cinco o total de mortos em choque com comboio:
O jovem de 16 anos internado no Hospital de S. João, no Porto, não resisitiu aos ferimentos. Aumentam para cinco os mortos em consequência de um choque entre um comboio e um carro, numa passagem de nível sem guarda na freguesia de Santa Leocádia, Baião, que estava para ser removida. Há ainda mais dois feridos graves.Dois dos três feridos foram transportados para o Hospital Padre Américo, em Penafiel. O ferido mais grave, Marco Soares, de 16 anos, foi internado no Hospital de S. João, no Porto, mas acabou por sucumbir aos ferimentos, apurou o JN.
A ambulância teve um acidente, a cerca de 500 metros do hospital. Três bombeiros sofreram ferimentos, que mas “não agravou a situação dos dois feridos graves que transportava”, assegurou fonte dos Bombeiros de Baião.
Segundo informação do Hospital de Penafiel, Maria José Lucas, 63 anos sofre de vários traumatismo e está em estado grave, mas estável. O neto, Pedro Monteiro, de 15 anos, com um traumatismo craniano, inspira mais cuidados e foi entretanto transferido para o Hospital de S. Joaõ, no Porto.
Maria José Lucas é avó dos dois jovens, Pedro Monteiro, 15 anos, e Marco Soares, 16, e esposa de Manuel Lucas, 67 anos, um dos quatro mortos. Entre as vítimas está também o presidente da Junta de Santa Leocádia, Manuel Guedes, de 55 anos.
As outras duas vítimas mortais são o condutor da viatura, Sérgio Pereira, de 55 anos, e Filomena Pereira, de 63.
Os bombeiros removeram o carro, um Mercedes 190, da linha férrea, já cerca das 11 da manhã. quase cinco horas após o acidente.
O choque ocorreu numa passagem de nível se guarda e com pouca visibilidade, à saída de uma lomba na estrada e à entrada de uma ponte. O carro, uma ligeiro de passageiros, foi arrastado cerca de 30 metros, até ao fim da ponte.
A passagem de nível sem guarda, onde hoje, terça-feira, ocorreu o acidente é das mais perigosas e ainda não tinha sido encerrada por falta de acordo entre a autarquia e os proprietários dos terrenos, avançou fonte da REFER.
O segundo comandante dos Bombeiros Voluntários de Baião, Orlando Rodrigues, disse à SIC que os ocupantes da carrinha se deslocavam para outra zona do concelho onde deveriam apanhar uma camioneta que os levaria em excursão a Fátima.
De acordo com as primeiras informações recolhidas pelo JN, as vítimas são todas da região.
A linha do Douro mantém-se cortada devido às operações de remoção dos destroços da via. O comboio regional fazia o percurso Régua-Porto
Percurso Régua-Porto. Deve ser algures no terceiro mundo.
Terceiro mundo é ainda existirem passagens de nível sem guarda;))
Mais um acidente terceiro-mundista João. Não sei o que se possa dizer mais. Desde a aberração de continuarem a existir assassinas passagens de nível sem guarda, que estão à espera de ser substituídas desde do tempo da máquina a vapor, até à irresponsabilidade muito portuguesa de se mandarem às urtigas a segurança rodoviária e se viajar numa viatura sobre lotada, com todas as limitações que isso acarreta. É um clássico, a desgraça atrai sempre mais desgraça. Talvez tenha de acontecer algum acidente com algum dos administradores da Refer e aí resolvem a situação de vez.
O problema, Ariel, é que um eventual acidente que toque de perto a Refer e que ninguém deseja nem sequer altera todas as outras situações nos restantes sectores.
Claro João tem toda a razão, é evidente que ninguém deseja acidentes a quem quer que seja, mas por aqui é sempre assim, depois de casa roubada, trancas à porta.
Eu até já começo a desconfiar das trancas, sabe? Um dia vais-se ver que as trancas não trancam. Mas não faz mal: nesse dia, haverá um projecto já desencadeado para substituir as trancas. Tarde de mais.
Ficou tudo em águas de bacalhau, como é costume neste maravilhoso país que, a continuar sob a batuta do vosso amado líder, jamais há-de mudar.
Vosso… salvo seja.
Ah, ainda bem! É que pensava… Mas estava errada, pelos vistos.
É, portanto, uma das excepções, aqui no blog. Parabéns!
Acha? Eu não acho.
Bem visto… as coincidências têm a mania de se adiantar aos projectos que estão (invariavelmente) na forja e sempre quase, quase a serem “implementados”. Um clássico, e não só sobre carris.
Exactamente: não só sobre carris. Ainda por cima, o verbo ‘implementar’ é odioso e os políticos em exercício não o dispensam.
Eu não percebo porque é que a responsabilidade pela existência de passagens de nível sem guarda é atribuída à REFER e não às Estradas de Portugal.
Ao fim e ao cabo, o interesse em acabar com os conflitos entre os combóios e os carros deveria ser mútuo, não?
Quando há um acidente como este, quase sempre quem se lixa são os ocupantes do carro, muito raramente ou nunca os do combóio. Portanto, se aquilo de que se trata é de assegurar a segurança dos utilizadores das vias, a Estradas de Portugal é que deveria ser a principal interessada em acabar com as passagens de nível.
Ou estarei a ver mal a coisa?
Pode nem estar a ver mal, mas acho que está a ver o que menos interessa. Basta que o assunto esteja entregue a uma entidade oficial. Porque o importante é que a entidade faça o que tem a fazer, ao invés de andar a declarar que está quase.
(Já agora, por mero exercício mental: a Estradas de Portugal colocava cancelas, não é? E nomeava o guarda-linha? E cuidava da casa do guarda-linha? E nomeava o substituto do guarda-linha? E fornecia o equipamento de comunicações e a sinalética do guarda-linha? E dava a formação ao guarda-linha?)
Só gostava de acrescentar um pormenor que ouvi numa peça que passou num dos canais (suponho que na RTP1, mas não garanto). Parece que, no caso concreto, a demora na resolução do problema também, repito: também, tem a ver com a dificuldade de expropriação do terreno para construir a alternativa à passagem de nível. Porque é que eu refiro este pormenor, pela mesma razão que julgo que a Ariel referiu a lotação excessiva do carro. Também nestas tragédias existe uma dimensão de responsabilidade individual e da sua disponibilidade para a cidadania completa e esclarecida.
Este reparo não pretende, de modo algum, anular as críticas já feitas.
Claro Maria do Sol, é isso mesmo.
Certo. Mas já vi expropriações menos importantes e mais céleres. Estes casos são para fazer primeiro e dar explicações depois, não são para expropriar só porque vai passar ali uma nova autoestrada. E estas avançam enquanto o diabo esfrega um olho.
São tantas coincidências
nos momentos terríveis,
fruto de imprudências
de políticas horríveis.
De água sacudida
dos capotes garbosos,
a seriedade iludida
por gestores sebosos.
Especialmente sebosos na linguagem que usam, Amêijoa.
«A passagem de nível do acidente estava a ser objecto de um projecto de execução.» É uma frase execrável. Ainda mais execrável depois de ter acontecido o que aconteceu neste admirável país do ‘choque tecnológico’ e do ‘simplex’.
Há sempre um projecto que vai ser “implementado”. Depois.