
Para o bem e para o mal, não há impressões gastronómicas como as primeiras. A minha estreia à mesa, em Angra do Heroísmo, não podia ter corrido melhor. A hora de almoço ia adiantada, o apetite era muito e a falta de paciência para andar em busca de restaurantes impunha esta regra básica: teria de confiar em exclusivo na minha intuição.
Assim foi.
A Tasca das Tias fica em pleno centro histórico da bela capital da Terceira. Localização perfeita para o visitante que desembarca esfomeado. Ali abanquei em busca de retemperador repasto.
Fiz bem. Gostei logo do que vi: decoração, atmosfera, atendimento. A ementa escrita a giz num quadro, como nas tabernas antigas. Pratos verdadeiramente tentadores, a preços razoáveis. Ambiente descontraído, propício à conversa. Sem pressa: os prazeres da vida devem ser prolongados, não abreviados.

Não tardei a decidir: atum braseado. De excelente qualidade e confeccionado como eu gosto, de forma muito simples. Mal passado, apenas com sal e ervas aromáticas. Chega à mesa acolitado com batata doce e salada de tomate – esta servida em recipiente autónomo, como mandam as boas regras.
Assim decorreu o meu baptismo gastronómico em Angra. Enquanto esperava, experimentei um croquete de alcatra – carne moída com queijo de São Jorge, em adequado conúbio. Com um copo de vinho branco dos Açores que passou no teste: Lira, produzido na freguesia de Biscoitos, zona de solos vulcânicos da Terceira. Aromático e encorpado. Boa surpresa.

Ficou aprovado? Claro. A tal ponto que, dias depois, repeti a dose. Trocando apenas o croquete inicial por uma sopa de tomate igualmente digna de elogio.
Até gostei do nome do restaurante, inaugurado em 2014. Estive na Tasca sem vislumbrar as Tias, porventura pessoas tímidas. Nem por isso deixo de lhes dar os parabéns.

“A Tasca das Tias fica em pleno centro histórico da bela capital da Terceira. Localização perfeita para o visitante que desembarca esfomeado.”
Eu diria que o visitante desembarca nas Lajes, que ficam bem perto da Praia mas bastante longe da Angra, pelo que a localização perfeita para o visitante que desembarca esfomeado seria na Praia.
Nem lá fui. Com transporte directo Lajes-Angra, já reservado e pago, ir à Praia não fazia sentido.
“ir à Praia não fazia sentido”
Eu diria e digo que faz todo o sentido.
Estar na Terceira, que é uma ilha grande, e passar o tempo todo na Angra, é um disparate.
Além de que a Praia é… uma praia. Boa. Dá para tomar banho. E a água nos Açores é mais quente que a do Algarve.
Ó homem, mas você supõe que eu fui à Terceira, viajando 3000 km de avião, para fazer turismo de praia?
Praias – mais de oitocentas – tenho no continente.
“Lira, produzido na freguesia de Biscoitos”
Na mesma freguesia era produzido o vinho da Casa Brum. (“Brum” é um nome derivado de um dos primeiros povoadores flamengos dos Açores.) Mas não sei se esses produtores ainda estão ativos. O Pedro consegue descobri-lo?
Ignoro, confesso. Talvez algum leitor saiba.
https://turismo.azores.gov.pt/pin/casa-agricola-brum/
Obrigado. Mas eu o que queria saber é se a Casa Brum ainda produz vinho.
basta ler os links …
“Neste museu encontram-se vários tipos de produtos vitivinícolas feitos com as vinhas da região como é o caso:
Brum, (I), vinho Vinho Licoroso de Qualidade Produzido em Região Determinada (VLQPRD), do tipo licoroso feito com as castas Verdelho e Terrantez da Terceira (vestígios), que alcança teor alcoólico de 17º vol. ou 134 g/litro.
Brum, (II), vinho VLQPRD, do tipo licoroso feito com as castas de Verdelho e Terrantez da Terceira (vestígios), que alcança teor alcoólico de 17º vol.
Donatário, vinho do tipo branco, feito com a casta Verdelho, que alcança um teor alcoólico de 12%.
Chico Maria, (I), do tipo Seco, licoroso, elaborado com a casta Verdelho e que alcança um teor alcoólico de 17%.
Chico Maria, (II), do tipo meio seco e licoroso, elaborado com a casta Verdelho e vestígios de Terrantez da Terceira, alcançado um teor alcoólico de 18%.
Chico Maria, (III), do tipo doce e licoroso, elaborado com a casta Verdelho e vestígios de Terrantez da Terceira, alcançado um teor alcoólico de 19%.”
e com nova imagem, o donatário : https://www.facebook.com/photo/?fbid=4563304630440567&set=a.547542267170180
https://freguesiabiscoitos.com/patrimonioedificado/museu-do-vinho/
Obrigado, Marina.
Saboroso e artístico, que os olhos comem metade. O naco de atum (e que senhor naco!) com o ‘ikebana’ de salsa e de… e do quê? O que são as caninhas? Coisa também comestível, como a salsinha?
Vejo que aí pela Terceira escapam à tentação da canela que, pelo menos para o meu gosto, me parecia omnipresente e em quantidade excessiva nos pratos servidos em S. Miguel. Nunca me habituei. Já à batata doce, ao inhame e ao vinho de cheiro dei algumas segundas oportunidades, eheheh.
Canela, passo bem sem ela (rima e é verdade). Excepto no arroz doce e no pastel de nata, que como só de longe em longe.
Batata doce e inhame, pelo contrário, aprecio muito. Incluo nos meus cozinhados tanto quanto possível também.
Quanto às caninhaa, não cheguei a identificá-las. Mas são comestíveis, sim. Sabem vagamente a presunto.
Atendendo à origem da recomendação, vou já marcar no meu maps para quando voltar a Angra. 😉
Podes confiar, Ana.
Acho muito bem que ponham a ementa num quadro a giz. Mas seria de muito bom tom colocarem o preço à frente de cada iguaria.
Também via ou vê isso nas tabernas clássicas? Olhe que não.
Almoçou-se por lá muito bem, sem a menor dúvida, recordo da minha breve experiência há uns dois anos. Éramos cinco, chegados de Lisboa nessa manhã e hospedados a poucos minutos – segundos, quase, de distância; os Paços do Conselho na frente, o Jardim do Duque da Terceira, verdadeiro refrigério, a luz, o ar, suavíssimos, aberta a janela do quarto, a mala acabada de lá deixar -, a refeição foi longa e animada de feliz animação. Não tenho o mérito de guardar registos de comida e bebida, mas a memória – despertada pelo nome e pelas fotografias (foi esse atum, só pode ter sido; e comigo, herege ou inculto, o vinho foi branco) é bem feliz. E como todas, irrepetível.
Ainda que lá tencione voltar.
Boas recordações, sim. Semelhantes às que já levo. Cada viagem é irrepetível. Devemos aproveitar o mais possível. E combater a tentação do sedentarismo que afecta gente cada vez mais jovem. Conhecer novas paragens e novas paisagens, alargando horizontes, estimula o cérebro, faz bem à saúde.