
O responsável foi Miguel Monjardino. No excelente livro em forma de diário que recentemente publicou, lembrando o que foram os tempos da pandemia, deu nota de duas ou três incursões a este restaurante – então com poucos clientes, à semelhança de qualquer outro.
São tempos que nos parecem já recuados, embora ninguém responsável deva apostar que não poderão repetir-se.

Entrei lá, portanto, confiante de que iria comer bem. E não saí decepcionado. De tal maneira que regressei: sinal inequívoco de que esta casa já clássica, de idade respeitável e decoração retocada, me conquistou como cliente.
Senti-me aconchegado logo de entrada, quando chegou à mesa uma promissora tábua de azeitonas e queijo fresco com molho de malagueta. Acepipe de inconfundível travo açoriano.

Travo acentuado na etapa seguinte, com a tradicional alcatra de vaca – elemento essencial da gastronomia terceirense. Geralmente preparada num alguidar de barro untado com banha de porco onde se vão depositando sucessivas camadas de carne intercaladas com cebola picada, toucinho fumado, louro, cravinho e pimenta – tudo amplamente regado com o vetusto vinho de cheiro da região.
Segue-se lenta cozedura, durante horas, em forno de lenha até que a carne esteja imaculadamente tenra. Pronta a ser degustada.
Recomendo-a sem hesitar, tal como o prato que ali comi na visita seguinte: atum selado com esmagada de batata aromatizada e misto de cebola em tempura.


Passei ao lado dos bifes flamejantes, que parecem ser o grande cartaz do Verde Maçã. Ao ponto de não faltarem clientes a fazer-se fotografar junto ao carrinho onde as labaredas se levantam.
Mas não dispensei um copo de branco terceirense para aumentar a minha cultura vinícola de âmbito geral. Serviram-me Materramenta, de Biscoitos – castas Verdelho e Arinto dos Açores. Agradável.
O preço é proporcional à localização, na mais emblemática rua da cidade, e no respeito da promessa de só utilizarem ingredientes biológicos de alta qualidade e honrarem as boas tradições da confecção caseira dos alimentos. Sob a experiente batuta do chefe Alberto Silva, digno de elogio.
Mesmo sem trincar maçã alguma, devo concluir que valeu a pena. E aqui me confesso publicamente agradecido a Miguel Monjardino pela dica que, sem ele fazer ideia, forneceu a este leitor d’A Grande Ruptura em jornada pela sua ilha de que passei a gostar ainda mais.

A alcatra açoreana, pelo nome, pode induzir em erro a alguém vindo do continente, mas será sempre um belo e até memorável erro. Vale mesmo a pena.
Estás a fazer-nos todos viajar também pela Terceira, Pedro.
Continua.
Um abraço
Assim farei, Paulo. Obrigado. Abraço.
“queijo fresco com molho de malagueta”
Malagueta não, pimenta da terra.
Falo da Terceira, não de São Miguel.
Quanto aos Açores tenho o seguinte pedido a fazer:
Schhhh, não falem dele, não o promovam, não atiçem a curiosidade. Deixem-no estar assim. Sem Ryanair.
Falem antes do Ró Náldo 🙂
Ou da selecção nacional que passou a jogar bem, vá-se lá saber porquê…
Ou da revisão constitucional
De facto, o fim dos voos mais baratos afectou bastante o turismo açoriano. Que nunca será massificado, ao contrário de outras paragens. Mas o turismo é fundamental porque cria empregos e faz mover outras actividades económicas.