Como perder a razão


José Gomes André,

O extremismo é o maior obstáculo à formulação de análises políticas adequadas e congruentes. Um bom exemplo desta máxima diz respeito à forma como têm sido interpretadas a figura e a agenda política de Obama, quando partindo ora de um messianismo insuportável, ora de um ódio visceral. O primeiro caso tem sido mais abundante, mas há igualmente vários exemplos do segundo. 

Veja-se esta análise de Maria João Marques, que parte de uma gaffe inócua de Obama (a referência a um termo em "austríaco") para uma série de inferências de largo espectro (que Obama nada sabe sobre o Anschluss de 1938, nem sobre o problema dos sudetas na Checoslováquia), acabando mesmo a comparar as políticas económicas de Obama e Hitler. De passagem, uma outra referência sobre o "apaziguamento" inglês perante os nazis e a semelhante abordagem de Obama à política externa.

Isto não é apenas um exemplo clássico da "Godwin’s Law". É um daqueles casos onde a pressa de chegar a algum sítio levou ao absoluto esquecimento do caminho a percorrer.

10 comentários em “Como perder a razão”

  1. Os austríacos devem ter ficado felizes, porque querem que a língua que falam – e não me refiro ao alemão- seja reconhecida como uma língua independente. Não é assim tão líquido que o austríaco não exista. É uma derivação do alemão naturalmente mas tem outras regras e outro vocabulário.

    1. Olá Leonor! Obrigado pelo comentário, confesso que nem sequer sabia dessa questão. Nesse caso a gaffe ainda se torna mais “não-gaffe”. Em qualquer dos casos, parecem-me bizarros estes saltos argumentativos de questões linguísticas para referências a Hitler…

      1. Olá 🙂
        Duvido que Obama esteja tão desperto para estas questões linguísticas mas acho uma pressa disparatada crucificá-lo por algo que até existe. O salto para o Holocausto é costumeiro, ainda ontem ou hoje comentava no post do Jorge sobre o cinema alemão que estou farta do Holocausto. É um exagero, mas que também os americanos apreciam muito.

  2. Caro Zé,

    O cansaço de me pegar com a autora da referida crónica por posts aqui e ali sem qualquer lógica intrínseca já é tanto que por uma vez preferia não ter lido. É dos maiores absurdos que já ouvi, e dela já ouvi alguns (como, enquanto economista e empresária me dizer que eu tinha chamado animais aos empresários por dizer que eles tinham um instinto, uma percepção de negócio, que o Keynes chamava de “animal spirits”). Enfim, haja paciência com os pobres de espírito:)

    Parabéns pelo texto.

    Abraço,
    Carlos

  3. O post de Maria João Marques seria na realidade ridículo se não fosse insignificante. Além de mostrar alguma ignorância quanto ao “austríaco”, (que sendo fundamentalmente alemão, tem alguma autonomia em relação à lingua-mãe, como muito bem nos explica a Leonor Barros), não nos traz nada de essencial. Como diz o velho ditado, »pela boca morre o peixe…». Obama tem defeitos e não sabe tudo acerca da história europeia do Sec. XX? Tê-los-á, certamente, e bem mais importantes do que as minudências que nos são relatadas no tal post. E será sobre esses que valerá a pena reflectir.

  4. Mera provocação Pascal : Imaginemos que tinha sido o “cowboy” texano a proferir semelhante “mimo”?…
    Presumo que os comentários seriam todos do estilo “usque tandem” e por aí fora…

  5. JGA, eu entendo que tem uma opinião diferente sobre Obama, mas não acha um tanto tolo falar em ódio visceral da minha parte pela personagem?! Mas ter a ousadia de gozar ou criticar Obama é ter-lhe um ódio visceral?! Garanto-lhe, reservo essas emoções fortes para pessoas mais relevantes na minha vida, mas mesmo aí sou felizmente pouco dada a ódios. Só é pena não ter contraditado o que eu escrevi: as políticas expansionistas de Obama (ou de FDR) não são reminiscentes das de Hitler? Isto não quer dizer que Obama seja Hitler; isso é um absurdo sem tamanho. E não é conveniente um POTUS conhecer bem a história do sec.XX? Para compreender o sec.XXI? Ah, claro, isso fazia falta a Bush, mas a Obama já não..

    Carlos Santos – confesse lá, andava distraído nas aulas de português? – para que se veja o que eu lhe respondi, aqui vai a citação:
    “Mas onde tu erras é mesmo ao assumires que ods agentes não tomam decisões racionais, que são animal spirits. De resto contradis-te, já que um empresário que tome decisões com base naquilo que espera ser o seu volume de vendas está a tomar decisões racionalmente, dado o seu nível de informação, e não a actuar como um animal spirit.”
    Já agora, sabe que é falta de educação (entre outras) pôr na boca das pessoas o que elas não disseram e andar a propagandear o que as pessoas não disseram?

    1. Cara Maria João, obrigado pelo seu comentário. Tem todo o direito de criticar Obama, era só o que faltava não o poder fazer. O que eu “critiquei” foi a passagem lógica de uma gaffe inócua sobre uma questão linguística (que aparentemente nem gaffe foi) para uma série de conclusões sobre o desconhecimento histórico e comparações forçadas com Hitler. Só isto.

      Diz-me que as políticas económicas de Obama são parecidas com as de Hitler. Mas o contexto é sequer semelhante? O que é que tem uma coisa a ver com outra? E por que diabo acha que Obama desconhece a história europeia? Por causa da “gaffe austríaca”? Por amor de Deus… A Maria João detesta o Obama (há muito que a leio e ambos sabemos que isso é verdade), mas realmente parece-me que atacar o homem nesta situação foi bastante inapropriado. O que não significa, evidentemente, que não haja muitas coisas a criticar na sua Administração!

      Um abraço!

      1. Jose (estou sem acentos!), mais do que discordar das opinioes sobre Obama, discordo deste “detestar”. Acho que a eleicao de Obama teve ate uma parte de redencao nos EUA muito interessante e as vezes ate me enterneco com a esperanca que depositam no homem. Isso nao impede que nao veja as tremendas limitacoes que tem – ao contrario do propagandeado – e escreva sobre elas; sobre aspectos positivos ha muito quem se dedique.

        Um abraco!

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