O extremismo é o maior obstáculo à formulação de análises políticas adequadas e congruentes. Um bom exemplo desta máxima diz respeito à forma como têm sido interpretadas a figura e a agenda política de Obama, quando partindo ora de um messianismo insuportável, ora de um ódio visceral. O primeiro caso tem sido mais abundante, mas há igualmente vários exemplos do segundo.
Veja-se esta análise de Maria João Marques, que parte de uma gaffe inócua de Obama (a referência a um termo em "austríaco") para uma série de inferências de largo espectro (que Obama nada sabe sobre o Anschluss de 1938, nem sobre o problema dos sudetas na Checoslováquia), acabando mesmo a comparar as políticas económicas de Obama e Hitler. De passagem, uma outra referência sobre o "apaziguamento" inglês perante os nazis e a semelhante abordagem de Obama à política externa.
Isto não é apenas um exemplo clássico da "Godwin’s Law". É um daqueles casos onde a pressa de chegar a algum sítio levou ao absoluto esquecimento do caminho a percorrer.

Os austríacos devem ter ficado felizes, porque querem que a língua que falam – e não me refiro ao alemão- seja reconhecida como uma língua independente. Não é assim tão líquido que o austríaco não exista. É uma derivação do alemão naturalmente mas tem outras regras e outro vocabulário.
Olá Leonor! Obrigado pelo comentário, confesso que nem sequer sabia dessa questão. Nesse caso a gaffe ainda se torna mais “não-gaffe”. Em qualquer dos casos, parecem-me bizarros estes saltos argumentativos de questões linguísticas para referências a Hitler…
Olá 🙂
Duvido que Obama esteja tão desperto para estas questões linguísticas mas acho uma pressa disparatada crucificá-lo por algo que até existe. O salto para o Holocausto é costumeiro, ainda ontem ou hoje comentava no post do Jorge sobre o cinema alemão que estou farta do Holocausto. É um exagero, mas que também os americanos apreciam muito.
Voltei para dizer que há inclusivamente dicionários de austríaco…
Caro Zé,
O cansaço de me pegar com a autora da referida crónica por posts aqui e ali sem qualquer lógica intrínseca já é tanto que por uma vez preferia não ter lido. É dos maiores absurdos que já ouvi, e dela já ouvi alguns (como, enquanto economista e empresária me dizer que eu tinha chamado animais aos empresários por dizer que eles tinham um instinto, uma percepção de negócio, que o Keynes chamava de “animal spirits”). Enfim, haja paciência com os pobres de espírito:)
Parabéns pelo texto.
Abraço,
Carlos
O post de Maria João Marques seria na realidade ridículo se não fosse insignificante. Além de mostrar alguma ignorância quanto ao “austríaco”, (que sendo fundamentalmente alemão, tem alguma autonomia em relação à lingua-mãe, como muito bem nos explica a Leonor Barros), não nos traz nada de essencial. Como diz o velho ditado, »pela boca morre o peixe…». Obama tem defeitos e não sabe tudo acerca da história europeia do Sec. XX? Tê-los-á, certamente, e bem mais importantes do que as minudências que nos são relatadas no tal post. E será sobre esses que valerá a pena reflectir.
Mera provocação Pascal : Imaginemos que tinha sido o “cowboy” texano a proferir semelhante “mimo”?…
Presumo que os comentários seriam todos do estilo “usque tandem” e por aí fora…
JGA, eu entendo que tem uma opinião diferente sobre Obama, mas não acha um tanto tolo falar em ódio visceral da minha parte pela personagem?! Mas ter a ousadia de gozar ou criticar Obama é ter-lhe um ódio visceral?! Garanto-lhe, reservo essas emoções fortes para pessoas mais relevantes na minha vida, mas mesmo aí sou felizmente pouco dada a ódios. Só é pena não ter contraditado o que eu escrevi: as políticas expansionistas de Obama (ou de FDR) não são reminiscentes das de Hitler? Isto não quer dizer que Obama seja Hitler; isso é um absurdo sem tamanho. E não é conveniente um POTUS conhecer bem a história do sec.XX? Para compreender o sec.XXI? Ah, claro, isso fazia falta a Bush, mas a Obama já não..
Carlos Santos – confesse lá, andava distraído nas aulas de português? – para que se veja o que eu lhe respondi, aqui vai a citação:
“Mas onde tu erras é mesmo ao assumires que ods agentes não tomam decisões racionais, que são animal spirits. De resto contradis-te, já que um empresário que tome decisões com base naquilo que espera ser o seu volume de vendas está a tomar decisões racionalmente, dado o seu nível de informação, e não a actuar como um animal spirit.”
Já agora, sabe que é falta de educação (entre outras) pôr na boca das pessoas o que elas não disseram e andar a propagandear o que as pessoas não disseram?
Cara Maria João, obrigado pelo seu comentário. Tem todo o direito de criticar Obama, era só o que faltava não o poder fazer. O que eu “critiquei” foi a passagem lógica de uma gaffe inócua sobre uma questão linguística (que aparentemente nem gaffe foi) para uma série de conclusões sobre o desconhecimento histórico e comparações forçadas com Hitler. Só isto.
Diz-me que as políticas económicas de Obama são parecidas com as de Hitler. Mas o contexto é sequer semelhante? O que é que tem uma coisa a ver com outra? E por que diabo acha que Obama desconhece a história europeia? Por causa da “gaffe austríaca”? Por amor de Deus… A Maria João detesta o Obama (há muito que a leio e ambos sabemos que isso é verdade), mas realmente parece-me que atacar o homem nesta situação foi bastante inapropriado. O que não significa, evidentemente, que não haja muitas coisas a criticar na sua Administração!
Um abraço!
Jose (estou sem acentos!), mais do que discordar das opinioes sobre Obama, discordo deste “detestar”. Acho que a eleicao de Obama teve ate uma parte de redencao nos EUA muito interessante e as vezes ate me enterneco com a esperanca que depositam no homem. Isso nao impede que nao veja as tremendas limitacoes que tem – ao contrario do propagandeado – e escreva sobre elas; sobre aspectos positivos ha muito quem se dedique.
Um abraco!