Há poucos dias, Jimmy Carter festejou uma efeméride muito pessoal: tornou-se o segundo ex-presidente dos Estados Unidos com maior longevidade desde que cessou funções na Casa Branca. Foi a 20 de Janeiro de 1981 que o democrata Carter passou o testemunho ao republicano Ronald Reagan, tornando-se naquilo que vários analistas, não sem ironia, o vêm classificando nos anos mais recentes: o melhor ex-presidente norte-americano de sempre – um título de algum modo confirmado pela atribuição, em 2002, do Prémio Nobel da Paz devido às suas acções de cariz humanitário em alguns dos mais atribulados cenários do globo.
Carter, hoje com 86 anos, só se vê ultrapassado em longevidade pós-presidencial pelo republicano Herbert Hoover, que ocupou a Casa Branca entre 1929 e 1933, tendo sido copiosamente derrotado neste último ano por Franklin Roosevelt. Foi, diga-se a verdade, um dos presidentes mais azarados da história dos EUA: estava há sete meses em funções quando a Bolsa de Nova Iorque entrou em colapso, dando início à Grande Depressão. Incurável optimista, prometeu sucessivas vezes aos americanos que os tiraria da crise – e viu sempre estas promessas frustradas. Mas, tal como Carter (que apenas permaneceu um mandato na Casa Branca e foi derrotado por Reagan na eleição de 1980), Hoover foi um dos melhores ex-presidentes americanos. Desempenhou diversas missões internacionais, colaborou com o presidente Harry Truman apesar de se tratar de um notório adversário político e manteve grande protagonismo nas convenções do Partido Republicano – a última das quais em 1960. Já antes de ascender à presidência, no início da década de 20, se distinguira ao liderar uma campanha humanitária nos EUA para envio de víveres destinados à Rússia soviética. Morreu em 1964, aos 90 anos – 31 anos após abandonar a presidência.
O terceiro chefe do Executivo norte-americano que viveu mais tempo depois de deixar a Casa Branca foi outro republicano, Gerald Ford (presidente entre 1974 e 1977). Morreu em Dezembro de 2006, aos 93 anos – a escassas semanas de completar três décadas como ex-presidente. Também ele, curiosamente, deixou a Casa Branca na sequência de uma derrota eleitoral (contra Carter, em 1976). Ter azar na vida política prolonga a vida biológica? Se não é, parece.
Imagem: Carter e Reagan no debate da campanha de 1980, ganho pelo republicano


Diria que a ausência do stress inerente ao segundo mandato ajudará. Também o facto de terem sido derrotados baixará expectativas para o que poderão fazer a seguir. Note-se também o caso de George Bush (pai), derrotado em 1992 e que lá vai levando 18 anos pós-presidenciais com uma vida calma.
É bem capaz de ter razão, meu caro. O amor-próprio é insuflado com um mandato sem o inevitável desgaste do segundo. Isso ajuda, por um lado e por outro, a preservar a saúde.
Nunca vi isto ser analisado devidamente e acho que merecia a pena.