Conceitos desconhecidos


Leonor Barros,

Sentava-se à minha frente, era baixa e magricela, sempre preocupada com a indumentária, o rímel e o baton, dona e senhora do seu nariz, determinada e de conversa directa com poucos eufemismos. Chegou-me um dia irritada, terá largado um desabafo enquanto nos preparávamos para mais uma incursão na língua alemã e largou um furioso Mas é injusto. É injusto, pronto! Questionada sobre a injustiça que tanto lhe acossava os ânimos atirou-me lesta Stora, eu é que faço os trabalhos da minha vizinha e nuns meses ela tem o décimo segundo ano, enquanto eu tenho de andar aqui três anos. Por mais que lhe tentasse explicar os óbvios benefícios daqueles três anos nada a demoveu contra o resultado final independentemente do processo: o diploma de conclusão do Ensino Secundário, o tal conseguido por uns em três anos e outros em seis meses. E concluiu Então também vou esperar até aos vinte e três anos, assim é fácil.

Quando me deparei com esta notícia, a entrada no Ensino Superior numa vantagem escandalosa relativamente a quem tem de fazer cinco ou seis exames para conseguir aprovação e uma vaga no Ensino Superior, constatei o previsível e percebi claramente a revolta da minha magricela espevitada. Se, em casos muito específicos o processo de RVCC, vulgo Novas Oportunidades, pode fazer algum sentido, noutros não é senão uma enorme injustiça, legítima, pois, toda e qualquer indignação, e não porque os alunos do ensino regular tenham de cumprir três anos de escolaridade, continuo a acreditar que aprender é das experiências mais gratificantes e enriquecedoras, mas porque seis meses e um exame nacional são manifestamente pouco e podem colocar estes candidatos em vantagem no ingresso ao Ensino Superior. Justiça e equidade devem ser conceitos desconhecidos lá para os lados da vinte e quatro de Julho.

30 comentários em “Conceitos desconhecidos”

  1. (1) A Leonor é professora de alemão?

    (2) O primeiro linque não dá para nenhuma notícia em especial.

    (3) Que eu saiba (mas posso saber mal), o programa Novas Oportunidades não é para qualquer pessoa, destina-se apenas a pessoas com uma experiência profissional relevante, e nessa medida não é o mesmo que estar a ensinar a um jovem de 26 anos de idade, o qual ainda não terá experiência profissional que lhe permita aceder ao Novas Oportunidades.

    Em todo o caso, deixem-me referir o caso do historiador norte-americano Howard Zinn, que foi piloto-aviador na Segunda Guerra e depois dela, por via de um programa basicamente parecido ao Novas Oportunidades, entrou para a universidade para tirar um curso de história. Será tão mau assim, pergunto, que uma pessoa possa aceder à universidade mesmo sem ter os estudos liceais perfeitos? Será que uma tal pessoa não será mesmo capaz de tirar um curso superior e, até, de se transformar numa personalidade académica respeitada como Zinn?

    1. No RVCC raramente se ensina alguma coisa a alguém. Os candidatos é que têm de mostrar que adquiriram competências ao longo da sua vida pessoal e profissional, daí ser Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências. Em língua estrangeira, por exemplo, se não tiverem as competências exigidas aí terão de fazer formação.

  2. A ironia é que o rapaz usou um buraco tão grande para um objectivo tão pequeno: o curso de Tradução hoje em dia é quase um passaporte para o Centro de Emprego mais próximo, infelizmente. De qualquer maneira, este será um bom exemplo do moderno “método socrático” para a Educação. Já não vale a pena os alunos frequentarem o Ensino Secundário. A prova está à vista de todos.

    1. E melhor, João, deixou de haver exame de Inglês de 12º ano. Os alunos do 12º, se precisarem do Inglês como específica, fazem exame que incide sobre o 10º e 11º anos. Este ano a 2ª fase era ridiculamente fácil.

    2. E como é que sabe que o curso de Tradução é um passaporte para o centro de emprego mais próximo? Por acaso tirou-o e acompanha o percurso dos seus colegas?

  3. Sim, sou professora de Alemão também.
    Quanto às Novas Oportunidades, e tenho experiência também, e se leu bem o meu texto, entenderá que em algumas situações tem sentido. Tem sentido que alguém que ao longo da vida tenha adquirido competências obtenha certificação das mesmas e isto implica muita maturidade e experiência. O mesmo não posso dizer da situação que relato. É injusto que alguém entre para a faculdade com duas míseras horas a elaborar um exame, que, ainda por cima, este ano era escandalosamente fácil.
    Contudo, o processo de RVCC pode ter algum interesse se for bem conduzido. Os Centros têm metas de certificação, se não as cumprirem é-lhes cortado o financiamento e sem financiamento não há Centros, logo há que certificar nem sempre da melhor forma. O que interessa são os resultados. Por outro lado, o referencial tem aspectos ridículos e absurdos como, por exemplo, saber comprar electrodomésticos. Importante, certo?

    1. Certíssimo. Quem não sabe comprar, por exemplo, um aspirador acaba por arranjar um problema pulmonar por andar a aspirar pela boca o tapete da sala… E a Saúde já está pela hora da morte.

      1. Brincas mas é verdade. Cabe na cabeça de alguém que uma das competências seja seleccionar um frigorífico para o comprar ou o funcionamento de um telefone? Cabe, João, cabe.

    2. li num comentário qualquer a essa notícia que o problema passa por diferenciar certificação de qualificação. formar um aluno para ingressar no ensino superior deveria ser uma coisa muito diferente de reconhecer a importância dos saberes (acho que é assim que se diz), e de dar mais alguma formação a quem não teve essa oportunidade.
      anyway, nem toda a gente que entra num curso o acaba. como dizia um miúdo entrevistado há dias sobre ter boas notas, isto não é para todos, é preciso ser um bocadinho inteligente.

      1. Neste processo certifica-se, não se qualifica mas como ficam com o diploma do 12º ano, embora sem nota, podem concorrer ao Superior. É claro que não são as pessoas que estão em causa, o sistema é que não está certo por algum facilitismo, infelizmente, e por estas situações criadas pelo Ministério. Por outro lado, O RVCC tem aspectos interessantes e a experiência que tive foi altamente gratificante. É espantoso ver o empenho e a sede de conhecimento de pessoas a quem a escola foi vedada pelas mais variadas razões.

        1. tenho conhecimento das duas versões de novas oportunidades: a muito fácil e a que exige algum estudo e sobretudo empenho. o que me incomoda é estar dentro do mesmo saco: secundários de dezenas de disciplinas, gente esforçada, gente menos esforçada, e mérito a quem não o deveria ter.
          nota-se muito que estou altamente ambivalente nesta questão? 🙂

          1. A amostra que tenho das Novas Oportunidades divide-se em dois grupos: um grupo é constituído por uma única pessoa, um dos meus melhores amigos, que frequentou os três anos do ensino secundário e acabou por desistir quando viu o diploma do décimo-segundo ano recusado por um erro da secretaria, optou pelas novas oportunidades para acabar enfim, o décimo-segundo ano; e pessoas que vão para la obter o diploma, mas cujos trabalhos não são feitos por elas: normalmente são feitos por filhos, ou outros familiares com instrução mais elevada. No caso em questão, não duvido que tenha sido o próprio rapaz a fazer os seus trabalhos; duvido é que a admissão seja justa para quem passou três anos a estudar para chegar àquele curso (mesmo sendo “suicídio laboral”, passe a expressão).

            1. O que está em questão nem sequer é o rapaz que, pelo que li, também concorda que é uma injustiça e não se importou de dar a cara e não para se vangloriar. O sistema é que não é justo.

          2. E quem não está, Ana Margarida? Não é nada pacífica exactamente pelo que descreves. Respeito imenso as pessoas que se sacrificam em regime pós-laboral para realizar o sonho de concluir estudos. Esta situação caricata do aluno de Esposende serve para ilustrar como se legisla neste país. Por que não exigir mais exames, por exemplo?

  4. Coloco-lhe o seguinte exemplo:
    Eu não terminei o secundário.
    Não fiz nem faço o RVCC.

    Estou inserida profissionalmente numa multinacional alemã.
    Evidentemente que em algum degrau da minha carreira me fará falta alguma formação académica, consoante os meus objectivos profissionais dentro da empresa.

    Devo lamentar-me ad eternum por não ter concluido o secundário e deixar agora novamente passar oportunidades profissionais?
    Ou devo , como disse, enriquecer-me na gratificante experiencia que é aprender?
    Apenas tenho que estudar, muito ! para um, ou mais exames que me sejam solicitados por forma a ter as mesmas oportunidades que a demais (jovem) população…

    O curso escolhido é igual para todos.
    A forma de entrar é que não.
    E uma vez que não é igual… quer-me portanto dizer que no meu caso … “Olha…. estudasses….!”

    Ou quererá a senhora dizer que o que está errado é a forma como o RVCC está direccionado?
    O que está incorrecto é o 12º “de bolso”.
    Isso é fácil.
    E fazer uma prova para uma cadeira da qual nunca se estudou coisa alguma? Será facil? Qual a estatistica de sucesso?

    Quantos entraram com 20 de RVCC, média aceitavel de entrada, e ao fim de um ano de faculdade desistiram por ser areia a mais para a sua camioneta?

    E coloco ainda outra questão…
    O/os exames de acesso, a serem fáceis,… são fáceis para todos…

    1. No comentário imediatamente acima respondo a algumas das suas questões. Se, e apenas se, o processo de RVCC for honesto e competente, não acho mal que pessoas que, por uma razão ou outra, não puderam fazer o Secundário o façam agora. Aliás, vai ser, a partir deste ano, a única forma de conclusão do Secundário para quem não o fez. Se tiver uma ou duas disciplinas ‘penduradas’ pode fazer exame em época especial apenas para estes casos (artigo 357). Depois de analisado o currículo dir-lhe-ão as disciplinas a que se pode propor a exame e assim concluir o Secundário. Já vi o entusiasmo, o esforço, o empenho, o sacríficio de adultos que voltaram à Escola para enfim atingir o que lhes foi vedado antes, portanto só posso concordar com a possibilidade honesta de conclusão de estudos. A questão coloca-se a nível deste caso muito concreto de um aluno de 23 anos que para fugir à Matemática optou pelo RVCC e que com um exame fica acima de todos os outros. Talvez seja improvável que o conseguisse caso quisesse entrar para Medicina.
      Quanto aos exames serem fáceis, eu não disse que os exames eram fáceis, eu disso e repito que o exame de Inglês era disparatadamente fácil. No caso do Alemão não há critério, no ano passado eram absurdamente difíceis, este ano adequados aos dois anos de aprendizagem. Sobre os outros não opino, porque não são a minha área.

    2. Ainda em relação ao RVCC resta-me dizer que acho muito constrangedor que as pessoas tenham de expor totalmente a sua vida privada através da História de Vida, embora o reconhecimento das competências passe, de certa forma, pelo modo como, onde e quando foram adquiridas.

        1. Mas é horrível, porque acabas por te expor completamente, até porque no final há a sessão de júri, uma apresentação pública, com tudo o que isso acarreta. É o preço que se paga pela conclusão do Secundário.

          1. espera lá, que tudo isto é uma novidade para mim. júri para avaliar a minha história de vida? gente a assistir? e há pontos por isso? se a minha história for muito escabrosa, sou recompensada? e se tiver uma vida perfeitamente banal? e se resolver apresentar um argumento a partir de um romance?

            1. O Júri vai certificar as competências que provaste ter adquirido com o teu percurso pessoal e profissional, não é uma avaliação da tua vida. Há um referencial dividido por várias áreas, domínios de referência, e vais ter de provar que foste capaz de intervir em algumas delas e que assim estás em posse destas competências. Todo o processo é acompanhado por vários técnicos. Primeiro um psicólogo com entrevista, depois encaminhamento, nem todos os que se propõem estão aptos para o Secundário, por exemplo, aí são encaminhados pelo técnico para o básico ou para frequentar aulas (chama-se de outra forma). Depois tens um técnico, escapou-se-me o nome, que te acompanha em todo o processo e te orienta. O pressuposto é que foi a tua vida que te facultou as ferramentas e te desenvolveu as competências.
              Acrescento que o referencial, quase um catálogo de competências, é por vezes muito ambicioso e outras disparatado. Como já disse, se for feito como deve ser, com tempo e acompanhamento correcto, não é assim tão fácil.

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