Atravessar a adolescência na década de 70 foi uma corrida, um susto, um espanto, um pavor e uma das mais belas e loucas recordações da minha vida.
Foi como atravessar um deserto de intolerância, repressão e medo, e desembocar num oásis luxuriante pleno de cor, ritmo, palavras soltas e êxtase desmedido.
Abraçar a liberdade sem limites nem imposições, embebedar-se nela, mergulhar de cabeça até perder o pé… foi a época de todas as loucuras, de todos os excessos e de todos os desencantos.
Gratas são as recordações de ver pela primeira vez um concerto ao vivo: Os Genesis, no Dramático de Cascais, a arte cénica do Peter Gabriel, os back vocals do Phil Collins, tão colocados, colados, indistintos, mágicos, como todos aqueles minutos que terminaram cedo demais, no meio de uma multidão ululante que não conhecia bem “The Lamb Lies Down on Broadway”, mas a quem a música falava mundos de entusiasmo e vocalizava em unissonãncia tudo que fazia sentido na vida de quem era jovem.
Gratas são as minhas recordações politico-partidárias, que depois dos percalços do PREC abracei com ímpeto voraz, como se não houvesse amanhã. Como naquele sonho juvenil em que somos sempre o herói no seu alazão de pau, eu fiel às minhas convicções, quando as palavras se envolviam, revolviam e por fim pisavam e feriam, não desejava nada mais do que abarcar uma boa escaramuça, dar o corpo ao manifesto, arranhar, morder, rasgar um par de camisas, pôr gelo num olho azul… valia tudo para fazer valer um credo, um valor, um dogma, uma religião.
A memória mais acalentada, a de encontrar a alma gémea, experimentar pecados loucos, sentir os sentidos a revolver as entranhas enquanto o coração martelava nos ouvidos e saía pela boca em suspiros de perdição. A pele em pelo ansiava pela frescura da lama onde deslizava como veio ao mundo, aquela felicidade que brotava no cabelo em flor daquele Woodstock passado, que só então pudemos visionar.
Depois retornaram os que viviam além-mar. Trouxeram outra alegria, outros ritmos, despiram convenções, ofereceram ilusões em forma de verde, que rapidamente inundaram as ideias e os ideais. Depois foi o princípio do fim do conto dos heróis e ninguém viveu feliz para sempre.

Muito bonito mesmo.
Quanto as memórias dos mesmos anos podem diferir!
As memórias com que ficamos são como lembramos as nossas experiências. Experiências diferentes não podem ter memórias iguais.
não assisti ao maio de 68, mas das suas consequências alguns anos depois. alguém da indústria farmacêutica informou que pouparam muito dinheiro em marketing com a divulgação da pílula durante a manif.
os meus anos de ouro juvenil ocorreram em zonas do interior hoje abandonadas.
com o acréscimo de imigrantes qualquer dia sou um meteco como cantava Moustaqui.
Em 68 não tinha ainda idade para coisas dessas. Deve ter sido o ano em que fiz a primeira comunhão…
De uma energia contagiante, Dulce.
Sim, é importante registar memórias e, acima de tudo, sentimentos.
Beijinho.
No final, se tivermos lembrança das nossas memórias é porque valeram todas a pena de serem vividas, Cristina. Obrigada e bom Domingo. Beijinhos
Sempre um prazer ler os seus postais,MDF
Bom Domingo.
Obrigada Kika. É sempre um prazer vê-la por cá. Bom Domingo também para si e um beijinho.
Gostei muito desta sua partilha, Dulce. Foi um prazer lê-la.
Obrigada, Paula. Boa semana
Um belíssimo testemunho de viver e saber viver, prezada Maria Dulce, porque só sabe viver quem sabe ser grato pelas recordações e pelo bom que foi enquanto durou – sem que a inevitável perda das alegrias do passado envenene a capacidade de ser contente no presente.
Creio até ser esse o principal segredo das pessoas mais felizes: não fazer do passado um cemitério de felicidades póstumas, mas sim um álbum de ‘recuerdos’ a que se regressa de vez em quando, brevemente para não começar a doer.
Gostei muito deste vislumbre do seu animado álbum de ‘recuerdos’.
Dizia o outro que recordar é viver. É um tanto melodramático, mas afinal somos a soma das nossas vivências, que repescamos num aroma, numa cor, num pé de vento, numa palavra, num som… e que nos levam de volta até ” lá” mas com o caminho de regresso bem marcado.
Recuerdos é o que não me falta, Zebra. Boa semana.
Por falar em recuerdos, lembrei-me da Maria Dulce e da maravilha que foi passear consigo pelo Antigo Egipto quando inauguraram agora o Grande Museu… onde nós já tínhamos estado, não é verdade? Reconheci muitas daquelas estátuas e vitrines.
E porque não há recuerdos sem olvidos, espero que a insónia lhe vá dando tréguas. Boa semana!
A insónia tem dias, mas na última semana já dormi 3 dias a 4 horas seguidas…baby steps.
O GEM é para voltar. Tem de ser. Até porque o Tutankhamon foi um desapontamento e agora tem um espaço próprio, iluminado e arejado, e tem centenas de novidades que não pudemos visitar, porque a ala estava encerrada ao público. Vi e revi a cerimónia da inauguração e desejei muito poder ter estado presente. Mas há presentes bem melhores do que passeios, e isso é que é importante.
É bem verdade. Como dizem os ingleses, “first things first”… e a saúde é a “first” das “first things”. A condizer com os “baby steps” da insónia, eheheh.