Façam o favor de ser felizes
Durante muito tempo acreditei na premissa que defendia a infelicidade como consequência da inteligência. Para muitos, a coisa é simples: quem tem neurónios não conseguirá nunca ser feliz. Quem pensa, quem raciocina, quem tem cultura e densidade intelectual está condenado a uma vida amarga, de angústias sempre renovadas. Porquê? Ora, porque a vida é lixada. E, já o povo o diz há anos, «muito riso pouco siso». E só os idiotas é que podem rir quando isto de viver é o que é.
O tanas, digo eu. A tese serve para uma de duas coisas: para justificar a efectiva incompetência de alguns para serem felizes (ou a falta de sorte na vida, vá) ou então dá muito jeito para armar ao pingarelho.
Conheço gente que se comporta, todos os dias, como se a família inteira tivesse falecido na véspera, mesmo quando a vida que tem é razoavelmente tranquila. A um alegre «bom dia» esta gente responde com um misterioso sorriso triste. A um «como vai isso?» vem um encolher de ombros desvalido. E às conquistas da vida nunca existe mais do que um esgarzito amarelo de quem sabe que a tormenta da vida supera sempre a pequena vitória.
Durante muito tempo acreditei nisto. Por um lado porque era adolescente e competia-me ser infeliz. Por outro porque procurar a felicidade dava muito trabalho e era infinitamente mais simples acreditar que pertencia ao grupo dos superiormente inteligentes. Esses que reflectem e que, ao reflectir, não podem ser mais que circunspectos.
Hoje não tenho pachorra para isto. Mesmo. A vida até pode ser lixada. Até pode haver a crise e o FMI e o desemprego e os políticos que temos e o IVA a subir e as contas para pagar e as cheias e o amigo que morreu e a infância conturbada que tivemos e a falta de amor que sentimos e um divórcio litigioso e uma maleita crónica e outras fatalidades que nos vão acontecendo. Pois sim. Mas há coisas piores. Há sempre coisas piores. E estamos cá. E há um céu azul e uma brisa com cheiro a mar e risos de crianças e o abraço de alguém. E o sabor do chocolate e o beijo de um filho e o elogio de quem se admira e um pôr-do-sol no Verão. E a viagem sonhada e a música que nos toca e um encontro de amigos e uma pintura que nos prende o olhar e o brinde a uma boa notícia e o livro que nos comove. E a vida. Não me lixem. A vida pode ser lixada. Mas é a única que temos. Como dizia o querido e saudoso Raul Solnado, façam o favor de ser felizes. Não há maneira mais inteligente de viver.


Subscrevo, Sónia. Nos dias que correm ter um sorriso nos lábios e continuar com a vida é olhado de soslaio. Apesar de algum desânimo há que continuar sempre e relativizar, não porque pode haver pior, mas porque o que alguns de nós têm não é assim tão mau.
Concordo com o que disse a Leonor. Gostei de ler, Sónia.
Adorei o delito da Cocó, escreve mesmo bem esta senhora, é um verdadeiro deleite (e não delito) ler os textos dela!
Concordo plenamente… temos de aprender a apreciar as pequenas coisas maravilhosas que o estado de estar vivo nos proporciona! O chilrear de um pássaro… uma flor no meio do nada… um belo nascer/pôr do Sol… o olhar doce dum desconhecido, daqueles que se cruzam e que nos lê a alma… o respirar, o sentir… enfim… eu faço um esforço para ter um sorriso mesmo em dias em que o danado não quer aparecer! Irritam-me os queixumes diários… já não posso ouvir falar na crise, nos aumentos de tudo menos dos ordenados… o tempo também não ajuda, temos de apelar ao Sol para voltar e nos ajudar a fazer os outros entenderem que tudo se resolve… só a morte não tem resolução! para os que ficam, claro… 🙂
Fantástico texto, Sónia. Identifico-me com cada linha, cada palavra e cada intervalo: eu também eu já fui militantemente infeliz, por atitude, arrogância pateta ou puro diletantismo intelectual. E depois deixei-me disso, porque hoje sei que a vida são dois dias e a felicidade é feita de momentos, que têm de ser bem aproveitados para aguentarmos os “outros”. Se isto é burrice, não me importo nada de ter perdido a inteligência. Tem graça, há uma frase sua neste texto que é o meu lema de vida desde há alguns anos: há sempre pior. A inteligência (e o grande segredo) está em compararmo-nos sempre com quem está pior, e não o contrário.
Bem-vinda ao DO!
Não poderia concordar mais. Acrescentraria ao “Façam favor de ser felizes”, “Façam favor de fazer este país mais feliz”.
Sempre gostei da tua escrita, Sónia. Tanto a nível de ideias como de estilo. Gostei muito que tivesses vindo escrever hoje connosco. Um beijinho.
Sim e não. Sim, quanto a saber aproveitar ao máximo e não procurar a «densidade» através da depressão. Não, se com isso se fecharem os olhos a certos acontecimentos ou circunstâncias (fez-me um pouco de impressão a ligeireza com que o desemprego foi mencionado), só porque «ainda há coisas piores»; a felicidade não se deve sobrepor à responsabilidade.
Concordo, Jaa. Mas isso não está em questão no texto da Sónia, acho eu. O optimismo e a relativização das desgraças não significam alheamento da realidade. Pelo contrário, ajudam a manter uma disponibilidade muito mais útil para os outros.
“Mas há coisas piores. Há sempre coisas piores”
– Não é ” La Palisse”, não! É a vida.
Parabéns pelo texto.
Como concordo!!! Tão verdade.
Concordo 🙂 Mas ao mesmo tempo não posso deixar de pensar que o mal que me atinge é o que aflige. Há pior? Claro, mas com o mal dos outros posso eu bem. Afinal de contas, se eu não choramingar por mim, quem choramingará? lololol
Eu acompanho o blog da Sónia e não podia deixar de vir cá para ler mais um belíssimo texto dela.
Além de concordar com o que diz a Sónia, também costumo aplicar…
Às vezes é complicado porque as pessoas olham-nos como se fossemos tontos ou loucos. E se calhar até somos, mas somos felizes!
Parabéns!
A minha avó -que há muito (mais de 30 anos) partiu – dizia-me que toda a vida – todas as vidas – transporta consigo uma cruz. E contava-me a história de alguém que, achando a sua demasiado pesada, se dirigiu a Deus pedindo-lhe uma mais leve. Deus apontou-lhe o caminho e disse-lhe que era ali que estavam as cruzes. Que entrasse e escolhesse a que mais lhe convinha.
Assim fez: entrou. Pouco depois sairia com a mesma cruz, a sua. É que concluira que todas as outras eram mais pesadas!
grande sonia,como sempre tocou o meu coracao!
verdade o melhor a fazer è mesmo tentar ser feliz ao maximo mesmo com muitas infelicidades pelo meio