Convidado: ANTÓNIO EÇA DE QUEIROZ


Pedro Correia,

 

Infortúnios da linguagem

 

Há palavras portuguesas (ou aportuguesadas) que me irritam de duplicidade, outras que me ofendem pela sua sonoridade, outras que me assinalam o seu utilizador como um perfeito cretino – e por aí fora. Não é certamente uma fatalidade nacional, mas é aqui que vivo e é aqui que as sinto activas, saltitantes, a rabear de boca em boca, de jornal em noticiário, de político em intelectual – seja lá o que esses alargadíssimos conceitos queiram abraçar.

Existem duas que se diz possuírem um significado específico mas que têm outro muito mais adequado e compreensível. Fazem parte do léxico político, mas sujeitam-se a transvases popularicados pelo jornalismo enfatuado e desnutrido e pelos seus principais attachés de presse – os analistas profissionais.

O primeiro é um vocábulo de sonoridade ofensiva e, tanto quanto julgo saber, um anglicismo recente.

Procrastinação – que, no fim de contas, é uma actividade muito próxima da auto-castração (por requisito próprio ou a mando de outrem).

Esta coisa horrorosa podia perfeitamente ser substituída de forma muito mais eficaz em termos de comunicação directa com o povo que se quer conhecedor dos seus líderes – e não exactamente escondido da realidade dos factos, esse semáforo das ditaduras – por termos que todos entendemos à primeira. Tais como o absolutamente nacional empata fodas ou mesmo pelo mais nortenho, regional e humilhante, caga na saquinha – adjectivos todos eles consequentes com o espírito da coisa.

Resolvido o problema da política empata fodas (ou caga na saquinha) e respectivas caixas de ressonância, marra-se logo na primeira esquina com a advocacial inverdade – que realmente não quer dizer aquilo que supostamente quer dizer.

Inverdade utiliza-se habitualmente como forma vagamente polida de chamar ao outro barreteiro – gajo que mete garrunços, trapaceiro, que falseia dados ou os manipula com fins ínvios ou inexplicáveis. Um mentiroso puro e simples, portanto.

Mas o que de facto acontece quando alguém recorre à macia inverdade é que no íntimo, acossado pelas acusações, apenas consegue esbracejar mentalmente um alto lá que isso não foi bem assim!… E lá sai a inverdade!…

Poupo-me a mim e aos que ainda não se fartaram de me ler de citar exemplos da flagrância oculta de tão estúpido vocábulo.

Para acabar (que já chateia), lembro um acontecimento que é feliz no seu sentido específico mas que sai cá para fora deturpado de forma exemplarmente nacional. E parva.

O episódio que me tornou a sua visibilidade insuportável gira à volta da magnífica Livraria Lello, no Porto.

Nada que já não tivesse sido constatado pelas mais variadas publicações: a Lello foi considerada pela editora australiana Lonely Planet como a terceira mais bela do mundo.

No entanto muitos jornais, noticiários e edições on-line fizeram as suas chamadas à primeira página, em alegre e levíssimo disparate, afirmando que a livraria portuense tinha sido considerada como a terceira melhor do mundo. Depois, no miolo, a verdade vinha ao de cima como o velhíssimo azeite. Logicamente.

A única coisa que então me apeteceu fazer quando vi isto – na SIC-Notícias, por exemplo, mas também em jornais ditos de referência – foi escrever aos editores todos de Portugal a dizer-lhes que este país nunca em dias da vida poderá ter a terceira melhor livraria do mundo porque as cem primeiras estão e vão continuar a estar em cidades muito concretas que toda a gente sabe, incluindo eles, quais são.

Não lhes escrevi porque para eles não lhes basta a Lello ser belíssima.

Porque são burros e pretensiosos.

 

António Eça de Queiroz

19 comentários em “Convidado: ANTÓNIO EÇA DE QUEIROZ”

  1. Não posso procrastinar o meu comentário no sentido de sublinhar que não encontro ponta de inverdade neste texto. Da mesma maneira que não é inverdade que, perguntando-se por aí como vão as coisas, invariavelmente ouviremos um ‘vai-se andando’. Ao qual responderemos, em bom português, ‘então, boa continuação’.

    1. Excelente, é isso mesmo Rui, vai-se andando em continuação!…
      O que é terrível é que por vezes somos quase obrigados a dar continuação à continuação. A formalidade retira sentido às palavras, e talvez por isso em Portugal as pessoas não se consigam entender verdadeiramente. Somos (isto é um plágio quase necrofilo-homo-incestuoso!) uns francesitos enfatuados e pomposos muito mal traduzidos para o português!…
      Ainda bem que gostou

    1. João: tem razão, quase. Porque há burros que não são pretensiosos, o contrário é que não….

  2. Muito obrigado pela vossa apreciação, é sempre um prazer escrever para amigos.
    Grande abraço
    (e um beijo para si, Leonor)

    1. Olá António, gosto muito de o ver por aqui. A casa é sua. Beijinhos 🙂
      Subscrevo inteiramente. Não chega apenas ser bonita, há sempre que ser mais do que tudo, superlativos é connosco. Esta mania de bater records para o Guinness é bem ilustrativa. Há que se ser o melhor nem que seja em bolos-rei, cachecóis ou feijoadas.

      1. É, Leonor, o Guiness é a heroína (pura, sem misturas!) do Portugal dos Pequenitos…
        Um ridículo sem solução à vista.

  3. Ui, António, este é um tema muito querido aqui no Delito… sopa no mel, o seu texto!
    Não posso estar mais de acordo com o seu vade retro ao discurso barroco (e bacoco) que por aí se usa.. Ontem, por exemplo, ouvi vinte mil vezes pelo menos a palavra “contratualizar”nas notícias. É como se achassem que complicando a forma o miserável conteúdo valesse mais.

    Ah, e depois dos últimos acontecimentos da fofoca nacional, parece-me que a sua (e minha) palavra odiada passou a dizer-se “procastrinação”…

    Bem-vindo!

    1. Que óptima notícia, Ana, assim pode ser que as coisas entrem um pouco nos eixos!
      (pergunta em surdina: há alguma empresa de saca-rolhas cotada em bolsa?… Cheira-me que ainda vai ser um bom negócio)

  4. Belo texto, Eça, como seria de esperar.
    Uma frase que está na moda, anda na boca do mundo político e jornalístico e que me faz saltar a tampa, até porque tem um significado completamente oposto ao que contextualmente se pretende é:
    “de encontro a…” quando deveria ser “ao encontro de…”
    não entendo como isto é constantemente admissível, ou estarei eu errado?

    1. Alberto, caríssimo irmão d’armas! Ainda bem que gostaste.
      Sobre o «de encontro a» ou «ao encontro de» parece-me que a utilização é aleatória para quem as usa. Acham na maioria dos casos que é o mesmo. Por vezes acertam, mas nunca se saberá bem se foi porque calhou assim ou se de facto sabiam aplicá-la correctamente.
      Enigmas! é o que é.

  5. Outra que não entendo, quando se diz, geralmente em tom coquete: “à séria”!
    Não deveria ser “a sério”?

    1. Para falar a sério, “à séria” nem chega a ser ‘coquete’, mas uma expressão brasileira. Se calhar, agora ao abrigo do desacordo e não será um pecado, mas sempre brasileira.

  6. Como te entendo tão bem, grande e elequente Eça! E o quanto gosto da tua escrita. Foi bom encontrar-te por aqui.
    Um abraço do JPaixão

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