O orgulho ferido de ser do Sporting
O Sporting atravessa uma crise pior, mais profunda, que a das décadas de 80/90. Nessa altura nunca perdi a esperança no clube e nunca temi uma “belenensização”. Acredito que o Sporting é grande o suficiente para ultrapassar esta crise; porém, nunca temi tanto pelo futuro do clube como hoje.
Por que temo? Qual é a razão que leva alguém a ser sportinguista? Não há uma resposta simples, mas basta um pouco de sociologia de almanaque (corroborada por inquéritos e estatísticas) para caracterizar os sportinguistas. No meu caso, basta dizer que, tendo estudado em Lisboa, no ensino primário e básico os benfiquistas estavam em larga maioria na turma, no secundário eram ela por ela com os sportinguistas e no ensino superior os sportinguistas eram uma larga maioria: no meu curso os benfiquistas contavam-se pelos dedos de um pé. Os sportinguistas vencem na vida; por que razão não vence o clube?
Justamente por os sportinguistas estarem muito mais preocupados com as suas vidas do que com o seu clube, ao contrário dos benfiquistas, para quem o clube é tudo. É a chamada “falta de militância”, tão bem diagnosticada pelo anterior presidente.
É este desapego pelo clube que distingue e diria mesmo que dá graça aos sportinguistas. Agora, pode um clube não ser popular e mesmo assim ser grande? A história do Sporting diz que sim. Mas para tal tem que ter bons dirigentes e ser bem dirigido. São duas coisas diferentes.
Por “bem dirigido” entende-se um clube financeiramente viável, que saiba criar talentos e fazer bons negócios, sem vender ou comprar de qualquer maneira. Que tenha objetivos desportivos ambiciosos e realistas. Não é o que se tem visto no Sporting, pelo menos no mandato da direção cessante, com dinheiro gasto ao desbarato na contratação de jogadores, treinadores e sobretudo dirigentes sem qualidade, que contratam os seus amigos à beira da reforma.
Por “bons dirigentes” entende-se dirigentes que entendam a cultura e as peculiaridades do Sporting. Por muito que o Sporting não ganhe tantos títulos como os outros, a postura de vencedores na vida que até ganham de vez em quando é o que mais irrita os nossos adversários (particularmente os benfiquistas). Desde que ganhem – os benfiquistas detestam que o Sporting ganhe; os sportinguistas adoram que o Benfica perca. O que mais irrita os benfiquistas é que no fundo eles admiram os sportinguistas e adorariam ser como eles.
Os dirigentes do Sporting têm que perceber esta realidade e estar à altura dela. Não é o que se tem visto, com declarações inenarráveis – muito piores do que meras gafes – do presidente agora demissionário. Deste que esta direção ainda em funções tomou posse, deu exemplos de péssima gestão – afinal as credenciais do presidente eram as de ter gerido um grande banco, e a presente crise nacional e internacional demonstra que gerir um banco não é sinónimo de ser bom gestor. Mas criou situações inacreditáveis – a lista é infelizmente muito longa: um presidente que manda calar e tenta agredir adeptos que o contestam; um vice-presidente que julga que os adeptos que contestam não deveriam ter lugar no clube; um relações-públicas antigo chefe de claque que instiga a desacatos; um chefe do departamento de futebol autoritário que entra em conflito com os melhores jogadores; a proibição do uso de calças de ganga; mas sobretudo o presidente que acha que ser casado com alguém benfiquista é “uma infelicidade” e que os pais é que escolhem o clube dos filhos.
Todos estes episódios – particularmente aqueles que envolveram o presidente – causaram-me um sentimento que nunca antes sentira: vergonha do meu clube. Voltando ao princípio: nunca – nem durante o longo jejum de títulos de 18 anos – eu temera o fim do Sporting enquanto clube grande, a “belenensização”: se havia algo que caracterizava os sportinguistas, apesar da falta de militância (e da falta de vitórias) era esse orgulho de ser de um clube único. Nos tempos mais recentes, e devido a esta desastrosa direção, ser do Sporting não tem sido motivo de orgulho. O meu desejo para 2011 é que ser do Sporting volte a ser motivo de orgulho o mais depressa possível.



Às vezes sinto-me um bocado daltónico… Mas isso não me impede de gostar de ver aqui o Filipe Moura.
O Filipe Moura que me perdoe (seja bem-vindo!) mas não consigo ler um texto tão comprido sobre futebol. Venho aqui para dar os parabéns ao Pedro pela subtileza da imagem, mas palpita-me que vai haver reclamações e exigências a partir de agora…
se tivesse lido até ao fim, se calhar concluia que o problema deles é preocuparem-se demasiado com o glorioso SLB.
Olhe que não, olhe que não, Chessplayer…
Hum, Ana… se houver reclamações dessas é capaz de ser bom sinal.
“Eles”, quem? Meu caro, se eu tivesse lido até ao fim o mais provável era ter concluído… coisa nenhuma. O próprio tema para mim é um mistério.
faço minhas as palavras do seu amigo PC.
entretanto, vai uma partidinha de Xadrez? dou-lhe de avanço uma peça à escolha, excepto a Dama.
saudações Gloriosas!!
Já deve ter percebido que as provocações são o meu fraco, Chessplayer. Aceito a partida com a ligeireza de quem não sabe jogar xadrez, esperando que alinhe num tabuleiro metafórico. Pode ser?
Escolho o Rei, uma personagem tentadora para uma parada alta. E nunca escolheria a Dama, é uma peça que conheço bem de mais para uma partida justa para si (a não ser que seja também mulher).
Ora avance lá o primeiro peão (prefiro assim, dispenso avanços e quotas…)
🙂
pois… de xadrez percebo qualquer coisinha…
longe de mim vir com provocações.
estava preparado, caso o convite fosse aceito, disputar o jogo por aqui (no campo) no Sul, bem pertinho duma praia, considerada como uma das cem mais bonitas do mundo, depois de um bom almoço acompanhado pela minha água preferida “CARTUXA”.
já agora uma provocação: pode ser com tabuleiro matafórico, mas numa mesa Pé-de-Galo??
proponho o Gambito Evans:
1. é4, é5;
2. Cf3, Cç6;
3. Bç4, Bç5;
4. b4, proponho
4. …, Bxb4;
5. ç3,
entrei nesta onda de comentários, “pensando/dialogando” com o sr. Pedro Correia.
saudações xadrezisticas!!
Assim nada feito, Chessplayer, eu não falo birmanês…
Mas olhe, pelo menos temos uma coisa em comum: essa “água” CARTUXA é também a minha preferida.
Saudações para si também!
Bem antevia eu que haver “reclamações” era um bom sinal…
Um abraço solidário.
Adorei a passadeira verde.
Uma das melhores reflexões que tenho lido sobre o meu clube. Falando de temas de sempre e da espuma actual, com igual pertinência.
Um abraço, Filipe. Julgo que terás gostado da cor da passadeira.
Gostei muito da passadeira, sim, Pedro. Muito obrigado pelo convite. Foi um prazer. Um abraço.
“Belenização” soa melhor.
“No ensino superior os sportinguistas eram uma larga maioria: no meu curso os benfiquistas contavam-se pelos dedos de um pé.” Sinceramente, essa alfinetada subtil aos benfiquistas prova não sei o quê…
“O que mais irrita os benfiquistas é que no fundo eles admiram os sportinguistas e adorariam ser como eles.” Nada mais errado. O que nós benfiquistas admiramos no Sporting, é a sua capacidade camaleónica para abater o Benfica: seja com alianças fratricidas (Plano Roquette), seja com políticas desportivas miseráveis que reforçam um adversário directo (caso da “maçã podre”).
Acredite que o futebol português ganhava mais com um SLB/SCP unidos na luta pelo bom nome do futebol português. Onde estava o Sporting CP no caso “Apito Dourado”? Onde estava o apoio dos sócios a Dias da Cunha quando este quis enfrentar o capo do norte?
“ambiciosos e realistas”
Este é o busílis da questão. Para ser ambicioso, é preciso uma componente de sonho, uma margem de irrealismo onde os adeptos encontrem a motivação para acreditar em algo maior, e assim empenharem-se de corpo e alma.
Vejo no Sporting um paralelismo com o pragmatismo dos nossos dirigentes politicos e económicos. Não vêem para lá do deve e haver ao fim do mês. E o povo, deixa de sonhar…
“Justamente por os sportinguistas estarem muito mais preocupados com as suas vidas do que com o seu clube, ao contrário dos benfiquistas, para quem o clube é tudo.”
belo pedaço de sociologia de taberna
“belo pedaço de sociologia de taberna”
De facto eu almoço todos os dias numa.
Sou sócia há 25 anos, era criança quando o Sporting começou o jejum de 17 anos e há de facto algumas semelhanças entre esse período e a actualidade. Desde logo, a falta de competitividade do futebol. Este está no ponto mais baixo dos últimos 25 anos, sem dúvida. O mais aflitivo é a diferença de potencial financeiro do plantel. Os rivais vendem jogadores por 20 ou 25 milhões de euros e nós neste momento não conseguimos vender um único jogador nem por 5 milhões de euros! Assim é impossível ser competitivo. Se este ciclo não for invertido, vamos estar muito mais anos sem ganhar o campeonato. Depois, há também um vazio de liderança. O Sporting há muito que não tem um presidente à altura da sua grandeza e prestígio.
Mas o problema não é só os dirigentes. Acrescento:
– Falta de cultura desportiva. Não se apoia os atletas do clube, nem se respeita os mesmos e a equipa técnica. Os sportinguistas em geral não proporcionam um ambiente fervoroso em favor do clube, nem intimidativo para o adversário, a não ser em jogos grandes, especialmente contra o benfica, em que até ao maior “queque” salta a tampa.
– Falta de cultura competitiva. Há adeptos para quem está sempre tudo bem. Tanto faz ganhar 2-0 como perder 5-0, aplaude-se na mesma. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
– Uma “nova” geração de adeptos que está “viciada” na internet, e que é imediatista, intolerante e não sabe dar o valor a nada. É tudo “fácil” e a estrutura do Sporting tem sempre todos os defeitos. Quem escreve num blogue (sem desrespeito para o Delito de Opinião), no facebook, ou noutra coisa qualquer, é que “sabe”.
– A oposição profissional. Gente oportunista e irresponsável, que nunca aceita o resultado das eleições, e que se serve da desestabilização que os nossos adversários criam contra o Sporting para os seus propósitos de atingir o poder no clube a todo o custo. São também responsáveis pelos inêxitos no futebol, porque contribuem para criar um ambiente difícil que inferioriza o Sporting na sua casa.
– A Juventude Leonina. Aqueles “rapazinhos”, alguns já quase com idade para ser avôs, precisam de ser postos na ordem. Claque apoia, não interfere na gestão.
Temos de mudar, de alto a baixo, porque assim não somos um clube talhado para ganhar com regularidade.
Diz um grande amigo meu: política e desportivamente todo o indivíduo que se assume “ista”, socialista, etc., não é ele próprio mas aquilo que os outros querem que ele seja.
Fazendo jus a esta “profecia” limito-me a simplesmente gostar do Benfica.
Nessa qualidade, repito o que aqui alguém já disse, onde esteve o Sporting na luta travada contra o “sistema”, tantas vezes denunciado pelo então presidente Dias da Cunha?
Quem cala, consente. E foi precisamente esse calar, essa antecipada assunção da derrota, a ausência de espírito ganhador, que levou o Sporting ao actual estado.
O Benfica é do Povo, o Sporting ainda mantém uns resquícios de uma certa burguesia decadente. Para que raio serve o Conselho Leolino? Para diluir responsabilidades dos fracassos desportivos?
No entanto desejo que o Sporting se recomponha desta situação, pois quanto mais forte forem os clubes melhor será o desporto em Portugal.
Quem primeiro denunciou o sistema foi Dias da Cunha, presidente do Sporting. Foi o Sporting com ele quem primeiro lutou contra o sistema, não tendo tirado proveito algum disso, pelo contrário.
O benfica apenas denuncia o sistema do porto para substitui-lo por outro igualmente pôdre em seu favor.
Quanto ao “povo” e à burguesia decadente, isso é romantismo lampiónico. São ambos portugueses por isso deixam desde logo muito a desejar. De resto, no seu clube também não falta gente parva, ou não fossem as dondocas todas, desde a Lili Caneças à Cinha Jardim, passando pelos três fedorentos lampiónicos, ou outros do “jet-oito”, uns queques dos pés à cabeça, que acusam o Sporting de ser um clube de betos, mas ninguém os vê fazer vida de “povo” ou andar junto deste. Garganta há muita.
E se o desapego ao clube for uma consequência e não a causa?