Que fortes reis façam forte a fraca gente
#1 Portugal vive um dilema quase milenar. Dificilmente sairemos dele e dificilmente dele quereremos sair. Vivemos numa espécie de dogma social tacitamente assumido. Um dogma conceptual em que definimos critérios fixos de opinião sobre a imagem dos outros, sem que nenhum novo ingrediente nos consiga alterar essa imagem pré-existente. Acontece isso, frequentemente, com os actores políticos. Definimos, a priori, etiquetas de honestidade e de desonestidade que funcionam com dados na discussão, os quais o Português nunca questionará. Vidrado que está na segurança das certezas. Portos de abrigo. Mais do que nunca os questionar, insurgir-se-á sempre que alguém o desafiar. Honestidade-autocolante, desonestidade-autocolante e assim sucessivamente. Uma dança de pilares imóveis e estanques.
#1.1 Aconteceu isto com Sócrates e, agora, com Cavaco.
#2 Há, ao mesmo tempo, um problema grave na discussão pública dos problemas sociais e económicos. Verifica-se, gritantemente, uma distância entre o nível a que os assuntos são discutidos – tele-discutidos, sobretudo – e a real complexidade das matérias, nas várias áreas.
#3 Cavaco Silva disse esta semana: «Pensem bem o que significa alhear, deixar àqueles que são mais medíocres, àqueles que têm menos conhecimentos e capacidades, aqueles que são menos sérios, o poder de decisão». De entre as várias hipóteses, a que mais me convence é aquela em que Cavaco – naquela linguagem só dele – pretende dizer que Portugal terá que o reeleger para que os medíocres, os que têm falta de conhecimentos e capacidades, os que são menos sérios, não se apropriem do poder. Ora, isto de não podermos pôr em causa a seriedade de Cavaco e Cavaco poder pôr em causa a seriedade de toda a gente tem um nome, e não é bonito. A proclamação teórica da honestidade quando não acompanhada da prática é a maior de todas as desonestidades. Não passa de um acto de fé, digno da mais descabelada de todas as seitas.
#3.1 Não acredito naquilo que toda a gente diz que acredita.
#3.2 Não gosto de Fiates. Não gosto de Fiates, convencidos que são Ferraris.
#4 Existe em Portugal, de forma latente, um relativo problema de convivência com o sistema democrático. Vociferamos, constantemente e em coro, contra a qualidade dos actores políticos, numa espécie de cínica revolta contra a vil tristeza da tribo. Todo este conceito é antigo. «Fraco rei faz fraca a forte gente». Isto já vem de há muito. Ora, se fraco rei faz fraca a forte gente, que se erga a forte gente para que se tornem em fortes reis e façam forte a fraca gente. É impossível ter fortes reis com fraca gente, e é improvável ter sempre fracos reis com tão forte gente. Portugal vive nesta difícil nuvem de convivência em que o poder está acessível a todos. Não raramente, verificamos que os que mais se insurgem contra a mediocridade dos actores políticos são precisamente aqueles a quem nunca ninguém vislumbrou vontade ou generosidade para – democraticamente – colocarem a sua luz sobre o destino de tudo isto. Por outro lado, o português médio vive na crença surreal de que a dezena e meia de governantes é o epicentro único deste sismo nacional, numa espécie de desresponsabilização colectiva pelo desastre. Acredita-se, em massa, que tudo em Portugal transpira competência e trabalho, desde a mais subterrânea fábrica de parafusos ao mais elegante escritório de consultoria à americana. Tudo é urdido à força de pestanas e de suor. Depois, paralelamente, quinze mascotes de incompetência impedem o futuro glorificante deste país magnífico, trabalhador e produtivo. Em último caso, são as eleições que legitimam as orientações e os protagonistas. E aqui, os Portugueses optam por dois caminhos: ou (i) legitimam os discursos ficcionais dos políticos, tornando-os profundamente democráticos; ou (ii) não demonstram qualquer vontade de assumir o comando, tornando-se profundamente alheados.
#4.1 É-me difícil conviver com o facto de ser a demagogia a mais comum arma de arremesso dos eleitores para com os eleitos. Usada como forma de justificar um certo eleitoralismo dos segundos em relação aos primeiros. No entanto, é no eleitor que se produz o efeito do exercício demagógico, o que nos conduz a um problema de risco moral em desfavor da inteligência destes.
#4.1.1 A rapariga usa batom vermelho como forma de atrair o rapaz. A rapariga está interessada no rapaz e jantará com ele logo que ele queira. O rapaz diz aos amigos da faculdade que não gosta de raparigas com batom vermelho. Diz que é uma marca das raparigas vulgares. De quatro em quatro anos convida-a para jantar.


Muito bom.
É nestas alturas – em que nos vestimos de constitutintes – que tudo vem claramente ao decimo… Emergimos no esplendor (novo-rico? falido?) da nossa capacidade de exercício político. E de repente fica tudo tão claro, na velha dialética entre eleitores e eleitos.
Toca num ponto essencial, para mim: «é impossível ter fortes reis com fraca gente, e é improvável ter sempre fracos reis com tão forte gente».
Quando é que toda esta lucidez distanciada e, sim, saudável, começa a ser menos agradável e mais incómoda?
Quando temos de escolher. – Porque há que escolher, não é? De entre os fracos reis, nós, a forte gente…
Muito Obrigado, Laura. Foi um grande prazer estar hoje na vossa companhia. Parabéns a Delito pela qualidade.
Um abraço,
João Teago Figueiredo
Excelente texto, caro João. Foi com muito gosto que te recebemos hoje aqui.
Abraço.
Muito Obrigado, Pedro. Foi um grande prazer aceitar o convite. Parabéns pela qualidade a que este blogue sempre nos habituou.
Um abraço,
João Teago Figueiredo
Gostei de ler. Parabéns, João Teago.
Muito Obrigado, João.
Um abraço,
João Teago Figueiredo
Bom texto João!! Vem em boa altura, pode ser que ajude, hoje, no dia da Reflexão! Abraço!
Muito Obrigado, Ricardo.
Um grande Abraço,
João
Gostei muito do texto. Os meus parabéns.
Muito Obrigado pelas palavras, Pedro.
Um Abraço,
João
Muito bom delito, camarada. Como era de esperar, aliás. Grande abraço, apesar de atrasado.
Muito Obrigado, camarada.
Um abraço,
João
Texto muito bom! Parabéns!