Convidado: JOÃO TEAGO FIGUEIREDO


Pedro Correia,

  

 

Que fortes reis façam forte a fraca gente

 

#1 Portugal vive um dilema quase milenar. Dificilmente sairemos dele e dificilmente dele quereremos sair. Vivemos numa espécie de dogma social tacitamente assumido. Um dogma conceptual em que definimos critérios fixos de opinião sobre a imagem dos outros, sem que nenhum novo ingrediente nos consiga alterar essa imagem pré-existente. Acontece isso, frequentemente, com os actores políticos. Definimos, a priori, etiquetas de honestidade e de desonestidade que funcionam com dados na discussão, os quais o Português nunca questionará. Vidrado que está na segurança das certezas. Portos de abrigo. Mais do que nunca os questionar, insurgir-se-á sempre que alguém o desafiar. Honestidade-autocolante, desonestidade-autocolante e assim sucessivamente. Uma dança de pilares imóveis e estanques.

#1.1 Aconteceu isto com Sócrates e, agora, com Cavaco.

 

#2 Há, ao mesmo tempo, um problema grave na discussão pública dos problemas sociais e económicos. Verifica-se, gritantemente, uma distância entre o nível a que os assuntos são discutidos – tele-discutidos, sobretudo – e a real complexidade das matérias, nas várias áreas.

 

#3 Cavaco Silva disse esta semana: «Pensem bem o que significa alhear, deixar àqueles que são mais medíocres, àqueles que têm menos conhecimentos e capacidades, aqueles que são menos sérios, o poder de decisão». De entre as várias hipóteses, a que mais me convence é aquela em que Cavaco – naquela linguagem só dele – pretende dizer que Portugal terá que o reeleger para que os medíocres, os que têm falta de conhecimentos e capacidades, os que são menos sérios, não se apropriem do poder. Ora, isto de não podermos pôr em causa a seriedade de Cavaco e Cavaco poder pôr em causa a seriedade de toda a gente tem um nome, e não é bonito. A proclamação teórica da honestidade quando não acompanhada da prática é a maior de todas as desonestidades. Não passa de um acto de fé, digno da mais descabelada de todas as seitas.

#3.1 Não acredito naquilo que toda a gente diz que acredita.

#3.2 Não gosto de Fiates. Não gosto de Fiates, convencidos que são Ferraris.

 

#4 Existe em Portugal, de forma latente, um relativo problema de convivência com o sistema democrático. Vociferamos, constantemente e em coro, contra a qualidade dos actores políticos, numa espécie de cínica revolta contra a vil tristeza da tribo. Todo este conceito é antigo. «Fraco rei faz fraca a forte gente». Isto já vem de há muito. Ora, se fraco rei faz fraca a forte gente, que se erga a forte gente para que se tornem em fortes reis e façam forte a fraca gente. É impossível ter fortes reis com fraca gente, e é improvável ter sempre fracos reis com tão forte gente. Portugal vive nesta difícil nuvem de convivência em que o poder está acessível a todos. Não raramente, verificamos que os que mais se insurgem contra a mediocridade dos actores políticos são precisamente aqueles a quem nunca ninguém vislumbrou vontade ou generosidade para – democraticamente – colocarem a sua luz sobre o destino de tudo isto. Por outro lado, o português médio vive na crença surreal de que a dezena e meia de governantes é o epicentro único deste sismo nacional, numa espécie de desresponsabilização colectiva pelo desastre. Acredita-se, em massa, que tudo em Portugal transpira competência e trabalho, desde a mais subterrânea fábrica de parafusos ao mais elegante escritório de consultoria à americana. Tudo é urdido à força de pestanas e de suor. Depois, paralelamente, quinze mascotes de incompetência impedem o futuro glorificante deste país magnífico, trabalhador e produtivo. Em último caso, são as eleições que legitimam as orientações e os protagonistas. E aqui, os Portugueses optam por dois caminhos: ou (i) legitimam os discursos ficcionais dos políticos, tornando-os profundamente democráticos; ou (ii) não demonstram qualquer vontade de assumir o comando, tornando-se profundamente alheados.

#4.1 É-me difícil conviver com o facto de ser a demagogia a mais comum arma de arremesso dos eleitores para com os eleitos. Usada como forma de justificar um certo eleitoralismo dos segundos em relação aos primeiros. No entanto, é no eleitor que se produz o efeito do exercício demagógico, o que nos conduz a um problema de risco moral em desfavor da inteligência destes.

#4.1.1 A rapariga usa batom vermelho como forma de atrair o rapaz. A rapariga está interessada no rapaz e jantará com ele logo que ele queira. O rapaz diz aos amigos da faculdade que não gosta de raparigas com batom vermelho. Diz que é uma marca das raparigas vulgares. De quatro em quatro anos convida-a para jantar.

 

João Teago Figueiredo        

13 comentários em “Convidado: JOÃO TEAGO FIGUEIREDO”

  1. Muito bom.
    É nestas alturas – em que nos vestimos de constitutintes – que tudo vem claramente ao decimo… Emergimos no esplendor (novo-rico? falido?) da nossa capacidade de exercício político. E de repente fica tudo tão claro, na velha dialética entre eleitores e eleitos.
    Toca num ponto essencial, para mim: «é impossível ter fortes reis com fraca gente, e é improvável ter sempre fracos reis com tão forte gente».
    Quando é que toda esta lucidez distanciada e, sim, saudável, começa a ser menos agradável e mais incómoda?
    Quando temos de escolher. – Porque há que escolher, não é? De entre os fracos reis, nós, a forte gente…

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