CR7 e o seu abandono da Selecção Nacional


Paulo Sousa,

Há poucos dias atrás falei aqui sobre o facto de Ronaldo, aos 41 anos, continuar a ser convocado para a Selecção Nacional.

Depois disso, foram vários os desenvolvimentos e, conforme o Pedro Correia já aqui registou, tornou-se impossível não se ter conhecimento deles. Por não ter entrado no jogo com a Noruega e após as declarações de Jorge Jesus, CR7, o capitão de equipa, falhou o treino e abandonou o estágio no seu avião particular.

As conversas de café vivem de assuntos deste calibre e até o Primeiro Ministro já mergulhou na panela mediática. As redes sociais, sempre ao rubro, foram assim injectadas com o nitro que nos jogos de vídeo transformam os carros de Fórmula 1 em aviões e existe sempre imaginação para mais uns lotes de mêmes e piadólas.

Tornar pública a minha reflexão sobre tudo isto não irá resolver coisa nenhuma, mas, enquanto direito que me assiste, avanço com ela.

Estrelas altamente mediáticas, como é o caso de Cristiano Ronaldo, são uma mistura do indivíduo, que tal como cada um de nós é enfermo das suas humanidades, com um objecto de marketing especializado em angariar visualizações, sem que existam fronteiras nesta mistura. A marca global confunde-se com a pessoa e é assim que se cria uma entidade compósita. Imagino que para o próprio seja difícil distinguir estas duas naturezas e isso terá implicações até na ideia que fará de si próprio.

Enquanto adepto pouco praticante do futebol, vergo-me ao profissionalismo, à ambição e aos resultados alcançados por Cristiano Ronaldo na sua carreira. As suas origens humildes, que não esconde, reforçam esta minha opinião. Tem talento sim senhor, mas jogadores talentosos há muitos e nenhum outro da sua geração o ultrapassa na capacidade de entrega.

E foi perante toda esta combinação de características que aqui lamentei a sua incapacidade em entender que está na hora de se retirar. O momento adequado teria sido após o Mundial, eventualmente no jogo com o País de Gales no Estádio de Alvalade, de onde partiu para o mundo. Ninguém lhe iria negar muitíssimos aplausos de pé, aos quais eu me juntaria e com empenho. Ele acenaria para as bancadas, em lágrimas, como se exige a um veículo de marketing especializado em vender emoções. No dia seguinte iria amanhecer de novo, a imprensa internacional teria assunto para as suas capas, o algoritmo estaria em brasa e ele poderia ir fazer o que quisesse, nem que fosse regressar à Arábia para sacar mais uns milhões e, entretanto, lá marcar o milésimo golo.

Tudo isto seria bastante provável, mas para pessoas com características diferentes das dele. Como disse acima, a combinação de características não tem fronteiras e poucos são os que conseguem ser Álvaro de Campos de manhã, Ricardo Reis depois do almoço e Alberto Caeiro à noite. Tal e qual como as boas personagens de um romance, Ronaldo é excessivo e contraditório e é por isso que não se consegue ser indiferente a ele e eu estou para aqui a debitar teorias.

22 comentários em “CR7 e o seu abandono da Selecção Nacional”

  1. “está na hora de se retirar. O momento adequado teria sido após o Mundial”

    Não. Dever-se-ia ter retirado muito antes disso.

    Porquê? Porque ele é como (dizem que é) o eucalipto: seca tudo à sua volta. Ou seja, com ele em campo, todos os jogadores da seleção jogam para ele, em vez de jogarem para a seleção. E, como consequência, já comprovada em bastantes jogos (o último dos quais ontem), a seleção joga muito melhor e marca muito mais golos sem Ronaldo do que com Ronaldo.

    Já há muitos anos que era evidente que Ronaldo prejudicava a seleção. Ele dever-se-ia ter retirado para não a prejudicar mais e mais e mais, repetidamente.

    Esperemos que, agora, deixe de o fazer de uma vez por todas.

    1. “Já há muitos anos que era evidente que Ronaldo prejudicava a seleção.”

      Precisamente. Mas quem o tinha de o retirar era o seleccionador e a FPF-
      Tivemos uma prestação desperdiçada no Mundial onde tinhamos uma grande oportunidade mas com a selecção a jogar mal muito por causa de Ronaldo ter sido escolhido.

      1. As receitas que ele gera, ou tem gerado, para a federação tem lhe permitido pôr e dispor das decisões do selecionador. Num certo angulo de observação podemos ver nisso mais uma consequência da falta de prosperidade do país.

  2. “Só os grandes o sabem ser”. Ronaldo foi demasiado pequeno tolhido pela ganância de chegar aos 1000. Jorge Jesus esteve à altura e foi exemplar.no seu posto.

  3. Naquilo em que encontrou resistência (no futebol e a sua técnica) teve de lutar, porfiar e aprendeu (muito!). A nadar em dinheiro reuniu uma legião de seguidores acéfalos. O resultado foi que face àquilo que não é mais do que uma contrariedade trivial na carreira de um futebolista, nem a porcaria de um estágio foi capaz de aguentar até ao fim. O resto é palha.

    1. Um excesso pouco ponderado a que se pode dar ao luxo de cometer. Os comuns mortais que o imitem, arriscam bem mais.

  4. Detesto ver o melhor jogador do Mundo e arredores a revelar uma grande imaturidade, apesar dos seus 41 anos, e a não saber assumir e aceitar que já deveria ter-se retirado da Selecção; e detesto, igualmente, ver um seleccionador nacional armado em gabarolas, em “carapau de corrida”, a apregoar o seu “infinito poder e sapiência”… Um verdadeiro líder não precisa de apregoar nada…

    E como ambos são uns egocêntricos patológicos, estamos neste espectáculo deplorável, que não abona a favor de ninguém…

    1. O JJ é outra personagem de romance num mundo onde mesmo com pouca racionalidade se pode ser bem sucedido. Estão bem um para o outro.
      Insistir que são ídolos do povo, diz mais do povo do que dos próprios. Mas gosto de os ver a fazer aquilo em que são bons.

      1. “Estão bem um para o outro.”

        Concordo, Paulo.
        Aliás, já tinha deixado essa ideia no texto do Pedro Correia “De monotema em monotema” , quando aí afirmei: Uns e outros merecem-se reciprocamente…

    2. Esqueceu-se de incluir aí outro que se acha a “última bolacha do pacote” e que se chama Pedro Proença. Basta ouvir um pouco das escutas que circularam recentemente por aí e percebe-se bem a fibra do sujeito. Três tipos com o rei na barriga, só poderia correr mal.

      1. Nunca perdi um segundo a ouvir tal figura. A fauna rasteira que pulula à volta da bica da FPF é uma metástese do mundo da bola.

    3. PS: contudo entre os 3, apenas um e só um foi verdadeiramente o melhor por várias vezes e se pode gabar de se sentar na mesma mesa dos melhores de sempre, como Pelé, Maradona, Messi, Cruijff,… os outros nunca perto sequer estiveram disso.
      Enfim, Ronaldo na minha opinião já deveria ter saído, no entanto, acho triste a forma como tudo foi feito. É como se fosse aquele sr lá da empresa que trabalhou 40 anos lá sempre em grande nível mas que depois, ao se mudar uma tecnologia qualquer, a que ele não se adaptou se empurra borda fora como se fosse um objeto e sem sequer uma palavra de consideração. É triste!

      1. Acredito que ainda venha a haver uma aproximação com o devido agradecimento por tantos milhões de receita proporcionados à FPF. Algum público aplaudirá sempre, e outro criticará sempre. Sem surpresas.

  5. (Registo de chamada interceptada. Sexta-feira, 23h45. O Primeiro-Ministro liga a Jorge Jesus).

    Primeiro-Ministro (PM): Estou? Ó Mister Jorge, que merda é esta? O Serviço Nacional de Saúde a implodir, os professores em greve, e o senhor cria-me uma crise de Estado com um reformado de 41 anos?

    Jorge Jesus (JJ): Ó xôr Primeir-Ministre, muito boa tarde. Quê dizer… as pessoas na política têm a vossa tática, mas no campo quem tem os pacíficos da operação é o cérebro do Mister. O Ronaldo, prontos, já tem quarenta e um anos. Já não tem a frescura físga para o meu futebal de nota artística. Eu no balneário fui claro: “Ó Cris, o teu físico já só dá para vender champô!” O gajo não encaixou o bitaite e abalou no jacto dele.

    PM: Mas o senhor é doido? A ideia era eu fazer um tweet a dar-lhe um abraço e a malta esquecia instantaneamente o aumento dos combustíveis. Mas não, o senhor abre a boca, dá aquelas declarações e ele mete-se no jacto!

    JJ: Exatamentes! E é aí que entra a minha visão de jogo, xôr Ministre! Quê dizer… eu, no fundo, tou a ajudar o Governo!

    PM: A ajudar? Como, sua besta quadrada das quatro linhas?

    JJ: Pense bem nos meus pacíficos: vocês andam aí aflitos, com o défice, com a oposição a morder os calcanhares… e o povo agora está-se nas tintas! O povo quer é saber porque é que o Cris deu de frosques! Eu tirei o foco do buraco financeiro e meti o país inteiro a discutir se eu devia ter metido o Ronaldo ou não. Está tudo escrítch nas estrelas!

    PM: (Pausa. Ouve-se um suspiro profundo e o barulho de quem acaba de engolir um Rennie a seco.) … Sabe que mais, ó Jorge? O senhor é um génio.

    JJ: Prontos. É o que eu ando a dizer desde que treinei o Braga.

    PM: Olhe, mantenha a pose. Se lhe perguntarem, diga que eu lhe telefonei para acompanhar a situação com “profunda consternação institucional”. E nas próximas declarações, chame-lhe velho outra vez. Preciso dessa sua visão de jogo até eu conseguir aprovar o Orçamento do Estado.

    JJ: Pode tar descansado, xôr Ministre. Com o Jesus, o espetáculo tá garantido. Um abraço e não me chateie mais com o menino da Madeira, que eu agora tenho de ir ver vídeos tácticos de uns gajos da Noruega.

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