Crise? Qual crise?


Carlos Barbosa de Oliveira,

 

 

Não deve ter havido ainda nenhum canal de televisão, rádio, revista, jornal ou folha de couve que não tenha abordado as alterações do comportamento dos consumidores face à crise.

Ao pequeno almoço a televisão informa que os consumidores já só comem cereais de linha branca; a meio da manhã uma dona de casa desesperada lamenta aos microfones da rádio já só comer carne branca (seja lá o que ela quer dizer com isso); à hora do almoço leio no jornal que os portugueses estão a substituir a carne por enlatados  (fico logo a pensar como é que o governo irá resolver o problema da ferrugem que ameaça invadir as nossas entranhas); quando regresso a casa aproveito a viagem de metro para  folhear as páginas de uma revista cuja leitura ficou em atraso e, entre as lamentações de duas obesas, pela carestia de vida, salta-me um anúncio de uma cadeia de supermercados anunciando promoções.

Chego a casa, ligo a televisão para ver o telejornal, fico a saber que os portugueses trocam o peixe e a carne por produtos congelados (quanto tempo nos falta para saber  os efeitos no nosso organismo da mistura da ferrugem dos enlatados com o excesso de gelo?) e depois do jantar venho até à blogosfera onde felizmente não se fala destas coisas.

Antes de  me deitar dou uma vista de olhos pelo “Expresso” que não tive paciência de ler durante o fim de semana e… Hélas! Na última página o artigo que me faltava ler: “Consumo – Apertar o cinto”. Entre alguns conselhos que eu me fartei de dar em revistas da especialidade, ainda a crise vinha longe, descortino uma conversa com a responsável pelo gabinete de sobreendividamento da DECO*.

O(a) jornalista pergunta-lhe quais são as principais alterações nos hábitos de consumo, Natália Nunes não se faz rogada e responde “os consumidores começam por cortar nos produtos básicos; trocam os caros por outros mais baratos e…. Suspense…. reduzem as necessidades mais superficiais como… ir ao cinema.

Extraordinário! Para os consumidores portugueses (pelo menos na opinião de Natália…) ir ao cinema é uma necessidade superficial. Provavelmente tão superficial como ler um livro. Compreende-se: mais vale passar o ano a comer atum Bom Petisco, hamburguers, congelados Continente e moelas de frango do aviário do Freixial, do que trocar as férias em Cancún pelo parque de campismo de Monte Gordo.

Mais vale ler as revistas da DECO –  que até oferece um daqueles aparelhómetros supérfluos a quem fizer a assinatura de uma revista no prazo de 10 dias – do que perder tempo a ler um livro ou ir ao cinema. Essencial,  para os portugueses, é continuar a fazer turismo no Verão, em praias distantes, onde podem conviver com milhares de outros portugueses que se acotovelam nos bares e restaurantes e lutam por 10 cms de areia para estender a toalha. O português não gosta de atravessar o Atlântico sozinho, quer sentir o calor humano dos compatriotas, ter um ombro luso onde carpir as mágoas pelo tufão que lhe estragou as férias – pagas em 11 prestações – e só lamenta a falta da sardinha assada e do garrafão de tinto, para ter umas férias perfeitas. A DECO podia aproveitar a embalagem e explicar aos portugueses que com o turismo não se aprende nada. Quem quiser conhecer o mundo e ter uma visão diferente da vida deve é viajar, mas isso é muito complicado para a DECO. E para a maioria dos portugueses também…

Depois, temos ainda aqueles quebra-cabeças que ajudam a perceber a crise.

* Para quem não saiba, a DECO é uma associação de consumidores  especializada em campanhas de marketing agressivas em que oferece produtos supérfluos, a quem assinar as suas revistas (algumas delas também supérfluas).

20 comentários em “Crise? Qual crise?”

  1. Ó…ó a crise é tão grave que o engenheiro Sócrates deixou de ir fazer safaris fotográficos ao Quénia e ski à Suíça…

  2. Crise? Qual crise? Pergunto-me eu inúmeras vezes!
    Estou a cuidar dos meus pais, em casa deles, numa vila/aldeia junto ao mar.
    O quintal da casa tem mais de uma centena de árvores de fruta, tais como laranjeiras, tangerineiras, limoeiros, macieiras, pereiras, ameixoeiras, pessegueiros, diospireiros, Kiwis, phisalis, etc. etc. muitos frutos.
    São de boa qualidade e biológicas, sem pesticidas.
    Como em todo o lado há pessoas desempregadas e a viver mal.
    Muitas vezes digo a essas pessoas para virem cá a casa apanhar as frutas, conforme as épocas.
    Não aparece ninguém… e é tudo oferecido!

      1. Leonor, neste momento as physalis que foram podadas estão a rebentar e os frutos que cairam na terra e largaram as sementes estão a nascer.
        Já tive que mondar as minhas. Eram às centenas!

  3. Os exemplos que têm sido apresentados na comunicação social são ridículos. É que ainda não percebi qual o sacrífico de se tomar o pequeno-almoço em casa em vez de no café ou de se comprarem produtos brancos em vez dos de marca. É apenas uma questão do mais puro bom senso.

  4. O engraçado é que, habitualmente, para quem tem algumas garantias de manter o emprego e não vir o salário baixar, estes são tempos de bonança. Os preços tendem a descer e os salários vão-se mantendo.

    Quanto a esses cortes todos já os acho naturais. Cresci com esse tipo de vida (fui adolescente no fim dos anos 80 e início dos 90) e habituei-me ao peixe e carne congelada, a usn enlatados de tempos a tempos e a Nestum, muito Nestum.

    Já quanto às férias, não sei o que dizer. É verdade que não estou em Portugal, mas dos meus amigos e das pessoas com quem falo quando aí vou, quase toda a gente diz que vai fazer férias ao Algarve (ou a Espanha, que até é mais barata) ou à Nazaré (sou de Leiria) e quase ninguém fala em destinos exóticos. Mas enfim, gosto de pensar que tenho amigos sensatos…

    1. Nem imagina como os aviões vão sempre cheios para o Barsil, Cuba, Cancun e México, durante o Verão. E agora na Páscoa, as agências de viagens annciaram que, apesar da crise, grande parte da oferta que tiham para este período, simplesmente esgotou!

  5. Que ele há crise, há, embora o problema seja o de que, como é por aqui dito, nem sempre os exemplos apresentados sejam os melhores mas isso, penso, também deve resultar do horizonte geográfico e social dos entrevistadores!

    Por outro lado, notei nos comentários que há quem tenha um pomar carregado e que, aparentemente, ninguém quer colher. Tem sorte, digo eu.
    A minha mulher, no quintal da mãe, tem um projecto de horta e não raras vezes é visitada por amigos do alheio!

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