Apresentação de caso hipotético:
Estão a ver a A1? É aquela auto-estrada que liga Lisboa ao Porto. Com variações ao longo do dia, mantém um tráfego que a justifica. Vai daí, a Brisa, empresa proprietária, decide fazer obras de melhoramento. Vão construir uma auto-estrada elevada, que permite servir melhor os utentes e baixar os custos de utilização. Fica toda a gente feliz, apesar de ninguém ter pedido as referidas obras. As obras começam. Na primeira fase, destrói-se a auto-estrada original. É preciso arranjar alternativas para os utentes, que, lá está, são bastantes. Como a solução é provisória, por causa das obras, os utentes amanham-se o melhor que podem com as alternativas. Lembrem-se: nesta fase, a auto-estrada original já não existe, foi destruída. Até que a Brisa decide não fazer a nova auto-estrada. Arruma as tabuletas das obras, diz que afinal não tem dinheiro, e ala que se faz tarde. Nem A1 velha, nem A1 nova. Nada; não sobrou nada, a não ser as alternativas provisórias agora eternizadas.
Fim de caso hipotético.
Foi isto que aconteceu no ramal Coimbra-Lousã. É esta a história do agora morto Metro-Mondego, que ninguém pediu. Havia estudos a comprovar a utilização da linha, a sua rentabilidade. Em vez de optar por uma simples requalificação, os decisores políticos optaram por uma mudança radical, transformando a automotora em metro de superfície. De novo, ninguém o pediu. Foi mais uma vez a loucura despesista, a fúria do progresso. Tudo o que as populações queriam era a continuação do serviço normal de comboios. Nem mais, nem menos. As grandes teorias sobre ferrovias, economias da ruralidade e afins são muito engraçadas, mas não têm rigorosamente nada a ver com o que está em debate. São bitaites de quem não faz a menor ideia do que está a falar. A discussão do Metro-Mondego não tem nada a ver com reorganização da rede ferroviária; tem, sim, a ver com má-fé por parte dos decisores políticos, com incompetência pura por parte de quem governa. Só isso.
Se não há dinheiro para o grande projecto, mantém-se o mínimo existente. É isso que as populações de Coimbra, Lousã e Miranda do Corvo estão a pedir. Parece-vos extraordinário? A mim, não.

É o princípio da rainha da alice, aplicado aos transportes: primeiro o veredicto, depois o julgamento!
Evidente.
Os cromos julgam que entre Coimbra e Lousã existem muitas pequenas Tormes rurais e bestiais.
E mais tristemente divertido: se não é preciso um comboiozito, por que prometeram um modernaço metro de superfície? A demografia e teorias respectivas mudaram no espaço de um ano?
Agora os desgraçados não têm sequer o pouco que já tiveram, mas os especialistas em comboios divertem-se.
Façamos então grandes tratados sobre o meio de transporte mais romântico.
Sempre. Off with their heads, esses camponeses pacóvios (que ainda por cima nem querem o TGV).
O que eu não percebo é o topete com que se dão determinadas justificações depois de tantas asneiras cometidas. Isto era caso para a imediata demissão do Ministro, que se tem revelado uma nulidade, ou pior, um elemento nocivo.
pois. mas este ministro tem mais vidas do que um gato.
Por acaso não sou afectado porque vivo e trabalho na Lousã (saí de Lisboa há uns anitos para me livrar de gente como o João Pinto e Castro, mas entretanto inventaram os blogues – vejam lá bem a minha vida…) Mas posso garantir que causa transtorno a muita gente. Sobretudo em Miranda do Corvo.
🙂
Para fugir ao João Pinto e Castro devia ter fugido do Porto. Mas no essencial o “Javali” tem razão. Para fazer um frete ao desGoverno este pessoal fala do que não conhece.
Bom texto, Ana.
Eu também não sou afectado. Quando vou à Lousã comer chanfana, vou de carro.
Já que gosta de se meter no automóvel para ir petiscar, experimente o Escorropicha Ana, entre Gouveia e Celorico da Beira 😉 Depois não diga que não o avisei.
http://www.escorropichana.com
Thanks. Também gosto de chanfana, e de um bom movimento NIMBY. 🙂
Como é possivel começar uma obra daquelas sem o respectivo planeamento financeiro previsto e aprovado, e o dinheiro disponivel? Das duas uma : ou começaram a obra sem ter o financiamento assegurado, ou então havia o dinheiro e foi desviado para outras paragens. Qualquer das hipoteses é criminosa.
Já agora alguem sabe quem são os responsaveis? Porque tem de haver responsaveis, não é verdade?
é de facto incompreensível. partilho todas as suas dúvidas.
é claramente isso. a sede de progresso bacoco de uns doutorados em transportes que gostam de brincar às construções. o que existia poderia ter sido aproveitado e requalificado de forma barata e satisfatória. mas não, os senhores doutores queriam brinquedos novos e mais modernos.
brinquedos caros, que entretanto lhes dão bastante dinheiro (administrações, etc etc.)
“Havia estudos a comprovar a utilização da linha, a sua rentabilidade.”
Estudos? Ou realidades?
Pergunto: a linha da Lousã, tal como funcionava, era rentável? Ou não era? Refiro-me a rentável na realidade observada e contabilizada, não a rentável em “estudos”.
aparentemente, sim. foi a rentabilidade e o uso que levaram à ideia do metro. já que as pessoas usavam aquilo, fazia-se uma rede de metro com os 3 concelhos, que ligava directamente ao centro de coimbra.
mas sim, tinha gente. andam por aí dados sobre a evolução da população da lousã, que demonstram que a introdução da automotora de ligação a coimbra fez “dobrar” a população. é dos poucos concelhos onde a população aumentou em anos recentes, e boa parte trabalha em coimbra.
Pois é, mas quando os nossos governantes brincam aos comboios, já sabemos que vai dar buraco. Também fiquei a saber hoje que o Intercidades entre Lisboa e Beja acabou de vez. O que só dá razão ao ex-ministro do humor, perdão, das Obras Públicas, quando disse que a Sul do Tejo era o deserto…
A teoria e prática diferem no seguinte:
– a Brisa é uma concessionária privada a explorar uma infra-estrutura pública (terminadas as concessões, as estradas são “do povo);
– o serviço ferroviário anteriomente operado pela CP na linha da Lousã era um serviço 100% “público” (a CP é 100% detida pelos portugueses);
– a via férrea, gerida e mantida pela Refer EPE é uma infra-estrutura “do povo”.
Ou seja, o próprio Estado, ao cancelar as obras já iniciadas, e depois de darem cabo da linha inicial, voltou atrás na sua palavra.
Não se deveriam apurar responsabilidades criminais perante aqueles que assinaram estes projectos e que os deixaram iniciar sem que estivessem 100% garantidos os fundos necessários??…
Convém também não esquecer as outras linhas encerradas por Ana paula Vitorino por alegadas razões de segurança e que seriam rapidamente reabilitadas: o Tãmega (12 km), o Corgo (25 km) e o troço Tua-Brunheda (35 km) por causa da barragem, o ramal Figueira da Foz-Cantanhede-Pampilhosa…. 56 km.
Porreiro, pá.
Excelente. Se alguém não entender assim, só mesmo com bonecos! Só quem esteve presente, sabe como foi a luta de tantos, organizados em movimentos, para tentar evitar os luxos prometidos e tão sedutores, como se pode ver nos projectos.
Venceu o Metro. Por mim tudo bem. Para Coimbra será melhor.
Mas neste momento façam o que quiserem, mas ponham carris!