Crises de ruralidade, má-fé e mentiras várias


Ana Margarida Craveiro,

Apresentação de caso hipotético:

 

Estão a ver a A1? É aquela auto-estrada que liga Lisboa ao Porto. Com variações ao longo do dia, mantém um tráfego que a justifica. Vai daí, a Brisa, empresa proprietária, decide fazer obras de melhoramento. Vão construir uma auto-estrada elevada, que permite servir melhor os utentes e baixar os custos de utilização. Fica toda a gente feliz, apesar de ninguém ter pedido as referidas obras. As obras começam. Na primeira fase, destrói-se a auto-estrada original. É preciso arranjar alternativas para os utentes, que, lá está, são bastantes. Como a solução é provisória, por causa das obras, os utentes amanham-se o melhor que podem com as alternativas. Lembrem-se: nesta fase, a auto-estrada original já não existe, foi destruída. Até que a Brisa decide não fazer a nova auto-estrada. Arruma as tabuletas das obras, diz que afinal não tem dinheiro, e ala que se faz tarde. Nem A1 velha, nem A1 nova. Nada; não sobrou nada, a não ser as alternativas provisórias agora eternizadas.

 

Fim de caso hipotético.

 

Foi isto que aconteceu no ramal Coimbra-Lousã. É esta a história do agora morto Metro-Mondego, que ninguém pediu. Havia estudos a comprovar a utilização da linha, a sua rentabilidade. Em vez de optar por uma simples requalificação, os decisores políticos optaram por uma mudança radical, transformando a automotora em metro de superfície. De novo, ninguém o pediu. Foi mais uma vez a loucura despesista, a fúria do progresso. Tudo o que as populações queriam era a continuação do serviço normal de comboios. Nem mais, nem menos. As grandes teorias sobre ferrovias, economias da ruralidade e afins são muito engraçadas, mas não têm rigorosamente nada a ver com o que está em debate. São bitaites de quem não faz a menor ideia do que está a falar. A discussão do Metro-Mondego não tem nada a ver com reorganização da rede ferroviária; tem, sim, a ver com má-fé por parte dos decisores políticos, com incompetência pura por parte de quem governa. Só isso.

Se não há dinheiro para o grande projecto, mantém-se o mínimo existente. É isso que as populações de Coimbra, Lousã e Miranda do Corvo estão a pedir. Parece-vos extraordinário? A mim, não.

22 comentários em “Crises de ruralidade, má-fé e mentiras várias”

    1. Evidente.
      Os cromos julgam que entre Coimbra e Lousã existem muitas pequenas Tormes rurais e bestiais.
      E mais tristemente divertido: se não é preciso um comboiozito, por que prometeram um modernaço metro de superfície? A demografia e teorias respectivas mudaram no espaço de um ano?
      Agora os desgraçados não têm sequer o pouco que já tiveram, mas os especialistas em comboios divertem-se.

  1. O que eu não percebo é o topete com que se dão determinadas justificações depois de tantas asneiras cometidas. Isto era caso para a imediata demissão do Ministro, que se tem revelado uma nulidade, ou pior, um elemento nocivo.

  2. Por acaso não sou afectado porque vivo e trabalho na Lousã (saí de Lisboa há uns anitos para me livrar de gente como o João Pinto e Castro, mas entretanto inventaram os blogues – vejam lá bem a minha vida…) Mas posso garantir que causa transtorno a muita gente. Sobretudo em Miranda do Corvo.

    1. Para fugir ao João Pinto e Castro devia ter fugido do Porto. Mas no essencial o “Javali” tem razão. Para fazer um frete ao desGoverno este pessoal fala do que não conhece.

  3. Como é possivel começar uma obra daquelas sem o respectivo planeamento financeiro previsto e aprovado, e o dinheiro disponivel? Das duas uma : ou começaram a obra sem ter o financiamento assegurado, ou então havia o dinheiro e foi desviado para outras paragens. Qualquer das hipoteses é criminosa.
    Já agora alguem sabe quem são os responsaveis? Porque tem de haver responsaveis, não é verdade?

  4. é claramente isso. a sede de progresso bacoco de uns doutorados em transportes que gostam de brincar às construções. o que existia poderia ter sido aproveitado e requalificado de forma barata e satisfatória. mas não, os senhores doutores queriam brinquedos novos e mais modernos.

  5. “Havia estudos a comprovar a utilização da linha, a sua rentabilidade.”

    Estudos? Ou realidades?

    Pergunto: a linha da Lousã, tal como funcionava, era rentável? Ou não era? Refiro-me a rentável na realidade observada e contabilizada, não a rentável em “estudos”.

    1. aparentemente, sim. foi a rentabilidade e o uso que levaram à ideia do metro. já que as pessoas usavam aquilo, fazia-se uma rede de metro com os 3 concelhos, que ligava directamente ao centro de coimbra.

      mas sim, tinha gente. andam por aí dados sobre a evolução da população da lousã, que demonstram que a introdução da automotora de ligação a coimbra fez “dobrar” a população. é dos poucos concelhos onde a população aumentou em anos recentes, e boa parte trabalha em coimbra.

  6. Pois é, mas quando os nossos governantes brincam aos comboios, já sabemos que vai dar buraco. Também fiquei a saber hoje que o Intercidades entre Lisboa e Beja acabou de vez. O que só dá razão ao ex-ministro do humor, perdão, das Obras Públicas, quando disse que a Sul do Tejo era o deserto…

  7. A teoria e prática diferem no seguinte:

    – a Brisa é uma concessionária privada a explorar uma infra-estrutura pública (terminadas as concessões, as estradas são “do povo);
    – o serviço ferroviário anteriomente operado pela CP na linha da Lousã era um serviço 100% “público” (a CP é 100% detida pelos portugueses);
    – a via férrea, gerida e mantida pela Refer EPE é uma infra-estrutura “do povo”.

    Ou seja, o próprio Estado, ao cancelar as obras já iniciadas, e depois de darem cabo da linha inicial, voltou atrás na sua palavra.

    Não se deveriam apurar responsabilidades criminais perante aqueles que assinaram estes projectos e que os deixaram iniciar sem que estivessem 100% garantidos os fundos necessários??…

    Convém também não esquecer as outras linhas encerradas por Ana paula Vitorino por alegadas razões de segurança e que seriam rapidamente reabilitadas: o Tãmega (12 km), o Corgo (25 km) e o troço Tua-Brunheda (35 km) por causa da barragem, o ramal Figueira da Foz-Cantanhede-Pampilhosa…. 56 km.
    Porreiro, pá.

  8. Excelente. Se alguém não entender assim, só mesmo com bonecos! Só quem esteve presente, sabe como foi a luta de tantos, organizados em movimentos, para tentar evitar os luxos prometidos e tão sedutores, como se pode ver nos projectos.
    Venceu o Metro. Por mim tudo bem. Para Coimbra será melhor.
    Mas neste momento façam o que quiserem, mas ponham carris!

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