Crónica da Galiza – I


Ana Vidal,

Estou na Galiza, com um acesso limitado à net (só raramente consigo entrar, como é o caso de agora). Nos dias que aqui tenho passado – os últimos das minhas férias – tenho aproveitado para matar saudades desta região que adoro e já não visitava há alguns anos, rever velhos amigos, passear, ler alguma coisa do que tenho em atraso e, last but not the least, deliciar-me com uma gastronomia que é um dos grandes trunfos desta magnífica zona. Ontem, em Vigo, diante de um insuperável "pulpo a gallega" no Eligio (uma tasquinha antiga, sem identificação exterior e com pergaminhos de boémia artística, que só é conhecida de quem vive aqui ou tem a sorte de ser introduzido por um cliente da casa), comentava-se a crise económica nacional/internacional, agudíssima e ainda sem qualquer luz ao fundo do túnel: o desemprego crescente, a insatisfação generalizada, o aumento das tensões e desequilíbrios sociais (que, em Espanha, facilmente encontram eco em movimentos terroristas organizados, potenciando a insegurança e o medo), a falência de pequenas e médias empresas e a retirada estratégica de multinacionais, a corrupção política, o descrédito progressivo das instituições, sobretudo as ligadas à justiça. Um quadro em tudo semelhante ao nosso, mas com os contornos especiais de um país que passou da abundância confortável ao descalabro em muito pouco tempo. Pergunto como nos vêm a nós, portugueses, em idêntica situação e neste momento pré-eleitoral. A resposta é intrigante: "Excessivamente parados, sabes?". Quero saber porquê. "Porque, perante a adversidade e o desânimo, vocês paralisam". "E vocês?", pergunto eu. "Nós esbracejamos."

 

Este diálogo lembra-me, inevitavelmente, aquela fábula (japonesa, creio) dos dois ratinhos que caem inadvertidamente num jarro de leite. O primeiro, percebendo que nada pode fazer para sair dali, dá aos pés durante algum tempo e depois pára, rendendo-se à sua sorte e afogando-se no leite. O segundo, pelo contrário, não desiste de bater os pés. Já muito cansado e pensando estar a aproximar-se do fim, nota de repente que o "chão" debaixo dos seus pés começa a ficar sólido, permitindo-lhe salvar-se: o leite, com a agitação prolongada, transformara-se em manteiga.

 

37 comentários em “Crónica da Galiza – I”

  1. Não me parece correto dizer que os portugueses estejam parados. Não estão. As pessoas tentam arranjar a sua vida. Lutam. Algumas emigram, outras recuperam negócios antigos, o cultivo da terra, etc.

    Agora, se por “esbracejar” o galego entende protestar, bradar, mandar vir, então nesse campo, de facto, eles talvez sejam melhores do que nós. Não sei é se lhes servirá de grande coisa.

    1. Meu caro, não sei se os portugueses estão parados ou não, mas lá que somos mais de paralisar do que os espanhóis, isso somos. Além disso é uma opinião, e de alguém que não é nem minimamente “bairrista”. Não sei por que razão acha incorrecto expressá-la. (os galegos têm uma enorme identificação com Portugal, que não é um mito).

      1. Eu não disse que ache incorreto expressar seja que opinião fôr.

        Não percebo em que sentido é que você acha que os portugueses são mais de paralisar do que os espanhóis. Paralisar como, em que sentido? As pessoas tentam, de alguma forma, remediar-se, melhorar a sua vida. Não estão paradas.

  2. A fábula é horrível. Quando se começa a lê-la, primeiro fica-se horrorizado com a perspetiva de um jarro inteiro de leite conspurcado por dois ratos, depois fica-se aterrorizado ao ver o primeiro rato a afogar-se, finalmente fica-se revoltado com a forma como o estupor do segundo rato se salva sem merecê-lo. Ao diabo os ratos e mais quem inventou a fábula.

    1. Numa coisa lhe dou razão: a fábula é horrível (no Japão talvez a imagem não seja tão arrepiante como para nós). Mas é sugestiva, como todas são, e vem a propósito.
      Já não concordo com o resto do seu azedo (será do leite?) comentário: claro que o segundo rato mereceu salvar-se.

      1. Eu não me parece que o segundo rato tenha merecido salvar-se. Esteve ali a fazer figura de parvo a bater as patas sem saber para quê, a gastar forças, a esfalfar-se de uma forma estúpida e irracional. No fim é salvo sem saber por quê, basicamente por sorte.

        Mas está bem, são pontos de vista, são formas de encarar a vida.

        1. Formas de encarar a vida, diz bem. Faço como o primeiro ratinho (prefiro chamar-lhe assim, é menos impressionante) e desisto de tentar fazer-lhe ver que foi com o esforço, e não com a sorte, que o leite coalhou.

          1. Pois eu, Ana, acho a fábula encantadora. Claro que a vi protagonizada por um ratinho Remy (Ratatouille), muito persistente e sabedor das potencialidades do leite batido. 😉
            Votos de continuação de umas excelentes férias.

    2. Que falta de imaginação, Luís Lavoura. Não é possível imaginar a fábula vendo o Mickey ou Jerry no lugar do ratinho que se salva? Que seria do imaginário infantil sem os ratos (e as fadas e as bruxas e os duendes e os gigantes e os feiticeiros)?

  3. Belíssimo registo num belíssimo tom. Estar de férias é outra coisa. E na Galiza mais ainda. A verdade é que, como mais uma vez se prova, Portugal escorreu da Galiza.

    (Já se sentia a tua falta, agora justificada.)

  4. Excelente post e excelente fábula.

    Obviamente pouco Portuguesa. Porque em Portugal o rato sentindo-se no leite a afundar-se não esbracejava e dando azo à sua capacidade muita Portuguesa de carácter e improvisação, era o primeiro a abandonar o jarro!

    1. Obrigada. Mas por mais imaginação e improviso que tivessem, neste caso nenhum deles conseguiria “abandonar” o jarro (é essa a premissa). Só lhes restava lutar para sobreviver, o que fez o segundo.

  5. Eu também com a “net” aos soluços, noutras paragens,
    tive dificuldade em vir ler a sua crónica – gostei muito, muito interessante. Ana, obrigada e aproveite os últimos dias aí na Galiza e por favor – “hace un saludo” aos “meus” irmãos galegos.
    Estou na ilha das praias de “areia preta” ;))

      1. Nas Sete Cidades não há farmácias, já lhe dei (à net) um chá de funcho do meu quintal logo estará boa:))

    1. Já estive por aí também há duas semanas, Maria. Desta vez na Terceira e nas Flores, uma espécie de paraíso na terra que mete as Caraíbas num chinelo! Um dia destes escrevo sobre essa experiência, que adorei. Aproveite bem o sortilégio dos Açores!
      😉

  6. Viva Ana, já se sentia a sua falta! O problema em Portugal talvez nem seja de mais ou menos esbracejamento ou de dar ou não dar aos pés. é verdade que há muita apagada e vil tristeza, mas há muita gente a dar aos pés, só que os amigos, do primo, do cunhado da tia, normalmente chegam primeiro encavalitado nas costas dos desgraçados que estão a dar aos pés. É a p*** da nossa sina que vem de longe! Continuação de boas férias:)))

    1. Olá Ariel! Digo-lhe o mesmo que disse ao Carlos: esbracejar inutilmente é ainda pior do que ficar quieto! Mas é verdade, há sempre um esperto que sobe nas costas de quem dá aos pés e se safa primeiro. Mas até nisso temos de mudar e deixarmo-nos de “sinas”, não é? 😉

      Obrigada, as férias estão a chegar ao fim (e já com trabalho à mistura)

  7. Olá Ana! Também sou fã da Galiza e devia ter ido para aí ontem, mas valores mais altos se levantaram.
    Concordo contigo- também já escrevi nesse sentido- em relação à passividade dos portugueses. Gostam mais da lamúria do que da acção.
    Quanto à história dos ratinhos eu costumo juntar um pequeno pormenor. O segundo ratinho ter-se-ia salvo, se não tivesse tido a colaboração do desistente? É que antes de desistir, também contribuiu com o seu esforço…
    Vuelve pronto!

    1. Tens razão, claro, o leite começou a engrossar com o esforço do primeiro. Mas a desistência, vista por esse prisma, é ainda mais ingrata e ainda mais inglória!
      Os portugueses hão-de saber, um dia, ser menos passivos e menos lamurientos. Pelo menos, eu quero acreditar nisso. Mas eu também sou de utopias…
      Galicia te espera.
      Un abrazo!

  8. Olá Ana
    Um regresso bem interessante este seu. Fiquei a matutar na fábula que tem muito que se lhe diga.
    Continuação de boas férias aí pelo Norte do meu Norte.
    :))

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *