Levantar o anacrónico embargo a Cuba deve ser uma das prioridades da política externa americana. A ilha comunista, recorde-se, esteve a um passo de desencadear uma terceira guerra mundial – e sabe-se hoje que isso só não sucedeu graças à lucidez do injustiçado Krutchov, contra a opinião do próprio Fidel Castro, que defendia um conflito nuclear sovieto-americano mesmo que a sua ilha acabasse por ser riscada do mapa por um inverno atómico. Mas o afastamento do tirano e a entrada em funções do seu irmão bastaria hoje para servir de pretexto a Washington para o levantamento do bloqueio decretado por John Kennedy e reiterado por outros oito presidentes americanos – cinco republicanos (Nixon, Ford, Reagan, Bush pai e Bush filho) e três democratas (Johnson, Carter e Clinton). Extinta a guerra fria, Cuba é hoje um tigre de papel que proclama slogans anti-imperialistas enquanto mendiga mais uns punhado de dólares para a subsistência elementar. Meio século de “revolução”, de monocultura agrícola para abastecer de açúcar os camaradas soviéticos e de nacionalização total da propriedade de cultivo foram a receita certa para o fracasso actual: Cuba importa 84% dos alimentos que consome – e não faltam já bolsas de fome na ilha, que dispõe de 6,6 milhões de hectares de solo fértil mas só cultiva pouco mais de três milhões.


O embargo é um pretexto que muito jeito dá aos irmãos Castro. Já estive por 2 vezes na ilha, e nem Coca-Cola me faltou, entra via México ou Canadá, como aliás todos os produtos americanos. A Europa exporta para Cuba sem problemas, afirmar que a ilha passa fome pelo bloqueio é uma falácia total. A ilha passa fome porque não existe dinheiro para importar bens, os que chegam são destinados aos turistas. Apenas não existem McDonald’s, Starbucks, e não são aceites cartões de crédito emitidos nos EUA, e American Express. Ah, e faltam também os turistas americanos, a não ser que seja por aí que Cuba se desenvolva, voltar a instalar os Casinos, regressando ao tempo de Batista, com ferrys diários a partir de Miami. Porque os turistas europeus, mexicanos, canadianos já enchem os actuais hoteis de Havana e Varadero.
“O embargo é um pretexto que muito jeito dá aos irmãos Castro.”
Concordo António, mas também tem dado jeito aos politicos americanos para ganhar uns votos junto da comunidade cubana da Florida do que pela sua eficácia (praticamente nula). O levantamento do mesmo é mais do que justificado.
Dizes bem, Jorge. Uma medida política deve ser aferida, entre outros critérios, pelo seu grau de eficácia. O embargo a Cuba tem uma eficácia nula do ponto de vista norte-americano, é negativo para os interesses euro-atlânticos e catastrófico para a população cubana, até por servir de eterno alibi à profunda e catastrófica ineficiência do regime castrista. Comparar 1962 – o ano da crise dos mísseis, o pior de sempre da Guerra Fria – a 2009 é comparar o incomparável. Espero, desejo e acredito que Obama terá a lucidez política e a audácia suficiente para rever em larga escala a política de Washington face a Cuba.
Sem o bloqueio a Cuba, os castro já tinham caído do poder faz tempo.
Não tenho a mínima dúvida quanto a isso. O bloqueio a Cuba pelos EUA reforça e acentua o bloqueio de Cuba pelo regime cubano.
Ele que o levante, mas estou de acordo com o António de Almeida.
Também estou de acordo com o António de Almeida na medida em que ele escreve que “o embargo é um pretexto que muito jeito dá aos irmãos Castro.” Pois dá. Mais um motivo para que passe à História, sem mais demora.
Há dias escrevi aqui um post sobre o assunto, defendendo que se Obama nãp levantasse o embargo antes da Cimeira de Abril, estaria a cometer um grave erro. Felizmente, ouviu as vozes dos dirigentes latino-americanos que lhe pediam para acabar com o embargo.
A minha dúvida, agora, é saber como é que Obama vai conviver com os dirigentes de um “continente” que está a virar à esquerda. Pelos exemplos que tem vindo a dar nas diversas áreas, acredito que Obama esteja disposto a mostrar ao mundo que com ele há uma nova América, para onde podemos voltar a olhar com respeito e até admiração. Trinta anos depois de Carter, não era sem tempo…
Não sei se levantará o embargo, Carlos. Exprimi apenas a minha posição nesta matéria: oxalá o faça. É insuportável tanto anacronismo na política externa norte-americana face a Cuba. Quanto ao facto de a América Latina estar a virar à esquerda, parece-me tão natural como a Europa ter virado à direita em países como Alemanha, Itália ou França (e o Reino Unido não tarda, segundo dizem as sondagens), desde que o faça por via eleitoral. Coisa bem diferente, e totalmente inaceitável, é a mudança – rumo à esquerda ou à direita – ser feita por via ditatorial. No fundo, também isso é um anacronismo.
A América latina está a virar à esquerda pelo voto, veremos se a esquerda permitiá que no futuro os latino-americanos possam continuar a votar, no Brasil, Argentina ou Chile não tenho dúvidas que sim, já na Venezuela, Bolívia ou Equador…
De facto, António, na América Latina, tal como na Europa, há várias esquerdas – não apenas uma. Isso é positivo.
Muito bom, Pedro. Sistémico, justo e oportuno.
Assino em baixo! Bem-haja!