Cumpriu o dever até ao fim


Pedro Correia,

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A última imagem da Rainha ao receber Liz Truss, terça-feira passada, em Balmoral

 

Cumpriu o dever até ao fim. A imagem mais recente mas já crepuscular que guardamos dela foi colhida terça-feira, no castelo de Balmoral, ao receber a nova líder conservadora, Liz Truss, indigitando-a primeira-ministra. De aspecto frágil mas ainda gracioso, como sempre a conhecemos, neste último acto formal em sete décadas de palco institucional que assinalava também a despedida de uma vida longa e frutuosa, ao serviço do Reino Unido e da Commonwealth, que congrega 2,4 mil milhões de seres humanos em todos os continentes. 

Muitos dos seus súbditos nunca conheceram outro titular da coroa britânica. Isabel II – que ontem se apagou em paz na sua amada Escócia, no preciso local onde passou as horas mais felizes da sua longa existência – sucedera em 1952 ao pai, Jorge VI. Era uma jovem de 25 anos, tímida, insegura, certamente imatura: ganhava projecção mediática universal graças a inesperados golpes do destino. Primeiro à abdicação do tio, Eduardo VIII, que a colocou na linha directa da sucessão dinástica; depois devido à morte prematura do pai, fulminado por um cancro.

 

Essa jovem viria a tornar-se ícone de várias gerações muito para além das fronteiras da ilha onde nasceu. Como chefe do Estado da Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Jamaica, Bahamas, Granada, Papuásia-Nova Guiné, Ilhas Salomão, Tuvalu, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Belize, Antígua e Barbuda, e São Cristóvão e Névis. Ultrapassou em longevidade física e política a sua trisavó Vitória, rainha entre 1837 e 1901. 

Ninguém viajou tanto como ela, não apenas às antigas parcelas do império britânico mas a todos os recantos do mundo.

Ninguém coexistiu com tantos líderes políticos e espirituais – 15 Presidentes norte-americanos, de Harry Truman a Joe Biden; sete Papas, de Pio XII a Francisco; 15 primeiros-ministros do Reino Unido, começando por Winston Churchill, quando era já lenda ainda em vida. Mais nove conservadores além dele e da recém-empossada (Anthony Eden, Harold MacMillan, Alec Douglas-Home, Edward Heath, Margaret Thatcher, John Major, David Cameron, Theresa May e Boris Johnson) e quatro trabalhistas (Harold Wilson, James Callaghan, Tony Blair e Gordon Brown).

Num tempo que presta culto ao provisório, ela simbolizava a permanência – desde logo pelos laços de sangue que a ligavam aos seus remotos antepassados normandos fundadores da monarquia há quase mil anos. Parecia imune a toda a erosão e nunca se deixou contaminar pelas paixões políticas. Robusteceu o trono ao colocá-lo acima de todos os jogos partidários: era uma das suas facetas mais relevantes de serviço público, do qual nunca abdicou – como deu mostras na vibrante mensagem dirigida aos britânicos, em Abril de 2020, no auge do pesadelo da pandemia.

 

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Isabel II, por Andy Warhol (1985)

 

Reforçara a sua legitimidade histórica na firme resistência da família real britânica às hordas nazis, mesmo com o palácio de Buckingham bombardeado pela Luftwaffe, nos dias de terror da II Guerra Mundial. Quando lhes foi sugerida a evacuação urgente para o Canadá, a mãe fez uma declaração que dissipou todas as dúvidas: «As crianças [Isabel e a irmã mais nova, Margarida] não vão sem mim. Eu não irei sem o Rei. E o Rei nunca partirá.»

Assim se forjou o carácter desta monarca que aos 18 anos, ainda durante a guerra, integrou as fileiras do serviço territorial como motorista e mecânica. Sempre em cumprimento do dever, como confirmaria ao honrar todas as responsabilidades constitucionais que assumiu ao ascender ao trono. Funcionando como traço de união entre povos e nações. Dando expressão concreta a conceitos abstractos como dignidade e majestade. Nunca as liberdades fundamentais, cada vez mais escassas noutras latitudes, correram o menor risco em dia algum do seu reinado. 

 

Não admira, por isso, que mesmo tendo já completado 96 anos mantivesse níveis estratosféricos de popularidade que nenhum presidente de nenhuma república granjeia hoje, seja onde for.

Não admira, por isso, que a triste notícia da sua morte – talvez pressentida mas ainda assim inesperada – tenha sido recebida com genuína dor e consternação um pouco por toda a parte, não apenas na chuvosa noite londrina mas muito para além das fronteiras dos 15 Estados ou territórios que a mantinham como suprema guardiã do império da lei e da magistratura do exemplo – o mais parco, precário e precioso de todos os poderes.

 

«Perdemos não apenas a nossa monarca, mas a matriarca da nação», afirmou um comovido Tony Blair numa mensagem de condolências. Enquanto David Cameron se declarava «afortunado» por ter recebido o conselho «da maior diplomata a nível mundial». Mick Jagger, voz dos Rolling Stones, falou por milhões ao escrever estas singelas linhas numa rede social: «Ao longo da minha vida, Sua Majestade, a Rainha Isabel II, esteve lá. (…) Lembro-me dela desde que era uma bela jovem até se tornar na muito querida avó desta nação.»

O filho mais velho, Carlos, sucede-lhe no trono. Mas ninguém preencherá o lugar que ela agora deixa em aberto nesta viagem para a eternidade.

 

Leitura complementar:

A Rainha (6 de Fevereiro de 2009)

«Ser imparcial não é humano» (24 de Fevereiro de 2018)

50 comentários em “Cumpriu o dever até ao fim”

  1. Nascemos e crescemos com ela.
    Pensávamos que era imortal.
    “Farewell to The Rock“
    Ainda não nos apercemos que o o mundo, e especialmente a Europa, vai ser muito diferente.
    Carlos III vai ter uma tarefa hercúlea para manter o prestígio da coroa e manter unido o Reino.
    E isso é muito importante para o mundo também.
    Que Deus o ajude.

    1. «She seemed so timeless and so wonderful that I am afraid we had come to believe, like children, that she would just go on and on», como tuitou Boris Johnson ao princípio da noite de ontem.

      1. Estão confusos, ela não é nossa Rainha. Um dia todos morrermos, alguém que explique qual o interesse deste assunto?

        Deve ser para desviar a atenção do que é importante, como já é costume.

        E mais, em geral ninguém quer saber dos outros e nos blogues vemos bem isso. Ou seja este assunto serve para iludir, assim como outros.

        1. Fantástico. Escondeu a identidade para nos vir dizer coisas tão relevantes como «um dia todos morremos». E que “ela não é a nossa Rainha”.
          Perdeu excelente oportunidade para nos revelar quem é então a sua rainha. Será a de paus?

          1. Pedro,

            julgava que era só a mim que este anónimo atirava petardos. Mas curiosamente rebentam todos na mão dele.
            Então quando se está em destaque conto os minutos para saber quando comenta!

  2. Bom dia Pedro Correia
    Belo texto. Opinião pessoal, naturalmente.
    Adicionalmente, subscrevo as palavras do meu amigo António M.Lamas.
    Bom fim de semana, saúde.
    António Cabral

  3. Liz Truss diz que a monarquia é uma desgraça:

    https://www.itv.com/news/calendar/2022-09-06/clip-emerges-of-young-liz-truss-branding-monarchy-disgraceful

    Liz Truss, 1994: «Eu não sou contra eles pessoalmente, sou contra a ideia de que as pessoas podem nascer para governar, por causa da família em que nasceram, ser o chefe de estado do nosso país, acho isso vergonhoso.»

    Liz Truss, 2022: «Deus salve o rei»

        1. Discordo. Desde logo em 1994 ela nem era Dr.ª
          Quase ninguém diz aos 50 anos o que dizia aos 20. Ou se comporta da mesma forma.
          Como dizia o outro, quem não é radical aos 18 anos não tem coração e quem não é moderado na meia-idade não tem cabeça.

      1. Há muita gente que não evolui quando cresce — que continua para sempre na névoa estúpida dos primeiros charros.

      2. Se gostas de monarquia, porque não emigras para o Reino Unido? Mas não te esqueças que agora precisas de visto.

  4. foi Rainha porque ‘abdicaram’ o Rei, seu tio. de origem germânica só mudaram o nome para Windsor, porque o Kaiser Guilherme II gozava os primos.

    ainda ninguém falou na dirigente da Maçonaria por interposta pessoa.

    uma Rainha excepcional, mas não a única

      1. tinha a ver com a raíz alemã pela casa de Hanover.

        Hitler não era o único canalha.
        depois apoiaram e auxiliaram Estaline.

        lembro-me de ouvir Radio Andorra, BBC e outras estações em onda curta.

        como nos símbolos cada um vê, ouve e diz o que quer ou convém

          1. nunca menciono o que não sei.
            documentos de arquivos diversos, entre eles da Grande Loja de Inglaterra mostram que foi defenestrado.

            seu irmão apoiou Estaline, menino de coro.

            depois da guerra, político de renome, exclamou
            « matou-se o porco errado »

      2. Pensava que o sistema monárquico colocava as pessoas mais preparadas no cargo. Afinal coloca também canalhas e loucos que ninguém escolheu. Se o tio de Isabel II não abdicasse faziam o quê?
        Um golpe de estado, (cruz credo)?
        Uma república (cruz credíssmo)?
        Problemas da monarquia.
        Se Carlos III quiser usar os poderes que têm nominalmente e despedir um primeiro ministro que não goste, lá se vai a monarquia democrática pelo cano abaixo.

        1. Nas repúblicas não há loucos nem canalhas. Hitler, Estaline, Ceausescu, Mao, Honecker, Pinochet, Videla, Trujillo, Pol Pol, Idi Amin, Obiang, Kim pai & e filho & neto.
          Todos monárquicos. Todos reis, imperadores, príncipes. Que horror.

    1. Precisamente por ter aceitado governar quando não era suposto ter sido ela a fazê-lo —provavelmente teria preferido viver a sua vida de privilégios sem chatices nenhumas—, emerge o sua grande façanha de empenho e dedicação a um cargo improvável. E ninguém negará que pela sua presença discreta ou quase invisível terá sido a maior governante da história do Ocidente. E2ª, aliás, não era só a “Rainha de Inglaterra”, foi a Rainha do Ocidente, dos povos livres. Pena que muita gente em Portugal prefira ser nharra, islamita e totalitarista. Não merecem a sorte de ter nascido do lado de cá do muro.

  5. De cada vez que nos morre alguém fica mais clara a certeza de que tudo é transitório. Mas ao ver desaparecer uma figura que sempre associámos a perenidade essa mensagem subliminar ganha ainda mais espessura.
    God save the queen!

  6. Diz que “cumpriu o dever até ao fim”, mas o facto é que ela tinha bem poucos deveres (além de governar a sua fortuna, que não é pequena e inclui o latifúndio de Balmoral, com 200 quilómetros quadrados) que fossem substanciais e não meramente cerimoniais.
    Dar um aperto de mão e um sorriso à Liz Truss não é propriamente fazer muita coisa.

    1. Você gosta mais do Putin, faz mais o seu género.
      É o maior latifundiário do planeta: tem a Rússia inteira ao dispor dele. E ainda ataca outros países, imaginando-se com direito de pernada ao latifúndio alheio.
      Além disso aperta a mão com firmeza ao Lavrov, outro “estadista” muito ao seu gosto. Sem necessidade nenhuma de sorrir: são ambos machos-alfa e um macho-alfa jamais sorri.

    2. E cumpriu.
      A 2 dias da sua morte, recebeu Boris Johnson e Liz Truss
      Quer melhor dedicação à causa pública?

      1. Tal e qual. Dedicação e devoção à causa pública.
        A primeira servidora pública do Reino Unido. Durante sete décadas.

        Como sublinho no texto, nunca as liberdades fundamentais, cada vez mais escassas noutras latitudes, correram o menor risco em dia algum do seu reinado.
        Bastaria isto para merecer prolongado aplauso.

        De quantos dirigentes destas sete décadas, nos mais diversos quadrantes, se pode dizer o mesmo?

      2. É um facto, receber Boris Johnson deve ter sido um dever difícil de cumprir. Eu pelo menos teria tido muita dificuldade.

  7. Enquanto pessoa, que descanse em paz. Quanto á figura politica ou o que lhe quiserem chamar, convenhamos que há varias décadas que não passava de um adorno altamente luxuoso a que o reino unido se permite, bem como a restante “família real”. Diga-se o que se disser, desde há uns bons 30 anos ou mais que foram os primeiros ministros (e ministras) a fazer do reino unido que é hoje, para o bem e para o mal. Se fica bem na fotografia dizer-se que ha um rei a governar? Talvez, mas na pratica é em downing street que tudo acontece.

    1. A Rainha era popularíssima não apenas na Inglaterra, mas na Escócia (onde não podem ver o inquilino de Downing Street nem pintado), em Gales, na Irlanda do Norte, na Austrália, na Nova Zelândia, no Canadá, na Jamaica – enfim, era também chefe supremo de vários Estados independentes e ainda a dirigente máxima da Commonwealth, organização única no planeta e que muito lhe deve através da chamada “magistratura de influência”.
      Você parece supor que qualquer primeiro-ministro em Londres consegue tudo isto, num jogo partidário qualquer. Nada mais errado.

  8. Ao anónimo que apareceu aqui a perorar sobre “chamuças”: a peroração foi parar ao local próprio. O ecoponto.
    Críticas, todas. Injúrias, nenhuma. Sobretudo vindas de gente que esconde o nome e tapa a cara.

  9. um bom post, realçando e oferecendo-nos a noçao de quantos presidentes e outros passaram na “governaçao” da rainha.

    Já o titulo do post é menos conseguido.

      1. a sério, nao peça, até pensei no assunto e nao consegui ” melhor “.
        Por falar em sugestoes, uma para um proximo post : a visita (s) que a rainha fez a portugal.

  10. A cegueira é total, e os povos que ela com seu reinado exploraram, escravizaram, mataram, sucumbiram diante das garras gananciosas e sedentas. Só para sintetizar, o diamante que era usado na coroa por ela era roubado da África. Basta, de idolatria cega!

  11. Parasitas que cortaram fitas. Quem governa é o governo em Londres
    Monarcas são atores/as do circo mundano. José Inácio.

    1. Parasitas são os que mandam bombas e ogivas e invadem países vizinhos e matam mais de sete mil civis na Ucrânia, incluindo centenas de crianças e velhos. E desterram, prendem, torturam e assassinam os opositores políticos.
      Como os teus queridos Putin e Lavrov, criminosos de guerra, fazem todos os dias na Rússia e na Ucrânia.

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