O 25 de Abril tornou-se tão consensual, que deixou de ser apenas património da esquerda, por muito que a esquerda seja tão ciosa do feito e reivindique a sua exclusividade. Logo, também não pode ser a esquerda a única culpada pelo estado a que se chegou. Porque, queiramos ou não, as liberdades voltam a estar ameaçadas, a nossa sobrevivência individual e enquanto Nação volta a ser questionada, as conquistas obtidas têm muito mais de formal do que de substancial, andamos quase todos novamente cabisbaixos, a esperança de tempos melhores vai-se perdendo. Se os mais velhos vivem, ainda, marcados pelo salazarismo, a minha geração talvez viva marcada pelos anos da balbúrdia, pelas histórias mal esclarecidas do pós-Abril (que condicionam muito mais do que se julga, pelas conivências e cumplicidades que então se geraram em actividades ilícitas, com a aparência de luta política e que ainda hoje perduram). Há, por outro lado, uma geração de políticos que foi formatada na má escola das juventudes partidárias, para quem o poder é um fim, e que está agora na ribalta e não augura nada de bom. Culpa da esquerda. Culpa da direita. Culpa de todos nós, certamente, que em vez de tanto celebrarmos Abril, talvez devêssemos fazer um pouco mais de Abril todos os dias nas pequenas e nas grandes coisas. Mas isso sou eu a dizer, que não percebo nada do assunto.
(texto ligeiramente retocado)

Excelente reflexão, Coutinho Ribeiro.
Ainda ontem na última Reunião do Conselho Directivo da Faculdade de Direito de Lisboa, do qual faço parte, e que marcou o fim da gestão democrática da Faculdade, disse algo muito próximo disso.
Relacionei na altura com a falta de interesse e de empenho da minha geração em mudar algo, em dar um novo rumo ao estado a que as coisas chegaram. Cada nova geração é o espelho da educação e dos valores que recebeu dos seus Pais. A culpa é, a meu ver, daqueles que fizeram Abril e que não só não o souberam honrar nas décadas que se seguiram, como também não souberam transmitir os seus ensinamentos aos que geraram entretanto.
Gostei muito de te ler.
Abraço.
Obrigado, André, com um abraço para ti, também. E, pelo meio, vê se a tua geração consegue fazer um bocadinho melhor.
Subscrevo completamente o texto.
Parabéns mais uma vez pela excelência da escrita mas acima de tudo de pensamento e clarividência de ideias.
Abraço
Obrigado, Vitor José Maganinho. Faz-se o que se pode 🙂
Abraço.
Perdão: Vitor Soares Maganinho.
Li o teu texto até meio algumas vezes. Uns afazeres e meia dúzia de assessores pestilentos que andaram hoje a espalhar mau cheiro no DO impediram-me de ir mais longe. Só agora consegui ler de fio a pavio. Excelente reflexão, Joaquim.
Obrigado, João.
Não tive tempo de ir ver a pestilência de que falas.
Abraço.