Da praxe


José Gomes André,

Leio algures que as queixas contra praxes aumentaram significativamente nos últimos anos. É um bom sinal. Já eram horas de alguém se revoltar contra este disparate pegado. Pena que na maior parte dos casos o anonimato dos agressores e a conivência das autoridades universitárias impeçam decisões judiciais inequívocas. Sobre a praxe propriamente dita, recupero um texto que escrevi há mais de dois anos. Infelizmente, não encontrei nenhum motivo para alterar uma linha que fosse.

Diz-se que a tradição da praxe serve para "integrar" e "facilitar o entrosamento" e que apenas é reprovável se executada com violência e sem moderadação. Nada mais errado. O equívoco reside nesta dicotomia, que define os contornos de uma praxe “boa” e de uma praxe “má”. A primeira procuraria familiarizar os indivíduos com a instituição a que agora pertence; a segunda utilizaria meios violentos para o atingir.

Trata-se de uma mistificação. A essência da praxe não é a “integração”, mas sim a humilhação. A praxe não existe para introduzir um indivíduo num contexto social harmónico ao qual ele aspira pertencer, mas sim para clarificar desde logo a relação de forças que existe nesse mesmo contexto, ou seja, para tornar evidente que o noviço se encontra na base da estrutura hierárquica da instituição, devendo submeter-se às condições impostas pelo topo da pirâmide. Evitando uma longa e penosa explicação teórica destas circunstâncias, a praxe manifesta, num instante físico conciso e intenso, os contornos exactos dessas regras, instaurando uma relação imediata entre o senhor e o servo, o dominador e o submisso.

Não se trata pois de um ritual iniciático, cujo móbil é o desejo de inscrever e assimilar. A praxe é uma cerimónia puramente exclusiva, que define os espaços interditos ao aspirante, confinando-o às rígidas fronteiras da hierarquia imutável da instituição. Na verdade, só o tempo permitirá a ascensão na pirâmide, embora apenas com o intuito de cristalizar a ordem pré-definida. Em rigor, a praxe é o mais acabado e cínico exercício de mumificação que as sociedades modernas engendraram.

Uma sociedade civilizada devia erradicar este fenómeno puro de exclusão, esta coacção psicológica necessariamente violenta, esta forma de opressão perpétua. Num mundo esclarecido, não há lugar para a praxe.

14 comentários em “Da praxe”

  1. Inteiramente de acordo, José. Fui sempre contra as praxes, desde os meus tempos de estudante universitário, e o tempo só reforçou esta minha convicção. As praxes não são agregadoras, mas humilhadoras, como apontas. E revelam algumas das piores características das sociedades, designadamente a portuguesa – o ataque do mais forte contra o mais fraco, o repúdio do que é novo, a força bruta do colectivo contra o individual, a injúria a coberto do anonimato. Como apontas também, só a cobardia das direcções académicas tem permitido perpetuar estas falsas ‘tradições’, inaceitáveis em qualquer escalão do ensino e ainda mais no universitário, que deve repudiar todo o género de agressão, física ou psicológica, e as humilhações de toda a espécie.

  2. Bem… Devo dizer que estudei em Coimbra e diverti-me muito ao ser praxada… Também devo dizer que não fui alvo de exageros, nem dos excessos que vejo por aí noticiados. Sou contra!

  3. Completamente de acordo. A praxe é o pior rosto destas instituições “provincianas” que tentam manter a linguagem do poder. É de humilhação que se trata, de rituais inventados por mentes doentias e perturbadas.
    No meu tempo de faculdade houve um interregno, pelos vistos, porque só muitos anos depois é que voltei a saber destes rituais repelentes e obscenos.
    Quando se respeita cada indivíduo por si mesmo, nunca sequer surge espaço para estas manifestações inclassificáveis no âmbito das relações humanas.

  4. É bom sinal que as queixas contra praxes humilhantes e violentas aumentem. Mas não posso concordar com a generalização que faz, até pela minha experiência.

    E a minha experiência diz-me que é perfeitamente possível organizar uma actividade de “praxe” que procure unicamente a diversão de todos – sim, de todos – e a integração dos novos alunos. Para mim, aquando da minha entrada na Universidade, foi uma experiência importante, uma vez que me permitiu conhecer facilmente várias pessoas que de outra forma não iriam olhar para mim duas vezes nos corredores da escola. Isto no primeiro ano; nos anos seguintes, enquanto participante da organização das praxes, tive a oportunidade de conhecer praticamente todos os novos alunos e de me divertir com eles – e não à custa deles. Não fazíamos praxes violentas – começávamos a semana com um jogo de pistas pela universidade, de modo que, no final do primeiro dia, todos conheciam os principais locais da escola (os bares, a reprografia, a secretaria, a associação de estudantes); fazíamos jogos, almoços para convívio, actividades com a tuna e com o grupo de teatro.

    Recordo-me até de um episódio curioso, do meu terceiro ano de universidade (primeiro na chamada “comissão de praxes”). Uma aluna chegou bastante tarde naquele dia, e eu fui a primeira pessoa que ela encontrou (estava fora das actividades a fumar). Ela disse-me que queria ser anti-praxe – e poderia sê-lo sem qualquer represália. Tive uma (longa) conversa com ela, disse-lhe que ela deveria pelo menos tentar entrar na brincadeira – e que se alguém lhe faltasse ao respeito, que ela falasse comigo. Ela era uma rapariga bastante tímida – e passado algum tempo, agradeceu-me por a ter convencido a juntar-se à folia, pois isso ajudou-a a fazer os primeiros amigos na universidade.

    É verdade que há muitos abusos – também eu presenciei alguns, infelizmente, contra os quais lutei como pude. Mas continuo a achar, passado este tempo todo, que se pode fazer uma actividade de praxe que marque pela positiva os novos alunos da universidade. Basta haver bom-senso e respeito pelo próximo.

  5. A praxe só serve para uma coisa: agredir, consciente ou inconscientemente. É um jogo de (pequeno) poder. Descarregar. Tudo o resto que se diga é merda, desde integrar e pseudotretas do género. Nunca praxei e já me tentaram praxar duas vezes. Uma resultou num maxilar deslocado outra eu disse não e chegou. Chamem-me o que quiserem. Quero que se fodam as praxes.

  6. Na realidade há praxes verdadeiramente estúpidas e de mau gosto! Sou contra!
    Outras praxes são engraçadas e os participantes até se divertem e fazem divertir os ‘espectadores’!
    De qualquer maneira não nos podemos esquecer que os praxados (vítimas) de hoje são os ‘praxantes’ (carrascos) de amanhã!
    Está nas suas mãos pôr fim a estas práticas!!!

  7. A minha visão da praxe é algo dúbia. Primeiro que nada, estudei em Coimbra e não fui praxado nem praxei. Coloquei-me, de certa forma, à margem da praxe. Não fui praxista nem anti-praxista. Fui não-praxista (ou apraxista, se quiserem). Aquilo que me levou à posição foi precisamente essa condição de subalternização dos mais novos (ou com menos matrículas) aos mais velhos (mesmo que fossem alunos há já 10 ou 20 anos).

    Colocou-me isso algum problema? De maneira nenhuma. Não tive qualquer dificuldade por não me integrar na praxe nem deixei de me integrar na Universidade de na vida académica. Cheguei mesmo a ser presidente da Assembleia Magna sem que alguém se incomodasse por eu não estar vestido com o traje académico.

    Dito isto, há que ressalvar duas coisas: 1. em Coimbra, durante os tempos que lá estive, não surgiram abusos que me chegassem aos ouvidos. Os abusos são mais típicos dos locais onde a praxe não é tradição, antes um hábito importado de outras universidades. 2. esse sentimento de exclusão é realmente incomodativo, do meu ponto de vista. Contudo, se há pessoas que a ele se querem submeter e assumindo que ninguém as obriga nem que ilegalidades são cometidas, porque razão haveria tal praxe de ser atacada seja de que maneira for? (penso que as actividades de “bondage” não sejam ilegais, mas há muitos que as considerarão degradantes do indivíduo).

  8. Obrigado pelos vossos comentários, há aqui muitos contributos interessantes para uma discussão que (infelizmente, a meu ver) irá certamente continuar. Um abraço a todos e o meu pedido de desculpas por não fazer uma resposta personalizada aos vossos comentários.

    1. O tema das praxes é muito arenoso…Há praxes bem divertidas em que os caloiros não são submetidos a nenhuma hierarquia do mais velho sobre o mais novo, como foi este ano os de geologia da Universidade de Ciências de Lisboa, em que os caloiros nem sequer eram obrigados a olhar p’ro chão, limitaram-se a cantar canções mais ou menos obscenas contra os outros cursos e a correr pela universidade fora tipo peddy-peper p’ra ficarem a conhecer o sitio, o curso escrito na testa, e alguns mascarados de personagens e figuras conhecidas, saltavam p’ro chão sempre k um veterano gritava “granada”,nem sequer sofreram aqueles abusos psicologicos: gritos e berros idiotas por parte dos mais velhos armados em alguém importante….

      Mas a pior parte, na minha opinião, não é o ficar sujo, levar com ovos ou farinha na cabeça, nem cantar canções ou ficar todo molhado, mas sim a pressão hierarquica a que o novo aluno é sujeito, através de berros e gritos e de humilhações com (ou não) caracter sexual, o ter de olhar p’ro xão, ser obrigado a comer comida de cão…ker dizer isso é ridiculo….porque no trabalho somos humilhados à mesma e não é preciso essas artimanhas todas.

      Penso que deveria haver praxes mais bem elaboradas sem essa hierarquia, mais uteis para a sociedade…a sério conhece-se alguém quando estão a gritar connosco até os nossos timpanos rebentarem?Só mesmo depois quando marcam saidas e jantares.

      Uma outra coisa, é o que se sucede com os que se declaram anti-praxe, em algumas universidades são completamente deixados de lado nas aulas e ninguem se designa a dize-los bom dia sequer, tratando-os como se fossem invisiveis por terem exercido a sua liberdade de escolha, isso também é muito estupido, completamente contra ao respeito pelo proximo….
      As praxes deviam ser remodeladas e orientadas, mas não acabadas, porque por umas ovelhas negras o rebanho todo não pode pagar o preço, mas que há abusos todos os anos há! E não digam que é para a integração porque é mentira, assim como há praxes bem divertidas para ambos os intervenientes.

      É um assunto que requer ser debatido e resolvido rapidamente, porque afinal os que hoje frequentam a Faculdade, depois governam e fazem o país…se eles são assim antes de saírem como serão depois, quando realmente for necessário?

  9. so esta nas praxes quem quer…ninguem é obrigado a ir…se quem esta lá é porque esta a gostar…e tenho pena que exista muita gente sem conseguir perceber o real valor e o quanto ajuda as praxes…eu se nao fossem as praxes no meu ano de caloira provavelmente ficava todos os dias fechada em casa a deprimir.estando longe dos pais é o mais normal acontecer…e quando uma pessoa nao quer fazer alguma actividade porque vai contra os principios dela só tem que dizer que nao quer fazer,que nao faz…uma pessoa que entra para a faculdade ja tem 17/18/19/20anos…sabe dizer um não,eu acho que sim…

  10. De facto, para mim, a praxe não existe. Logo, nada de pró-praxe ou anti-praxe mesmo. Para mim é apenas uma realidade virtual, e dela originam discussões, debates, enfim, uma série de coisas que apenas enrolam e enrolam sem nos levar a lado nenhum. Sem a praxe não nos incomodaríamos muito mais com o que a “boa” ou a “má” praxe traz, nem tão pouco com as tradições da praxe à volta por exemplo do traje, apoderado pela praxe.

    Quando será o dia em que as universidades em Portugal passam a ser para estudar e conhecer pessoas como em qualquer instituição de ensino e organizam actividades em conjunto como festas, cerimónias de formatura, em vez de andarmos às voltinhas… em torno de nada?? Dizem “é a praxe, porque é a praxe”… qual “a praxe”?? Temos tanta tendência de andar à volta do “nada” e a desdobrar o “nada” em…….. nada!!

    Uma pessoa vem do estrangeiro estudar aqui, quer levar uma boa recordação de algum tipo de traje e convívio e depara-se com um conjunto de regras, ditas “tradições”, à volta do nada, e pior ainda… pessoas que são vividas pela tradição ao invés de viverem tradições!! Tradições podem ser inovadas, sim! São experiências que podemos criar e transmitir.

    E dizerem-me que quem nunca foi “praxado” não compreende nada disto comigo não cola também, pois fazer disso uma verdade inquestionável sem o ser apenas não pega. Não havendo nada disso, deixaria de existir tudo isso, problemas, discussões à volta do nada, ostracismo para com pessoal de fora dessa realidade, a “boa” e a “má” praxe… para mim, muito mais se sobrepõe a realidades virtuais como a praxe. Estudar, ser amiga e amar… entre praxe e anti-praxe, das 2, 3: escolho Jesus Cristo!

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