Percebemos que estamos a ficar velhos quando começa a tornar-se difícil subir degraus dois a dois, como confessava com ironia autodepreciativa o grande actor Philippe Noiret.
Percebemos que estamos a ficar velhos quando começa a tornar-se difícil subir degraus dois a dois, como confessava com ironia autodepreciativa o grande actor Philippe Noiret.
E vai ficando pior, às tantas subir quaisquer degraus fica difícil.
É por isso que, em moradias, convém sempre ter um quarto de dormir no rés-do-chão para pessoas idosas.
… e se a moradia tiver só res-do-chão, para onde vão dormir as pessoas não idosas?
Para a subcave. Deve ser isso.
E quando a grua já não levanta?
O que é que nos contas sobre isso?
Provavelmente já contou tudo.

O remate final do “ele mudou tanto que não me conheceu” está bem esgalhado
Uma pequena preciosidade, este texto.
Sem dúvida. Eu identifico-me mais com aquela da reunião dos antigos alunos…
Envelhecer é terrível, não há maneira de embelezar a traição física que nos aprisiona antes de destruir. Mas pensando naqueles tantos que ficam pelo caminho, ou olhando para o rumo que o mundo leva, sinto-me bastante consolada por ter nascido quando nasci e onde nasci.
Assim um bocado à “Valeu a Pena” da Maria da Fé, eheheh.
“Sem dúvida. Eu identifico-me mais com aquela da reunião dos antigos alunos…”
Tal e qual. Mantenho há anos uma rotina de almoço semanal com amigos que cresceram no mesmo bairro, que esfolaram os joelhos na prática das mais diversas actividades, desde desportivas até ao saltar muros para roubar fruta nos quintais dos vizinhos, que a vida dispersou mas que a amizade cimentou. Esquecem-se maleitas, recordam-se malfeitorias, repetidas vezes sem conta mas sempre aplaudidas. É a máquina do tempo a funcionar, três horas de almoço para um regresso às calças boca de sino, cabeleiras em desalinho e amores vividos à séria ou só da boca p’ra fora. Envelhecer é inevitável, toca a aproveitar
Sim, entrando assim todos juntos na vossa máquina do tempo enfrentarão com melhor espírito o menos doce do presente e ainda menos do futuro…
Sinto mesmo alguma inveja, sei que não levará a mal, mas bem saberá que não são frequentes camaradagens assim, de uma vida, uma amizade que decerto não se esgotará no almoço semanal.
Afinal, todas as viagens são melhores em boa companhia, não é verdade?
Turbulentos na adolescência, separados pelas circunstâncias da vida sem no entanto nos separarmos, juntos de novo no Outono das nossas vidas que insistimos em viver como se fosse Primavera. Sinto-me um priviligeado, pois como muito bem imaginou sei que não são muitas as tertúlias que mais não pretendem do que celebrar a amizade. Obrigado por ter entendido tão bem o que quiz dizer.
O anónimo sou eu
É sempre grato cruzar-me com quem valorize genuinamente o simples milagre de existir.
Mas a sorte de encontrarmos “compagnons de route” a nosso gosto é um milagre duplo.
Não aparentando o Carlos Arnaut ser pessoa de queixas ou azias (que desgostos todos temos), ainda mais contente fico por a Sorte ter calhado a quem a aprecie – o que nem sempre acontece, como sabe.
No fundo, ser velho é perceber que toda a gente está lixada: os jovens porque ainda não sabem, os velhos porque sabem demais. A diferença é que no meu caso já não tenho paciência nem para a mentira nem para o ginásio. E também quem é que quer subir degraus dois a dois? Só quem tiver a bexiga cheia e o elevador avariado.
O comentário mais acertado.
Destacado no pódio.
Começam a crescer os pelos do nariz, orelhas e do rabo e um gajo começa a ter que ir a esteticista.
Não quer confessar mais nada?
E quando começa a tornar-se fácil descê-los todos de uma vez…
Ora bem, pois.
É muito simples, quando uma pessoa está a ir para velha deve evitar todas as escadas, tanto as que sobem (as quais a pessoa tem dificuldade em subir) como as que descem (nas quais o perigo de rebolar por elas abaixo é grande).
As rampas são altamente preferíveis às escadas, para pessoas idosas.
Infelizmente os arquitetos ainda não se aperceberam disso.
Tudo resultaria melhor se contratassem arquitectos em vez de “arquitetos”.
Talvez melhor ainda contratarem arqui-tetas.
´
É mesmo, não sei no que andam a pensar.

Eu acho que os arquitectos e os mestres-de-obras andam a descurar os velhos, e não deviam porque um dia todos se encontrarão na mesma situação. A contar com a velhice deviam fazer escadas para subir e fazer escadas para descer e ficava o assunto resolvido. Mas não, só pensam no futebol. Uns se ganham o tri, outros, se ganham um neste século.
Ando há dias a fazer alpinismo numa grande cidade europeia em que elevadores e escadas rolantes andam sempre com avaria. Com mala e mochila, é um desporto radical.
E falamos nós de Lisboa…
“… escadas rolantes andam sempre com avaria”
Terá por aí passado o mentecapto Trump há pouco tempo?
No caso dele terá sido “sabotagem”. O FBI investiga.
“Sabotagem” ao mais alto nível, com certeza…
Mas que foi bonito de se ver, lá isso foi.
Galgar escadas.
Escadas rolantes?
Noiret tem graça mas a lista podia decuplicar e melhorar.
Para já, tive de corrigir alguém que, com simpática empatia, me disse ser difícil subir escadas. Subir é mais cansativo mas descer é bem mais difícil.
Também o Verão cada vez mais quente, é parcial. O que se passa é que há uma acentuada redução dos limites de bem estar térmico, quer frio quer calor. Tive um tio, há muito falecido que me disse uma vez que, quando uma pessoa envelhece, a primeira coisa a avariar, era o termóstato.
Quando cheguei aos 50 anos reparei que as miúdas de 20 anos já não olham para mim como dantes.
Para que haviam de olhar para si? Elas olham sobretudo para o telemóvel. Azar o seu, não ter formato de telemóvel.
Noutro dia perguntei a uma, de 24 anos, por que motivo está sempre de olho no telelé. Afinal o que a atrai tanto ao aparelho? A resposta foi concisa e directa: “Tinder.”
Deixe lá, são umas parvinhas. Nem sabem o que andam a perder

As escadas não são mais altas,
Nem os degraus mais pesados;
É o corpo que se cansa
Pelos anos carregados.
As letras não diminuem,
Nem o jornal se afastou;
Os olhos é que se apagam
Com o tempo que passou.
Não é que o mundo fale baixo,
Nem que as vozes sejam fracas;
É o ouvido que, cansado,
Deixa a vida andar nas marcas.
O caminho até à estação
Não dobrou na realidade;
Foi a pressa que encolheu
Com a falta de vontade
Não é o frio que é maior,
Nem o verão mais inclemente;
É a idade que se queixa
De tudo que sente e não sente.
Os novos não são meninos,
São do mesmo ser humano;
Mas quem envelhece cedo
Vê criança em todo o ano.
E os colegas que eram iguais,
Hoje dobrados se vão;
Não é culpa da velhice,
É da luta e da ilusão.
E aquele amigo no bar
Que já nem me conheceu,
Só quem mudou foi o tempo
E o velho sou eu.
Muito bonito. Gostei muito.



Só pelo agradecimento merece uma balada.
Balada da Matilde dos Olhos Verdes
Na tarde mansa que o vento embala,
Lá vai Matilde, serena e bela,
Com os seus olhos da cor da sala
Onde o silêncio mora com ela.
Verdes, tão verdes, como a esperança
Que nasce à beira de um ribeirão,
São como os campos depois da dança
Da chuva mansa no chão do verão.
Olhos de sombra, de sol e seiva,
Feitos de musgo, de luz e mar,
Trazem nos cílios a brisa leiva
Que faz as folhas do outono voar.
Por onde passa, a rua silencia,
E as andorinhas baixam do céu.
Matilde é sonho, é melodia
Que o mundo escuta de chapéu ao léu.
Veste de simples, anda descalça,
Mas há perfumes no seu andar…
Quem vê Matilde logo se exalta,
Como se visse o luar cantar.
Ah, se eu pudesse, num verso triste,
Prender-te os olhos num ramo de flor…
Mas só o tempo é quem os assiste,
E os leva embora com seu rumor.
OH!

Lisonjeada e embevecida..[<)]
Versos só para mim.
Muito obrigada, gentil senhor.
Noiret, Reggiani, Gabin : tema presente em todos eles .
Provàvelmente em outros, também ( levíssima “lapalissade” , convenhamos…)
JSP
Certo dia, alguém perguntou-me porque é que eu subia os degraus dois a dois. Eu repondi: “porque posso”. Hoje, uma dúzia de anos depois, talvez já respondesse: “porque ainda posso”.
Se calhar daqui a uns dias a resposta já será: ” porque estou aflitinho para fazer xixi”.
“Percebemos que estamos a ficar velhos quando começa a tornar-se difícil subir degraus dois a dois”
Eu que o diga, tive que deixar a amante, a mulher já dá cabo de mim.
Uma outra forma de se descobrir que se está a ficar velho é descobrir que se tem um cancro. Foi o que aconteceu, precisamente, a Philippe Noiret.
(…)
“O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja…”
Reli estes versos de “O Guardador de Rebanhos” e lembrei-me de os trazer aqui, antes que a IA os abarbate, faça um remix e os apresente como seus nalguma epopeia a metro.
Lindos, não são?
Nah. Começamos a ficar velhos quando começamos a ter fadiga psicológica ao olharmos para camas baixas…
Os degraus, certíssimo, e saber que nunca faremos todas as receitas de todos os livros(são bastantes) das ditas, que temos em casa.
🙄 Abraço