A forma como encaramos a velhice tornou-se num dos maiores paradoxos do nosso tempo: procuramos prolongar a vida humana, de modo quase obsessivo, mas, simultaneamente, criámos um modelo social e cultural que menospreza a velhice. Na sociedade contemporânea, o homem orgulha-se da sua longevidade, mas envergonha-se da sua velhice.
Pergunto-me se seria hoje possível uma obra como a de Cícero, De Senectute, onde se elogia os privilégios da velhice, mas se reconhece porém de forma tranquila que se vive então o ocaso da vida. Onde se assume um genuíno reconhecimento da nossa finitude – afinal, a única atitude que, partindo da aceitação humilde do que não somos, afirma plenamente a singularidade do que somos, do que fomos e do que não podemos nem devemos ser.
Disto falava também um envelhecido James Madison em 1831 (e não é por acaso que os revolucionários americanos idolatravam os clássicos), orgulhoso da sua longevidade, mas perfeitamente ciente de que o seu tempo chegara ao fim. Revendo os seus 80 anos de idade, Madison – o último dos Pais Fundadores, a derradeira testemunha da Revolução Americana – escrevia ao amigo Jared Sparks: “Depois da morte do coronel Few sou agora o único signatário da Constituição ainda vivo. Sou também o último sobrevivente do Congresso Revolucionário que operou durante a Guerra da Independência; e sou ainda o único sobrevivente dos membros que em 1776 criaram a Constituição da Virgínia. Tendo vivido mais tempo do que tantos dos meus contemporâneos, não devo esquecer que provavelmente vivi também mais tempo do que aquele que me estava destinado."

Acho muito importante escrever sobre isto. Afinal trata-se de referir mitos que considero muito perniciosos, nos dias que correm: o da “juventude” a qualquer custo, o da “negação do envelhecimento” e do lugar aos velhos, como se se trate de um defeito e o da “vida eterna” como se a morte devesse ser evitável. Lástima para quem assim desperdiça a oportunidade única, a maravilhosa enorme improbabilidade que nos faz viver.
Muito obrigado por este sugestivo comentário. Eu tenho apenas 28 anos, mas assusta-me enormemente a “cultura de juventude” em que vivemos.
Muito bom.
Gracias, Ana!
Um excelente texto sobre um oportuno tema, José.
Obrigado, João!
Excelente ‘post’. Tens toda a razão, José. Felizmente esse fenómeno que criticas não existe em todas as culturas. No Oriente, por exemplo, os mais velhos são respeitados e escutados com atenção.