Da velhice


José Gomes André,

A forma como encaramos a velhice tornou-se num dos maiores paradoxos do nosso tempo: procuramos prolongar a vida humana, de modo quase obsessivo, mas, simultaneamente, criámos um modelo social e cultural que menospreza a velhice. Na sociedade contemporânea, o homem orgulha-se da sua longevidade, mas envergonha-se da sua velhice.

Pergunto-me se seria hoje possível uma obra como a de Cícero, De Senectute, onde se elogia os privilégios da velhice, mas se reconhece porém de forma tranquila que se vive então o ocaso da vida. Onde se assume um genuíno reconhecimento da nossa finitude – afinal, a única atitude que, partindo da aceitação humilde do que não somos, afirma plenamente a singularidade do que somos, do que fomos e do que não podemos nem devemos ser.

Disto falava também um envelhecido James Madison em 1831 (e não é por acaso que os revolucionários americanos idolatravam os clássicos), orgulhoso da sua longevidade, mas perfeitamente ciente de que o seu tempo chegara ao fim. Revendo os seus 80 anos de idade, Madison – o último dos Pais Fundadores, a derradeira testemunha da Revolução Americana – escrevia ao amigo Jared Sparks: “Depois da morte do coronel Few sou agora o único signatário da Constituição ainda vivo. Sou também o último sobrevivente do Congresso Revolucionário que operou durante a Guerra da Independência; e sou ainda o único sobrevivente dos membros que em 1776 criaram a Constituição da Virgínia. Tendo vivido mais tempo do que tantos dos meus contemporâneos, não devo esquecer que provavelmente vivi também mais tempo do que aquele que me estava destinado."

7 comentários em “Da velhice”

  1. Acho muito importante escrever sobre isto. Afinal trata-se de referir mitos que considero muito perniciosos, nos dias que correm: o da “juventude” a qualquer custo, o da “negação do envelhecimento” e do lugar aos velhos, como se se trate de um defeito e o da “vida eterna” como se a morte devesse ser evitável. Lástima para quem assim desperdiça a oportunidade única, a maravilhosa enorme improbabilidade que nos faz viver.

  2. Excelente ‘post’. Tens toda a razão, José. Felizmente esse fenómeno que criticas não existe em todas as culturas. No Oriente, por exemplo, os mais velhos são respeitados e escutados com atenção.

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