Parece que este ano não haverá debates televisivos durante a campanha eleitoral. Estou convencido que a maioria dos portugueses reage com indiferença à notícia, alguns até respirarão de alívio e só uma minoria lamenta não ter oportunidade de assistir aos confrontos entre candidatos. O tema servirá para troca de acusações mútuas durante a campanha e nenhum dos líderes dos principais partidos deixará de acusar Sócrates de fugir ao debate. Com razão. Embora a posição de Sócrates não seja inovadora (Cavaco também recusou debates quando era PM) não deixa de ser uma prova de fraqueza e falta de espírito democrático – o que não constitui novidade.
Ao dizer que apenas aceita fazer dois debates com MFL, Sócrates demonstra desrespeito por toda a oposição e procura reforçar a ideia de que a vitória nas eleições se irá discutir apenas entre PS e PSD. Embora seja verdade, a realização dos debates com todos os partidos poderia levar muitos eleitores a optar por outros partidos, retirando a hegemonia ao Centrão. Sócrates sabe que um confronto directo com os líderes dos outros partidos prejudicaria o PS e beneficiaria o PSD. Compreende-se – mas em democracia não se pode aceitar – esta posição.
A posição de Sócrates traduz, também, a fórmula do seu governo. Apenas vai à luta com quem sabe que é mais fraco. Contrariando as promessas da campanha eleitoral de 2005, Sócrates nada fez para combater os grandes lobbies que gravitam em torno do poder. Bem pelo contrário. Cedeu em quase tudo, como é bem visível no caso das farmácias, dos bancos ou dos juízes. A aprovação do Código do Trabalho, o aumento da idade da reforma e redução da retribuição, a esterilização das entidades reguladoras, a redução de várias regalias sociais ou a alteração do vínculo dos funcionários públicos são apenas alguns exemplos que permitem ver de que lado está Sócrates. Os debates com líderes dos partidos à esquerda e à direita seriam autênticos massacres, que lhe fariam perder muitos votos. Ao contrário, dois debates com MFL ser-lhe-iam muito favoráveis. A líder do PSD não consegue articular duas frases sem se contradizer, não tem estaleca para o confronto, porque não tem bases que sustentem a vacuidade das suas ideias. Sócrates poderia ainda invocar, durante os debates, os elogios que MFL fez ao seu governo antes de ser presidente do PSD e não perderia a oportunidade de lembrar aos portugueses o seu desempenho enquanto ministra das finanças de Durão Barroso. No final, com duas vitórias KO, talvez até pudesse aspirar à renovação da maioria absoluta.
Compreende-se, por isso, a posição de Sócrates. Mas não se aceita. Como também não se aceita a posição de MFL. Fingindo ser democrata, diz que só debaterá com Sócrates se ele aceitar debates com os líderes dos outros partidos. Fá-lo porque sabe que do debate entre Sócrates e os outros partidos o PSD pode recolher dividendos que compensem as perdas resultantes dos debates que ela própria travaria com Sócrates. Ou seja: MFL, incapaz de enfrentar Sócrates em termos programáticos e obrigada a recorrer constantemente ao insulto, não desdenharia chegar ao poder à custa do esforço dos outros partidos, inaugurando assim o vampirismo como novo método para ganhar eleições.
MFL e Sócrates estão bem um para o outro. Caberá aos eleitores dizer se estão fartos destes figurões ou pretendem entregar o seu voto a novos figurantes. No meio de tudo isto, os debates televisivos acabam por ser apenas um pormenor.

Claro e cristalino, Carlos, é mesmo. Por mim só uma angustia me atormenta, que novos figurantes se perfilam a quem eu possa entregar o meu voto? Não descortino nenhum. É com esta angustia que entrarei na cabine de voto…
è a angústia de todos os portugueses que não vivem do regime e se recusam a fazê-lo. Ou a rever-se nos partidos que temos!
Partilho da mesma angústia, mas quando entrar na cabina de voto levo uma certeza. Votar no Ps ou no PSD é perpetuar o sistema. Quem está farto do Centrão e deste sistema de alternância de interesses espúrios que se interpenetram, só pode fazer uma coisa. Votar num dos outros 3 partidos com assento parlamentar.
Eu acho que até ando com alergia ao assento parlamentar, Carlos. Cheira-me que parte do mal está precisamente no assento. Se eles tivessem de trabalhar em pé, como se fossem trabalhadores do comércio ao balcão, o caso fiava mais fino.
Podes crer, João, mas algum desse pessoal estva melhor era a trabalhar na estiva
Carlos:
A situação para mim é bem clara, quem não quer debates como as tvs propõe é sócrates e ponto final.
Ontem ouvi F. Louçã afirmar que MFL tinha medo dos debates por isso os recusava, ora isto é falso tendo em atenção que a própria afirmou que iria a qualquer debate fosse com quem fosse.
Não estou de acordo contigo quando afirmas que um confronto entre MFL e sócrates seriam favas contadas para o engº, pois uma coisa é fazer propaganda outra coisa é ter ideias claras e saber governar e isso foi coisa que infelizmente para o país este sr não fez nestes 4 anos aliás como tu afirmas no texto, para os fracos é arrogância para os fortes “mete o rabinho entre as pernas”.
Em conclusão tenho dúvidas que sócrates tenha interesse nos debates seja de que tipo forem para a máscara não cair durante os mesmos ou seja confirmarmos que aquela figura que nos tentam vender como produto afinal é um verdadeiro “flop”, mas cada um deixa-se enganar quando quer.
Caro Carlos:
MFL quer os debates pelas razões que apontei. Não quer debater com Sócrates… quer que Sócrates debata com os outros, o que é muito diferente.
MFL e Sócrates são as duas faces de uma mesma moeda. Mas o maior problema é que a moeda é falsa…
Off-topic (tenho que escrever isto em inglês): já de volta dos balcãs André?