Já toda a gente percebeu que o regime cubano poderia estar mais aberto, se tivesse sido levantado o embargo a Havana. Embora já não olhe para a revolução cubana com aquele olhar idílico da minha juventude, continuo a ter uma enorme admiração por um povo que enfrenta com estoicismo os ataques do mundo ocidental, mostrando-se ainda solidário com os países africanos que necessitam da sua ajuda.
Na América Latina, há uma crescente simpatia pelo drama cubano e aumenta a solidariedade dos governantes dos países da região. Quase todos os líderes sul-americanos se deslocaram já a Cuba e manifestaram o desejo de ver terminado o embargo àquele país, apelando a Obama para tomar essa iniciativa. A isto chamo solidariedade entre povos, uma coisa que em qualquer momento de crise se constata não existir no seio da União Europeia. Não seria uma medida de bom senso, por parte da UE, dar o primeiro passo para acabar com o isolamento do povo cubano?
Vários países da América Latina viveram, durante décadas, sob regimes ditatoriais execráveis, (quase) sempre apoiados por Washington. Em cada país latino-americano que pretendesse enveredar pelo regime democrático, os americanos viam potenciais inimigos aliados da URSS. Por isso mataram Allende e deram o seu aval a Pinochet, congratularam-se com as ditaduras brasileira e argentina, atearam fogos no Panamá, na Bolívia, na Nicarágua ou em Salvador e, numa demonstração de insanidade, invadiram Grenada.
Os países latino-americanos estão cansados de ser tratados como feudo dos americanos e procuram agora traçar o seu caminho para a democracia. Para lá chegarem, é natural que cometam alguns erros. Não podemos criticar um povo que dá o benefício da dúvida a um líder que lhe promete (e tem cumprido…) melhores condições de vida, aceitando submeter-se a sufrágios eleitorais regulares.
Percebo que as grandes famílias “feudais” não vejam com bons olhos a perda das suas regalias e até me parece normal que milhares de cidadãos, cuja sobrevivência depende dos postos de trabalho que essas famílias garantem, a troco de salários esmolares, estejam receosos da mudança, por temerem a perda do seu ganha pão. Tenho mais dificuldade em compreender aqueles que acusam alguns líderes sul-americanos de ditadores e aceitam, com naturalidade, que Alberto João Jardim esteja no poder há quase 40 anos, graças à subserviência dos sucessivos governos que nunca tiveram coragem de pôr um travão aos gastos sumptuários do líder madeirense e vão sempre prestar-lhe vassalagem em vésperas de actos eleitorais.
Não gosto de viver num país cujo PM tem medo de ir à Madeira, mas compreendo bem os elogios que AJJ fez recentemente a Hugo Chavez. E isso, meus amigos, ajuda-me a perceber, ainda melhor, a emergência de alguns líderes sul-americanos.

Carlos, snap out of it!
A América Latina só será “livre” quando os déspotas voltarem ao poder. Ponham-se a pau porque ainda restam alguns desses déspotas que a cada dia que passa vêem o poder fugir-lhes da mão.