
Adolfo Mesquita Nunes: «A minha memória é caprichosa, não se deixa enganar ou seduzir pelas minhas instruções. Guarda o que lhe apetece, algumas vezes em segredo, muitas vezes contra a minha vontade. É ela, não eu, que escolhe o que me faz regressar ao ouvir o primeiro acorde ou ao ver primeira imagem. Esta é uma série que lhe é dedicada. Não à minha memória, que não merece, mas ao sítio para onde regresso quando lhe obedeço.»
Cláudia Köver: «Quero ficar com os pés plantados neste lugar, sem nunca mais perder as raízes, nem deixar a chuva me levar. Quero ficar neste solo ainda que inóspito e sem previsão de florir em meu redor. Quero ficar aqui ao lado desta pedra, quer ela me contemple com desassossego ou de olhar gelado. Ele é pedra. Levanta-se com mais facilidade do que eu, que posso cair morta só com a força do puxão. Ele não tem época para ser levado. Eu sou flor, mas tenho em pedra o meu coração.»
Ivone Mendes da Silva: «Sei, infelizmente sei muito bem, que há coisas mais tristes na vida do que o encerramento de uma livraria. Mas o encerramento de uma livraria é uma coisa triste. Lentamente, vamos ficando reduzidos a espaços onde não cheira a livros, onde não se respira o pó dos livros (…), onde dois ou três exemplares da mais esplendorosa iliteracia nacional circulam por ali como podiam circular pela charcutaria. Eu sei que a vida está difícil. A minha também.»
João Carvalho: «Tem por título Histórias Rocambolescas da História de Portugal e por autor João Ferreira. A Esfera dos Livros lançou-o em Abril de 2010 e o que me chegou às mãos pertence à 6.ª edição, datada de Agosto de 2010, o que significa coisa nenhuma visto que as seis edições mencionadas na ficha técnica não dão conta do número de exemplares publicados, o que torna a indicação irrelevante. Alguém bem intencionado fez o favor de mo oferecer. Conforme as minhas apetências, eu próprio teria comprado o livro apenas pelo título, que é complicado, mas é tentador. Um erro, afinal: João Ferreira, jornalista com mestrado em História Cultural e Política, escreveu um livro que só serve para mostrar o que ninguém deve escrever — ou que alguém pode atrever-se a escrever às escondidas, mas que ninguém deve publicar para não o mostrar.»
José Gomes André: «Há muitas explicações para a crise europeia, mas uma das mais importantes passa certamente pela falta de visão dos líderes políticos europeus. Reagiram tarde ao “crash” económico-financeiro, valeram-se de narrativas morais pueris para justificar os buracos da UE, viraram costas a soluções políticas criativas no quadro europeu, ignoram a história do Velho Continente, não querem saber do exemplo americano, não percebem a natureza do federalismo, não entendem o perigo de uma austeridade sem crescimento. Aparentemente, estão agora muito preocupados com a “surpreendente” taxa de desemprego. Quem é esta gente? Que livros (não) leram? Em que mundo vivem?»
José Navarro de Andrade: «Aqui está um caso chapado desta espécie de fascismo linguístico, que no seu puritanismo e nas suas certezas ideais, intende rasurar a utilização mundana da língua, em nome de uma adequação perfeita aos supinos conceitos que a deve informar. A minha avó, na sua profunda e rústica ignorância teológica, apodava-me de judeu cada vez que eu atirava pedras aos gatos, o que era, no dizer dela, cheia de piedade pelos felinos, uma “judiaria”. Para o procurador de Uberlândia este linguajar eticamente errado (digo eu hoje, ignorava ela, coitada, então), como não deveria ter existido, não deve ser cientificamente registado.»
Patrícia Reis: «Tenho por Eduardo Lourenço, como já se percebeu, não apenas admiração intelectual, mas uma ternura imensa. Gosto de ficar com as suas mãos nas minhas enquanto me conta qualquer episódio e considero um privilégio conhecê-lo, ter essa possibilidade de falar com alguém que, independentemente da idade, pensa sempre fora da caixa.»
Teresa Ribeiro: «Apanharam duas médicas a receber dinheiro de um laboratório farmacêutico. Estranho. Pergunto-me o que terá falhado para o caso ter caído nas malhas da justiça. Cá para mim foi algum colega invejoso que as denunciou, porque como se sabe as boas relações entre laboratórios e médicos nunca são perturbadas pelas autoridades. Nem pela Ordem dos Médicos, sempre muito preocupada em defender a classe no matter what, nem pela justiça.»
Eu: «Um actor tem como missão – muito mais do que profissão – seduzir os outros pela palavra, pelo gesto, pela entoação. Às vezes pelo silêncio, que também constitui uma poderosa arma de sedução. Podemos demitir-nos de um cargo, jamais conseguiremos demitir-nos da nossa vocação. É por isso que jamais me passaria pela cabeça chamar “ex-actriz” a alguém. Mesmo a uma jovem condenada a prisão em Espanha por tráfico de droga.»
