
André Couto: «Eu assisti aos mandatos de Jorge de Brito, Manuel Damásio e João Vale e Azevedo, os três estarolas que em oito anos arrumaram, para décadas, as finanças e o património, acima de tudo o património, do meu Sport Lisboa e Benfica. Eu vi da bancada génios da táctica, treinadores galácticos, que esta gente trouxe para o meu clube, como Artur Jorge, Paulo Autuori, Manuel José (com o seu 3-5-2), Graeme Souness (com a invencível armada inglesa) ou Jupp Heynckes. Vi ano após ano o insucesso desportivo dar lugar à depressão da saída de vinte estrangeiros de qualidade duvidosa, com a entrada de outros vinte estrangeiros de qualidade ainda mais duvidosa.»
João Carvalho: «Não sei se é francês, mas é seguramente um governo europeu.»
José António Abreu: «A dívida nasceu de actos livres. É como se uma família, ao descobrir não ter afinal dinheiro para pagar as prestações da casa, do carro, do colégio dos filhos, do acesso à net e à SportTv, dos iPhones e iPads e iOutrasCoisas acusasse os bancos e a escola e a Zon e a Worten de lhe extorquirem dinheiro indevidamente – e exigisse o pagamento aos vizinhos. Há apenas um ponto em que quem assim fala tem alguma razão: a lógica do sistema fez com que os bancos achassem que podiam ganhar muito dinheiro sem risco – os Estados pagariam sempre. Mas não foram os bancos que lançaram emissão de dívida pública atrás de emissão de dívida pública. Foram os Estados. Os governos, em nome de todos os cidadãos – mesmo daqueles que se opunham ao aumento do endividamento.»
Laura Ramos: «Deixem o capitalismo e o consumismo estrebuchar em assomos de esplendor, sobretudo se perseguir coisas descartáveis e sumptuárias como mantimentos e víveres. – Quem sabe se os iogurtes não serão Chanel e as cebolas Diorissimo? Então? Deviam estar satisfeitos e a tratar das exéquias.»
Luís M. Jorge: «Era um descontozinho em copos Riedel Sommelier. A estúpida da empregada já me partiu três, e a contragosto lhe cortei os subsídios de férias e de Natal para não viver acima das possibilidades. Agora diz que o dinheiro “não chega”. Não chega? Todos temos de fazer sacrifícios. Vai ao Pingo Doce, filha. Zombie já tu és.»
Eu: «Por vezes alguns dos aspectos mais secundários de um quadro são os que o tornam mais significativo. Acontece isso no célebre O Grito, de Edvard Munch (1893), peça essencial da iconografia do nosso tempo. Vi pela primeira vez esta tela densa e misteriosa ainda criança, reproduzida num selo norueguês que me fascinou. Norge, lia-se nesse selo branco e azul, como atestado de proveniência. Mirei-o e remirei-o incessantemente, sem nada saber da arte de Munch nem da sua existência atribulada. Fascinou-me ao primeiro olhar: jamais vira – jamais vi – os abismos da mente humana captados de forma tão verosímil pelos caprichos de um pincel lançado numa espécie de liturgia do expressonismo. Há vida neste quadro. Vida transtornada, transfigurada, trepassada por uma dilacerante angústia existencial, indescritível por palavras. Só vendo se percebe.»
