Desfasamento


Paulo Gorjão,

Recomendar a abstinência sexual como meio preferencial para combater a SIDA, nomeadamente em detrimento do uso do preservativo, é uma posição que não consigo compreender. Há nesta posição um desfasamento da realidade que me custa a perceber. Mais ainda me custa a perceber que se diga que a utilização do preservativo agrava a situação.

Desincentivar o uso do preservativo é uma posição que anda no limite da irresponsabilidade.

12 comentários em “Desfasamento”

  1. Com ele atravessado
    sem o conseguirem engolir,
    este pensamento devassado
    a razão não deve obstruir!

    O mexilhão prevenido,
    com uns quantos na carteira,
    ficará mais desprendido
    de cometer uma besteira!

    1. A questão do preservativo

      Qualquer dia sou preso ou fazem-me uma espera mas eu não me importo: na adolescentocracia em que vivemos, compreende-se que a mensagem do Papa menosprezando a eficácia do preservativo como remição do flagelo da sida seja a priori rejeitada. Mas talvez um pouco de boa fé e uma pequena parte da nossa consciência nos ajudem a chegar lá: a questão da sida só será verdadeiramente mitigada e debelada através de uma adequada educação sexual, por via da difusão de exigentes valores civilizacionais, como a castidade, a fidelidade entre marido e mulher – ou entre parceiros sexuais, para ser mais politicamente correcto – e a monogamia, em contraste com uma cultura de promiscuidade e de hedonismo que nem a lonjura e o calor dos trópicos justificam.

      Muitos dos que se chocam com a exigência desta mensagem, preferem nela ver um farisaico encolher de ombros face à propagação da “pandemia africana”. Para anunciar fórmulas de facilitismo estão cá os políticos. A Igreja ensina, na dignidade da pessoa humana, uma via mais difícil, mais estreita e seguramente menos rendosa. Mas nem por isso menos necessária e verdadeira.

      Foi isto que escrevi ontem no blog Risco Contínuo.

      Cumprimentos,

      1. Muito bem, João. Essa é perspectiva da Igreja e é assim que tem de ser entendida: ou aceitamos os seus valores, ou nos afastamos. Mais a mais, tendo em conta o papel assistencial que a Igreja presta aos que mais precisam de auxílio – designadamente, em África. E sem olhar a credos.

      2. Caro João Távora (JT), o meu problema com o seu raciocínio é muito simples. Na prática, o que o JT está a fazer é a impor a sua bitola moral — posso dizer assim? — a todas as pessoas. Ora, não estando eu necessariamente em desacordo com os seus padrões, recuso todavia a sua imposição a terceiros.
        Adiante. Até aceitaria sem polémica alguma as palavras de Bento XVI se as mesmas se dirigissem apenas aos católicos. Ora, como sabe tão bem quanto eu, tal não é o caso.
        Quanto ao resto, dispenso pela parte que me toca acusações de anticlericalismo ou de má-fé. As palavras e as posições de Bento XVI são, para mim, passíveis de discussão e de contraditório. Como acontece com qualquer outra pessoa.

        1. Caro Paulo:
          O Paulo é livre de pensar e escrever o que quiser, era o que mais faltava! O Paulo não pode é exigir outra vocação ou doutrina Igreja. De resto eu não sou radical (sobre esta matéria aprendi muito com o Padre Feytor Pinto): uma coisa é o “alvo” o “Ideal” acessível na num caminho de maturidade e fé, a assumpção dum amor maior, pleno, expresso numa sexualidade liberta de amarras artificiais e empecilhos físicos que condicionam uma relação que se deseja inteira. No outro extremo mora a irresponsabilidade, a amoralidade. Entre os dois lados de facto há soluções várias que podem e devem ser adoptadas por qualquer casal minimamente responsável. Soluções essas que a Igreja na prática tolera na atenção ao individuo e ás suas circunstancias. A Igreja que actua no terreno, a alimentar, a instruir e evangelizar com amor, misericórdia, tolerância e… realismo – acredite.
          Com amizade,

          1. Caro João Távora, estou em desacordo, i.e. acho que se pode e deve exigir outra abordagem à Igreja Católica. Perdoe-me a comparação algo disparatada, mas é o que me ocorre, por agora: nós não pedimos ao Islão outra doutrina? Ou melhor dizendo, outra interpretação? Por que motivo não podemos fazer o mesmo com a nossa Igreja?
            Sobre o ponto de encontro e de equilíbrio, de acordo.
            Abraço.

            1. Paulo, creio que a resposta está contida na pergunta. Nós pedimos outra interpretação do Islão a quem? A minorias que fazem uma interpretação abusivamente grosseira pela violência. Podemos pedir outra interpretação à Igreja sobre o tema em apreço? Parece-me que não, porque não há qualquer problema de interpretação.

              No fundo, se bem entendo, estamos a falar de princípios da própria Igreja e não de matéria passível de interpretações. As palavras do Papa vão no sentido que lhe compete, que é o da espiritualidade, o da alteração de comportamentos, tanto faz que se dirija a África ou ao mundo dito civilizado.

              Já a prevenção prática de uma realidade trágica (que a Igreja não ignora e à qual presta notável assistência), essa, competa à Saúde pública, aos Estados, promovê-la. E, não por acaso, a própria Saúde pública mundial, ao fazê-lo, tem também insistido na necessidade das mudanças comportamentais.

              Espero ter contribuído alguma coisa para o tema, mas temo que não.

  2. “Soluções essas que a Igreja na prática tolera na atenção ao individuo e às suas circunstancias. A Igreja que actua no terreno, a alimentar, a instruir e evangelizar com amor, misericórdia, tolerância e… “

    A história da Igreja Católica, e das outras, tem um veio de intolerância. Compreende-se que seja assim: se as igrejas requerem dos crentes que acreditem cegamente num certo número de princípios, estórias e interpretações indemonstradas e indemonstráveis por terem que ver com o Divino, reagem mal ao cepticismo e à discordância, porque uma só dúvida tem potencial para fazer ruir o edifício. Ora, a fé é um conforto para os crentes; e é um modo de vida para os “funcionários” das igrejas. Logo, o exercício da tolerância exige um esforço só acessível aos muito santos, muito sábios ou muito civilizados, e inacessível às organizações porque estas tendem a defender antes de mais os seus interesses. E é porque as coisas são assim que as evoluções doutrinárias (que sempre existiram, não obstante as afirmações ingénuas de muitos crentes) são quase sempre traumáticas. Tudo isto junto significa que aquilo que a Igreja Católica diz interessa aos não-crentes porque a história da Igreja, mesmo a recente, tem infindáveis exemplos de imposição da mundivisão católica a todos, católicos e não-católicos, por via dos poderes do Estado, incluindo os rigores do Código Penal. Ou alguém duvida que a Igreja não hesitaria em proibir a todos o uso do preservativo, se para isso tivesse poderes?

    1. Se bem entendi, só li disparates (sem qualquer intenção de menosprezar o texto). Sobre o tema preciso que está na ordem do dia já escrevi que chegue. Para análise deste texto, quedo-me na apreciação às organizações da Igreja, que «tendem a defender antes de mais os seus interesses».

      Podemos até ser laicos ou agnósticos, mas temos de ser justos e sérios. A Igreja tem um papel notável e essencial no plano da educação, formação e assistência em todo mundo. De tal modo que os Estados se deixam substituir nas suas obrigações, até constitucionais, pelo desempenho da Igreja.

      É também justo reconhecer que a Igreja alarga esse desempenho às regiões mais difíceis do mundo e que ele é prestado a todos os que precisam por igual, sem distinguir crenças ou religiões.

      Insisto: a nossa discordância em relação à Igreja é inteiramente plausível. Mas, para que seja séria, também tem de ser justa.

      1. A obra assistencial da Igreja Católica, no passado e no presente, é uma dimensão que deixei de fora do meu texto por essa obra não infirmar o meu ponto, que era a natureza inerentemente intolerante das Igrejas. A afirmação que produzi em relação às organizações em geral aplica-se à Igreja Católica enquanto organização que também é.
        Não considero o seu texto disparatado e, assim, não o menosprezo.
        Cordiais cumprimentos.

  3. É claro que a Igreja tem todo o direito de tomar posições coerentes com a sua doutrina, mas não pode ignorar a sua responsabilidade social e é por isso que as suas opiniões reiteradas sobre o uso de preservativo incomodam. Enquanto se gastam milhões em campanhas que aconselham o uso do preservativo – uma medida de saúde pública consensualmente considerada de extrema relevância no combate à sida – parece-me lógico esperar alguma tolerância por parte da Igreja em relação aos “comportamentos desviantes” dos seus fiéis, que passaria por um discurso menos dogmático e já agora mais verdadeiro. O que realmente chocou muita gente foi o Papa vir agora dizer que o uso do preservativo em vez de ser parte da solução é parte do problema no combate à sida.

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