O ano de 2008 marcou a despedida de seis colegas com quem trabalhei em momentos e locais diversos: Miguel Lemos, Cadi Fernandes, João Isidro, Händel de Oliveira, Eduardo Tomé e Acácio Barradas. Mortes prematuras, em vários casos – mas não será sempre um pleonasmo falarmos em mortes prematuras?
A Cadi era a mais nova, tinha um talento enorme para a escrita: entregou-me o último trabalho jornalístico que produziu, já muito doente. Era uma entrevista ao escritor John Updike, que tive a dolorosa honra de editar no Diário de Notícias. Mantinha a qualidade de sempre.
O Acácio era o mais velho: conheci-o ainda apenas como leitor dos desaparecidos Diário Popular e O Ponto, antes de trabalhar com ele no DN, onde era o editor da secção de Agenda e um dos habituais animadores dos plenários de redacção, quando ainda existiam.
O Tomé era um repórter fotográfico batido e experiente: este ofício não tinha segredos para ele. Partilhámos muitos serviços juntos e uma paixão desmedida pelas rotas do Oriente.
O Händel, com quem trabalhei no início da profissão no semanário Tempo, era um jornalista político da velha guarda, que cultivava fontes nos bares da capital e tinha uma garrafa de uísque à mesa de trabalho, com um cinzeiro a transbordar – um daqueles jornalistas que pareciam saídos de um filme americano da década de 40; para tanto, só lhe faltava o chapéu. Nos últimos anos, era ele o aglutinador dos antigos camaradas, organizando o concorrido jantar anual que se transformara numa espécie de romagem de saudade.
O João Isidro foi meu editor também no Tempo: era um jornalista culto, que parecia ter visto todos os filmes e lido todos os livros. Muito exigente na prosa – não gostava de ensinar, mas aprendi alguma coisa com ele.
O Miguel Lemos, com quem trabalhei em Macau, era uma pessoa reservada, que disfarçava a timidez com um meio-sorriso que sempre me lembrava o do Dana Andrews em filmes como Anjo ou Demónio. Era sobretudo um homem da rádio: tinha uma excelente voz, que ainda pode ser escutada em documentários do canal História. Um dia fez-me um enorme favor que nunca lhe pude agradecer devidamente.
Algumas mortes eram esperadas, como as da Cadi ou do Acácio. Outras apanharam-me por completo de surpresa, como nos casos do Tomé ou do Miguel.
Quando parte um colega, acabam de vez as histórias que partilhámos – as gargalhadas, as confidências, os projectos, as brigas ocasionais.
É um pouco de nós que parte também.


Fica-nos a saudade dos mortos e a lembrança de que estamos vivos. O que já não é mau nos dias de hoje. Os 122 que foram hoje despedidos do JN, O Jogo e 24 Horas que o digam…
Em geral, todas as mortes são prematuras ou assim nos parecem. Conheci alguns dos que mencionas: Miguel Lemos, Cadi Fernandes, Händel de Oliveira e Eduardo Tomé. Quando partem, perdemos pedaços de nós.
Só não conheci a Cadi e o Tomé. Ao João apenas conheci no tempo da Faculdade ( era brilhante…) e depois quando esteve no Sindicato, numa fase descendente da sua vida.
O Miguel era uma pessoa desconcertante, com quem convivi muito em Macau e quanto ao Acácio foi um CAMARADÃO com quem trabalhei no ” Ponto” ( oh que saudades!) , numa equipa fantástica de que também faziam parte dois grandes amigos (Baptista Bastos e José Leite Pereira) felizmente ainda entre nós.
Foi bom teres recordado estes nomes, Pedro!
Percebo o que queres dizer quando afirmas que “quando parte um colega acabam de vez as histórias que partilhámos”, mas não é muito exacto. Continuarei a ver e a ouvir o João e o Handel, de quem, como tu sabes, fui muito amiga e a lembrar a bela voz do Miguel, que também conheci.
Mas revejo-me nas tuas palavras quando dizes que com eles foi um pouco de nós que partiu também.
Tens razão, Teresa.
Parte sempre um pouco de nós, de facto.
Tal como você, Pedro, näo tive tempo para agradecer ao Miguel Lemos tudo o que fez por mim e, principalmente, tudo o que me deixou fazer.
Resta-me acreditar que, onde quer que esteja, possa saber que deixou “obra” suficiente para ser recordado com admiraçäo , ainda mais, naqueles dias em que pensamos que o jornalismo já näo é o que foi, nem somos os jornalistas que, nos dias ideais, sonhámos.
Obrigada pela evocaçäo , quase um ano depois da sua morte.
Vai fazer agora um ano estive pela última vez com o Miguel, na festa da TSF. Faço minhas as suas palavras, Bia.
Bonita homenagem, Pedro. Dói sempre perder amigos, e ainda mais quando são de convivência diária. Mas as histórias não morrem, pelo menos enquanto os que ficam as lembrarem e contarem, como neste post.
Sem dúvida, Ana.