Despedidas


Patrícia Reis,

 

 

O ano de 2008 marcou a despedida de seis colegas com quem trabalhei em momentos e locais diversos: Miguel Lemos, Cadi Fernandes, João Isidro, Händel de Oliveira, Eduardo Tomé e Acácio Barradas. Mortes prematuras, em vários casos – mas não será sempre um pleonasmo falarmos em mortes prematuras?

A Cadi era a mais nova, tinha um talento enorme para a escrita: entregou-me o último trabalho jornalístico que produziu, já muito doente. Era uma entrevista ao escritor John Updike, que tive a dolorosa honra de editar no Diário de Notícias. Mantinha a qualidade de sempre.

O Acácio era o mais velho: conheci-o ainda apenas como leitor dos desaparecidos Diário Popular e O Ponto, antes de trabalhar com ele no DN, onde era o editor da secção de Agenda e um dos habituais animadores dos plenários de redacção, quando ainda existiam.

O Tomé era um repórter fotográfico batido e experiente: este ofício não tinha segredos para ele. Partilhámos muitos serviços juntos e uma paixão desmedida pelas rotas do Oriente.

O Händel, com quem trabalhei no início da profissão no semanário Tempo, era um jornalista político da velha guarda, que cultivava fontes nos bares da capital e tinha uma garrafa de uísque à mesa de trabalho, com um cinzeiro a transbordar – um daqueles jornalistas que pareciam saídos de um filme americano da década de 40; para tanto, só lhe faltava o chapéu. Nos últimos anos, era ele o aglutinador dos antigos camaradas, organizando o concorrido jantar anual que se transformara numa espécie de romagem de saudade.

O João Isidro foi meu editor também no Tempo: era um jornalista culto, que parecia ter visto todos os filmes e lido todos os livros. Muito exigente na prosa – não gostava de ensinar, mas aprendi alguma coisa com ele.

O Miguel Lemos, com quem trabalhei em Macau, era uma pessoa reservada, que disfarçava a timidez com um meio-sorriso que sempre me lembrava o do Dana Andrews em filmes como Anjo ou Demónio. Era sobretudo um homem da rádio: tinha uma excelente voz, que ainda pode ser escutada em documentários do canal História. Um dia fez-me um enorme favor que nunca lhe pude agradecer devidamente.

Algumas mortes eram esperadas, como as da Cadi ou do Acácio. Outras apanharam-me por completo de surpresa, como nos casos do Tomé ou do Miguel.

Quando parte um colega, acabam de vez as histórias que partilhámos – as gargalhadas, as confidências, os projectos, as brigas ocasionais.

É um pouco de nós que parte também.

10 comentários em “Despedidas”

  1. Fica-nos a saudade dos mortos e a lembrança de que estamos vivos. O que já não é mau nos dias de hoje. Os 122 que foram hoje despedidos do JN, O Jogo e 24 Horas que o digam…

  2. Em geral, todas as mortes são prematuras ou assim nos parecem. Conheci alguns dos que mencionas: Miguel Lemos, Cadi Fernandes, Händel de Oliveira e Eduardo Tomé. Quando partem, perdemos pedaços de nós.

  3. Só não conheci a Cadi e o Tomé. Ao João apenas conheci no tempo da Faculdade ( era brilhante…) e depois quando esteve no Sindicato, numa fase descendente da sua vida.
    O Miguel era uma pessoa desconcertante, com quem convivi muito em Macau e quanto ao Acácio foi um CAMARADÃO com quem trabalhei no ” Ponto” ( oh que saudades!) , numa equipa fantástica de que também faziam parte dois grandes amigos (Baptista Bastos e José Leite Pereira) felizmente ainda entre nós.
    Foi bom teres recordado estes nomes, Pedro!

  4. Percebo o que queres dizer quando afirmas que “quando parte um colega acabam de vez as histórias que partilhámos”, mas não é muito exacto. Continuarei a ver e a ouvir o João e o Handel, de quem, como tu sabes, fui muito amiga e a lembrar a bela voz do Miguel, que também conheci.
    Mas revejo-me nas tuas palavras quando dizes que com eles foi um pouco de nós que partiu também.

  5. Tal como você, Pedro, näo tive tempo para agradecer ao Miguel Lemos tudo o que fez por mim e, principalmente, tudo o que me deixou fazer.
    Resta-me acreditar que, onde quer que esteja, possa saber que deixou “obra” suficiente para ser recordado com admiraçäo , ainda mais, naqueles dias em que pensamos que o jornalismo já näo é o que foi, nem somos os jornalistas que, nos dias ideais, sonhámos.
    Obrigada pela evocaçäo , quase um ano depois da sua morte.

  6. Bonita homenagem, Pedro. Dói sempre perder amigos, e ainda mais quando são de convivência diária. Mas as histórias não morrem, pelo menos enquanto os que ficam as lembrarem e contarem, como neste post.

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