Dia da Criança (2)


Carlos Barbosa de Oliveira,

 

 

Saúl levantava-se todos os dias às 6 da manhã e ia de bicicleta para a fábrica de cerâmica onde trabalhava 11 horas por dia, ganhando 60 escudos por hora. Um acidente com uma máquina levou-lhe uma perna e já gastou mais de 4 mil contos em despesas médicas, na vã tentativa de recuperar uma vida normal. (1996)

Hélder tem apenas seis anos e começa às 7 e meia da manhã a britar pedra. Diariamente parte cerca de 500 pedras que vão revestir as calçadas de cidades estrangeiras para onde o seu patrão exporta a pedra. (1998)

Adelino foi bem cedo trabalhar para uma serração, mas aos 13 anos um acidente com uma máquina levou-lhe três dedos da mão direita e agora faz alguns pequenos trabalhos para ajudar em casa. (1998)

Anabela divide o seu dia entre a escola e a casa, onde não estuda nem brinca com meninas da sua idade. Todo o tempo que lhe resta depois da escola, passa-o a coser sapatos. E como ganha à peça, quanto mais trabalha, mais ganha, o que a leva a trabalhar até altas horas da noite.

Sérgio arrumava carros numa rua do Porto, mas a concorrência e má vizinhança dos adultos atirou-o para uma esquina da cidade onde, de pano na mão, se esforçava para lavar os vidros dos automóveis que param nos semáforos. Um dia, com apenas 11 anos, foi agredido por um automobilista mais exaltado que não queria que lhe tocassem no carro novo. (2003)

Paulo era aprendiz de maquinista numa empresa têxtil  e encontrou a morte numa máquina de fiar onde trabalhava apenas há dois meses.

Conheci estas crianças ao longo dos anos em que me dediquei a estudar o trabalho infantil em Portugal, na Ásia e na América Latina. A cada história nova que conhecia, colocava sempre a mesma pergunta:

Por que razão, apesar das medidas internacionais tomadas contra o trabalho infantil, este parece um problema incontornável? A resposta poderia ser encontrada na conversa com este guia indiano.

A cena passou-se nos arredores de Bombaim (mas poderia passar-se também em Istambul, Katmandu ou Carachi, onde são inúmeras as crianças a trabalhar na indústria dos tapetes) quando visitava uma fábrica. Crianças desenrolam à minha frente, com esgares de esforço, vistosos tapetes por elas parcialmente confeccionados. Reajo com a indignação possível e o guia pergunta-me em escorreito inglês:

"Nunca viu disto no seu país? E por acaso não compra produtos de grandes marcas, que são fabricados por crianças? Se comprar um destes tapetes está a ajudar o nosso país e a impedir que muitas pessoas morram de fome. Mais vale comprar um tapete destes do que roupa de muitas marcas conceituadas que vocês usam no Ocidente. Vocês não compreendem o que custa sobreviver nestes países!"

Se os argumentos deste indiano podem ser compreensíveis em países asiáticos e africanos onde a miséria é grande, os mesmos nem sempre colhem quando se aborda o problema no mundo ocidental, afogado em desigualdades crescentes, mas esgrimindo os valores da democracia como um bem a preservar.

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