Dia de… quem?


Ana Vidal,

 

Embirro com os "dias de".  Mas com o de hoje, confesso, embirro mais ainda.

 

Entendo o argumento de que a existência de uma data específica pode servir para chamar a atenção para os problemas do universo feminino, que continuam a ser muitos e graves, infelizmente. Lamento é que as mulheres aceitem agarrar-se a esta patética migalha para fazer valer os seus direitos e ouvir a sua voz, não percebendo que o seu "dia de" as remete para o velho guetto de sempre: o de uma estranha população incómoda, barulhenta e histérica, que no passado perdeu muitas vezes a razão pelos excessos cometidos e que se agiganta agora em todas as frentes, ameaçadora. É ridículo que haja um "dia da mulher" por ano, pela simples razão de que essa bela e inocente (?) intenção converte todos os outros 364 em "dias do homem". Ou não será assim?

Todos os dias são, afinal, das mulheres e dos homens que constroem pontes e derrubam barreiras milenares. Sem espavento mediático, talvez, mas com muito mais eficácia do que as florzinhas e os peluches oferecidos às namoradas ou os jantares românticos em restaurantes da moda com que os maridos assinalam o dia, que será esquecido mal soa a última badalada da meia-noite e a cinderela perde o sapato de cristal. Todos os dias são dos homens e das mulheres que dão uso às emoções, mas também à inteligência, que é para isso que serve o cérebro que todos temos, machos e fêmeas da espécie humana. Por isso este dia especial não faz o menor sentido para mim. Mais: é um insulto.

 

 

Nota: texto já editado no Porta do Vento.

21 comentários em “Dia de… quem?”

  1. Concordo, Ana.
    Celebrar este dia só se for para resolver de vez alguns desequilíbrios que ainda estão por resolver.
    Por isso também gostei de ler 2 outros posts, um de João Miguel Gaspar, n’ “O Cachimbo de Magritte”; e outro de JCD, no “Hole Horror”.

    1. Já os li também, Ana. O que acho é que todos os dias são bons para resolver desequilíbrios e todos são bons para denunciá-los. Este “dia da Mulher” transformou-se infelizmente em mais uma feira comercial, e pouco mais.

  2. Tal como muitos outros dias, este serve para os comerciantes sempre irem vendendo mais qualquer coisinha a propósito da data em questão. Depois do Carnaval e do Dia dos Namorados, há que arranjar qualquer coisa até ao Dia do Pai, que, por seu turno, segura as pontas até à Páscoa.

  3. Ana, no dia que esta comemoração deixar de existir e passar a haver o dia do homem, aí sim, estará reposta a justiça e a igualdade. Um dia por ano, para nós, é mais que suficiente… e que merecido.

  4. O que me parece mal é o verbo celebrar. Celebra-se tudo. Mas não se sabe o quê. Mas o folclore que se vende em torno das efemérides é que as torna perversas. Lembrar sim. É necessário. Mas obviamente que não fará sentido lembrar apenas num dia determinado. Para além de destituído de sentido, é cínico. Resta saber o que fazer com o dia 8 de Março. Talvez lembrar. Talvez olhar para trás e ver o que foi feito. Perceber que nada é adquirido e que ainda há muito que fazer pela frente. Fazer. Não celebrar. Nem oferecer flores nem jantares sob um pretexto frívolo de quem já perdeu a imaginação.

    1. Concordo, Cristina: lembrar é necessário. Mas sempre, e não só um dia por ano. O mesmo vale para as celebrações. E o mesmo vale ainda mais para fazer o que falta, que é um trabalho permanente.

  5. Eu não embirro propriamente com os “dias de..”. Por exemplo, estou ligada ao dia da mãe e ao dia do pai. Questão de educação, berço, catequese, fazem parte da minha identidade e relação com os meus. Quanto ao dia Internacional da Mulher o que mais me custa é exactamente a subversão de todos os valores que fizeram dele um dia Memorável. Recuso os argumentos da direita para quem a luta das mulheres foi sempre um sapo duro de engolir e que é a custo e através da luta diária que vão sendo obrigados a aceitar, na prática, o inevitável, como recuso um certo paternalismo da esquerda. Recuso a subversão da luta das mártires e da apropriação acéfala e condescendente de uma luta heróica e difícil, que continua diariamente nos locais de trabalho por todas daquelas que se recusam a integrar o grande rol das homogeneizadas , das conformistas , das submissas e das que se contentam em tirar o dia para uma massagem no spa porque é o “seu dia”. Por isso é que para mim, não é a existência deste dia que é um insulto. Insultuoso é no que ele se transformou.

    1. Também os dias “do pai” e “da mãe” estão enraizados em mim, e pelos mesmos motivos. E por isso mesmo, o “meu” dia da mãe continuará sempre a ser o dia 8 de Dezembro (N. Senhora da Conceição) e não um dia móvel qualquer, que não me diz nada. Mas este “dia da mulher” é uma coisa completamente diferente. Ao seu veemente manifesto acrescento uma recusa da minha lavra, que me parece resumi-lo; recuso rótulos. E não esqueço o papel ingrato e corajoso dessas mulheres que me permitiram dar como adquirido aquilo que elas conquistaram a pulso e expondo-se muitas vezes ao ridículo (dos homens e, pior, das mulheres da sua época, que as gozaram e ostracizaram mas beneficiaram também dessas conquistas). Não esqueço nada disso, Ariel, mas recuso que me imponham um dia para recordá-lo.

  6. Subscrevo integralmente.

    Os direitos das mulheres não são particulares nem específicos do seu género – são direitos humanos. A existência deste dia apenas sublinha e acentua essa diferença inexistente entre géneros. A discriminação positiva é também ela uma forma de discriminação.

    Não gosto que me venham oferecer uma flor neste dia, só porque sou mulher. É como se me me relembrassem (quem?) que a sociedade masculina (à qual afinal eu só pertenço porque alguém está disposto a tolerar-me) até aprecia a minha existência.

    Acontece que eu não pertenço a um subgénero diminuído da espécie humana, cuja existência deva ser celebrada ou aceite, porque não há nada a ser aceite nem celebrado nas mulheres – a sua existência é um facto, e ninguém me está a fazer um favor ao não interferir na forma como vivo a minha vida.

    Haveria razão para repúdio, isso sim, sempre que se verificasse discriminação, violência, ou desrespeito pelos meus direitos, mas isso aplica-se a todos os seres humanos sem excepções, e é para isso que existe a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

    Por tudo isto sempre fui contra a existência do dia da mulher, que a meu ver é inútil, despropositado e promotor de mais discriminação de género.

    1. Excelente defesa da tese que também defendo, Susana! É isso mesmo: as mulheres não são uma espécie em extinção (ou uma sub-espécie, como diz e muito bem) que precise de ser defendida e tratada com especiais cuidados. Toda a discriminação – seja negativa ou positiva, mesmo que com boas intenções – significa uma recusa em reconhecer a evidência: a paridade natural, que deveria ser a norma.

      Pedro, aqui está um sério candidato a “comentário da semana”.

  7. Esta data foi adoptada pelas Nações Unidas, em 1975, PARA LEMBRAR tanto as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres como as DISCRIMINAÇÕES e a violência a que MUITAS MULHERES INFELIZMENTE AINDA HOJE estão sujeitas em todo o mundo.

    Pessoalmente as datas comemorativas seja qual for a celebração não significam nada para mim.
    Infelizmente a maioria das pessoas só se lembram de dar carinho em datas especificas.
    Pessoalmente procuro oferecer com regularidade prendas à minha namorada,por mais simples que seja,como por exemplo ir às compras e trazer bombons.
    Agora o que não devemos é descurar o carinho a atenção e acima de tudo o saber ouvir,especialmente quando elas chegam saturadas do trabalho e falam sem parar sobre o dia terrivel que tiveram,mesmo que não nos apeteça ouvir ninguém…
    E não há prenda melhor que um carinho e um amo-te…

    1. Jorge Gabriel: sugiro que continue a dar muito carinho à sua namorada, ou que discuta com ela se e quando ela o merecer. Trate-a, simplesmente, como uma igual. Garanto-lhe que ela não se parte…
      🙂

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