Dia 12.1.09, urgência do Hospital Curry Cabral:
– Já tenho aqui a sua radiografia. Não tem nada partido, o que quer dizer que fez uma ruptura de ligamentos.
No dia seguinte, ao telefone com o médico:
-Só lhe fizeram um raio x? Mas deviam ter feito uma ecografia. A ecografia é que dá para vermos os tecidos moles. Vai ter que fazer esse exame, está bem? Eu passo-lhe a credencial.
Horas depois, tentando marcar a ecografia, via telefone:
– Hospital da Cruz Vermelha, bom dia…
– Era para marcar uma ecografia a um pé.
– Só estamos a marcar para o mês que vem.
– Isso é muito tarde, obrigada.
(…)
– Hospital Particular de Lisboa, bom dia…
– Desejava marcar uma ecografia a um pé.
– Só estamos a marcar para daqui a um mês…
– Obrigada, então não me interessa.
(…)
– CEDI, muito bom dia…
– Bom dia, queria marcar uma ecografia a um pé.
– Através de que entidade?
– Através da caixa.
– Desculpe, mas de momento não estamos a fazer marcações.
– E se fizer o exame particularmente?
– Aí já podemos marcar para 22 de Janeiro.
– Já agora quanto custa?
– Oitenta euros.
– Obrigada, mas pretendo uma data mais próxima.
(…)
– Hospital da CUF, bom dia…
– Era para marcar uma ecografia a um pé.
– Através de que entidade?
– Da caixa.
– Só temos vaga para dia 28 de Julho.
– E se fizer o exame particularmente?
– Podemos marcar para dia 26 de Janeiro.
– Quanto custa o exame?
– 86 euros.
– Obrigada.
(…)
Em casa, à conversa com familiares:
– E porque não voltas à urgência? Dizes que o pé continua muito inchado e fazes-te à ecografia…
– Boa ideia, vou lá amanhã.
(…)
Dia 14.1.09, urgência do Hospital Curry Cabral:
– Aqui só fazemos raio x para verificar se há fracturas. Se não há fracturas é porque se trata de uma ruptura de ligamentos. Não precisamos da ecografia para fazer o diagnóstico e prescrever o tratamento.
Horas depois, em casa:
– Está? Luísa? Detesto incomodar-te com estas coisas mas fiz uma ruptura de ligamentos num pé e o meu médico assistente pediu-me uma ecografia. Consegues fazer-ma por estes dias?
– Claro, não há problema. Amanhã estou de banco no hospital. Vai lá ter comigo por volta das dez…

Queremos o telefone da Luisa. Queremos o telefone da Luisa. Queremos o telefone da Luisa.
Eh!eh!eh!
Ali o anónimo deseja à Teresa, senhora de humor invulgar no sexo feminino (vamos lá ver se esta não lhe estraga a boa disposição), as melhoras.
E, tanto quanto julga saber, o repouso é o mais indicado na actual situação.
(acho que escrevi «humor» quando queria ter escrito «sentido de humor»)
Não tenha dúvidas que é sempre assim, ou se tem cunha ou dinheiro.Definitivamente o problema do país está nos tgv´s e auto-estradas…
É isso mesmo, Pedro!
Teresa .. sem palavras eu a não ser para lhe desejar as melhoras .. *
é tal e qual assim como descreve, sei-o bem, infelizmente. E o mais grave é quando é mais que um pé inchado.
(eu disse “sem palavras”? .. pois) 🙂
Obrigada, Once. Na verdade o episódio passou-se com uma pessoa que me é muito próxima, não comigo. Mas transmitirei os seus votos :))
FELIZMENTE, ALGUNS DE NÓS TEMOS UMA “LUÍSA” OU UM “JORGE” OU OUTRO QUALQUER, MAS NA REALIDADE NUNCA DEVERIA SER ASSIM.
CONTINUA TUDO IGUAL A ANTES DE ESTARMOS “TÃO BEM COMO ESTAMOS”.
HOJE ESTÁ NEVOEIRO AQUI NO PORTO, MAS PARECE QUE AINDA NÃO É DESTA QUE O D. SEBASTIÃO CHEGA.
http://atributos-1.blogspot.com/2009/01/d-s ebastio.html
CUMPRIMENTOS
JOSÉ MAGALHÃES
Gostei particularmente da frase: “Continua tudo igual a antes de estarmos “tão bem como estamos”” :))
Obrigado,
Desejo-lhe as rápidas melhoras e peço desculpa por não o ter feito antes.
Cumprimentos
Obrigada, José Magalhães, de facto o texto induz as pessoas a pensar que fui eu que torci o pé, mas não é o caso. Transmitirei os seus votos à pessoa que se lesionou 🙂
Para felicidade quem o tem e desespero das pessoas da caixa, as letrinhas ADSE fazem milagres.
Acho mesmo piada à primeira pergunta que fazem na marcação desses exames: qual é a entidade de saude?
É assim em todo o país.
Infelizmente é verdade, mas não se pense que é só em Portugal.
Na Holanda consegue ser pior. Tive um pé torcido (muito mesmo, creio que houve realmente ruptura de ligamentos) e, depois de ir ao médico, disseram-me que tomasse paracetamol para as dores e para o inchaço e fosse para casa com as recomendações habituais de colocar o pé em repouso em posição elevada, etc). Nem um raio-X que fosse. Foi o fisioterapeuta da clínica que me colocou umas fitas em suporte do tornozelo, me emprestou as muletas e me deu os conselhos.
Noutras alturas, ombro deslocado (uma vez cada um). O raio-X da ordem para ver se havia fractura. Não havia. Mas ecografias ou outra coisa qualquer para os tecidos moles? Está quieto abelha. Puseram-me o ombro no sítio e mandaram-me para casa com o braço ao peito a mastigar paracetamol para as dores.
E tudo isto com seguro de saúde.
E já agora, uns conselhos para a pessoa amiga (tenho muita experência com lesões semelhantes, infelizmente).
– enquanto o pé/tornozelo estiver inchado, colocar a parte inchada numa tina com água salgada fria durante uns 15 minutos a meia hora (naturalmente, não muito fria, temperatura ambiente).
– paracetamol (mas não é para as dores, é para reduzir a inflamação).
– não evitar colocar o pé no chão. A cura é mais rápida se existir alguma pressão no pé ao andar. À medida que cure, pequenos exercícios como agachar-se e levantar-se (com uma barra de apoio) ou colocar-se num único pé (nada de saltos).
Isto foram conselhos do meu fisioterapeuta, os quais me têm permitido recuperar de algumas lesões mais depressa que o normal. Pode ser que ajudem.
Já tomei nota, João. Obrigada!
Dois anos e meio depois, este diário do pé torcido ainda é e será útil!
Agradeço o post da Teresa, realista, mas divertido e as informações objectivas do João André.
A minha saga foi semelhante à descrita, com a desvantagem de não conhecer a Luísa e ainda não ter conseguido a ecografia, ao fim de 15 dias de tombo, nem ter recebido no Santa Maria muitas orientações sobre o que se está passar com o meu pobre pé multicolor e de tamanho ampliadíssimo… daí o ter partido em busca de informações na net para a auto-gestão do problema. Não será um método muito científico, mas os vossos conselhos são melhores do que os do hospital e ainda assim, grátis 🙂 Além disso, à pala do pé torcido descobri um excelente blog. Já agora, se Luísa tiver piedade de mais esta recibo-verdiária dependente da caixa…Luísaaaaaaaaa, socorroooooooo!
Belíssimo retrato do País das Maravilhas de Sócrates, Teresa. À consideração da srª ministra da Saúde e dos seus assessores, que lêem este blogue.
Dentro do mau que te aconteceu, o post está muito bom! 🙂 As melhoras e beijos
Olá, João! Gosto de te ver também por aqui :))
Desejo-lhe as melhoras, minha senhora.
Resta-me desejar-lhe as melhoras Teresa.
O post é o espelho do que se passa.
Agradeço-lhe em nome da vítima, que por acaso não sou eu :))
é… infelizmente esta é a realidade.
quem não tem amigos… é que se lixa.
e que medidas toma o governo? fecha urgências e centros de saúde.
É o nosso sistema nacional de saúde: pagamos todos para isto. Recordo-me, assim de repente, de três situações que vivi ou presenciei:
1) estar sete horas e meia na sala de espera do Sta. Maria após ter sido vítima de atropelamento, do qual resultou (apenas) um traumatismo craniano. Sete horas e meia, numa sala de espera. Não estou mesmo a brincar.
2) novamente no Sta. Maria, com dificuldades respiratórias. Na triagem deram-me uma pulseira amarela. Após duas horas de espera, e dizerem-me que ainda ia demorar, decidi desistir da consulta e recorrer a automedicação. Na recepção, ainda tiveram a lata de me dizer “duas horas de espera não é muito tempo”. E, claro, não me devolveram o dinheiro que já tinha pago.
3) Recusaram-me consulta e vacinação anti-alérgica no centro de saúde de Odemira, alegando que a minha terra tinha médico. As anginas, curei-as por automedicação. Para levar a vacina em Odemira (pois não me encontrava na minha terra), tive de conseguir um documento assinado pelo médico de lá a dizer que o enfermeiro local se encontrava de férias, pelo que a vacina teria de ser administrada em Odemira. Entretanto, passaram sete dias.
Qual foi mesmo a lista que o classificou como o 12º melhor do mundo? A saúde do mundo deve andar mesmo muito fanhosa.
E já agora, as melhoras 🙂
Não desfazendo na justificada irritação que as outras situações lhe mereceram, sete horas e meia de espera num caso de traumatismo craniano é simplesmente escandaloso!
Sem dúvida. Mas nas urgências de Santa Maria já vi coisas que diria serem piores… mas não me vou alongar 🙂
AAAAAAAH! Agora percebi porque demoram as marcações, é por as cunhas se meterem à frente. Está bem abelha!
Desde miúdo que ouço dizer que “quem tem amigos não morre na cadeia”. Agora, no tempo das novas tecnologias, da promoção da igualdade social, do paraíso de Sócrates e do Oásis de um senhor que até já nem recordo o nome, pode dizer-se “quem tem amigos pode ir ao hospital”.
Excelente retrato, Teresa, do país que, por mais esforços qu faça não cega ao pelotão da frente. Seja em termos económicos, seja em questões sociais.
Carlos: Promoção da igualdade social só mesmo da boca para fora!
Teresa, ponha gelo enquanto a Luísa não lhe faz a ecografia. Mas trate desse pé. E afinal, o pé é seu ou a história foi inventada? Inventada… quer dizer, pode muito bem ser real.
É real, Mike e fui muito fiel à sequência dos acontecimentos. Só não se passou comigo, como já tive ocasião de explicar uns comentários acima.
Este seu testemunho é excelente.
Realmente! Que tragicomédia…
Desejos de rápidas melhoras!