Discurso de Ano Novo


Sérgio de Almeida Correia,

“À boa maneira lusitana para conciliar importâncias e vaidades (…).

Cavaco preside à cerimónia. Fato castanho, gravata castanha. Fala de pé, por detrás de uma mesinha com flores e um microfone esticado que lhe esconde parte da cara, ladeado por meia dúzia de ministros, tendo os membros da Comissão, à sua esquerda. /…/ Responde-lhe erudita e longamente o professor Aguiar e Silva.

E nós de pé, calados, alinhados (sinto-me “força viva da Natureza”, anos Cinquenta), com este ar arrependido e fúnebre das nossas coisas oficiais. Heranças salazaristas?

Sussurra-me a Lídia Jorge que ficou ao meu lado: “O Poder é triste.” – Marcello Duarte Mathias, Os Dias e os Anos, 1988.

2 comentários em “Discurso de Ano Novo”

  1. Gostei imenso deste livro (como de outros dele). – O poder é triste? – É! Arrastado, forçado, sem swing, quase sempre sem alma, e, ainda por cima – destino inevitável? -, também quase sempre aos tropeções no protocolo… Em contrapartida, quando tem muita melodia e savoir-faire, raramente tem mais substância do que isso.
    Os rituais do poder são um campo de análise interessantíssimo…

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