“À boa maneira lusitana para conciliar importâncias e vaidades (…).
Cavaco preside à cerimónia. Fato castanho, gravata castanha. Fala de pé, por detrás de uma mesinha com flores e um microfone esticado que lhe esconde parte da cara, ladeado por meia dúzia de ministros, tendo os membros da Comissão, à sua esquerda. /…/ Responde-lhe erudita e longamente o professor Aguiar e Silva.
E nós de pé, calados, alinhados (sinto-me “força viva da Natureza”, anos Cinquenta), com este ar arrependido e fúnebre das nossas coisas oficiais. Heranças salazaristas?
Sussurra-me a Lídia Jorge que ficou ao meu lado: “O Poder é triste.” – Marcello Duarte Mathias, Os Dias e os Anos, 1988.

Gostei imenso deste livro (como de outros dele). – O poder é triste? – É! Arrastado, forçado, sem swing, quase sempre sem alma, e, ainda por cima – destino inevitável? -, também quase sempre aos tropeções no protocolo… Em contrapartida, quando tem muita melodia e savoir-faire, raramente tem mais substância do que isso.
Os rituais do poder são um campo de análise interessantíssimo…
Marcello Duarte Mahtias, um grande escritor português. Gosto de todos os livros dele que tenho lido.