Doces eufemismos socialistas


Patrícia Reis,

 

Alguns blogues que apoiam fervorosamente o Governo referem-se com pinças e luvas à demissão de Manuel Pinho, esse bandarilheiro frustrado. Chega a ser tocante o cândido tratamento dado à questão, como se quase nada tivesse acontecido. Tiago Antunes, no impagável País Relativo, aborda o caso com a graciosidade de um primo ballerino: afinal tudo se deveu apenas a "uma intervenção menos feliz", quiçá mesmo "um gesto imponderado" do titular da pasta da Economia. Doces eufemismos socialistas: tivesse metado disto ocorrido num governo de outra cor e logo se sucederiam inflamadíssimos e indignadíssimos posts, dias a fio, clamando contra as monumentais trapalhadas do Executivo.

Curiosamente, há mesmo blogues aninhados nas hostes governamentais que optam por ignorar o tema, talvez com a secreta esperança de que assim tudo passe mais despercebido. Lamento desiludi-los: Pinho conseguiu ser notícia um pouco por toda a parte. Como bem se percebe aqui e aqui.

31 comentários em “Doces eufemismos socialistas”

    1. Mas não esperamos isso há uns 30 anos?

      Que ideia, uma pessoa, um governante regional, um conselheiro de Estado, de porte tão exemplar!!!

    1. O mais triste disto tudo é haver pelo menos um pobre cidadão deste país que gostava de saber o que se passou no debate, repito, no debate, e não consegue. Parece que o debate pode ser reduzido ao insulto do ex-ministro. Tanta indignação útil deixa-me desconfiado. Noutras ocasiões não vi a mesma indignação. Mas do que eu queria mesmo saber era do debate? Ouvi dizer na Antena 1 que correu bem ao Governo. Foi um bom debate? O que se debateu? Qual o estado da nação? Alguém sabe? Alguém quer saber? A declaração tauromáquica do ex-ministro é mais importante? O resto não tem relevância jornalística?

  1. Pedro:

    No Largo do Rato foi decretada a “operação esfregona” nada de escrever sobre o asunto tauromáquico de ontem na AR e se houver outros blogs a comentarem tal coisa é malhar neles e passar a responsabilidade da situação para os lados da S. Caetano à Lapa daí termos por aqui já dois exemplos claros da tal operação de limpeza.
    Vou de férias hoje e volto a 27/07 até lá continua as tuas em grande.Abraço forte de amizade.

  2. Cá estou eu de novo. O gesto de Manuel Pinho foi uma homenagem a todo o Ribatejo. Lamentável, de facto. Mas também gosta de ler ou ouvir falar da falta de respeito para com Jaime Gama. Isso não interessa? Faltar ao respeito ao presidente da AR é facto menor? certo que os corninhos de Pinho abafam qualquer coisa, mas nunca é demais saber ver os factos.

    1. Faz bem em aparecer. Como justamente diz, o gesto do ex-ministro Pinho foi lamentável. De tal maneira que forçou o PM a pô-lo imediatamente fora do Governo. Como bem diz também, é “certo que os corninhos de Pinho abafam qualquer coisa”. Imagine só se fossem cornões…

  3. Por acaso ontem no Twitter tinha falado do reprovável silêncio “cúmplice” de vários blogs com o episódio Pinho, entre os quais o “Jugular”, o “Corporações” e este inenarrável “País Relativo”. Sobre este último, muitas vezes me pergunto o que por lá está a fazer o Tiago Barbosa Ribeiro, pessoa de clara inteligência que tinha um dos melhores blogs portugueses, o “Kontratempos”…
    Um abraço, Pedro!

      1. Ir parar, ainda que não vá. Acontece a todos (quem não frequentou já um sítio onde esperava encontrar algo de diferente?). O que me espanta é a permanência e “identificação” com lugar tão mau…

  4. Pedro, assino por baixo. Ou não comentam o assunto, ou tentam desculpar ao maximo o gesto. Mas, é justo dizê-lo, também se tem feito o mesmo do lado contrário da barricada. No 31 da Armada ou no Cachimbo (e noutros) o triste comportamento de Paulo Rangel tem sido “esquecido”. Até aqui, a Ana Vidal foi a única a comentar o momento, enquanto que, onde se desvaloriza o gesto de Pinho, exploram ao maximo a birra de Rangel. São as eleições à porta, meu caro…
    Abraço e bom fds.

    1. Caro Ricardo, eu não escolho facções para as minhas críticas e procuro ser equidistante quando as faço. O comportamento de Rangel foi o de um menino birrento e fica-lhe mal (além de que desrespeitou Jaime Gama, o que é mais grave), mas ainda assim não se compara com o gesto de Pinho, absolutamente inqualificável e muito mais insultuoso, como aliás pode aferir-se pelas consequências que ambos tiveram.
      Abraço

        1. Ana, eu sei que nao escolhe facções, o que escrevi foi que no Delito a Ana até foi a unica a referir o duelo Rangel – Gama. Também acho que o gesto de Pinho é bem pior, apenas quis dizer que a atitude de Rangel, a de contestar e desrespeitar o Presidente da Assembleia sem razão (aquilo nao era uma interpelaçao), também merece uma critica, o que nao tem acontecido, sobretudo nos blogues afectos ao PSD, onde nem uma simples referencia foi feita. Dualidade de criterios…
          Bom fds.

          1. Eu percebi, Ricardo. Mas se há coisa de que o Delito de Opinião não pode ser acusado é de falta de pluralismo: aqui há de tudo um pouco, e ainda bem.
            Bom fds para si também.

            1. E por isso é dos meus blogues de eleição e vos atribuo prémios…
              Bom fds.

  5. Respondendo à pergunta da anónima: sabia. O facto de ter estado a trabalhar entre as 14h e as 24h impediu-me de assistir ao debate. Sabia que há pessoas que não podem seguir debates em directo na televisão porque estão a trabalhar? Sabia que essas pessoas esperam um pouco mais do jornalismo do que uma repetitiva, fastidiosa e monótona insistência no caricato e na anedota? Sabia que a um jornalismo desses não se pode dar outro nome senão o de número de palhaços num circo deprimente?

    1. Se estava tão interessado, podia ter gravado para ver depois e formar a SUA opinião…
      Ou prefere o filtro do pobre “jornalismo” que se pratica em Portugal?

  6. O mundo sob diferentes perspectivas, caro autor. Ou, se preferir, Portugal visto da esquerda e da direita.
    Por exemplo: ainda não o vi a si comentar os dois pesos e as duas medidas do caríssimo PR (embora outra pessoa, mais tarde, o tenha feito).

    É legítimo, é natural, é praticado por todos (sem excepção, lamento); como tal, não entendo a necessidade de ter publicado um post em que o condene.

    1. Lamento informá-la, mas já critiquei várias vezes o PR e diversos outros agentes políticos, aqui e noutros lados. Incomoda-a que critique o Governo ou dá licença que o faça também?
      A propósito: achou bem a atitude do ex-ministro da Economia? E gostou da lamentável entrevista que M. Pinho deu ontem à noite, à SIC N, como se nada tivesse acontecido?
      Cumprimentos.

  7. Este assunto fez-me pensar numa questão: Quando defendemos publicamente alguém é como se ficassemos presos a essa defesa não podendo nunca voltar atrás.

    E depois há toda uma questão de enorme sectarismo. Não entendo, genuinamente não entendo, como é que alguém consegue tentar suavizar, desculpar ou relativizar uma coisa que não tem desculpa absolutamente nenhuma.

    Aquele gesto foi dirigido a um deputado num local que, goste-se ou não, representa um dos orgãos mais importantes da Democracia e do Estado português. Pouco interessa se o A, B ,ou C fez não sei o quê há uma série de anos. Todas estas atitudes são condenáveis. Todas elas. Não interessa se é a do Ex-Ministro Pinho ou do Eduardo Martins ou de outro qualquer. Interessa apenas que são acções que temos que condenar e que estão acima de qualquer tipo de sectarismo ou partidos.

    1. Daniela, a atitude do ministro Pinho é francamente condenável, tal como os destemperos verbais do deputado Martins. Acontece que não estão no mesmo plano: o Governo é politicamente dependente da Assembleia da República, segundo determina a Constituição. No plano institucional, depende da confiança que a maioria dos deputados depositarem nele. Isto reforça o dever de cada um dos seus membros de manterem uma atitude de respeitosa cortesia em relação à instituição parlamentar. O insulto do deputado do PSD ao seu colega do PS – que teria exigido aliás, de imediato, uma atitude de firme repreensão por parte do presidente da AR – é menos grave no plano institucional pois tudo se passa ‘inter pares’. De resto, os insultos entre os deputados eram uma constante no final da Monarquia e durante a I República. E mesmo já após o 25 de Abril ficou memorável uma violenta troca de insultos no plenário entre os deputados Francisco Sousa Tavares (PSD) e Raul Rego (PS). Nada digno, refira-se. Muito condenável, acentue-se. Para que não subsistam dúvidas.

  8. Anónima, eu preferia que o miserável jornalismo que se pratica em Portugal informasse, com ou sem filtros, quem não tem tempo para assistir, quem não tem como gravar. Nem todos, duvido que poucos, o possam fazer. E sim, eu estava interessado em saber o que se passou no debate. E sim, eu preferia que um aspecto meramente caricato não tivesse tanta relevância, como noutras ocasiões não teve. E sim, eu gostava de um jornalismo mais preocupado com informação e menos empenhado em gracejar. Até porque para humor tenho os humoristas. Mas poucos parecem estar interessados nisso, pelo menos não tanto quanto estão interessados em fazer política manhosa, em baixar as calcinhas ao facilitismo, em lavar as mãos com provedores de circunstância e clubes inconsequentes. Da transferência do Ronaldo ao episódio que gerou a demissão de um ministro passando pelas eleições no Benfica, vai a definição das preocupações jornalísticas que temos. Ouvia há semanas ao Mário Zambujal que jornalismo é escolha, informar é optar. As opções feitas, as escolhas realizadas, são bem reveladoras do jornalismo miserável que temos neste país. De resto, está ao mesmo nível da política que temos. Um episódio caricato, como lhe chamou ontem Maria Filomena Mónica, pouco mais deveria merecer que uma caricatura. Já lá vão dois dias de destaque. Olhe, muito mais grave do que o gesto do ministro é considerar a Coreia do Norte uma democracia e defender Mugabe; são as faltas sucessivas dos deputados; as viagens pessoais à custa do erário público; etc, etc, etc…Um deputado na AR ganha de salário base mais de €3500 (mais 10% do salário para despesas de representação e abonos de transporte). O que fazem? De onde vêm? Que experiência profissional têm? Para que serve aquela gente toda? Que um gesto impróprio de um ministro estimule mais o interesse jornalístico do que questões tão básicas como estas é bastante revelador do sonambulismo da República. Não acha?

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