Dois homens que deixaram obra e lastro


Pedro Correia,

Morreram muito recentemente duas figuras que admirei, por motivos diversos mas que justificam louvor póstumo em simultâneo: António Borges Coelho e Álvaro Laborinho Lúcio.

 

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O primeiro distinguiu-se como ensaísta e cronista de mérito, mas sobretudo como historiador. Autor de uma História de Portugal em vários volumes, em que sobressai a sua análise do interregno filipino que durou 60 anos mas continua a ser um dos períodos menos bem conhecidos dos compatriotas.

Tive ocasião de sublinhar aqui o mérito dessa obra quando a li, há oito anos.

«António Borges Coelho desvenda-nos o essencial da dinastia filipina num livro que merece elogios a vários níveis: pelo rigor, pelo olhar abrangente e despido de preconceitos. E também pela sua inegável qualidade literária. Os Filipes – quinto volume da História de Portugal, que tem sido editada em segmentos pela Caminho – pode ler-se perfeitamente como obra autónoma.» Palavras que hoje reitero.

Militante do PCP até 1991 e preso político na ditadura, este professor universitário transmontano deixou-nos um trabalho sério, com títulos como Raízes da Expansão Portuguesa A Revolução de 1383. Comprometido com o rigor factual e a pedagogia da tolerância cívica, flagrante nos seus escritos. Incluindo Crónicas e Discursos, um livro-testamento editado em 2024 que também destaquei aqui.

«Alegra-me quando as pessoas acham que fiz alguma coisa de útil», afirmou numa entrevista à Lusa, em 2018. Bastava-lhe isso. E cumpriu o desígnio.

Morreu a 17 de Outubro, com 97 anos. Nunca o conheci. Mas sou-lhe grato enquanto leitor.

 

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O segundo, magistrado de profissão e escritor por vocação, foi competente ministro da Justiça durante uma legislatura, no terceiro executivo de Cavaco Silva (1991-1995), e mais tarde (2003-2006) ministro da República para os Açores, por nomeação de Jorge Sampaio. Tive o gosto de conhecê-lo ao fazer-lhe uma extensa entrevista jornalística em 2020, na Fundação Gulbenkian. 

Cinco anos antes tinha-o incluído numa série de textos polvilhados de alusões irónicas no DELITO DE OPINIÃO sob o título “Presidenciáveis” – e que originou um livro homónimo. Na altura ofereci-lhe um exemplar da obra e ele sorriu, com louvável fair play, quando leu que «os complexos desafios de Belém exigem trabalho árduo e não apenas Laborinho». Em anos mais recentes, já aposentado, este social-democrata de sólidos princípios humanistas dedicou-se sobretudo à escrita de ficção: tive igualmente ocasião de salientar três desses títulos aqui: O Chamador (2014), O Homem que Escrevia Azulejos (2016) e O Beco da Liberdade (2019).

«A vida é um contínuo fantástico desde que se nasce até que se morre, só temos de estar disponíveis», declarou em 2023 numa entrevista ao Expresso. Pensamento que funcionava como lema deste jurista que desde a infância bebeu muita sabedoria no convívio com os pescadores da Nazaré, sua vila natal.

Morreu a 23 de Outubro, com 83 anos. Deixou excelente memória em muitos portugueses, até de vários que nunca votaram no PSD.

10 comentários em “Dois homens que deixaram obra e lastro”

  1. Perdemos duas referências, dois homens a sério, humanistas de convicções fortes, exemplares no pensamento e acções e apostados na defesa dos valores que defendiam.

  2. Mais dois figurões do Regime.
    Daquele que mantém tudo na mesma.
    Verbos de encher o ‘status quo’, bem instalados nele.
    Mais do mesmo.
    Quem gosta, come e vive da mesma gamela.

    O que se deve perguntar a estes dois figurões mediáticos é:
    — Se o niilismo trágico de Nietzsche é um “mito” no sentido de Platão?
    — Porque continuam a enganar o Povo escrevendo obras em que fingem acreditar em valores e princípios que garantiriam o futuro da humanidade, fabricando esse mito, quando sabem perfeitamente que são apenas ilusões vivificantes, incapazes de escapar à verdade mortal e às leis assimétricas da Natureza?

      1. O problema é, independentemente dos sentimentos que nutrimos por nós, não nos ser permitido navegar na vida senão no mesmo barco, desprotegido de certezas e verdades, perdido nas vagas do ‘mar infinito’…

  3. Eram boas pessoas.
    Lutaram por aquilo em que acreditaram.
    O António Borges Coelho em condições
    bastante adversas, durante o Estado Novo
    (Salazar e Caetano).
    Em relação ao Estado Novo
    ver, entre muitos outros livros, a colecção
    (mandada acabar pelo Aníbal Cavaco Silva),
    coordenada pelo José Magalhães Godinho
    (foi o meu primeiro proponente para o Partido Socialista, onde fui militante
    durante quase dez anos), de vários livros
    da responsabilidade da saudosa e útil
    COMISSÃO DO LIVRO NEGRO SOBRE O REGIME FASCISTA.
    Só me falta o primeiro volume, intitulado
    ELEIÇÕES NO REGIME FASCISTA
    Julho de 1979 (1.ª Edição)
    Dezembro de 1979 (2. ª Edição).

    João Barros da Costa

    JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT

  4. Destes homens, de grande cultura e pouco ou nenhum escândalo, vão partindo os que restam. Com eles vai-se desvanecendo uma “primeira era do mundo”, em que cultura e virtude eram os pináculos do humanismo e as nações se orgulhavam de ter como filhos os sábios e os íntegros.

    E tanto Borges Coelho como Laborinho Lúcio são exemplos bem representativos disso.

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