
Dia de ontem. Percorri a cidade.
Restaurantes abertos. E não só. Também cafés e pastelarias e tabacarias e quiosques e livrarias e cabeleireiras e barbeiros e padeiros e cozinheiros e sapateiros e cuidadores e clínicas e farmácias e oculistas e taxistas e agências bancárias e mercearias e charcutarias e talhos e supermercados e centros comerciais e lavandarias e oficinas e até funerárias – tudo a bulir.
À noite, nas televisões, espreito as notícias. Falam-me num Portugal paralisado. “Tudo fechou”, diz um repórter.
E volto a pensar: existem dois países neste país.

> existem dois países neste país
“Occam’s razor”: há mentirosos neste país. Uma hipótese muito mais simples …
Consta que noutros países também há. Na Rússia e nos EUA, por exemplo.
Sempre houve e se calhar mais do que dois, Pedro Correia. O país real e o narrado, ficcionado ou propagandeado pelo jornalismo avençado.
O país público e o país privado.
O público volta hoje a estar parado, em grande parte. Com 75% de “adesão à greve”, diz a CGTP.
Mais uma versão. Um trabalha 35 horas outro trabalha 40 horas.
Quanto aos números da adesão seria importante esclarecer bem ao que se refere. 75% dos sindicalizados certamente, pois como sabemos o universo de sindicalizados não chega aos dois dígitos. Acresce que muitas vezes basta um ou dois trabalhadores, num universo de10, para causar fortes constrangimentos ou mesmo paragem total do serviço.
Enfim
Os “números da adesão” incluem também, sempre, os grevistas à força. Aqueles que não podem comparecer nos locais de trabalho por ausência de meios de transporte.
Penso o mesmo quando se fala de qualquer assunto que seja na tv lusitana. Há “a” cidade, e a província.
Para alguns, tudo quanto fica a 25 km de “Ljboa” já é província.
Duvido que o “país” tenha sofrido muito com a greve nos transportes públicos, por exemplo.
Tem de sofrer, inevitavelmente. Nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto concentram-se cerca de 4,5 milhões de pessoas – quase metade da população do país.
Metade da população e muito mais de metade dos transportes públicos.
Sei bem a diferença num dia de greve de Transportes Públicos em Lisboa, que junto com Porto perfaz o “país “, já nos arredores a diferença não se nota.
É também nas áreas metropolitanas que se concentra a grande maioria dos serviços públicos.
Restaurantes abertos.
Não é bem verdade. O restaurante onde costumo almoçar estava fechado. Aquele onde jantei fechou mais cedo. Em frente dele, um onde às vezes janto estava mesmo fechado.
Você deu uma volta ao quarteirão, eu dei uma volta pela cidade. Não só os restaurantes estavam abertos como muitos estavam cheios – e não seriam de grevistas.
Vantagens de quem não tem nada para fazer. Eu ontem estive a trabalhar, não me pude dar ao luxo de andar a dar voltas pela cidade.
Pois ontem o meu trabalho foi precisamente esse.
O balio não me diga que não fez greve?
O balio não me diga que não fez greve?
Não, não fiz. Porque haveria de ter feito?
Podiam ser turistas.
Até porque o sindicatos dos tuktukers não aderiu à Greve Geral.
Chamar “geral” à greve convocada pela CGTP e pela UGT é uma força de expressão.
Patafraseando, ” o país do “funcionalismo público e o privado ” que, a propósito, sustenta aquele…
JSP
Sugestões de leitura de peças jornalísticas no insuspeitíssimo “Público”, que hoje tem uma primeira página similar às do “Avante!”
https://www.publico.pt/2025/12/11/l ocal/noticia/maior-centro-comercial-lisb oa-dia-correu-normal-nao-corrida-prendas-2 157772
https://www.publico.pt/2025/12/11/l ocal/reportagem/ha-marcacoes-ha-marcacoe s-ir-porto-apesar-greve-2157746
https://www.publico.pt/2025/12/12/socie dade/noticia/milhares-consultas-cirurgia s-exames-remarcar-efeito-greves-sns-dura-m eses-2157781
Tenha vergonha no que esta a dizer. Olhe que na vida não vale tudo.
Você “esta” a falar com quem?
Olhe, estou a falar com o brotas.
Então fiquem a falar os dois, muito amiguinhos, e passem bem.
📺 Reportagem Exclusiva
Local: Funerária “Eterno Descanso”
Repórter (com voz tensa, quase a gritar para a câmara): Boa noite, Portugal! Como podem ver, a paralisia é total. O país está de luto, não só pela greve, mas por um futuro incerto! Ninguém trabalhou hoje! Mas aqui, no epicentro da catástase, encontrámos uma exceção de um estoicismo quase… mórbido. Estamos com o Sr. Firmino, o proprietário.
Sr. Firmino (olhar vazio, fumo de cigarro a sair lentamente): Boa noite.
Repórter: Sr. Firmino, o país parou. As escolas, os transportes, as fábricas! O que o moveu a abrir hoje? A desafiar a paralisia nacional?
Sr. Firmino (dá uma passa no cigarro, aponta com o queixo para a montra onde se veem urnas): Olha, meu amigo, o que me move é a fatura da luz. E a clientela. É assim: as pessoas não param de morrer por causa de uma greve. Se a malta parasse de morrer, eu fechava. Não pararam. Ponto.
Repórter (chocado, mas a fingir compreensão): Mas… não há um sentido cívico? Um dever de solidariedade para com a luta?
Sr. Firmino: Sentido cívico? O meu sentido cívico é não deixar o corpo da Avó Guilhermina à espera que o comboio volte a andar. A morte não tem feriados, meu caro. E os mortos não votam na moção de greve. Estão-se nas tintas.
Repórter (tenta recuperar a narrativa): Portanto… o que estamos a ver aqui é a prova de que há setores… insensíveis à dor coletiva? Que só pensam no lucro?
Sr. Firmino (solta uma gargalhada rouca, atira a beata para o chão): Lucro? Ah, sim. É uma fortuna. Hoje vendi um caixão dos mais baratinhos, daqueles forrados a napa, a um tipo que não pagava impostos há dez anos. Veja lá o lucro.
Repórter (fecha a cara, vira-se para a câmara): É isto, Portugal. Enquanto uns lutam por um futuro melhor, há quem só veja negócio… mesmo na paragem final.
De volta ao estúdio.
Essa funerária chama-se “Eterno Descanso”?
Nome apropriado. Há tempos encontrei uma em Óbidos com nome menos óbvio: Funerária Tarzan.
Para quem vive na selva até está bem. Sempre é melhor que o “Descanso do Macaco”.
“O fim da macacada” seria nome mais adequado.
Então mas esse não é o nome da funerária do Chega?
Vocês passam a vida a pensar no Chega.
Você é que falou na macacada, não fui eu.
Eu falei no Tarzan. Cheguei a conhecê-lo, ao Tarzan Taborda. Na Fonte da Telha.
Velhos tempos. Em que a cultura do corpo era de forma natural, sem esteróides.
Noutros tempos os “esteróides” eram gemada com cerveja preta.
E o ginásio era uma garagem, baldes de areia e pneus velhos.
E se houvesse uma lesão traumática, o endireita resolvia.
Eram tempos mais propícios ao endireita do que ao ensquerda. Como estes voltam a ser.