Domingo, pingo a pingo (5)


Ana Vidal,

 

Ainda em balanço de velho ano mas, infelizmente, com consequências muito sérias que perdurarão por muitos mais anos novos que aí venham, não posso deixar de destacar as conclusões deste relatório do GAVE sobre o ensino em Portugal. Arrepiante e demolidor, deixa-me com a sensação de que nenhuma notíca pode ser pior do que esta para o nosso futuro como país: “(…) os alunos do secundário são incapazes de estruturar um texto encadeado e têm dificuldade em explicar um raciocínio com lógica.”

 

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Dizem-me que quem ganhou o big brother da TVI foi um rapazinho que representa uma nova versão do célebre Zé Maria (lembram-se dele?). Ou seja, um rústico chico-esperto, um “bom selvagem” meio apatetado, manhoso qb, mas aparentemente lírico e ingénuo. Não discuto as qualidades verdadeiras do rapaz, que não conheço, e que podem até não ser aquelas com que ele nos é apresentado. Há que ter em conta que todo o programa se baseava num perverso trompe l’oeil que pretendia enganar tudo e todos, durante o máximo tempo possível. O que eu questiono é o baixíssimo grau de exigência que preside ao espírito de quem vota (a votação foi pública), premiando e incensando um perfil deste género. É a elegia da mediocridade, preocupante porque reveladora da nossa tendência para nos contentarmos com pouco, para confundirmos bondade com imbecilidade e para o medo pueril de tudo o que foge ao mediano. Não é com gente assim que um país progride, seguramente. Sempre embirrei com o filme Forrest Gump por causa dessa mesma mensagem perigosamente enganadora.

 

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Graças às inesperadas e arrasadoras medidas recém anunciadas quando às prestações para a Segurança Social, a  imensidão de portugueses que trabalhava a recibo verde vai ter de correr a uma consevatória para criar uma empresa unipessoal. Quem não o fizer será ainda mais penalizado do que já era, e acrescentará à precaridade da sua situação uma pesada contribuição para o famigerado Estado Social de faz-de-conta, que cada dia lhe garante menos apoio em todas as frentes. Mais uma esperteza encapotada deste (des)governo criminoso, que anunciará – aposto! – uma “explosão de novas empresas que revela uma economia florescente e saudável”, e arrecadará cerca de quinhentos euros por cada uma delas (o custo inicial aproximado da criação de uma “empresa na hora”). Quantas sobreviverão já é outra história, irrelevante para as estatísticas de crescimento a apresentar, triunfalmente, aos vorazes “mercados” que têm de ser acalmados. Simplex, não?

 

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Entretanto, e ainda sobre o mesmo tema, esta vergonhosa notícia vem gozar com a nossa cara. Que tal denunciarmos e revoltarmo-nos contra estes abusos? É que, apesar dos pesares, é mais urgente do que nunca que saibamos reagir à apatia e à depressão que tudo isto nos provoca. Criatividade, imaginação, solidariedade e optimismo, são as armas a que temos de deitar mão para arregaçar as mangas e enfrentar 2011. Não basta desejarmos saúde e paz, por muito que elas sejam fundamentais para tudo o resto. Vamos precisar de mais do que isso, desta vez. A bem da nossa sobrevivência e da viabilidade deste país. A bem de todos nós e de cada um.

8 comentários em “Domingo, pingo a pingo (5)”

  1. Tal como tu, Ana, também sempre embirrei com o ‘Forrest Gump’ e com a mensagem que esse filme nos apresentava: a apologia do idiota que triunfa sobre tudo e todos graças precisamente à sua congénita estupidez. Uma variante do ‘bom selvagem’, versão final do século XX.
    Quanto ao novo ano, há uma coisa de que precisaremos também: sorte. Muita sorte. Porque vivemos cada vez mais na era do ‘salve-se quem puder’. O estado-providência tornou-se num estado-ladrão.

    1. É verdade, Pedro, tens razão. Precisamos de muita sorte também. Espero que tenhamos pelo menos a sorte de mudar de governantes o mais depressa possível.

  2. Olá, Ana! Impressionante… não mudaste nada desde o ano passado :-):-)
    Sobre o último § também eu ontem tive ímpetos de escrever. Calei-me. Não por corporativismo (que é, aliás, coisa inexistente no meio), mas por puro cansaço. Este tipo de situações retiram toda a credibilidade ao que se supõe ser (dever ser) a boa prática nos serviços públicos.
    Por mim, defendo sem problemas que nem miserabilismo, nem abusos.
    – Será possível construir um meio termo. – Justo?
    São estes péssimos exemplos que estragam tudo.
    E – pior -, são estes que aparecem à luz do dia.

    1. Não mudei mesmo, Laura… nem tinha tempo! 😉
      Tal como tu, também sou contra o miserabilismo e acho-o até demagógico. Gostava de nivelar todos por cima, mas nos tempos que correm isso não é possível. Por isso mesmo, ao menos que não sejamos agredidos por tristes exemplos destes, ainda por cima vindos de quem deveria velar por aqueles a quem impõe mais sacrifícios.
      Um meio termo justo seria o ideal, claro. Será que o teremos algum dia?

  3. Vamos com ânimo fazer dias melhores. Tem de ficar para trás este conformismo de deixar que outros cuidem do que nos compete. Sempre me ensinaram que o caminho é para a frente – e 2011 é a frente de quem deixa 2010.

  4. Pelo que entendi, esse relatório do Gave é feito com base nos testes intermédios que são testes prepatórios para os Exames Nacionais. No Secundário esses testes só são feitos às disciplinas de Física e Química, Matemática A e Biologia e Geologia, portanto só os alunos de Ciências e Tecnologias é que os terão feito. Não sei até que ponto é que serão uma amostar dos alunos do Secundário também tendo em conta a especificidade das disciplinas. Contudo, é um facto que os alunos no Secundário têm dificuldades a nível da expressão escrita e uma falta de vocabulário assustadora. Há uma coisa que me faz pensar: se as crianças hoje em dia são tão espertalhonas, falam tão bem desde muito cedo e parecem-me desenrascadas, como é que chegam ao Secundário e têm de ser primeiro, acalmadas e segundo, ‘espevitadas’ para porem os neurónios a trabalhar?

    1. Boa questão, Leonor. Estás com toda a certeza mais habilitada do que eu a pronunciares-te sobre este tema, mas, infelizmente, tenho constatado por todo o lado esta dramática realidade: a dificuldade de expressão é enorme, os erros ortográficos (com ou sem acordo) são assustadores, a nossa língua é assassinada diariamente pelas novas gerações. Para já não falar da apatia geral, que me parece de tudo o mais grave.

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