Dos bairros sociais


José Gomes André,

A tese é conhecida, repetida e aceite como definitiva: os problemas na “Bela Vista” e bairros semelhantes devem-se à “injustiça social”, às questões da “integração” e outros chavões sociológicos. Não nego que esses são temas válidos. Mas é urgente reconhecer que são apenas parte do problema. Muitos destes distúrbios são causados por mera delinquência juvenil – um termo que vai desaparecendo no léxico político e sociológico devido à sua carga negativa. Mas, mesmo que isso seja politicamente incorrecto, urge aceitar que muitas das pessoas que atacam a polícia, incendeiam carros e destroem propriedade alheia não o fazem apenas ou sobretudo porque estão desempregadas, desiludidas com a sua vida ou porque a sua casa tem bolor.

Em vários casos – a maioria, atrevo-me a dizer – essas são as desculpas utilizadas por quem deseja efectivamente envolver-se em actos criminosos, porque é “cool”, porque é emocionante, porque os outros também o fazem, porque é a maneira de se sentirem adultos, porque é aquilo que a sua genética os impele a fazer. E para lidar com isto, temos que ajustar o nosso discurso, chamando as coisas pelos nomes, em vez de nos refugiarmos em neologismos que procuram desculpabilizar o que uma sociedade livre, ordenada e regrada não pode aceitar.

20 comentários em “Dos bairros sociais”

  1. O Bairro da Bela Vista tem cerca de 1.700 pessoas; por haver vinte ou mesmo cinquenta deliquentes, não torna todas as pessoas ‘personas non gratas’.
    As casas, com quarenta anos, edificadas para acolher quadros altos e médios de uma empresa, não devem ser uns cubículos mal-amanhados!
    O que falta é incutir nas pessoas o brio pelo local onde vivem e a câmara fazer obras e dar uma boa pintura para tornar a vista mais agradável.
    Muitas vezes, num local que nos parece desagradável, até há casas que têm um interior bem cuidado, arrumado e limpo.
    Em todos os lados há pessoas que gostam de cuidar do seu “reino”!
    Quanto à rapaziada, é pena ser proibido os pais darem-lhes uns bons “puxões de orelhas”!

  2. Concordo inteiramente. É o nosso complexo de culpa que nos leva a arranjar razões politicamente correctas para tudo. A juventude sempre foi indisciplinada e provocadora, e a juventude sem qualquer espécie de educação cívica e social facilmente canaliza esses atributos para o excesso, e mesmo para o crime. Haverá de tudo, claro, mas também acredito que em muitos casos o mal está na raiz e não na circunstância, por muito que nos custe reconhecer.

  3. OS BANDOS DOMINAM NOS BAIRROS SOCIAIS

    Os partidos de esquerda desculpam sistematicamente a criminalidade com o a pobreza e o desemprego. Parece terem receio de uma atitude mais enérgica na luta contra o crime. Será que ficaram traumatizados desde os tempos do fascismo? Esta postura está a desorientar o seu próprio eleitorado natural: os mais pobres que são também os mais desprotegidos face à criminalidade. Assim, os partidos de esquerda têm muita responsabilidade relativamente ao crescimento da extrema direita que tem um discurso bem mais sensato sobre o combate crime. Barack Obama – que se poderá considerar de esquerda – prometeu ser implacável no combate ao crime e defender ao mesmo tempo os mais desfavorecidos. Não me parece que isso seja incompatível.

    Todos os dias vemos fechar Empresas jogando muita gente no desemprego e na pobreza. Frequentemente, ficam muitos meses de salários por pagar, levando essas pessoas a uma situação de desespero. Se fosse esse o motivo dos desacatos que se têm visto nos bairros sociais, então eles aconteceriam preferencialmente nas manifestações junto aos antigos locais de trabalho, onde se aglomeram muitas pessoas na mesma situação.
    Não! o que se viu no Bairro da Bela Vista foi a homenagem a um criminoso abatido em flagrante pela polícia, numa atitude de desafio à própria polícia como que para testar a sua capacidade de reacção e para uma demonstração de força no bairro.

    Há 50 anos a pobreza em Portugal não era menor que a de hoje e a criminalidade violenta era praticamente inexistente. Se mais pobreza implicasse mais criminalidade, então não teria sido assim. As estatísticas nem reflectem a nossa realidade porque muitas vítimas já nem se queixam porque sabem que os criminosos são rapidamente postos em liberdade, mesmo quando são capturados e depois ficam sujeitos a represálias. Mela mesma razão, vítimas e testemunhas escondem a face quando são entrevistadas pela televisão.

    Já há algum tempo um Mayor de Nova Iorque decidiu que não se deveria menosprezar a pequena criminalidade nem os pequenos delitos, porque a sensação de impunidade se instala nos jovens delinquentes, estes vão facilmente progredindo para infracções cada vez mais graves até que a situação se torna incontrolável. Implementou então a célebre “Tolerância Zero” que, como se sabe, deu óptimos resultados, reduzindo num só ano a criminalidade em Nova Iorque em cerca de metade.

    A actual política portuguesa de manter na rua os criminosos, mesmo depois de várias reincidências, faz (como dizia o Mayor ) crescer a sensação de impunidade: o criminoso continua com as suas actividades criminais, vai subindo o nível dos seus delitos e serve de exemplo para que outros delinquentes mais jovens sigam o mesmo caminho.

    Mas existem muitas pessoas trabalhadoras e humildes nos bairros sociais que não levantam problemas e que só desejam que os deixem viver em paz, o que não acontece, porque estão reféns dos bandos de criminosos que dominam nesses bairros. Não se pode contar com essas pessoas para testemunharem qualquer acto criminoso a que assistam porque têm medo, medo de represálias porque não se sentem convenientemente protegidas pela polícia que também não pode estar sempre presente. Lembra as favelas brasileiras…só que no Brasil polícia e militares juntam esforços para combater o domínio dos bandos nas favelas e tem havido baixas parte a parte mas a polícia começa a chegar onde antes não se aventurava. Por cá, enquanto o crime cresce e toma posições de domínio, a polícia, apesar de vontade, nada pode fazer porque lhe falta a autoridade. Entretanto, Governo, Partidos, Bispos e outras organizações não compreendem o que se está a passar e fazem conjecturas absurdas sobre o motivo dos desacatos que é por demais evidente. Será que temos que cair no fundo?

    Ah! esquecia-me de uma coisa: espero que os indivíduos filmados a fazer “cavalinho” com as motos sejam punidos pelo menos por CONDUÇÃO PERIGOSA. É incorrecto multar o pacato cidadão apenas porque ultrapassou 50 Km/hora e deixar impunes estes exemplos exibicionistas…

  4. Os partidos de esquerda desculpam sistematicamente o crime a que chamo de “CRIME RANHOSO” com a desculpa da pobreza e do desemprego e com esta posição estão a desorientar o seu próprio eleitorado natural: os mais pobres que são também os mais desprotegidos face a qualquer criminalidade. Os partidos de esquerda têm por isso muita responsabilidade relativamente ao crescimento da extrema direita que tem um discurso bem mais sensato sobre o combate crime (sem especificar).

    Mas eu não me esqueço do outro tipo de crime: O “CRIME DE COLARINHO BRANCO”, exercido por pessoas muito influentes desta sociedade que surripiam milhões sem dar um tiro nem ter que fugir à polícia.

    Pois o crime tem que ser todo ele combatido com firmeza: quer o “CRIME RANHOSO”, quer o “CRIME DE COLARINHO BRANCO”. Mas constato que,infelizmente, este país está a afundar-se em ambos para mal dos portugueses.

    Zé da Burra o Alentejano

  5. É verdade que acabar com bairros de lata e atribuir habitações condignas aos seus moradores, atribuir-lhes subsídios, educação gratuita às crianças, equipamentos sociais entre outros benefícios não é a única forma de acabar com a exclusão social, mas convenhamos….Ajuda e muito!
    Ser de esquerda não é desculpabilizar o crime e converter um qualquer acontecimento em mais uma oportunidade de atacar às politicas direita, ao capitalismo selvagem etc. Há fenómenos que simplesmente existem e continuaram a existir, independentemente das medidas que os Governos possam aplicar para as combater. O tráfego de droga, crime organizado, prostituição e o vandalismo são exemplo disso mesmo.

    1. O que disse não invalida o eixo do meu argumento, julgo eu. Dar condições de igualdade e decência às pessoas é fundamental para superar estes problemas. Mas não é a única coisa necessária, só isso… 🙂

  6. O tema que aqui nos vem trazer, André, está na ordem do dia, e posto de uma forma muito clara e correcta pelo que o subscrevo na generalidade. Por imperativos profissionais, conheço bem, – não este Bairrro da Bela Vista, em particular, – mas outros bairros sociais semelhantes de grandes cidades e zonas suburbanas com o mesmo tipo de problemas sociais e económicos daquele. E muitas das famílias que neles vivem, – tenho conhecimento directo disso – têm uma parte muito substancial (quando não a totalidade) do seu rendimento sustentada pelas políticas de apoio social de rendimento mínimo de inserção e outras, ou seja, através do nosso dinheiro que, como contribuintes, entregamos em impostos ao Estado. É frequentíssimo que durante as manhãs quase não se veja ninguém neles, pois os (poucos) que trabalham já saíram e os (muitos) que não o fazem (ou não o querem fazer) dormem até ao meio dia e até mais tarde. Não é também invulgar verem-se estacionadas dentro desses bairros, algumas belíssimas máquinas equipadas a rigor com tudo o que há de bom e de melhor em matéria de acessórios para automóveis, nomeadamente, jantes, pneus, bancos especiais e potentíssimas aparelhagens de som, que a maior parte das pessoas que trabalham não pode sequer sonhar ter… De onde vem toda esta riqueza subterrânea? A resposta creio que todos a sabemos, bem como sabemos também, que não vem dos rendimentos de uma coisa que se não tem (ou que não se quer ter) – trabalho. É por isso que acho – e sempre achei -uma péssima ideia esta de dar subsídios a alguém a troco de coisa nenhuma, como quem dá uma esmola a um pobre. Isto não dignifica ninguém e não resolve absolutamente nada, como está à vista. Este tipo de acções só teria alguma lógica, a meu ver, numa perspectiva de troca entre o indivíduo que precisa temporáriamente de auxílio da sociedade e esta que o auxilia em troca de qualquer contrapartida desse mesmo indivíduo para com o colectivo. Despejar dinheiro para cima dos problemas, não só não os resolve como ainda os agrava. E quanto aos desacatos, o estado tem de ser firme, rápido e inflexível no combate a eles, sob pena de, a não se actuar assim, termos dentro de muito pouco tempo entre mãos, um problema de dimensões bem maiores como aqueles que há algum tempo varreram, primeiro a França e depois a Grécia, com as consequências desastrosas conhecidas.

    1. Muito obrigado pela sua excelente reflexão, Luís. Também me parece que este tema merece uma atenção e uma discussão urgentes. E de facto “despejar dinheiro para cima dos problemas” raramente os resolve…

  7. Lamento, mas não posso concordar. Esta é uma questão importante, de fácil utilização política e relativamente à qual ouvimos muitas vezes discursos demagógicos para ambos os lados, como aconteceu na última semana. Mas parece-me essencial distinguir dois planos que são frequentemente misturados com grande ligeireza.
    Por um lado, o do policiamento e da acção judicial e, por outro, o da prevenção. Por pervenção entendo todo o tipo de medidas sociais que promovam a igualdade de acesso a condições que contribuam para um crescimento digno. São dimensões claramente distintas, irredutíveis, e no entanto fundamentais, segundo creio, numa sociedade livre, ordenada e regrada. Ou não?

    1. De acordo, cara Lavínia! O plano da prevenção permite resolver muitos problemas e neste caso concreto é evidente que a miséria não ajuda. O cerne do meu argumento era que “só isso não basta”, pois muitos destes problemas estão associados a questões que não são estritamente sociais/económicas – como nos tentam fazer crer por todos os meios.

  8. Toda a gente vê os bairros sociais, como a pior coisa, mas se pensarem um bocado e se puserem nos lugares dessas pessoas, que não tem comida, não tem casa, estas pessoas sim tem que lutar pela vida, o que custar, eu compreendo estas pessoas porque eles fazem de tudo para sobreviver, para chegar a casa e darem comer aos seus familiares, e aqueles que nem tem ninguém, a vida parece horrível. Estas pessoas são iguais a nos, mas como MUITO mais dificuldades. Tem que dar tudo por tudo para viverem, tem que suportar muita coisa para viver, têm que sustentar ás vezes podem fazer coisas que nao devem, mas esteas pessoas so tentam faze-lo para ter alguma coisa, nao os podemos julgar sem saber a razao do seu ser. eles cresçeram ao pé de pessoas com dificuldades, desde pequenos sabem o que é sofrer tem que lutar pela vida, eles nao fazem por mal eles nem dão conta o porque sao assim, em ves de criticarem pensem nas razoes por serem assim

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