Duas metáforas para 2009


Teresa Ribeiro,

Começou logo na passagem do ano. Num bairro social problemático, o reveillon foi festejado não com foguetes, mas com disparos de armas automáticas. Em datas especiais como esta os gestos têm sempre uma carga simbólica: os tiros foram, pois, uma eloquente declaração de intenções e a expressão de como o futuro é acolhido pelos seus jovens autores.

Agora entre as notícias das páginas de crime sou surpreendida com o argumento de um filme americano. Cinco elementos da classe média, com emprego, família e uma rede insuspeita de relações sociais, nos intervalos da sua bocejante vida convencional enfiavam umas cabeleiras e assaltavam uns bancos. Numa fase em que não se fala de outra coisa senão da asfixia financeira da classe média esta história ganha contornos metafóricos.

Em menos de um mês dois distintos extractos da nossa sociedade ofereceram-nos cenas dignas de um filme dos irmãos Coen. A minha experiência de cinéfila diz-me que quando um filme começa com focos de violência dispersos e criativos é sinal de que algures a meio algo os precipitará para um ponto de confluência. Janeiro só vai a meio, o melhor é fornecer-me de pipocas e sentar-me na primeira fila.

 

(Imagem do filme Destruir Depois de Ler, dos Irmãos Coen)

9 comentários em “Duas metáforas para 2009”

  1. Só uma correcção: é Coen, não Cohen.

    Não me incomoda muito se a sociedade portuguesa está a ficar um filme dos Coen… incomoda-me mais que ela aparente ter saído de um filme do David Lynch.

  2. Espero que não tenha o hábito de roer as unhas, Teresa. É que o filme é de suspense, não se adivinha uma comédia romântica.

  3. Essa moda tem já vários anos no Bairro da Quinta da Fonte.

    Aliás, já era esta uma tradição de muitos dos seus actuais habitantes, ainda estes viviam no antigo e famoso Bairro da Torre, antes de serem realojados.

    Contaram-me antigos alunos que na noite de fim-de-ano, tinham que se deitar no chão das suas casas, pois as balas atravessavam as “paredes” das “casas”.

    E só depois da sinfonia tipo pipocas das balas a cair nos telhados de chapa de zinco terminar, é que se atreviam a levantar.

    Hoje, é tudo um pouco mais fino. Com efeito, 2 ou 3 dias antes da passagem de ano, os habitantes da zona têm alguma dificuldade em dormir, devido aos testes que são feitos com as novas armas que são adquiridas propositadamente para a ocasião.

    Mas agora não se deitam no chão, pois as paredes são um pouco mais fortes. Claro que a janela não é local frequentado.

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