A propósito de ter lido no texto da Dulce que hoje é o dia da biodiversidade, lembrei-me de Dürer, um dos meus pintores preferidos, cujo aniversário se celebrou ontem (aqui num famoso auto-retrato de 1500) e que foi um grande desenhador e pintor da natureza e da sua diversidade.
Dürer, era um grande apaixonado pela natureza em toda a sua diversidade e, se bem tenha viajado pela Itália para se inteirar das obras dos mestres renascentistas e tenha observado a recorrência deste tema nas suas telas, ninguém, à época, deu tanto destaque à natureza e à sua multiplicidade de formas como ele.
Foi um dos primeiros pintores a interessar-se em pintar animais e plantas por si mesmos. Naquele tempo era costume pintar-se estes temas como estudos que se vendiam a outros artistas -ou os próprios usavam- para incluir como pormenores em telas grandes, mas Dürer desenhou-os e pintou-os como obras acabadas. Atribui-se-lhe a frase, “É de facto verdade que a arte é omnipresente na natureza e o verdadeiro artista é aquele que consegue revelá-la”.
Toda a gente conhece obras suas: a Lebre, a Asa de Um Rolo Azul, O Grande Turfo de Ervas, o Rinoceronte (cujo desenho está ligado ao início da construção da calçada portuguesa) e muitos outros desenhos e pinturas onde ele mostra a sua paixão pela natureza, a sua atenção ao detalhe (ao contrário dos italianos que usavam então o sfumato, Dürer preferia os traços bem definidos – dizem os entendidos que talvez por ter começado a sua carreira como gravador). Mesmo em obras sobre outros temas, estou a lembrar-me do Massacre dos Dez Mil, a natureza não está pintada como um mero pano de fundo, não: está pintada como um suporte de vida independente, em grande pormenor, ao ponto de podermos ver num ramo, por exemplo, um pássaro a fazer o ninho.
Já me aconteceu viajar para ir ver uma exposição deste pintor ou até uma obra só. Como outros pintores, mais até que muitos, as obras de Dürer têm que ver-se ao vivo. As nuances nos traços, na cor e na textura e outros aspectos, porque Dürer não deixava nada ao acaso na sua obsessão pelos detalhes e seus significados, perdem-se nas reproduções, por muito boas que sejam.
Uma obra dele que gostava muito de ver ao vivo é o desenho do escaravelho, Lucanus cervus ou Vaca-Loura, como o conhecemos, popularmente.
É uma vaca-loura macho, como se vê pelo tamanho das mandíbulas. Tem a cabeça levantada e o corpo erguido, como que a preparar-se para a luta ou para a defesa de algum inimigo. A sombra por baixo dele dá movimento ao corpo e faz parecer que está a sair do papel.
Aqui não se vê mas quem já viu ao vivo este desenho fala da mudança de cor e de textura no corpo do bicho e da definição de todos os pelinhos das suas patas.
Dürer assinou a obra, com o seu monograma, AD (Albrecht Dürer), como sempre fazia, mas acrescentou aqui as garras da vaca-loura às pontas do ‘A’, o que na opinião de um crítico de arte sugere que ele talvez se visse como um insecto, antecipando Kafka ou que talvez se indentificasse com o espírito lutador da vaca-loura, tendo tido muitos inimigos. Será? É verdade que não era comum, no século XVI, dar-se atenção a insectos, pois na obra do Criador que era a natureza, estavam no fundo da hierarquia das criaturas de Deus. Esse comentador acrescenta que a letra, ‘D’ que se forma com a sombra da pata mais próxima da assinatura e data não são uma casualidade, pois Dürer não deixava nada ao acaso, mas que é uma afirmação filosófica de Dürer se ver como um homem em consonância com a sua sombra – o seu lado sombrio. Isso não sei, mas parece-me um bom pretexto para fazer uma viagem a Los Angeles, na Califórnia, ao Museu Getty, onde o desenho se encontra.
também publicado no blog azul

De que forma é que o rinoceronte de Duerer está ligado ao início da construção da calçada portuguesa?
Indirectamente: https://ipbeatrizja.blogspot.com/2021/0 5/o-que-tem-o-rinoceronte-de-durer-ver.h tml
Calcetar as ruas e Lisboa foi colocar milhares de seixos de praia nas ruas, da actual baixa lisboeta. Com as obras da colocação dos carris dos eléctricos ainda se pode ver essa calçada.
Mas, verdadeiramente, a calçada portuguesa é a que vemos hoje nos passeios com pequenas pedras de calcário branco e basalto negro, que pela primeira vez foi executado por presidiários do Castelo de S. Jorge, em 1842.
Está bem, mas foi o início da iniciativa de calcetar as ruas. Depois evoluiu-se para melhor. enfim, mais ou menos, que o calcário sem granito entremeado não é amigo das mulheres.
Pois, ou saltos altos ou vestidos com lama.
o calcário sem granito entremeado não é amigo das mulheres
Nem dos homens. Sem granito entremeado causa escorregadelas sem fim. Mesmo seco, molhado ainda é muito pior.
sim.
Pois, aquilo que eu já li é que a calçada portuguesa (que, aliás, é sobretudo lisboeta – no Norte do país praticamente não há) teve início no tempo do rei D. Luís.
Ela corresponde a um grande esforço, pois o calcário não é um recurso local, tem que ser trazido de bastante longe (atualmente da serra de Aire, não sei se anteriormente seria trazido da Arrábida), o que custa considerável esforço e dispêndio energético.
Isso foi numa fase posterior e está a falar da calçada como a conhecemos hoje. Há ruas calcetadas desde o século XV.
está a falar da calçada como a conhecemos hoje
A Beatriz no texto do seu post falou explicitamente de “calçada portuguesa” e não a outro tipo de calçada qualquer. É portanto a essa que me refiro.
A calçada que temos do século XV também é portuguesa.
Você não tem mais nada que fazer na vida que procurar letras ou palavras fora do sítio? Ou é por eu ser professora? Já percebi que detesta professoras porque desde o primeiro dia que aqui cheguei me acusa de ser professora como se fosse um crime… e fala disso com raiva? Tem falta de alguma coisa? Teve um professora que não gostou de si? Namorou com uma professora que o pôs a andar? Alguma deu uma nota má ao filho? Há aí qualquer coisa…
A calçada que temos do século XV também é portuguesa.
Temos calçada do século 15? Onde?
(Eu conheço calçda até talvez mais antiga, medieval, por exemplo na Rua Direita em Castelo de Vide. Mas não é calçada portuguesa.)
Já percebi que detesta professoras
É um facto que não é classe profissional pela qual eu tenha grande consideração. Mas não tenciono discutir isso aqui, não é o objeto deste post.
desde o primeiro dia que aqui cheguei me acusa de ser professora
Jamais a acusei de tal coisa. Só uma vez lhe perguntei num comentário se era professora de filosofia, e Você respondeu que sim. Uma pergunta, uma resposta; acusação, nenhuma.
Onde? Eu sou professora do secundário, de adolescentes, não de adultos. Vá procurar.
E não, não foi a única vez.
Eu sou professora do secundário, de adolescentes, não de adultos.
Claro, quando lhe perguntei se era professora de filosofia, eu estava a querer significar professora do liceu (10º e 11º anos, creio). Não professora universitária. Estamos portanto perfeitamente entendidos.
pois…
Essa ideia de ir de Lisboa a Los Angeles para ver um desenho parece-me completamente disparatada, ainda mais nos tempos que correm, de carestia e boicote ao petróleo.
Então, serei uma pessoa disparatada com a arte.
Eu diria pretensiosa com arte

Estou impaciente para ler o próximo postal.
Ok…
Eu diria apaixonada por arte.
E está tudo dito.
“Deixa, os incomodados que se incomodem”
(Rita Lee)
Lançar perfumes ??

Também é arte
Jardins da Babilónia.
Arte, sem dúvida .,,
Com essa é que me tramou.

Fiquei sem arte para lhe responder.
E o ritual de ir e vir, como as marés? Também é um disparate da Natureza?
Pois, aliás, não é melhor ir a LA ver o Durer do que para ver actores famosos?
O Rhinocerus é um dos desenhos mais importantes da história da disciplina do Desenho, uma vez que está na encruzilhada do visto com o não-visto (do modelo e da ausência do modelo) do natural e do imaginado — e recorre a uma solução de “compósito” que é um pensamento gráfico bastante original no quadro da Alta Renascença (precede consideravelmente os maneirismos de Arcimboldo): um animal desconhecido parece o resultado de partes de outros animais conhecidos.
Está mais próximo do “pensamento” porque terá decorrido de descrições e textos mais ou menos imprecisos sobre o animal.
Obrigada por esse apontamento. Gostei de ler