Em dia de livro


Ivone Mendes da Silva,

Não deve ter sido a melhor ideia do mundo ler o Guerra e Paz aos 13 anos mal feitos. Os Guerra ainda não tinham chegado e a tradução devia ser péssima. A minha adolescente cabeça também, claro. Aprendi a ler muito cedo e, por isso, cheguei rapidamente aos livros. Comecei pelas aventuras exóticas e pelos policiais da Agatha Christie e um dia, ao abrir o Mar Morto de Jorge Amado, li: Pastoreávamos a noite como se ela fosse um bando de irrequietas virgens na idade do  homem. Pensei que devia haver vida para além do crime e peguei nos primeiros volumes que estavam à mão na estante. Era o Guerra Paz ou, pelo menos, coisa que se assemelhava. Não parei deste então. Fui andando pela estante de casa e por outras estantes e li tudo em que consegui pôr os olhos. Quando cheguei à faculdade, tinha no currículo de leitora, para além dos portugueses, os franceses, os russos, os ingleses do séc. XIX, os americanos. Continuei, compulsiva, insistente, fui descobrindo autores e redescobrindo outros. Quando me perguntam como se leva um jovem a gostar de ler, respondo sempre que não sei. Gostar de ler é uma graça que se recebe. A minha leitura do Guerra e Paz não foi, decerto, a melhor leitura, tanto que tive de voltar ao texto muitos anos depois. Mas foi lá que aprendi que os livros são a pátria comum dos homens. Nem sempre de leite e mel, mas de inesgotáveis territórios.

11 comentários em “Em dia de livro”

  1. Eu aprendi a ler com autores que hoje quase todos consideram foram de moda – de Torga a Jack London. E com muitos outros – de Adolfo Simões Müller a Mark Twain. E, sim, também, com ‘a gata’ Christie. E o Maurice Leblanc. E as aventuras de capa-e-espada: Dumas, Sabatini. Walter Scott. E o Verne, claro. E alguma poesia, muita poesia: o Gedeão, o Sidónio Muralha, o Zé Gomes [Ferreira]. E os ‘Esteiros’. Romeu Correia e os seus ‘Bonecos de Luz’. Erico Veríssimo com a sua ‘Clarissa’ e sagas subsequentes. Alguns autores de quem ninguém hoje já fala. E a quem devo muito. Serão meus para sempre.

  2. Fiz um percurso semelhante, Ivone…
    Também comecei a ler muito cedo (a ler, não!…. a devorar!)….. em pequena, os “Tio Patinhas”, “Os Cinco”, os super-heróis da B.D……. o “Cavaleiro Andante”…… até os livrinhos da colecção “6 balas” marchavam!
    O cheiro dos livros, os sons e as vozes que se soltavam deles quando lhes entrava pelas páginas, povoavam-me de mundos, de gentes…
    Aos 13 anos li “O Conde de Monte Cristo” e apaixonei-me pelo Edmond Dantès…… foi o meu primeiro “namorado”… 🙂
    Depois…… fui de livro em livro, de autor em autor, a alguns tenho-os como íntimos porque dialogam comigo…
    As minhas filhas cresceram a brincar com livros….. dei-lhes a mão e fui com elas por eles adentro….. e fizeram-se adultas sempre de livros na mão… 🙂

    1. Isto é que é sintonia livresca! 🙂 Já a minha namorada foi a Joaninha «do» Garret!
      Aposto que ainda hoje não gosta de automóveis Mercedes! 😀 😉

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