José Saramago trata as FARC pelo nome que merecem: são terroristas. Uma clara diferença em relação ao Avante!, que continua a dedicar ao bando armado responsável pela morte de vários deputados colombianos o respeitável cognome de guerrilheiros. É muito mais que uma diferença semântica: há aqui uma profunda diferença de perspectiva entre o escritor que milita no PCP e o órgão central do partido, dirigido pela ala mais radical e extremista. O Avante! intitula o mais recente dos numerosos artigos que tem dedicado às FARC desta forma: "Acordo humanitário". Aludindo à propalada "troca de prisioneiros" entre o bando armado e o Governo da Colômbia. Como é óbvio, o nobre adjectivo humanitário visa qualificar as FARC, branqueando todos os crimes cometidos pela organização terrorista. Saramago, numa evidente "dissidência" com as posições oficiais do PCP nesta matéria, escreve assim no seu blogue: "Sigifredo López é o nome de um deputado colombiano sequestrado durante sete anos pelas FARC e que acaba de recuperar a liberdade graças à coragem e à persistência, entre outros, da senadora Piedad Córdoba, principal dirigente do movimento social e humanitário ‘Colombianos pela paz’. Graças a uma circunstância que parecia impossível dar-se, Sigifredo López, que fazia parte de um grupo de onze deputados sequestrados, dez dos quais foram, não há muito tempo, assassinados pela organização terrorista, pôde escapar ao massacre. Agora está livre."
Livre das garras das FARC. A ala mais ortodoxa do PCP acaba de engolir um elefante do tamanho do Nobel da Literatura.


Eu que até nem aprecio muito Saramago e só o consigo ler em tradução inglesa não poderia concordar mais! As FARC são uma entidade terrorista e ponto final.
Sem dúvida nenhuma.
Também há tempos Saramago condenou Fidel por causa de uns fuzilamentos de uns pobres navegantes e depois (e ainda Fidel não estava doentinho, coitadinho) foi lá dar-lhe abraços fraternos.
Saramago nem sequer atingiu a ex-camaradagem, que tem por exemplo em Vital Moreira um expoente luminoso, tal como o Sendero.
A viagem do elefante foi longa e demorada, mas parece que proveitosa. Começo a ter alguma admiração pelo Saramago/homem, para além da que já tinha pelo Saramago/escritor. Estar publicamente contra o partido não é fácil, sobretudo quando esse partido é o PCP. Mas também não me parece que o partido venha a dispensar uma tão “nobel” figura, só por causa disto…
Claro que não, Ana. É como no livro do Orwell: há uns mais iguais que outros.
Não nutro grande simpatia pelo Saramago/Nobel, mas admiro-o muito como escritor. Saúdo o seu discernimento em realção às FARC, mas não posso deixar de lamentar a sua postura em tempos passados ( quando foi director do DN, port exemplo) .
As FARC não lavam mais branco, meu caro Pedro. Mas fica-lhe bem esta espécie de “mea culpa”
Também acho, Carlos.
Caro Pedro Correia:
Direi apenas que neste caso Saramago finalmente viu a evidência ou então fugiu-lhe a boca para a verdade.
Será que se está a afastar do PCP? Hum, não acredito mas ainda vai a tempo. E já agora falava como escritor ou como militante?
Carlos Dias Ferreira
A condição de militante nele é permanente, Carlos. Saramago nunca é ‘só’ escritor.
Como pessoa (conheci-o muito de perto e bem), Saramago não presta.
Como jornalista, foi medíocre e ultra-sectário.
Como escritor, não sei. Sempre me recusei e recuso a ler-lhe os livros.
Ante este quadro, confrange-me que haja tanta gente enganada a respeito do indivíduo.
Havia uma anedota velhinha sobre um elefante roxo, como o da capa do livro. Longe ainda do tempo da moda actual e tristissima…